Victor Hugo - Nossa Senhora de Paris pdf

 Victor Hugo - Nossa Senhora de Paris pdf 




Esta obra, uma das mais famosas de Victor Hugo, várias vezes adaptada ao cinema, narra a história de Esmeralda, a bela e sensual cigana, de Quasimodo, o monstruoso corcunda, sineiro da Catedral e de Cláudio Frollo, o padre que o criou desde tenra idade. O destino destas três personagens entrelaça-se quando o padre se enfeitiça pela deslumbrante bailarina.


Mas nesta obra podemos encontrar, acima de tudo, uma interessante análise aos costumes e à sociedade de Paris da altura, abrangendo todas as classes sociais.


Victor Hugo dá-nos também a conhecer a história da Catedral de Notre-Dame e faz uma crítica mordaz às várias transformações operadas na Catedral e na própria cidade.



Nossa Senhora de Paris pdf 

A grande sala
Fazem hoje hoje trezentos e quarenta e oito anos, seis meses e
dezanove dias que os parisienses despertaram ao repique de todos
os sinos badalando no tríplice recinto da Cité, da Université e da
Ville. [1]
No entanto, o dia 6 de janeiro de 1482 não figurava nos livros
de história. Nada havia de notável no acontecimento que assim
agitava, logo de manhã, os sinos e os burgueses de Paris. Nem se
tratava de um torneio de picardos ou de borguinhões, [2] nem da
condução processional de uma relíquia, nem de uma
insubordinação de estudantes na cidade de Laas, nem de uma
entrada do nosso muito temido senhor o senhor rei, nem mesmo
dum suplício mirabolante de ladrões e ladras na Justiça de Paris.
Não era, tão pouco, o aparecimento, tão frequente no século quinze,
de qualquer embaixada, agaloada e empenachada. Ainda não eram
decorridos dois dias que a última cavalhada deste género, a dos
embaixadores flamengos incumbidos de tratar o casamento entre o
delfim [3] e Margarida de Flandres, fizera a sua entrada em Paris,
com grande pesar do senhor cardeal de Bourbon, que, para ser
agradável ao rei, se constrangeu a receber amavelmente toda essa
turba rústica de burgomestres [4] flamengos, obsequiando-os, no
seu palácio de Bourbon, com representações de autos, comédias e
farsas, enquanto a chuva caindo a cântaros lhe inundava à porta os
magníficos tapetes.
Nesse dia, a 6 de Janeiro, o que agitava de emoção o povo de
Paris, como diz Jehan de Troyes, era a dupla solenidade dos Reis e
da festa dos Loucos, celebradas ao mesmo tempo, há longos anos
já.
Nesse dia queimar-se-iam fogueiras na Greve, haveria
plantação de maio [5] na capela de Braque e mistério no Palácio da
Justiça. De véspera, os alabardeiros do sr. preboste, trajando belas
fardas de camelão violeta com cruzes brancas no peito, haviam
lançado o pregão pelas encruzilhadas, ao som de trompas.
Logo pela manhã, tudo fechado ainda, casas e lojas, a multidão
de burgueses e burguesas vindos de todos os pontos da cidade, ia a
caminho dos três lugares designados. A escolha estava feita; uns
optavam pelas fogueiras, outros pelo mastro, outros pelo mistério.
Diga-se sempre em honra do velho bom-senso dos basbaques de
Paris, que a maior parte dessa multidão se dirigia para as fogueiras,
diversão mais própria da estação, ou para o mistério, que devia ser
representado na grande sala do Palácio, bem abrigada e fechada; e
que os curiosos eram todos concordes em deixar o pobre mastro
temporão tiritar, sozinho, sob os rigores do céu de janeiro, no
cemitério da capela de Braque.
O povo concorria principalmente às avenidas do Palácio da
Justiça, porque era sabido que os embaixadores flamengos,
chegados na ante-véspera, tencionavam assistir à representação do
mistério e à eleição do papa dos Loucos, que também devia
verificar-se na grande sala.
Na ocasião, não era coisa fácil entrar na grande sala, que no
entanto passava ao tempo por ser o maior recinto coberto de toda a
terra. A praça do Palácio, apinhada de gente, oferecia aos curiosos
das janelas o aspeto de um oceano, no qual cinco ou seis ruas,
como outras tantas embocaduras de rios, iam despejar a cada
instante ondas e ondas de cabeças. As ondas dessa multidão,
crescendo incessantemente, iam esbarrar de encontro às esquinas
das casas que avançavam aqui e além, como outros tantos
promontórios, na bacia irregular da praça. Ao centro da alta fachada
gótica do Palácio, a grande escadaria, por onde subia e descia
ininterruptamente uma dupla corrente, que depois de quebrar-se no
peristilo intermediário, se expandia em vagas enormes pelas duas
rampas laterais; a grande escadaria, dizia eu, jorrava
incessantemente na praça como uma cascata num lago. Os gritos,
as risadas, o tripúdio desses mil pés faziam um grande ruído e um
grande clamor. De tempos a tempos, esse clamor e esse ruído
redobravam. A corrente que impelia toda essa multidão no sentido
da grande escadaria, retrocedia, turvava-se, remoinhava. Era o
arremessão dum archeiro, ou o cavalo dum sargento no prebostado
que espinoteava para restabelecer a ordem; tradição admirável que
a jurisdição dos prebostes legou à dos condestáveis, a dos
condestáveis à dos marechais, e a dos marechais à nossa
gendarmeria de Paris.
Às portas, às janelas, nas trapeiras, pelos telhados formigavam
milhares de figuras passadas de burgueses, repousadas e
honestas, vendo o palácio, vendo a turba, inteiramente satisfeitos;
porque há muita gente em Paris que se contenta com o espetáculo
dos espetadores e para nós já não é pouco interessante uma
muralha, por detrás da qual se está passando alguma coisa.
Se nos fosse dado a nós outros, homens de 1830, confundirmonos
pelo pensamento com esses parisienses do século quinze, e
entrar com eles aos safanões, acotovelados, repelidos, nessa
enorme sala do Palácio, tão acanhada a 6 de janeiro de 1482, o
espetáculo nem seria destituído de interesse, nem de atrativo, e
poderíamos observar em volta de nós coisas tão velhas que nos
pareceriam absolutamente novas.
Se o leitor não se opõe, tentaremos reconstituir a impressão
que connosco experimentaria, ao transpor o limiar da grande sala,
quando se visse em contacto com essa turbamulta de gibão e cota
de malha.
É antes de mais nada, um ensurdecimento e um
deslumbramento. Por sobre as nossas cabeças, uma dupla abóbada
em ogiva, revestida de talha, pintada de azul, e ornamentada com
flores de lis douradas; a nossos pés, um pavimento lajeado
alternativamente a mármore branco e preto. A poucos passos de
nós, um enorme pilar, depois outro, em seguida outro; ao todo seis
pilares, ao comprimento da sala, servindo de apoio às raízes da
dupla abóbada. Em volta dos quatro primeiros pilares, barracas de
mercadores, reluzentes de vidrarias, ouropéis e lantejoulas; em volta
dos três últimos, bancos de carvalho, gastos e lustrosos pelo roçar
dos calções dos litigantes, e das togas dos procuradores. Em torno
da sala, a todo o comprimento da parede elevada, entre as portas,
entre as janelas, entre os pilares, a interminável fileira de estátuas
de todos os reis de França desde Pharamond; os reis indolentes, de
braços pendidos e olhos no chão; os reis destemidos e
batalhadores, a cabeça e as mãos valorosamente erguidas para o
céu. Depois, nas altas janelas ogivais, vitrais multicores; nas vastas
aberturas da sala, riquíssimas portadas, finamente esculpidas; e
tudo isto, abóbadas, pilares, paredes, guarnições de umbrais,
artesões, portas, estátuas, revestidos de alto a baixo de uma
esplêndida iluminação azul e ouro, que já um pouco empanada na
época em que a vemos, desaparecera quase completamente sob a
poeira e as teias de aranha, no ano da graça de 1549, então que du
Breul ainda a admirava por tradição.
Imaginem agora essa enorme sala oblonga, iluminada pela
claridade baça de um dia de Janeiro, invadida por uma multidão
variegada e ruidosa lançada ao longo das paredes e redemoinhando
em torno dos pilares, e ter-se-á uma ideia confusa do aspeto geral
do quadro.
Estavam ocupadas as duas extremidades desse gigantesco
paralelogramo, uma pela famosa mesa de mármore, tão comprida e
tão larga, e tão grossa que dizem os velhos alfarrábios, num estilo
que abriria o apetite a Gargântua, nunca se viu no mundo
semelhante talhada de mármore; a outra, pela capela em que Luís
XI se fez esculpir prosternado diante da Virgem e para onde
mandou transportar, deixando dois ninhos vazios na Galeria das
estátuas reais, o Carlos Magno e S. Luís, dois santos que supunha
muito acreditados como reis de França, na corte do Céu. Esta
capela, ainda nova, edificada havia apenas seis anos, no gosto
encantador de arquitetura delicada, de escultura maravilhosa, de
fina e profunda cinzeladura, que carateriza entre nós a última fase
da era gótica e se perpetua até meados do século dezasseis nas
fantasias da Renascença. A pequenina rosácea rendilhada, aberta
acima do pórtico, constituía uma verdadeira obra-prima de
tenuidade a mais graciosa; dir-se-ia uma estrela de rendas.
Ao meio da sala, erigira-se para os enviados flamengos e mais
pessoas importantes convidadas para a representação do mistério,
um estrado de brocado de ouro, junto à parede, onde, aproveitandose
uma janela do corredor da câmara dourada, se abrira uma
entrada particular.
Segundo o uso, o mistério devia ser representado sobre a
mesa, que para esse fim fora preparada logo de manhã; sobre a
riquíssima pedra de mármore, toda riscada pelos sapatos dos
rábulas, assentava uma armação de madeira bastante alta. A parte
superior, ao alcance de todas as vistas, devia servir de teatro; o
interior, dissimulado por meio de tapeçarias, era o camarim comum
das personagens da peça. Uma escada, colocada ingenuamente à
vista de todos fora do arcabouço do teatro, estabelecia a
comunicação entre a cena e os camarins e pelos degraus íngremes
se subia ou descia, conforme se saía ou entrava. Não havia
personagem por mais imprevista, nem peripécia, nem lance teatral
que não tivesse de subir essa escada. Inocente e venerável infância
da arte e do maquinismo!
Aos quatro cantos da mesa de mármore, de pé, quatro
sargentos do bailio do Palácio, guardas obrigados em todos os
prazeres do povo, em dias de festa como em dias de execução.
A peça devia começar quando o relógio grande do Palácio
desse a última badalada do meio-dia.
Ora, sucede que a multidão esperava desde pela manhã, e não
eram poucos os que, já de madrugada, batiam o queixo, tiritantes,
em frente do Palácio; alguns havia mesmo que afirmavam ter
passado a noite, atravessados à porta, para serem os primeiros a
entrar. A turba engrossava a cada momento, e, como a água
galgando o nível, começava a trepar pelas paredes, a avolumar os
pilares, a transbordar sobre os entablamentos, sobre as cornijas,
sobre os parapeitos das janelas, sobre as saliências da arquitetura,
sobre todos os relevos da escultura. Assim, o mal estar, a
impaciência, o enfado, a liberdade de um dia de cinismo, e de folia,
as questiúnculas que a cada passo se travavam por futilidades, por
uma cotovelada mais brusca, um sapato mais ferrado; a longa
expectação fatigante, contribuíram para que muito antes da hora a
que os embaixadores deviam chegar, se manifestasse já
pronunciadamente desagradável e hostil o clamor da populaça
encurralada, entalada, calcada, asfixiada. Não se ouviam senão
queixas e imprecações contra flamengos, contra o preboste dos
mercadores, contra o cardeal do Bourbon, contra o bailio do Palácio,
contra Mme. Margarida de Áustria, contra os bastões dos bedéis,
contra o frio, contra o calor, contra o mau tempo, contra o bispo de
Paris, contra o papa dos Loucos, contra os pilares, contra as
estátuas, ora uma porta fechada, ora uma porta aberta: com grande
gáudio da rapaziada das escolas e dos lacaios disseminados no
ajuntamento, que punham no descontentamento da turba uma nota
impertinente e maliciosa, estimulando, por assim dizer, a picadelas
de alfinete, o mau humor geral. Entre outros, havia um grupo de
demonicos, que, tendo quebrado os vidros de uma janela, se foram
sentar, muito atrevidos, na cornija do entablamento, de onde
observavam alternativamente a multidão da praça, chasqueando de
ambas. As truanices gaiatas, as gargalhadas ruidosas, as graçolas
chocarreiras, que trocavam entre si os estudantes, dum para o outro
lado da sala, faziam compreender facilmente que não participavam
do enfado e do cansaço do resto da assistência, e que, pelo
contrário, iam engenhosamente e por mero prazer, tornando
interessante o espetáculo, para com mais paciência esperar o outro.
— À fé! És tu, Joannes Frollo de Molendino? — gritava um
deles para uma espécie de demónio, louro, com uma carinha bonita
e esperta, suspenso dos acantos de um capitel — Bom nome te
puseram de Jehan du Moulin, porque esses braços e essas pernas
têm jeitos de varais de moinho. Há quanto tempo estás ai?

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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