Varios Autores - Necropole - Historias De Bruxaria pdf

 Varios Autores - Necropole - Historias De Bruxaria pdf 




“Necrópole – histórias de bruxaria” é o terceiro volume de uma coleção dedicada à nova nata do suspense e do terror. A cada livro, um tema diferente, sempre com escritores brasileiros, que apresentam histórias distintas, mas o mesmo cenário, a Necrópole, metrópole que noite e dia digere nossas almas, gerando em seu ventre cadáveres célebres e assassinos anônimos. Em cada uma das seis histórias que integram este volume, o impossível rompe as fronteiras da percepção comum e traz o terror fantástico para o palpável mundo do cotidiano. A bruxaria coloca a sanidade em xeque. De olhos abertos ou de olhos fechados, não há mais como sentir-se seguro nessa Necrópole.

Necropole - Historias De Bruxaria pdf 

O Sagrado Profano
SIGA EM FRENTE. Sei que não consegue ver nada nesta escuridão,
mas eu vou te guiando. Isso eu faço bem. Tem outras coisas que
faço melhor, mas elas não importam agora. Apóie as mãos nas
paredes, é mais fácil desse modo. Não se preocupe com o que vai
encontrar. Não lenha medo. Eu te protejo. Também faço isso bem.
Você já conhece este prédio velho. Sei que já levou muitas partes
dele para o seu barraco. Então não preciso ajudar em cada passo.
Vá pelo corredor até o final. Não pare, siga em frente. Eu realmente
não quero machucar você. Mas eu posso machucar você se eu
quiser. Vá em frente. Isso, muito bem. Quero apenas que veja algo.
Não, não é nada bom. Mas também não é de todo ruim. Entre na
sala à sua frente. Não se preocupe, a porta foi roubada faz tempo.
No fundo existe um quarto, à direita. Vá até ele. Agora pare.
Ajoelhe-se e estire os braços. Não é preciso ter medo de nada, já
disse. Sim, é um corpo. Sim, isso é sangue. Pare de tremer. Agora
você precisa manter a mão firme ou não vai conseguir acender seus
fósforos. Pegue mais um. Vamos, tente com outro. Muito bom.
Aproxime a luz do rosto à sua frente. Olhe bem. Já basta, pode ir.
Eu só precisava que você soubesse onde o corpo estava. E da
certeza de que o reconheceria. Adeus.
Três mulheres estavam sentadas em cadeiras. Uma quarta
estendia um copo com água para o velho Enésio. Ele o apanhou
com as mãos trêmulas e esvaziou seu conteúdo de uma só vez.
— Os rapazes foram procurar o corpo de Lúcia no prédio que
você indicou. — Sueli apanhou o copo das mãos do velho antes que
ele caísse. — Você tem certeza de que ela estava morta?
Enésio apenas ergueu a palma da mão para elas. Estava suja
de sangue.
— Minha fia, eu sei o que é uma morta. E aquela tá lá, bem
mortinha. E foi feio que só vendo. — Ele baixou e cruzou os braços,
enfiando as mãos sob as axilas, olhando para o chão. — E tem
coisa bulindo ali. Coisa ruim. Entidade danada de braba. E é o que
sei.
O ambiente ficou tenso. As mulheres se entreolharam e
sabiam que não adiantaria perguntar mais nada ao pobre homem.
Ele não parecia estar escondendo nada. Dispensaram-no e ele as
deixou sozinhas.
Lucimara, a mãe-de-santo mais antiga ali, foi a primeira a
sacudir sua obesidade mórbida da cadeira. Ex-prostituta, ainda se
vestia e maquilava como tal. Acreditava ser a herdeira natural do
barracão por ser a primeira delas a freqüentar o lugar. Morava há
poucos metros de distância desde a época em que circulava pelas
ruas próximas, oferecendo sua carne quente em troca do dinheiro
frio.
— A traficante favelada já foi tarde — falou, expressando o
que todas ali pensavam. — Lúcia só vinha aqui pra poder fazer seu
tráfico. Todas sabem disso. Nem sei por que Mãe Gina gostava
tanto daquela biscateira. — E encarava Ivone, que fazia cara de
desdém enquanto ela falava. — Ela tinha o hábito de escolher mal
algumas afilhadas.
— Escute aqui, piranha velha. Se Mãe Gina escolheu mal
alguma companhia, você está bem no topo da lista.
Ivone havia se erguido lentamente, com os punhos cerrados,
Seus 56 anos e o fato de ser mãe de santo desde jovem impunham
algum respeito. Sua altura e compleição robusta também ajudavam.
Era famosa por resolver seus problemas particulares usando a força
bruta. Já havia surrado homens bem maiores do que ela. As
mulheres geralmente não se atreviam a enfrentá-la. Os cabelos
loiros oxigenados contrastavam com a pele tostada de sol, o que
dava uma aparência saudável à mulher. E o contraste se
complementava pelas roupas afro que usava, junto com dezenas de
patuás e amuletos coloridos que ostentava nos braços e em torno
do pescoço. Era uma visão a ser respeitada. Temida. E, como se
não bastasse o porte físico, ainda corriam boatos de que seu corpo
havia sido fechado contra a magia.
— Se quiser discutir de verdade, sugiro que discuta sobre o
que realmente interessa neste momento: o que matou Lúcia —
disse, encarando Lucimara, desafiadora.
— Essa não é a coisa mais importante. Sabemos que é uma
entidade forte. Um egum, provavelmente. A verdadeira pergunta é
outra — disse Sueli, com sua voz monótona.
Todas fitaram a pequena chinesa. Ela era a filha de criação de
Mãe Gina, morava ali desde pequena. Havia sido encontrada
vagando em frente ao terreiro, abandonada pelos pais que
certamente haviam sido deportados do país, ou algo pior. Mãe Gina
cuidara dela como se fosse uma filha e a iniciara nos costumes do
Candomblé. Nunca antes uma chinesa havia chegado a se tornar
mãe-de-santo. Calada e introspectiva, dificilmente se envolvia em
discussões. E parecia sempre saber de tudo, fato que ajudou a
concentrar toda a atenção em sua pergunta.
— E qual é a pergunta que importa? — rebateu Ivone. Nhá
Neca pigarreou alto, intrometendo-se pela primeira vez na
discussão. A atenção rapidamente foi desviada para a velha
feiticeira. Seus olhos estavam estreitados entre suas rugas. Ela
passava uma das mãos em seus ralos cabeloS brancos, enquanto a
outra segurava o queixo sob a boca desdentada. A satanista por fim
encarou cada uma ameaçadoramente e também se ergueu. Sua
aparência, de uma maneira geral, remetia a coisas ruins. E era
exatamente isso o que ela era.
— O que importa não é o quê, mas quem. Uma de vocês
ordenou ao egum que matasse a vadia. Pouco me importo com ela.
Merecia morrer de qualquer forma. O que me faz ficar pensativa é
se, nessa luta para controlar sozinha este lugar, uma de vocês vai
tentar mandar algo atrás de mim.
Todas absorveram as palavras da velha e por alguns instantes
ficaram se encarando. Cada uma analisava qual delas teria poder
para dominar uma força dessas de maneira tão brutal e completa.
— E quem garante que não foram você e seus demônios que
fizeram isso? — falou Lucimara.
A velha deu três passos até chegar bem próxima da exprostituta,
encarou-a no fundo dos olhos e, sem nenhum aviso,
gargalhou. Uma risada alta e pavorosa, que fez com que Lucimara
instintivamente recuasse um passo. Depois, mais uma vez agindo
com desinteresse, deu as costas a ela e se encaminhou para a
porta.
— Você não vai saber se fui eu, Lucimara — falou, apenas
virando levemente a cabeça para lançar-lhe um olhar de ameaça. —
Se eu resolvesse lhe mostrar até que ponto controlo meus
demônios, seria a última coisa que você veria.
Depois que a velha saiu nada mais foi dito. Apenas a
desconfiança pairava no ar. Uma a uma, as outras partiram. Apenas
Sueli permaneceu ali, solitária, remoendo os acontecimentos.
O barracão se localizava bem na zona central da cidade. Fora
construído antes dos grandes edifícios elevarem o valor dos imóveis
ao topo. Prédios comerciais surgiram de todos os lados, o que
apenas aumentou a força do local. Ele se tornou mais visível a
todos que trabalhavam ali. Isso auxiliou em sua fama, bem como as
lendas urbanas que eram criadas a respeito do fato de um terreno
daquele tamanho ainda resistir às ofertas das grandes construtoras.
Não havia nenhuma outra construção antiga naquele trecho da
cidade, com exceção daquela.
A última a sair dele foi Lucimara. Quando Sueli bateu a porta
às costas dela, um enorme negro surgiu de uma das sombras do
outro lado da rua. Ele se aproximou lentamente de Lucimara. Ela
apenas sorriu. Eram bons amigos ainda.
— Bara, já vai um bom tempo que não vem me visitar.
O negro continuou calado. Lucimara sabia que não falaria com
ela. Briga antiga, de mais de cinco anos. Ela nem mesmo se
lembrava mais de como tudo havia começado, mas desde então
não se falavam. O negro só falava quando queria algo dela.
Reciprocidade. Mas Lucimara sabia que ele ainda gostava dela e
que estava ali porque sabia das coisas ruins que estavam
ocorrendo. Bara sabia de tudo o que acontecia com todos os
freqüentadores do barracão.
Ela tomou o caminho para sua casa e ele foi acompanhandoa,
andando a seu lado. De dentro da bolsa ela retirou um pacote de
camarões salgados e foi mastigando, sem se preocupar em oferecer
a seu acompanhante. Não era isso o que ele queria dela. Sempre
que vinha, queria muito mais. Geralmente o seu carinho e, quase
sempre, o seu corpo. E ela gostava disso.
— Ficou sabendo de Lúcia? Pelo que disseram não foi coisa
de homem. Foi morta por alguma entidade. Você sabe qual foi?
O negro moveu a cabeça confirmando a resposta, mas
permaneceu em seu mutismo.
— Eu queria muito saber qual das três está no controle. Digo
três, pois sei que só pode ser obra de uma delas. Todas são
ambiciosas. Cada uma quer dominar o barracão sozinha, por
motivos pessoais. Nhá Neca acha que pode brincar com os eguns
como brinca com seus demônios. Ivone só se preocupa em
conseguir homens, pra sossegar sua menopausa, e em ter poder
sobre as mulheres, pra sossegar seu ego. A chinesinha se acha no
direito só porque mora lá desde criança. Não tem nenhuma gota de
sangue negro e se acha no direito de se envolver assim com os
cultos. Só é mãe-de-santo por causa da influência de Mãe Gina com
os Orixás. Eu sou a melhor delas. Você sabe disso. Pelo menos não
escondo de ninguém que vou lá por causa das festas, pra comer,
beber e honrar o meu Orixá. — O pacote de camarões foi atirado na
sarjeta e Lucimara limpou os dedos na roupa. — Você sabe quem
está ordenando a entidade?
Novamente o negro apenas moveu a cabeça, mas dessa vez
negando.
— Sabia que houve um tempo, quando eu era bem mais nova,
cm que eu te amava? É verdade, Bara. Eu sempre pensei que você
era um daqueles que sabem tudo. Que conseguem tudo.
Eles chegaram à porta da casa de Lucimara e ela abriu o
portão.—
Sabia que eu comecei a freqüentar o barracão por sua
causa? Até pensei em largar o meretrício no começo. Acabei
largando porque fiquei grande demais, mas se você me pedisse eu
largava na mesma hora. Não quer entrar um pouco? Estou gorda,
mas ainda faço algumas coisas muito bem. Vamos. De uma forma
ou de outra você vai acabar na minha cama hoje.
Pela primeira vez naquela noite o negro sorriu. Depois se
inclinou, beijou-a nos lábios e colocou uma das mãos sobre sua
cabeça. Bênção feita, fez meia-volta e retornou pelo mesmo
caminho em que viera.
Lucimara não se preocupou com a recusa de Bara. Sabia que
ainda teria muito tempo para dobrar novamente aquela cabeça dura.
Foi até a cozinha, separou tudo de que precisava para fazer um ebó
e foi levando para o quintal dos fundos. Precisou de cinco viagens
para transportar tudo. Tinha que se proteger de todas as formas
possíveis.
Começou a arriar a oferenda para seu olóri. Forrou uma boa
área com folhas de mamona, depois deitou as travessas e começou
a colocar tudo de que seu eledá gostava. O ekó, muita carne
malpassada, àkása de milho amarelo, arroz, milho torrado e farofa
de azeite de dendê. Quando terminou, acendeu as velas pretas e
apanhou a galinha da mesma cor, que estava a seu lado ainda com
as patas amarradas. Com uma faca, cortou seu pescoço com um
golpe rápido e a fez sangrar sobre as oferendas.
Poucos minutos depois, concluía o ritual e o orixá aceitava sua
oferenda.
— Tudo isso é para ti — falou sem erguer os olhos, sentindo a
incorporação começar. — E, como vê, fui muito generosa. Preciso
de proteção. — Seu corpo sofreu vários espasmos e ela sentiu que
começava a possessão. — Como eu disse, de uma forma ou de
outra você ia acabar em minha cama hoje.
Então ela se calou. A voz que ouvia dentro de si não era a voz
de seu orixá. Algo estava errado. Quem havia aceitado o ebó não
era quem ela esperava. Seu coração gelou ao entender quem a
utilizava como cavalo. Descobriu também quem havia matado Lúcia.
Tentou lutar, mas seu corpo não a obedecia totalmente. Caiu
sobre as oferendas, quebrando as travessas de barro e as garrafas.
As velas e vasilhas também tombaram, junto com a comida.
Lucimara se debatia e se feria nos cacos, tentando se livrar daquele
domínio. Até que não conseguiu mais resistir. Estava
completamente dominada. Sua mão foi levada até a farofa,
agarrando grandes punhados dela e enfiando-os na boca. Carne,
arroz, pedaços de vela, a farofa e tudo o que encontrava pela frente
ia sendo engolido. Cada vez mais rápido, as mãos de Lucimara
tateavam os restos pelo chão e ela devorava tudo. Tossia e
engasgava, com lágrimas escorrendo devido ao esforço, mas era
impossível parar de engolir, ou iria sufocar. Seus lábios já
sangravam, tanto quanto sua garganta e todo o percurso por onde o
vidro e a cerâmica passaram rasgando. O sangue inundava seu
corpo, mas não corria mais por suas veias.
Nada restou da oferenda quando a entidade partiu. Ela foi
aceita.

Download pdf 


Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem