Vários autores -Jogos vorazes e a filosofia(Oficial) pdf

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Cometer um assassinato com a finalidade de se autopreservar pode ser considerado moral? É possível que algo tão simples quanto uma música dê início a uma revolução? A filosofia pode ajudar Katniss a escolher entre Peeta e Gale? Tocando em temas profundos, como lealdade e moralidade, Jogos Vorazes e a filosofia nos ajuda a analisar uma das mais famosas distopias de nosso tempo.


Jogos vorazes e a filosofia(Oficial) pdf 

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“A PALAVRA FINAL EM ENTRETENIMENTO”: ARTE
MIMÉTICA E MONSTRUOSA NOS JOGOS VORAZES
Brian McDonald
Durante o que Katniss Everdeen chama de “as piores [horas] de toda a
minha vida”, ela é assolada pelos gritos e gemidos desesperados de Cato
enquanto ele é dilacerado e morto em uma câmera agonizantemente lenta
pelos bestantes, misturas grotescas de diversos animais que, como um
último toque infernal, têm os traços faciais dos tributos mortos durante a
competição. “Por que eles não matam logo ele e pronto?”, ela grita para Peeta
Mellark, que simplesmente responde: “Você sabe por quê.” E ela sabe
mesmo. “Sob o ponto de vista dos Idealizadores dos Jogos, essa é a palavra
nal em entretenimento.”1
Esta frase desesperada anuncia um dos principais temas da série Jogos
Vorazes, de Suzanne Collins. Entre outras coisas, a história da trilogia serve
de alerta contra o lado sombrio do entretenimento. Em uma cultura popular
que celebra de modo abundante o desao aos limites, Collins imagina o que
pode acontecer com nossos limites se continuarmos a desaá-los
incessantemente. E se o etos de Survivor e American Idol fosse levado ao seu
extremo lógico? E se nossa obsessão por tatuagens e “esportes radicais”
continuar a se desenvolver? E se o entretenimento virasse o objetivo máximo
da vida e o apetite por empolgação varresse para longe todos os limites
anteriormente impostos pela nossa desgastada sensibilidade moral?
É improvável que a luxúria para o entretenimento satirizada por Collins
chegue à “palavra nal” de terror e tortura dramatizada de modo tão ecaz
nos livros. Para isso, ela usa o exagero característico das distopias (as obras
ccionais que pegam uma tendência cultural negativa e imaginam um
futuro ou mundo alternativo no qual essa tendência domina todos os
aspectos da vida humana). A característica do exagero, contudo, pode
auxiliar a reexão losóca. Assim como um imitador habilidoso consegue
transformar os traços e maneirismos de um político ou uma celebridade em
puro alívio cômico por meio da caricatura engenhosamente exagerada, a
cção distópica pode nos dar uma visão mais clara de certos aspectos da
condição humana, exagerando-os e dramatizando suas possíveis distorções.
Os exageros de Jogos Vorazes destacam especialmente o lugar da faculdade
imaginativa que permite aos seres humanos produzir várias formas de arte
— se usarmos essa palavra de modo bem amplo (como convém a um
capítulo de um livro sobre losoa e cultura popular) — de modo a
englobar tanto o entretenimento popular quanto a chamada grande arte.
Os lósofos, sejam os antigos ou os atuais, têm muito a dizer sobre a arte
e sua relação com a vida e a cultura humanas. Ao mostrar um mundo em
que a arte, ainda que de forma degradante, tenha se tornado o principal
meio de controle social e político de uma sociedade, Jogos Vorazes também
ajuda a reetir sobre o seu lugar na vida. Nós vemos que o poder assustador
da arte tanto serve para apagar nossa humanidade pelas mãos da Capital
quanto para fortalecê-la pelas mãos de um herói artístico como Peeta.
“O tom certo para a luz do sol batendo numa pelagem branca”
Ao longo de boa parte de sua história, os seres humanos acreditaram que
a verdadeira arte não só entretém como também aperfeiçoa os que a
contemplam. As descrições mais clássicas sobre o propósito da arte contêm
variações da frase “deleitar e instruir”, com o termo instruir carregando
implicações morais bastante claras. Contudo, o que faz o esplendor
dramático da arena ser tamanha “palavra nal em entretenimento” é o fato
de seu grotesco “deleite” estar totalmente separado de qualquer tipo de
“instrução”. De acordo com o lósofo grego Aristóteles (384-322 a.C),
produções que entretêm sem elevar a alma são meros “espetáculos”, e
embora o espetáculo seja um elemento da arte dramática, ele o considerava
como elemento menor, menos importante e mais dispensável.2
Poética, livro de Aristóteles que discorre sobre o drama, é um bom lugar
para começar a reetir sobre o tema da arte e do entretenimento em Jogos
Vorazes, porque a visão aristotélica da arte como imitação (ou mimese)
contém a chave para entender a diferença entre as duas utilizações da arte
em Panem: o espetáculo terrível, embora lindamente projetado da Capital, e
a arte “natural” criada por Peeta. Para Aristóteles, todas as artes — visuais,
cênicas, literárias e dramáticas — são formas de mimese.3 Seja uma peça,
uma pintura, um épico ou uma estátua, a arte sempre é a tentativa feita pela
imaginação de representar, de forma ccional, algo que exista no mundo
real. A arte, de acordo com Aristóteles é a prova mais cabal de que o ser
humano “de todos [os seres vivos], é o mais imitador”. Todas as artes vêm de
ou apelam para este espírito de imitação “que é congênito no homem”.4 O
apelo da mimese artística é tão intenso que “nós contemplamos com prazer
as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com
repugnância, por exemplo, [as representações de] animais ferozes e [de]
cadáveres”.5 À lista de Aristóteles podemos acrescentar os eventos dolorosos
e grotescos dos Jogos Vorazes, que seriam horripilantes na vida real, mas
não impedem nosso “deleite” ao ler os romances de Collins.
Katniss ca ciente da habilidade de Peeta para reproduzir “as imagens
mais exatas” de objetos naturais na estação de camuagem durante o
treinamento para a 74ª edição dos Jogos Vorazes. “Peeta parece
genuinamente adorar essa estação”,6 descreve ela. Isso não deveria
surpreender, tendo em vista o amor à mimese que Aristóteles acredita ser
natural a todos os seres humanos. Katniss e o treinador da estação cam
maravilhados com o talento do rapaz para criar disfarces engenhosos a
partir da lama, argila, extratos de frutas silvestres, galhos de vinhas e folhas.
Katniss ca particularmente impressionada com um desenho que ele fez no
braço. “Os padrões alternantes de luz e sombra sugerem a luz do sol
penetrando nas árvores da oresta. Imagino como ele conhece esse efeito,
pois duvido que já tenha ultrapassado a cerca alguma vez. Será que foi capaz
de sacar a coisa só olhando para aquela velha e descarnada macieira que ele
tem no quintal de casa?”7
Peeta foi capaz de capturar algo que Katniss entende apenas devido a
seus vários anos de experiência caçando e colhendo na oresta. Será que
Peeta aprendeu tanto sobre o jogo das sombras apenas observando a “velha e
descarnada macieira que ele tem no quintal de casa?” Aristóteles não
duvidaria nem por um instante que um artista talentoso como Peeta pudesse
conseguir tal proeza. Ele inclusive acreditava que era função da mimese
artística revelar traços universais da natureza, como a forma pela qual o sol
penetra nas folhas da macieira no quintal de Peeta.
A intensidade e o poder da mimese artística são mostrados em uma
passagem marcante do segundo livro da trilogia, Em chamas, na qual Peeta
descreve a “imagem mais exata” feita pelo artista a m de aliviar os últimos
momentos de vida da mornácea do Distrito 6, que interveio para salvar
Katniss no Massacre Quaternário e acabou mortalmente ferida. Num tom ao
mesmo tempo confuso e pasmo, Katniss relata as palavras de Peeta:
— Com as minhas tintas lá em casa eu consigo fazer qualquer cor
imaginável. Rosa. Clara como a pele de um bebê. Ou forte como um
ruibarbo. Verde como a grama da primavera. Azul brilhante como gelo
na água.
A mornácea olha xamente para Peeta, atenta a suas palavras.
— Uma vez passei três dias misturando tintas até encontrar o tom certo
para a luz do sol batendo numa pelagem branca. Na verdade eu não
parava de pensar que se tratava de amarelo, mas era muito mais do que
isso. Camadas de todos os tipos de cor. Uma após a outra — diz Peeta.8
Como as palavras de Peeta deixam claro, a mimese não se trata de mera
imitação, como um eco idiota do som humano feito pelo gaio tagarela. Suas
misturas e reduplicações o envolveram em uma tentativa profunda para
aprender a cor que estava tentando reproduzir. As palavras de Peeta
explicam exatamente por que Aristóteles associa o deleite da mimese
artística ao deleite do aprendizado.9 A contemplação intensa de uma
determinada cor feita por Peeta é quase uma forma de comunhão com ela,
um aprendizado tão profundo que vem de dentro para fora — e não de fora
para dentro. Após três dias de misturas, ele consegue reproduzir a cor
porque ela tomou posse de seu coração e de sua alma.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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