Van Gogh - Cartas a Theo pdf

 Van Gogh - Cartas a Theo pdf 




Amargura e solidão nas cartas do
pintor maldito
Hoje, Van Gogh é cultuado. Mas, enquanto vivo, esse pintor de
sóis silenciosos e girassóis de ouro vendeu apenas um quadro. Nas
cartas ao irmão Théo, todo o relato de seu desespero.
No Brabante holandês, algumas léguas ao sul de Bréda, a aldeia
de Groot Zundert agrupa umas poucas casas. A região é levemente
ondulada, entremeada de pântanos, atravessada por riachos, banhada
por charcos. Ao redor, erguem-se árvores mirradas com troncos
retorcidos. Não longe fica a fronteira com a Bélgica. Na direção
nordeste situa-se Etten. A leste, depois de Bréda, fica Nuenen.
Zundert, Etten, Nuenen, estas pequenas aldeias cujos nomes
reaparecerão tantas vezes nestas Cartas, são os limites da região natal
de Van Gogh.
É em Groot Zundert que ele nasce, em 30 de março de 1853.
Seu pai, Theodore Van Gogh, era pastor; sua mãe, Anna-Cornelia
Carbentus, era filha de um encadernador da corte. Família honrada e
antiga: já nos séculos XVI e XVII, os Van Gogh eram eminentes
burgueses. Muitos tinham o gosto pelas artes. No século XVIII
encontramos em Haia alguns Van Gogh exercendo o nobre ofício de
tirador de ouro. Outros tornaram-se comerciantes de quadros.
Vincent era o primogênito de uma família com seis filhos. Bem
jovem, ele demonstra um extraordinário interesse por tudo que o
cerca, especialmente pela natureza. Dono de um caráter pouco
sociável, vagueia solitário pelos campos. Nem Anne, nem Elisabeth,
nem Wil, e menos ainda seu irmãozinho Cor o acompanham.
Entretanto, ele às vezes – e cada vez mais – leva consigo Theodore,
que tem quatro anos a menos que ele. Theodore, o “Théo”, já é o
amigo e confidente.
Quando completa doze anos, é internado no colégio da pequena
cidade vizinha de Zevenbergen, retornando para casa somente nas
férias de verão. Passam-se quatro anos sem que nada de excepcional
aconteça na sua vida. Tudo começa aos dezesseis anos; em julho de
1869, graças ao tio Vincent – um antigo negociante de objetos de arte
que gozava em Princehage de sua plácida aposentadoria –, o diretor da
sucursal em Haia da prestigiosa Casa Goupil, importante galeria de
arte da Europa, emprega o futuro pintor. Como vários Van Gogh do
passado, ei-lo no comércio de quadros. É um empregado modelo:
correto, consciencioso. Pouco a pouco vai formando suas opiniões. De
Haia é enviado, sempre pela Casa Goupil, a Bruxelas. Cada vez mais
ele se interessa por tudo o que vê, e frequenta os museus reais. Lê
muito – tudo o que lhe cai nas mãos, um hábito que ele manteria por
toda a vida, mesmo nos tempos mais tumultuados em Arles. Um dia,
em agosto de 1872, Vincent vai ao encontro de seu irmão em
Oosterwyck, perto de Helvoirt, pequena aldeia à qual seu pai fora
chamado. Théo está então com quinze anos; mas já tem o espírito
muito aberto e precocemente formado. Vincent descobre no
irmãozinho quase um homem feito. A partir de sua volta começa a
escrever-lhe. E é então que inicia esta correspondência que irá, sem
interrupções, durar até sua morte – e da qual talvez sequer uma linha
tenha-se perdido.
Em janeiro de 1873 é a vez de Théo começar a sua vida. Isto
deixa seus pais preocupados, mas a família é numerosa e pobre. Um
pensamento consola um pouco a sofrida mãe: Théo já é bem maduro
para seus quinze anos. É dotado de muito boa vontade e bastante
prudência. Ele parte para Bruxelas para também trabalhar na Casa
Goupil. Mais um laço entre os dois irmãos: o paralelismo de seus
destinos.
Em maio, Vincent é enviado para a sucursal de Londres. Acaba
de completar vinte anos.
Lá, leva uma vida absolutamente tranquila. As horas do dia são
preenchidas com as mesmas ocupações, mas os dois irmãos estão
distantes. Para ir ao escritório Vincent se apressa, mas volta
vagueando. Na Inglaterra, ele tem mais tempo ao seu dispor do que na
Holanda. Tem livres não apenas os domingos, mas também os sábados
à tarde: a semana inglesa. E, sem percebê-lo, sem dar-se conta, sua
vocação nascera e começa a se desenvolver. Ele se detém para
desenhar à beira do Tâmisa não apenas uma vez, mas centenas... e fica
triste, ao voltar para casa e perceber que os desenhos não se
assemelham a nada.
Em julho de 1874 retorna para a Holanda. O pastor vê chegar
um Vincent sombrio e atormentado: ele está apaixonado. A sra. Loyer,
que dirige a pensão onde ele vive, tem uma filha, Ursula, pela qual
Vincent apaixona-se. Ela se deixa cortejar, ele a pede em casamento e
é repelido. Fica decepcionado, magoado, profundamente ferido.
Contudo, durante estas poucas semanas que passa em Helvoirt,
desenha bastante. Em meados de julho, volta a partir com sua irmã
mais velha. Mas sente-se infeliz em Londres. Em outubro, por
intervenção do tio de Princehage, é chamado a Paris.
Em dezembro, algumas semanas após sua chegada, volta
bruscamente a Londres – em vão, pois não reencontra Ursula – e
retorna a Paris. Sente-se desamparado, inquieto. Que fazer? Ele não
sabe muito bem, e se pergunta sobre uma infinidade de coisas para as
quais não tem respostas; perde-se em conjeturas. Um fato contudo
parece-lhe evidente: a mediocridade de sua situação presente, e a
certeza de um futuro também medíocre. Um pensamento de Renan o
impressiona e o invade: “Esquecer-se de si, realizar grandes coisas,
atingir a generosidade, e ultrapassar a vulgaridade na qual se arrasta a
existência de quase todos os indivíduos...” Passam-se as semanas,
chega o Natal, termina o ano. Ele não aguenta mais e foge para a
Holanda – para voltar pouco depois e retornar bruscamente, em fins
de março, para Etten. Em Paris, a Casa Goupil resolve despedir este
empregado outrora exemplar e que se tornara detestável.
Bem que o pastor nota a mudança em suas ideias. Na verdade,
Vincent quer ser pintor. Mas é preciso ganhar a vida. A partir de um
anúncio, entra como professor numa escola em Ramsgate, na
Inglaterra. Chega lá em meados de abril. Em julho acompanha a
escola, transferida para Isle Worth.
Está cada vez mais preocupado. Que fazer? Dedicar-se à
pintura? Mas isso não seria uma loucura? Resta-lhe um caminho a
tomar. Alguém que não possa educar-se na arte, pode, ao menos, se
quiser, tornar-se um justo aos olhos de Deus. “Sinto-me atraído pela
religião”, escreverá ele a Théo. “Quero consolar os humildes.
Acredito que o ofício de pintor ou de artista é belo, mas creio que o
ofício de meu pai é mais sagrado. Gostaria de ser como ele...”
Abandona a escola de Isle Worth e passa a servir um pastor, Mr.
Jones. Ei-lo pregador. Mas não tem nenhum preparo, nenhum dom de
oratória. Despedem-no. Novamente no Natal bate à porta da casa
paterna, fracassado, outra vez.
Novamente o tio de Princehage encontra-lhe um modesto
emprego de escriturário numa livraria em Dordrecht. Ele aceita, e
toma a resolução de transformar totalmente sua vida. “Não estou só”,
diz ele, “pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como meu
pai!” Este apelo, repetido, não ficaria sem resposta. O pastor Van
Gogh reúne um conselho de família. Concordam em enviar Vincent à
Universidade de Amsterdam. Lá, ele residirá na casa de um de seus
tios, na Marineweff. Imediatamente Vincent atira-se aos estudos. Mas
estudar torna-se para ele uma tortura. De maio de 1877 a julho de
1878, se consome em esforços... para afinal abandonar os estudos e
voltar, uma vez mais, à porta da casa de Etten.
Desiste da Universidade. Resolve que quer ser missionário entre
os pobres mineiros do Borinage. Para isto, basta-lhe seguir durante
três meses os cursos da escola preparatória evangelista de Bruxelas. E,
portanto, vai a Bruxelas. Lá, as mesmas dificuldades. Vincent conhece
mal o francês e não tem nenhum dom de oratória. Não é nomeado. O
pai acorre junto ao filho desamparado. Finalmente dão a Vincent uma
missão de seis meses.
Nos últimos dias de dezembro, as pessoas do burgo de
Patûrages, próximo a Mons, veem chegar um homem vestido com
roupas muito simples. Sabem que ele está hospedado em casa do
mascate Van der Haegen, que é pastor, e que vem da Holanda. Logo,
todos já o conhecem. Ele visita os doentes e os reconforta, lê para eles
o Evangelho. Algum tempo depois, deixa Patûrages para ir a Petites
Wasmes, a algumas léguas dali.
Wasmes é o coração do Borinage, o centro do “país negro”, das
minas de carvão, sucessão de colinas cortadas por barrancos em terra
viva nos quais, aqui e ali, aparece a hulha. Ao sul, grandes bosques
fecham o horizonte. Nesta região, há séculos, vive um grupo de
homens que passa metade de suas vidas agitando-se nas entranhas da
terra. Esta atividade subterrânea revela-se à superfície do solo: veemse
altas gaiolas, grandes pirâmides negras, duas vezes mais altas que
as casas, clarões avermelhados sobre os quais flutuam vapores
cinzentos e fumaças sombrias. Uma paisagem humana que não deixa
de ter sua grandiosidade. À noitinha, as janelas dos botequins se
iluminam, enquanto que as mulheres, ao fundo, ocupam-se de suas
cozinhas. Esses mineiros são pobres mas suas vidas não são apenas
misérias e provações. Vincent, no entanto, só vê tristeza e opressão. E,
na intenção de aliviá-las, dedica-lhes o zelo de um apóstolo. Entregase
por completo à sua exaltação mística. Passa a viver numa cabana de
tábuas, dorme na terra nua, usa um velho camisão de soldado; cuida
dos doentes de tifo, despoja-se até de suas roupas. No entanto, ele é
mau pregador e seu comportamento, longe de levar os mineiros à
virtude, os impressiona e escandaliza. Ao mesmo tempo ele continua a
desenhar nos poucos momentos livres que se permite.
Entretanto sua missão não é renovada pelo Consistório.
Novamente Vincent está perdido. Volta a pé, sem um tostão, detém-se
em Bruxelas na casa de um amigo, e a seguir, em agosto de 1879,
mais uma vez vai bater à porta da pobre casa de Etten.
Só que agora não há mais lugar na sua casa. Conseguirá viver
só? Ele parte, o cajado nas mãos, mochila às costas, de volta ao
Borinage.
Começa então o mais sombrio período de sua vida. Ele caminha
aqui e ali, sob o vento do outono, sob o vento do inverno. Dorme à
beira dos caminhos, em celeiros, debaixo de carroças. E de que vive?
Do pouco dinheiro que Théo lhe envia. Théo chega até a achar meios
de encontrá-lo, de dizer-lhe algumas palavras esperançosas, de
encorajá-lo enfim em sua vocação de pintor. Vincent caminha durante
oito dias para ir a Carrières ver Jules Breton, a fachada imponente da
casa o intimida a ponto de não ousar bater à porta. Volta a Cuesmes. A
seguir, na primavera, retoma o caminho para o norte, e volta a Etten...
Algumas semanas depois, está novamente no Borinage.
Apesar de todas as dificuldades e angústias ele, enfim, acredita
ter descoberto o seu caminho: será pintor, nada mais que pintor!
É julho de 1880 quando ele escreve a carta na qual abre-se
profundamente a Théo, na qual descreve a horrível angústia em que se
encontra, suas lutas, seus desesperos, e também sua esperança
radiante. Teria alguém jamais escrito apelo tão comovente, tão
dilacerante? Théo ficou profundamente emocionado. E ficou também
completamente convencido. A partir de então, se dedicará
inteiramente ao irmão. Esta ajuda, que até o momento lhe dedicara por
pura afeição, agora compromete-se a continuá-la para sempre, porque

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Ahmed Zayed

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