Tiago Salazar - Hei-de Amar-te Mais pdf

 Tiago Salazar - Hei-de Amar-te Mais pdf 




anos, saúde de ferro, os dentes quase todos, cabelo farto
de querubim, força de mancebo, leitores que me dizem «o senhor Tiago
faz-me sonhar» ou «a sua escrita é um bálsamo», tenho uma mulher,
filhos, laços de família, e neste espelho de hotel, o sétimo onde aterro no
último mês, sou apenas um velho encarquilhado numa solidão terrível. A
posologia diz «recuperador do humor». Será como um recuperador de
calor? Neste chão de hotel varrido de melancolia que é o meu território
por cinco dias só a Patagónia, ou tu, meu amor, conviriam à minha infinita
tristeza.
Olho os telefones, duas redes que me ligam ao mundo, o único caminho
até ti. Uma vez falei-te do deserto, em Marrocos, ainda os telefones
voadores (como lhes chamas) eram como varas de feiticeiro. No meio do
nada, deposto como uma pedra, um beduíno ensinara-me o canto de um
velho poema sufi, a prosa do amor interminável, e por Alá não me ter
abençoado com a voz dos pastores do deserto entoei-to humildemente
letra a letra. Paro a escrita que nunca pára e quero dizer-te ao ouvido,
amo-te, pertenço-te desde muito antes desse deserto de onde te disse a
primeira vez é aí dentro de ti que quero viver. Pego então no meu zepelim
e vamos namorar a cidade nocturna às gincanas entre os minaretes.
Conversa com Deus
— Que diabo vem lá?
A voz era cavernosa, de animal mitológico, se fosse o caso de este falar.
Tinha andado às cegas no bosque, como quem persegue a consciência,
antes de dar com a árvore onde morava Stass, o homem mais célebre de
Roatán. Lembro-me de ter pensado se, quando escrevesse a história desta
viagem, podia chamar casa a um barracão de quatro buracos empalado
num chuço onde se chegava por uma escada interminável. Atrás de mim,
Franz Kalnapilis ocupava-se a registar as fantasias da noite com a sua
lente de coruja e não deu pela minha subida. A forma como tinha ali
chegado produzia uma impressão profunda. Afinal, há duas horas
estávamos no bar de Gustav, derramados sobre o alpendre a ver o brilho
da lua cheia no oceano e o voo samurai dos mosquitos em looping contra
as paredes e as pás da ventoinha. Por essa altura, mergulhado numa
desagradável monotonia, o meu pensamento distraía-se a ouvir a vocação
narrativa de Gerda, uma bióloga de Brooklyn habilitada nas propriedades
afrodisíacas das lulas, e os números de Kevin, escritor do Illinois que
trocara a seriedade da conversa por um ritual de poses de yogi no
ancoradouro. Era um quadro familiar aquele, os serões de conversa mansa
e inútil. Gerda sabia mais qualquer coisa além do erotismo dos bivalves.
Estava a par dos feitos monteses de George W. Bush Junior, da nova
marca de implantes de Pamela Anderson e da temida síndroma do homem
normal, segundo ela a doença mais fatal do futuro século.
— Se um homem acordar com a sensação de que nada de especial tem
para fazer, ou se chegar à cama e nada de especial se tiver passado durante
o dia, é uma vítima — explicava Gerda.
Na mesma noite
Disse-me um dia um beduíno
Estava aquém do princípio rigoroso expresso por Benvenuto Cellini
onde se diz: um homem deve ter mais de quarenta anos e ter feito algo de
excepcional antes de assentar, preto no branco, a história da sua vida. Um
ano e seis meses seria o tempo exacto de recapitular com minúcia e
obstinação as minhas recordações. O grande feito, esse, podia nunca vir,
excepto se amar fosse matéria de peso. Aí, por uma vez, talvez houvesse
redenção.
O fundo da ravina abria-se como um harmónio. A perder de vista, um
rio seco guardado por montanhas, uma garganta amena, devolvia o eco de
ventos antigos. Parado sob o teu olhar lancei-me numa fantasia erótica de
dois amantes libertos da gravidade. Beijei-te então diante de todos os
séculos, acima de qualquer abismo.
Um dia escreves isto numa pedra do Fish River.
«Unidos para além da vida e da morte. E é só.»
— Não há limites onde nós estamos, respondeste.
Tinha vida nas pernas para querer uma felicidade tranquila. Mas, dizem,
a felicidade é perigosa, breve, e sobre ela não se pode fundar um futuro.
Estava disposto a contrariar os homens das grandes verdades. Só importa
o amor que conhece os seus desertos, porque «um ser amado sem medida,
dominado sem medida, rouba-nos um mais alto destino».
2007, 8 de Janeiro
Cristina disse, ainda na cama, deitada à etrusca.
«Fixamos um ponto no horizonte e caminhamos para lá. Com duas
pessoas faz-se uma fortaleza.»
Respondi, um pouco mais tarde.
«Projecto de vida demora a instalar-se, demora a crescer.»
Textos de viagens: língua, símbolos, significados, origens.
E.g. Pangkor Laut, expoente do luxo moderno… com dois mil anos.
Epígrafes de um dia de sol (com vento)
«Esta gente já é a gente que finge ser», in Crónicas Americanas, Sam
Shepard.
«Não sejas adulto», in Ensaios, Montaigne.
Numerologia
a. Respeito, relações adultas
b. Espiritualidade consciente (vida de aprendizagem)
c. Cuidados com possessividade
d. Espírito livre (saber lidar com mudanças, preconceitos, medos)
e. Afectos e família
f. Objectivos: criar, criar alegria no dia-a-dia. Individualidade, sem
imobilismos
g. Levantar projectos humanitários
h. Contrariar dispersão
i. Materializar
2 de Agosto
O objectivo da viagem não é ir para onde quer que seja. É ver e viver. A
Vida dá-nos o problema para entendermos a nossa natureza.
4 de Agosto
Falamos de levitação, de viagens aéreas (oníricas) nocturnas. Ou se é
nómada ou sedentário: dois mundos inconciliáveis? Para fazermos de
novo, é preciso regressar às origens. Simplificar, depurar, afastar o que
não interessa. No afã de encontrar fora, perdes-te do teu centro.
Tarot – caminhos e destinos cruzados
a. Confiar na vida e no que esta tem para dar (Estrela). Entregar à
providência
b. Estabelecer prioridades (O Mundo)
c. Olhar para dentro, rasgar os véus. Sou duas coisas (ou três?)
Síndroma do «Este não sou eu, eu sou o outro». (Os Amantes)
14 de Agosto
Há duas espécies de homens neste mundo: os que ficam em casa e os
outros. A vida encarrega-se de recusar os sonhos, mas nós, os trotamundos,
tratamos de a corrigir.
A bordo de um Airbus a caminho de Amsterdão.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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