Zygmunt Bauman - Ensaios Sobre O Conceito De Cultura PDF

 


A cultura – ensina Bauman – é um inimigo natural da alienação, um audacioso movimento humano para se libertar da necessidade e conquistar a liberdade de criação. Nesse livro, o sociólogo faz uma revisão crítica do conceito de cultura nas ciências sociais, percorrendo um longo caminho, que vai dos gregos antigos até o pós-estruturalismo. Em cada um dos três ensaios, examina as principais correntes de pensamento que estudaram o significado da cultura na sociedade. Assim, desfaz muito da confusão produzida pela tentativa de integrar o processo cultural no interior do discurso científico e apresenta uma proposta inovadora: alinhar os fenômenos e manifestações culturais no campo da práxis – a atividade livre, universal, criativa e autocriativa pela qual os homens transformam o mundo em que vivem. Um livro que reflete Bauman no que ele tem de melhor em termos de profundidade, sutileza e perspicácia.


Zygmunt Bauman - Ensaios Sobre O Conceito De Cultura PDF


• Introdução •

Reeditar um livro escrito há quase três décadas exige uma explicação. Se
por acaso o autor ainda é vivo, recai sobre ele o trabalho de explicar.
A primeira parte dessa tarefa é descobrir, passados todos esses anos, o
que o livro ainda tem de atual e novo o suficiente para justificar apresentálo
uma vez mais aos leitores – a leitores diferentes, uma ou duas gerações
mais jovens que aqueles que devem ter lido o exemplar na edição original.
O segundo trabalho é oposto ao primeiro, mas o complementa: ponderar o
que o autor teria alterado no texto caso o estivesse escrevendo pela primeira
vez.
A primeira tarefa não é fácil, seja qual for o padrão, dada a velocidade
desconcertante com que todas as ideias desaparecem e caem no
esquecimento antes de ter a chance de amadurecer e envelhecer de forma
adequada em nossa era, como diz George Steiner, de coisas e pensamentos
calculados “para o impacto máximo e a obsolescência instantânea”. Uma
época em que, como outro autor observou, a vida de um best-seller nas
estantes das livrarias é algo entre o leite e o iogurte. À primeira vista, este é
um trabalho assustador, talvez impossível…
Mas quem sabe não se possa extrair algum consolo da suspeita, não de
todo fantasiosa, de que, dada a velocidade com que os “temas quentes” da
moda são substituídos e esquecidos, não se pode saber ao certo se as ideias
antigas realmente envelheceram, sobreviveram ao uso ou foram
abandonadas por motivo de obsolescência. Será que certos temas deixaram
de ser comentados por ter perdido a relevância, ou deixaram de ser
relevantes porque as pessoas ficaram cansadas de falar a respeito deles?
Sobre nós, cientistas sociais, Gordon Allport disse uma vez que jamais
resolvemos problema algum, só nos entediamos com eles. Mas, desde
então, se tornou marca registrada de nossa sociedade como um todo o fato
de não mais nos movermos nem acreditarmos nos mover “para a frente”;
nós nos deslocamos de lado, com frequência de trás para a frente, e
novamente para trás. Por sua vez, vivemos na era da reciclagem; nada
parece morrer de uma vez por todas, nada – nem a vida eterna – parece
destinado a permanecer para sempre.
Assim, as ideias devem ser enterradas vivas – muito antes de estarem
“bem mortas” –, e sua morte aparente é apenas um artefato de seu
desaparecimento de nosso campo visual. O ato do enterro, mais que
qualquer teste clínico, é que garante o atestado de óbito. Se resgatadas da
amnésia coletiva em que foram destinadas a hibernar, elas podem – quem
sabe? – ganhar mais um tempo de vida (com certeza, não muito longo). E
não apenas porque foram espremidas até secar em sua primeira visita, mas
porque, como manda a dinâmica dos discursos, as ideias estimulam o
debate e o colocam em movimento “por impacto”, embora esse efeito
inicial dificilmente seja seguido de plena assimilação. A princípio, não há
limite para o número de retornos; a cada vez o impacto tem novo efeito –
como se o retorno fosse uma primeira apresentação. É verdade que não se
pode entrar no “mesmo” rio duas vezes, mas também é verdade que “a
mesma” ideia não pode entrar duas vezes no rio dos pensamentos. Hoje
avançamos não tanto pelo aprendizado cumulativo e contínuo, mas por uma
mistura de esquecimento e lembrança. Essa parece, em si mesma, uma
razão boa o suficiente para reeditar um livro – ainda mais pelo fato de que
ele não voltará sozinho. O texto foi escrito num diálogo ativo com outros
que então se encontravam na linha de frente do debate intelectual, mas que
hoje também acumulam poeira nas estantes das bibliotecas. Recordar os
problemas que enfrentaram e tentaram resolver juntos não será inoportuno
para todos aqueles que estão imersos e engajados nas preocupações atuais.
A segunda das duas tarefas é mais simples, pelo menos em aparência.
Para o autor, também é mais gratificante. Exige algo que os autores
dificilmente têm tempo de fazer em seu pensar e escrever cotidianos:
examinar em retrospecto a estrada que percorreram – ou melhor, organizar
as pegadas esparsas para produzir um simulacro de estrada. Ao atender a
essa exigência, eles têm a rara oportunidade de imaginar (descobrir?
inventar?) uma progressão lógica naquilo que vivenciaram como uma
sucessão de problemas e temas singulares, “um de cada vez” – trabalho em
geral deixado aos estudantes encarregados de produzir dissertações sobre a
obra dos autores. E, confrontando-se mais uma vez com seus próprios
pensamentos iniciais, podem colocar em relevo suas ideias atuais. Afinal,
todas as identidades – incluindo as identidades das ideias – são feitas de
diferenças e continuidades.
O objetivo desta Introdução é tentar realizar essas duas tarefas.
Vamos antecipar a direção que a tentativa irá tomar: quando lido trinta
anos depois de ter sido escrito, o livro parece passar no teste da “verdade”.
Tem desempenho um pouco inferior no teste de “somente a verdade”. E
fracassa terrivelmente no teste de “nada mais que a verdade”. Creio que a
maior parte do que nele há de errado se refere ao que falta – mas deveria
estar presente, tal como o vejo agora – em qualquer avaliação da cultura
que se pretenda abrangente e correta. Se fosse escrever este livro outra vez,
talvez eliminasse pouca coisa do texto antigo, mas muito provavelmente
acrescentaria alguns tópicos, e com toda a certeza remanejaria as ênfases. O
restante desta “Introdução”, portanto, contém algumas revisões, mas seu
principal foco é preencher os espaços em branco que o texto original deixou
de forma inadvertida.
Mais uma observação se faz necessária, tendo em vista sobretudo o
tempo de vida curto de nossa memória coletiva. Um livro sobre cultura
escrito trinta anos atrás tinha de confrontar leitores muito diferentes
daqueles que estarão presentes em sua segunda encarnação. Pouco se podia
fiar nas ideias arraigadas dos leitores naquela época, enquanto hoje o
mesmo texto pode contar com leitores experimentados na “problemática da
cultura”, com estruturas cognitivas básicas e conceitos essenciais
firmemente estabelecidos. Certas ideias que há trinta anos teriam de ser
explicadas com muito labor agora parecem evidentes, no limite da
trivialidade.
Nesse sentido, o caso mais evidente é o da própria noção de cultura: na
década de 1960, na Grã-Bretanha, ela estava quase ausente do discurso
público, em particular do discurso sociocientífico – e isso apesar dos
esforços pioneiros de Matthew Arnold para inseri-la no vocabulário das
classes letradas britânicas e da brava luta posterior por sua legitimidade,
empreendida por Raymond Williams e Stuart Hall. Admito desde logo que
– por sorte da opinião culta britânica – é difícil acreditar hoje que este era o
estado de coisas apenas há trinta anos. Mas, algum tempo depois de vir a
público a primeira edição deste livro, passei pela agonia de explicar aos
ilustres intelectuais membros da comissão de planejamento da universidade
o que significa a palavra “cultura”. A ocasião para isso foi a proposta de
instituir um Centro de Estudos Culturais interdepartamental – então um
espécime extraordinariamente raro nas Ilhas Britânicas. Da mesma forma, a
ideia de estrutura como fenômeno diacrônico, e não sincrônico, não era
fácil de transmitir, tampouco de ser apreendida e digerida pelos potenciais
leitores, antes que a “estruturação” de Anthony Giddens atingisse o status
canônico no primeiro ano dos cursos de sociologia.
Hoje, aquilo que no passado parecia uma ousada aventura intelectual se
transformou na repetição irrefletida da rotina. É da natureza das ideias que
elas nasçam como heresias perturbadoras e morram como ortodoxias
aborrecidas. É necessário muito poder de imaginação para fazer ressurgir
(que dirá reviver) seu antigo e poderoso impacto emancipatório, instigador
da reflexão: por exemplo, a agitação causada pela visão de cultura como
uma série infindável de permutas, da autoria de Claude Lévi-Strauss.
Afinal, a função de toda rotina é transformar a reflexão, o exame, a
comprovação, a vigilância e outros esforços árduos e demorados em luxos
sem os quais se pode passar.
Assim, somando-se às duas tarefas antes mencionadas, cabe ao autor
remodelar algumas das ideias agora incorporadas à “rotina”, na esperança
de restaurar, se possível, seu poder de corte. Ou, se preferirem, fazer
ressurgir numa canção de ninar o seu passado de toque de alerta…


Downlaod

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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