Zuenir Ventura - Colecao Melhores Cronicas PDF

 


Zuenir Carlos Ventura (Além Paraíba, 1º de junho de 1931) é um jornalista e escritor brasileiro.

Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, filho de Antônio José Ventura e de Herina de Araújo, aos 11 anos mudou-se com a família para Nova Friburgo e começou a trabalhar como pintor. Depois foi contínuo de banco, faxineiro e balconista. Em 1954, no Rio de Janeiro, iniciou o curso de Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje UFRJ. Em seguida, começou sua carreira de jornalista. Foi professor de Comunicação Verbal da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), fazendo parte, desde 1963, do grupo inicial fundador desta instituição, mais tarde absorvida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É colunista do jornal O Globo, tendo ganhado o Prêmio Jabuti em 1995 na categoria Reportagem pelo livro Cidade Partida.

É o sétimo ocupante da cadeira n.º 32 da Academia Brasileira de Letras, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do dramaturgo Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015, quando foi saudado pela acadêmica Cleonice Berardinelli.

Seu livro 1968: o Ano Que não Terminou serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes produzida pela Rede Globo.


Zuenir Ventura - Colecao Melhores Cronicas PDF

UM CRONISTA DE CORPO
INTEIRO

No espaço da revista ou do jornal, o cronista ocupa um lugar
definido e desfruta de ampla liberdade para escolher os assuntos e as
formas de transformá-los em texto.
Por isso, a crônica é um gênero talhado para o exercício da
individualidade e da subjetividade, e a respectiva seção do jornal ou
revista um ponto de encontro certo entre o cronista e seus leitores. O
ar de conversa e os gestos de intimidade que tantas vezes permeiam
esse gênero se mostram tanto no uso ostensivo de um "eu" que se
apresenta, inclusive biograficamente, a uma espécie de confidente,
como na naturalidade com que o cronista incorpora à escrita sintaxes
típicas da fala, e na liberdade com que mistura assuntos e explora
desvãos de uma memória política e/ou cultural presumidamente
partilhada com o leitor.
O cronista não pode trair o compromisso do jornal com o tempo
presente, mas também não lhe compete 'dar notícias'. Ele tem de ser
um cidadão de seu tempo num sentido mais elástico, que lhe dê
liberdade de transformar fatos em matéria de reflexão, de se valer das
experiências pessoais e de toda sorte de conhecimentos para discorrer
sobre o que lhe pareça oportuno, e de se propor, perante seu leitor, a
uma gama variada de atos comunicativos: informar, opinar, sugerir,
analisar, relatar, divertir, confidenciar, provocar.
A crônica é síntese de muitas espécies de discurso, e o cronista, a
seu modo, doublé de repórter, historiador, contista, poeta,
antropólogo, psicanalista, crítico de arte, crítico da cultura, filósofo,
gourmet, sociólogo. Diferentemente do historiador, porém, detém-se
muitas vezes no episódico; diferentemente do poeta e do romancista,
não separa o eu que testemunha ou sente do eu que escreve. A
crônica se firmou, desse modo - bem o sabemos todos -, como o
gênero que harmoniza a objetividade informativa e a impessoalidade
crítica do jornal com a individualidade enunciativa, a
imprevisibilidade temática e o sentido estético da produção literária.
Percorrendo o país de ponta a ponta para conhecer o que fazem
os que defendem e constróem anonimamente o Brasil e são
efetivamente dignos de sua terra, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, que
há 73 anos nasceu em Além Paraíba mas viveu boa parte da infância e
juventude em Friburgo, no Estado do Rio, tem produzido sobre a
sociedade brasileira, sua cultura e seus dramas, um retrato em cujo
duro realismo a esperança de dias melhores jamais deixa de latejar.
No final de 69 realizou para a Editora Abril uma série de 12
reportagens sobre Os anos 60- a década que mudou tudo. Em 1988,
lançou 1968 - o ano que não terminou, livro inspirador da minissérie
Os anos rebeldes e cujas 39 edições já venderam mais de 200 mil
exemplares. De 1989 datam as reportagens reunidas sob o título O
Acre de Chico Mendes, que lhe valeu o Prêmio Esso de Jornalismo. Em
1994, lançou Cidade Partida, um livro-reportagem sobre a violência
no Rio, traduzido para o italiano. Em 1998, publicou O Rio de J.
Carlos e Inveja - mal secreto, que já vendeu cerca de 100 mil
exemplares. São do ano seguinte as Crônicas de um fim de século, e
de 2000 Cultura em trânsito - 70/80 - da repressão à abertura, com
Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari. Seus últimos dois livros
são Chico Mendes- Crime e Castigo e Um Voluntário da Pátria, sobre o
golpe de 64. Também participou, como roteirista, de dois
documentários: Um dia qualquer e Paulinho da Viola: meu tempo é
hoje.
Seu estilo é refinado e leve tanto na captação do universo
esvanecente da crônica, que lhe permite digressões e devaneios, como
nos trabalhos tipicamente jornalísticos, em que sobressai, incisiva e
corajosa, a voz do repórter várias vezes laureado (Prêmio Esso de
jornalismo e Wladimir Herzog, de direitos humanos, em 1989; Prêmio
Jabuti de Reportagem, em 1994).
Típica da atividade de cronista é a recorrência de certos temas.
Zuenir cultiva os seus, preferências ideológicas ou culturais, ou
mesmo inquietações que supõe partilháveis com o leitor. Alguns são
assuntos inerentes ao papel que lhe cabe no jornal, como a identidade
cultural brasileira, as muitas faces da violência, a cidade do Rio de
Janeiro, a cultura e seus personagens, a música em todas as suas
expressões - principalmente a que nasce da criação de grupos da
periferia, sem espaço na mídia.
Em "O Brasil o que é?" ecoa as conhecidas teses da mistura das
raças para identificar, na figura do mulato, "nosso jeitinho contra a
polarização, síntese literal e metafórica do homem brasileiro".
Arremata a constatação de que o país é "um laboratório de
miscigenação, de multiculturalismo, de música, de cinema, de
arquitetura e, claro, de futebol" com uma frase de Tom Jobim que
subverte o título de uma obra sobre o Brasil escrita por um estrangeiro:
"O Brasil não é um país para principiantes".
Alumbramentos de turista ecológico convivem em harmonia com
a denúncia de uma "reversão de imperialismos" a propósito da
proposta de uma multinacional interessada em internacionalizar o
Festival Folclórico de Parintins, tradicionalmente patrocinado pela
Coca-Cola (Amazônia now). E intuições psicanalíticas ajudam o
cronista a especular sobre as razões que mantêm o humor generoso
dos políticos em campanha: "É comum ver jogadores famosos e ídolos
do show bizz se queixarem do assédio e da invasão de privacidade,
mas é difícil encontrar essa reclamação na boca de um candidato. (...)
Talvez seja reducionismo atribuir a um desvio de libido todo esse
prazer que a prática política despeita em quem dela é dependente.
Mas com todo respeito aos sentimentos nobres, deve haver também
um impulso muito forte que Freud explica, outras motivações nem
sempre visíveis a olho nu, nem sempre confessáveis, vagando nas
zonas de sombra, nas regiões recônditas da alma, ou melhor, do ego,
do id e do superego." (Por que eles querem o poder?)
Algumas crônicas oferecem perfis de artistas e homens públicos -
Betinho, Mário Covas, Bispo do Rosário, Gilberto Gil, Jorge Amado,
Rubem Fonseca, Paulinho da Viola entre outros. O "amante das Artes"
ocupa um espaço significativo nesses textos, em que o cinema e a
música são destaques. Acompanhando as gravações do documentário
sobre Paulinho da Viola, cujo roteiro criou, passa por algumas
provações inerentes à função de repórter, mas no final resume a
certeza da recompensa: "É tudo muito cansativo: é comum se trabalhar
16 horas seguidas. Não sei como tem gente que faz do cinema
profissão. Mas, pensando bem, eu devia estar pagando para ver o que
tenho visto de graça."
Ainda uma vez é com a sensibilidade de gente comum,
disponível para a emoção, que capta esses momentos. Em "Amélie,
mulher de verdade", sobre o filme Fabuloso destino de Amélie
Poulain, enaltece o direito à alienação para poder passar "duas horas
como uma criança. E não só eu. Um dos divertimentos da personagem
Amélie é ficar olhando pra trás no cinema para ver a reação das
pessoas. Fiz isso discretamente, quando o filme estava acabando, e vi
a cara de satisfação e felicidade dos espectadores."
O noticiário ainda estava contaminado pela destruição das torres
do World Trade Center quando Zuenir escreveu "Perto de Marisa,
longe da guerra", mais uma válvula para aliviar o sufoco de um
contexto insano. O texto, primoroso, exalta o fenômeno musical
incorporado por Marisa Monte: "Fugindo das deturpações, sem
aquelas leituras que deformam o original, ela constrói um repertório
cuja unidade é tecida pela diversidade, e esta, após passar pelo filtro
de sua voz, adquire uma nova identidade.
É um processo meio antropofágico, em que ela digere, reelabora,
reinventa e devolve de forma nova o que assimilou - e tudo fica sendo
Marisa Monte, mesmo quando não é composto por ela."
O Regimento Caetano de Faria, onde esteve detido em 68, é o
cenário de "Memórias do cárcere", alusão à obra de mesmo título de
Graciliano Ramos. Nesta crônica, Zuenir protesta contra a utilização
recente desse espaço para manter, sob prisão temporária, dois
bandidos sanguinários, chefes do tráfico. O mesmo Regimento onde
tinham sido mantidos "sob custódia bravos opositores de duas
ditaduras: a de Getúlio e a dos generais", e cujo comandante, volta e
meia atormentado pelo impulso suicida de se atirar pela janela de seu
gabinete, ouviu de um ilustre encarcerado, o psicanalista e poeta
Hélio Pellegrino, o seguinte diagnóstico: "- No fundo, coronel, o sr. é
também prisioneiro, de si próprio, e acha que a liberdade está lá fora."
É uma página da história política e cultural do país, que ao mesmo
tempo serve ao cronista para avaliar o nível de interesse de seus
leitores pelo assunto. A resposta viria logo depois, em "Memórias do
sufoco cultural", crônica em que celebra a revitalização de um espaço
símbolo da "resistência intelectual à ditadura": o Teatro Casa Grande.
Boa notícia numa época "em que os cinemas de rua estão virando
supermercado e academia de ginástica". Poderia ter acrescentado "e
templos religiosos".
Recorrentes também são certos procedimentos que imprimem o
toque pessoal e revelam o cidadão comum, o transeunte de carne e
osso com quem podemos topar no sinal ou na padaria. As crônicas de
Zuenir nos revelam um narrador que ordinariamente se inscreve no
texto na primeira pessoa do singular, se chama Zuenir e reúne uma
série de traços físicos coincidentes com os do indivíduo Zuenir
Ventura. É uma tática de aproximação, de recorte de um espaço de
cumplicidade que autoriza confidências e nos deixa à vontade para
assumir supostas fragilidades e limitações. A crônica "Pagando mico" é
exemplar a esse respeito: "Essa semana vou virar celebridade, vou ter
meus 15 minutos de fama". Convidado para gravar uma cena de
novela, resiste porque, diante das câmeras, fica "muito burro, mais que
o normal". E justifica: "Aparecer na televisão para mim é sempre um
mico. Durmo mal na véspera, quando fico imaginando as besteiras
que posso dizer, e no dia seguinte com as besteiras que disse."
Os homens se igualam e se humanizam nessas fraquezas. Parece
ser o que nos diz Zuenir, de certa maneira ecoando a voz de Rubem
Braga, a quem evoca, quer nominalmente (Aí de ti, Ipanema, O
exemplo das amendoeiras), quer tematicamente, no apreço pelos
pequenos gestos de generosidade e solidariedade praticados à sombra
do anonimato e tragados pela urgência do quotidiano (Crônica de um
enguiço).
À galeria das crônicas que fazem referência à precariedade da
condição humana pertencem, seguramente, as que versam sobre a
velhice. Aos 73 anos, que só a certidão de nascimento lhe dá, Zuenir
enfrenta com senso de humor a experiência de envelhecer,
especialmente para a autogozação irônica, deliciosamente praticada
em "Um idoso na fila do Detran" e "Se não me falha a..." . Na
primeira, "favorecido" pelo indesejado benefício de "ser idoso", hesita
diante do cartaz que informa "Gestantes, deficientes físicos e pessoas
idosas"; na segunda, cria uma grande expectativa em torno de um
remédio tiro-e-queda para a memória, capaz de desfazer "toda aquela
névoa que envolvia o seu hipocampo" e cujo nome se prontifica a
fornecer: "Pois foi nesse momento que a névoa voltou, foi voltando,
como se eu estivesse subindo a serra de Friburgo: veio vindo, veio
vindo e encobriu tudo."
A impressão geral que se colhe da leitura destas crônicas é que a
palavra do cronista se alimenta espontaneamente de outras duas
vozes: a do repórter e a do cidadão comum. Os olhos e os ouvidos do
repórter o antenam com os fatos, mas é de corpo inteiro que o
cidadão comum assimila o mundo, mergulha no núcleo de certas
experiências e, com o faro afiado do repórter e a hábil ferramenta do
cronista, lhes descobre - se é o caso - o matiz lírico ou dramático, e
extrai delas a lição que, mesmo sendo sofrida, jamais é pessimista. A
escrita que resulta daí é um modelo de harmonia entre o uso culto
padrão e a variedade coloquial brasileira. O tom ameno e amigo da
palavra justa e da reflexão oportuna deixa para o leitor uma sensação
de sintonia e cumplicidade, sem negar-lhe o direito à opinião própria.
O convite, se o explicitasse na página, não seria "leia e veja se
não tenho razão", mas "senta aqui a meu lado, vamos descobrir juntos
a vida que pulsa sob a pele do quotidiano... e trocar impressões". As
páginas que se seguem estão cheias delas. É tempo de o leitor conferilas.
José Carlos de Azeredo

Download

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem