Zuenir Ventura - Cidade Partida PDF

 


Zuenir Ventura acompanha as duas realidades do Rio de Janeiro: a dura vida no morro de Vigário Geral, dos moradores e dos que escolheram entrar para o tráfico de drogas, e a mobilização da sociedade civil pedindo pela paz na campanha Viva Rio. Dois grupos que lutam pelo mesmo ideal: Sobreviver.

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UMA CRÔNICA NOIR

Este livro trata de dois momentos do Rio de Janeiro: um no
passado e outro no presente. A primeira parte — A idade da
inocência — pretende mostrar como a cidade dos anos 50 já
acumulava tensões e conflitos que iriam explodir nas décadas
seguintes. Uma visão romântica e nostálgica costuma apresentar a
cidade desses tempos como uma reconstrução ideal e não como a
cidade real. Mas, vistos à distância, os anos dourados às vezes
escondem o seu contrário.
Na verdade, já existiam então "duas cidades" ou uma cidade
partida, mas a convivência amena, a obediência civil, a falta de
antagonismos de classe e a despreocupação com os problemas sociais
nem sempre deixavam perceber que havia um ovo de serpente
chocando no paraíso.
Se alguns personagens deste livro — como os bandidos Cara de
Cavalo e Mineirinho ou os detetives Le Cocq e Perpétuo —
confirmam o amadorismo da época, outros já antecipam um
profissionalismo moderno ao forjarem certas matrizes de
comportamento atual. Está nesse caso o general Amauri Kruel, o
criador do Esquadrão da Morte. Ele não só inaugurou uma
instituição "moderna", como instaurou uma mentalidade. Violência e
corrupção não foram invenções suas nem dos anos dourados, da
mesma forma que a música brasileira não foi invenção das batidas da
Bossa Nova. Mas os duplos compassos de violência e corrupção
ficarão devendo tanto a esse general do Exército quanto a música ao
seu contemporâneo João Gilberto.
Ao contrário da primeira parte, baseada em pesquisa e uma
espécie de introdução ao tema, a segunda — O tempo dos bárbaros —
É
foi escrita enquanto os acontecimentos se sucediam. É uma história
quase simultânea ou, como se diz, "em processo", com as
dificuldades próprias desses trabalhos que tentam descrever as
situações que estão sendo vividas.
O "bárbaros" do título tem duplo sentido: o que lhe davam os
romanos — para designar os que viviam fora do império — e o que
lhe é dado hoje — para definir os que praticam barbaridade.
O autor escolheu acompanhar a atividade de dois grupos de
cidadãos que durante quase um ano tentaram aproximar "duas
cidades". De um lado, o Viva Rio, movimento da sociedade civil,
espécie de porta-voz da cidade "visível"; de outro, representantes
organizados da comunidade de Vigário Geral, um pequeno pedaço da
"outra" cidade. O ponto de partida das duas experiências, e desta
parte do livro, foi uma tragédia carioca: a chacina de 21 pessoas
naquela favela, um dos marcos da violência dos anos 90.
Se a primeira parte é produto de pesquisas, a segunda resulta de
uma vivência que inclui um mergulho na favela, frequentada
regularmente pelo autor durante dez meses. O relato dessa
experiência ganhou a forma de uma crônica — não uma crônica
solar, mas noir. Constitui um conjunto de impressões de viagem a
um mundo onde a república não chegou.
Nessa terra em que as fronteiras são sempre tênues,
imperceptíveis para quem vê com os olhos de "cá", os contrários
convivem: a alegria e o pranto, a miséria e o prazer, a violência e a
solidariedade, a fé e o crime, o tráfico e a vida honesta, a glória
efêmera e a resistência muda, o medo, a crueldade e o terror — um
cotidiano feito de sofrimento, mas também de uma esperança que às
vezes parece inútil.
É impossível percorrer as ruelas sujas, abandonadas, frequentar
as casas, os bares e os bailes, sem esbarrar com tudo isso ao mesmo
tempo. A aventura pela sobrevivência se desenrola em meio a essa
mistura, mas nem sempre a proximidade produz contágio. Valores e
diferenças são testados e mantidos por convicção própria.
Essa convivência entre contrários é o que torna singular a história
de dois jovens que aparecem na segunda parte do livro.
São da mesma geração, quase da mesma idade, amigos de
infância, seguindo caminhos opostos. Ambos nascidos e criados
naquela favela. Um escolheu a militância cívica. O outro, o crime.
Um é lider comunitário, o outro, chefe do tráfico de drogas.
A tentativa dos dois movimentos convergentes ainda em
andamento — o Viva Rio e o de Vigário Geral — pode ter sido mais
esforço que resultado, talvez apenas um gesto, um exemplo, mas que
aponta um novo caminho, para muitos uma utopia: em vez de
apartar, aproximar. Isso ainda parece mais possível aqui do que em
outros lugares. "O preconceito étnico certamente não foi resolvido no
Brasil, mas o modo de vivenciá-lo é, há muito tempo, o mais
avançado do mundo", escreveu Massimo Canevacci em A cidade
polifônica, elegendoo como "um modelo para a Europa" — para a
Europa e os Estados Unidos. Lá os guetos são étnicos, ao contrário
daqui, onde existe integração de raças. As tribos e os grupos são
apenas sociais e culturais. Não são um determinismo biológico, mas
uma orientação política.
Na verdade, durante este século, desde a reforma de Pereira
Passos e passando pelos planos Agache e Doxiadis, a opção foi
sempre pela separação, senão pela simples segregação.
A cidade civilizou-se e modernizou-se expulsando para os morros
e periferia seus cidadãos de segunda classe.
O resultado dessa política foi uma cidade partida. Juntála talvez
seja tarefa para o próximo século, mas será preciso começar já — até
porque a política de exclusão foi um desastre.
Não apenas moral e humanitário, mas também do ponto de vista
da eficácia. O seu principal produto, o apartheid social, corre o risco
de ter o destino que teve o apartheid racial em outros lugares.
A fantasia da solução final — a remoção e o extermínio — revelouse
igualmente desastrosa, por iníqua e impraticável.
No fim do século passado havia no Rio uma só favela; no fim
deste século elas são mais de quinhentas.
Fracassou enfim o sonho de expulsão dos bárbaros. Eles estão
chegando, ou já chegaram — com suas "vanguardas" armadas,
audazes e cruéis. Ao empurrarem as "classes perigosas" para os
espaços de baixo valor imobiliário, as "classes dirigentes" não
perceberam que as estavam colocando numa situação
estrategicamente privilegiada em caso de confrontocomo nem os
bárbaros do século v tiveram para derrubar o Império Romano.
Sem cinturão de segurança ou cordão sanitário para isolar o
mundo dos pobres do mundo dos ricos, o Rio não cedeu ao inimigo
apenas a vista mais bonita. Os nossos bárbaros já estão dentro das
muralhas e suas tropas detêm as melhores armas e a melhor posição
de tiro.
Os bárbaros são a grande fonte do mal-estar deste final de século.
A exclusão se transformou no problema social maior.
Enquanto dos morros só se ouviam os sons do samba, parecia não
haver problema. Mas agora se ouvem os tiros. Não se trata de uma
guerra civil, como às vezes se pensa, mas de uma guerra pósmoderna,
econômica, que depende das artes bélicas mas também das
leis do mercado, é um tipo de comércio. Por isso não há solução
mágica à vista. Sabe-se que é preciso destruir as "vanguardas" — os
que praticam barbaridades, os traficantes de drogas — numa
operação de força implacável. Exterminá-los, porém, talvez seja mais
fácil do que desmontar o circuito econômico que os sustenta e cujas
pontas — a produção e o consumo — não estão nas favelas.
A experiência relatada neste livro mostra que nenhuma operação
de força fará sentido se a expulsão da minoria delinquente não se
fizer acompanhar de uma ação de cidadania que incorpore
socialmente a massa de excluídos do império — no caso, da
república. Será uma questão de distribuição: justiça social para
muitos e repressão para poucos. O perigo é continuar destinando a
uns o que é devido a outros.
Vigário Geral é uma metonímia do Rio, assim como o Rio é a
parte que pode ser tomada pelo todo chamado Brasil.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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