Zuenir Ventura - 1968, O Ano Que Não Terminou PDF

 


Fascinante reconstituição dos acontecimentos de 1968 no âmbito do país. Os heróis dessa geração que queriam virar o mundo pelo avesso, seus dramas e paixões, suas lutas e vitórias estão descritos neste relato fundamental para a compreensão do Brasil contemporâneo.

Zuenir Ventura - 1968, O Ano Que Não Terminou PDF 

O rito de passagem

"Não acreditava em sonhos e mais nada. Apenas a carne me
ardia e nela eu me encontrava." (PAULO, o intelectual de Terra em
transe)
A crônica da época não lhe dedicou mais do que magras 15 linhas.
Nos registros existentes, ele consta apenas como uma das inúmeras
festas que marcaram a entrada daquele distante 1968. E, no entanto,
para os que viveram o que seria um banal acontecimento, ele
permanece como um misterioso marco cujos símbolos e significados
ocultos a memória e o tempo vão-se encarregando de descobrir, ou
de criar, até obter o material com que se fazem os mitos.
Não terá ocorrido com o "Réveillon da casa da Helô" o que
ocorreu com outros aparentemente insignificantes mas memoráveis
acontecimentos? Afinal, o Último Baile da Ilha Fiscal não mereceu da
imprensa, de imediato, o justo destaque que lhe reservaria a História
— ou a lenda.
Ele foi dos "melhores", assegura uma das colunas sociais da
época, sem porém lhe dar a correspondente importância, preferindo
contemplar as razões mais fúteis: "o scotch era legítimo", dizia a
colunista Léa Maria; o som "combinava carnaval com iê-iê-iê" e os
trajes se apresentavam variados — "smokings, longos formais, curtos
mini, roupas hippies de luxo". — Além disso, o elenco de convidados
era atraente: "metade gente de cinema e teatro novo; a outra metade,
grupos de jovens assessores lacerdistas".
Ah, sim, havia também a casa: uma bela construção no alto do
Jardim Botânico, toda feita com sucata de demolição — um estilo
que a audácia arquitetônica de um certo Zanine inventara para se
transformar logo numa moda chique.
A casa parecia uma adaptação cinematográfica especialmente
escolhida para aquele espetáculo. Entrava-se por um portão e logo à
esquerda começava a perna mais longa do L que lhe dava forma; aí
ficavam os quartos. A grande sala completava o L e fechava o terreno
ao fundo. Com o muro à direita, tinha-se a impressão de estar num
pátio interno espanhol. Do portão até a sala, devia-se percorrer um
grande retângulo gramado, com uma bela e cinquentenária árvore.
Cada um desses detalhes topográficos ou arquitetônicos iria ter um
papel importante na noite.
Mas a festa, evidentemente, não foi importante apenas pelo
décor. O réveillon promovido pelo casal Luís-Heloísa Buarque de
Hollanda foi muito mais do que sugerem as descrições feitas no calor
da hora — pelo menos para a história que se vai contar. Não que
tivesse mudado o destino do país, longe disto Mas talvez porque
condensasse e antecipasse um estado de espírito e um clima que
seriam predominantes no período.
A sua significação para 68 talvez seja idêntica à da famosa
sequência da festa de Terra em transe — então, a referência cultural
obrigatória. Sem ela, o filme de Gláuber Rocha provavelmente não
iria deixar de ganhar o prêmio especial da crítica em Cannes e nem
perderia o carisma de obra-prima do cinema brasileiro Mas
certamente não seria o mesmo; da mesma forma, um dos presentes à
festa, o jornalista Elio Gaspari, acha que "depois do réveillon da
Helô, o Rio nunca mais foi o mesmo".
Por sua composição, que incluía mais facções sociais, políticas e
ideológicas do que as citadas nas colunas, a festa de Helô, tanto
quanto a de Gláuber, foi vivida como a alegre metáfora — ou paródia
— de uma ampla e variada aliança política, algo assim como a que o
VI Congresso do Partido Comunista propusera, meses antes, para
unir as "forças progressistas" a fim de lutar contra a ditadura e quem
a sustentava: o imperialismo. Acreditava-se — não só nas festas —
que derrubar uma era atingir o outro, e nada melhor contra os dois
do que juntar no mesmo saco a esquerda tradicional, os intelectuais,
os operários, os estudantes e a chamada burguesia nacional que, por
nacional, certo seria naturalmente anti-imperialista A luta de classes
que esperasse. Pode-se alegar que nas representações festivas faltava
o ator principal — a classe operária. Mas era assim mesmo: era como
se as forças progressistas tivessem chegado mais cedo à festa ou ao
processo histórico. Estavam guardando lugar — senão na festa, ao
menos na História — até a à entrada dos verdadeiros protagonistas,
os operários.
Quem, por achá-las inadequadas, não concordar com essas
analogias metafóricas tão ao gosto da época, pode recorrer a outras.
Nesses 20 anos, o "Réveillon da casa da Maria Helô" virou um
depósito de sugestões e referências. Ele pode ter sido, por exemplo, a
versão festiva da Frente ampla, o movimento que o ex- governador
Carlos Lacerda conseguira articular meses antes, atraindo como
aliados mas dois ferozes ex-inimigos, os ex-presidentes Juscelino
Kubitschek e João Goulart. Por que não? ais do que buscar
diferenças ideológicas e pessoais, era hora de procurar os seus pares,
acertar o passo e dançar conforme a música. O Tropicalismo
permitia as combinações mais esdrúxulas. Esse desejo de alianças
improváveis era visível até em acontecimentos como o célebre
casamento de Nara Leão e Cacá Diegues, cujos padrinhos foram o
Samuel Wainer e Maria Clara/Sérgio Lacerda -dois sobrenomes que
ninguém pensaria em juntar antes nem em enterro. omo em toda
passagem, havia na casa de Helô uma mistura de frustração e
esperança. Algo tinha-se movido em 67, ainda que parecesse que se
movera para continuar igual.
De qualquer maneira, a ditadura havia trocado de ditador, a
legislação revolucionária fora substituída por uma Constituição —
tudo bem, mas já era uma Constituição -, um presidente bonachão se
dizia preocupado com a "normalização democrática" e uma nova
geração parecia disposta a deixar a marca de sua presença em todos
os campos da História. Muitas vezes o ano iria dar a impressão,
repetindo Millôr Fernandes, de que o país corria o risco de cair numa
democracia. Com algum otimismo, encontravam-se boas razões para
se esperar um feliz 68. A efervescência criativa de 67 não era por
certo um mau sinal. Terra em transe, Quarup, o Tropicalismo,
Alegria, alegria, O rei da vela, talvez fossem só o começo. Além do
mais, o movimento estudantil, cujas entidades haviam sido postas
fora da lei pelo golpe de 64, vinha se reorganizando e mobilizando a
massa de secundaristas e universitários.
Havia — que a distância não nos deixe esquecer — a ameaça
incansável da censura e de outras forças obscurantistas. Mas estes
riscos de retrocesso encontravam o setor cultural vigilante e cada vez
mais consciente da necessidade e da possibilidade de resistência.
Havia, enfim, como sempre, a situação social e política carregada de
problemas — o arrocho salarial, os sindicatos sob intervenção, uma
insuportável inflação de 4~7r ao ano que Delfim Netto prometia
reduzir para 25 Mas, segundo governo militar anunciava que queria
restabelecer o diálogo com a sociedade e com a classe política Só por
isso o ano de 68 já seria um avanço.
Um personagem que viveu intensamente aqueles tempos, o
diretor de teatro Flávio Rangel, manifesta, 20 anos depois, a
sensação de que havia entre 67 e 68 um mal percebido clima de
abertura, uma "primavera" — que lembrava uma outra,
contemporânea, a de Praga, e que, como esta, seria abortada, ainda
que sem invasão de tanques. No depoimento que deu para este livro,
em dezembro de 1987, ele disse que só experimentaria clima
semelhante nos anos 80.
Mas voltando ao réveillon dessa frustrada abertura: encontravase
ali uma parte considerável da inteligência brasileira que
produzira, ou iria produzir do bom e do melhor. Com aqueles
talentos, era possível organizar uma preciosa antologia. Com as
vontades políticas ali presentes, poder-se-ia fazer a Revolução, isto é,
a grande utopia daqueles tempos. Isso, evidentemente, se o processo
revolucionário dependesse apenas das condições subjetivas — e os
anos seguintes iriam demonstrar dramaticamente que não, que
volição e revolução às vezes não passam de um trocadilho.
Como o Brasil de então, o réveillon de Helô tinha tudo para dar
certo, a começar pela dona da casa. A professora Heloísa Buarque de
Hollanda, bonita, culta e de esquerda, era mito e ícone da
intelectualidade carioca dos anos 60. Com esses tempos a "Bela
Mestra" iria fazer a matéria prima de sua tese de doutorado uma
década depois. Misturando duas viagens — a sua e a da História -, o
seu trabalho ensinaria ao meio acadêmico que saber e competência
não precisam ser chatos.
A organização da festa, entregue a uma comissão, ou a um
"coletivo", como era de bom-tom dizer, parecia perfeita. Na verdade
não foi: havia mais motivação do que competência, como aliás em
tudo o que se organizava então. É bem verdade que os convites eram
à prova de falsificação. Um dos organizadores, o editor Sérgio
Lacerda, na época o principal diretor da Datamec, uma empresa de
processamento de dados, informatizou os ingressos, personalizandoos
Mas nem isso adiantou. Lá pelas tantas, Luís Buarque, diante da
iminente invasão, baixou uma ordem para o porteiro: "Se não estiver
nu, deixa entrar." A anfitriã e um elenco de outras estrelas da época
Maria Clara, Marília, Maria Lúcia, Glória, Dílmen tomaram as
providências indispensáveis. O som foi alugado na Josias. Para
entrar, além do convite personalizado, ficou decidido que cada casal
deveria levar uma garrafa de scotch, ou uma quantia correspondente
a ser usada na preparação da comida e no conserto de eventuais
estragos patrimoniais.
Alguém, no início da noite, porém, teve a intuição de que um dos
dois — a festa, não ainda o país — corria um certo risco. O jovem
advogado Rui Solberg, que ajudara na organização, chegou cedo,
com sua mulher Glória Mariani, e pediu dois uísques. Era só "para
começar", uma espécie de entrada a uma noite que se anunciava
longa e promissora. Quando atenderam ao pedido, ocupando-lhe as
mãos com duas garrafas de uísque escocês, ele levou um susto.
Pensou: "Isto não vai dar certo." Veterano de festas, Rui não se
lembrava de jamais, em qualquer delas, ter sido presenteado com
duas garrafas ao pedir duas doses.
Apesar do exagero da oferta, Rui não devolveu as garrafas, graças
ao que tem hoje apenas lembranças vagas do que fez naquela noite —
ou, mais precisamente, do que lhe fizeram.
Recorda-se confusamente, por exemplo, de que foi "sequestrado"
para um canto deserto da casa por uma das jovens mais atraentes da
festa e daqueles tempos. Sem esforço, quase contra a vontade — se a
expressão no caso não fosse uma impropriedade -, Rui fora premiado
com um dos tesouros da noite, mas não só ele. Muitas das
reminiscências da festa registram o mesmo episódio repetindo-se
com outras bem aventuradas vítimas.
Nem todos, porém, se embriagaram. Gláuber Rocha, por
exemplo, que não dançava e quase não bebia — as drogas, mesmo a
maconha, ainda não frequentavam oficialmente as reuniões sociais -,
preferiu se divertir atiçando discussões entre os grupos. A sua cabeça
estava ocupada em parte com a infindável polêmica suscitada por
Terra em transe e em parte com o novo projeto para 68, O dragão da
maldade contra o santo guerreiro. Seria difícil repetir o sucesso
artístico do ano anterior, mas qualquer que fosse a qualidade do
resultado, tinha-se a garantia de alguns meses de apaixonadas
discussões e generalizadas controvérsias. Ninguém depois de
Gláuber, nem mesmo José Celso Martinez Corrêa, nem Caetano
Veloso, dois mestres na arte da agitação cultural, possuiu idêntica
capacidade de desarrumar convicções estabelecidas — e de aglutinar
ódios e paixões. Ele era um dos principais polos de atração da festa e
do país naquele momento, e até morrer. em 82, Outros, apesar da
importância, eram menos notados, como Geraldo Vandré.
Esbarrava-se com o ainda pouco conhecido compositor sem se
desconfiar de que ele viria a ser um dos personagens mais notórios
do ano que começava. Ao contrário do que ensinaria sua famosa
canção "quem sabe faz a hora, não espera acontecer" , ele não soube
fazer a sua na festa. Imobilizou Millôr durante horas num canto da
sala, com uma discussão meio sem sentido, e foi por isso o
responsável pelo humorista ter sido, como brinca, "o único a não
arranjar ninguém naquela festa". Em compensação, Millôr sente até
hoje prazer em dizer: "Ele é o autor da nossa Marselhesa, o nosso
autêntico hino nacional." Num canto da sala, o editor Ênio Silveira
parecia se exaltar com o artista plástico Carlos Vergara. Não era
preciso estar perto para adivinhar o conteúdo de uma discussão que
envolvia um prócer do PC — responsável por alguns dos mais
significativos lançamentos da época — líder político de sua categoria,
que por suas posições radicais era chamado de "Che Vergara". O
bate-boca dos dois anunciava um antagonismo que iria se ampliar
com o tempo: a discussão entre comunismo e anticomunismo de
esquerda.
Regada pelo legítimo e generoso scotch, a demorada troca de
ideias — talvez mais de insultos do que de ideias encerrou-se com um
edificante diálogo que muitos puderam apreciar: — Os novos tempos
vão exigir muita macheza política — foi mais ou menos o que disse
Vergara.

Download 

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem