Yves Buin - Kerouac PDF

 



Yves Buin - Kerouac PDF 

O ancestral
Dentre todas as paixões que agitaram Jack Kerouac, uma jamais o
deixou: a paixão genealógica. Por certo, o sonho com as origens é bem
comum, ainda que um dos mais perturbadores. É um salto no desconhecido,
um enunciado do país das sombras, uma estadia fictícia entre os que, há
muito tempo, nos inscreveram numa história por acontecer, a nossa, da qual
constituímos, para nós mesmos, o ponto final muito provisório. A sequência
mais próxima dessa saga é o roteiro primitivo de nossa concepção, no qual
um desejo de viver se encarnou, aleatório, acidental. Todos sabem que
poderiam não ter nascido. O não nascido, esse duplo indizível, habitou Jack
Kerouac. Talvez estivesse na base de sua atração pelos filósofos orientais?
Mas reconhecemos que em determinado momento nossa ascendência se
apaga, que os que foram deixados na memória desaparecem de novo e que
apenas algumas referências plausíveis permanecem. Ordená-los é a obra da
genealogia.
Em relação a esse capítulo, os imaginários são bem-ativos e Kerouac,
bem-inventivo. Ele será iroquês, da velha nobreza bretã, ligado aos
Bonaparte, eventualmente da linhagem do papa Pio VI e até persa... Os
Kerouac da América não vão ficar devendo. Os Kerouac, Kerouack,
Kirouac, Kirouack, Kyrouac reivindicarão todos uma mesma linhagem,
formarão associação criada em 1979, elegerão uma presidência e farão
peregrinação à terra bretã, precedidos, já em 1892, pelo pai Julien Adrien
Kirouac, que foi o primeiro a tentar situar a filiação, convencido de que ela
era nobre. Ele fracassará junto de um marquês de Kerouatz que possuía
castelo em Guingamp e em Lannilis, cuja divisa familiar era: “Tudo em
honra de Deus”. Mas esse marquês não era um Kerouac. Essa viagem, Jack
Kerouac, sozinho, realizará por sua vez no final da jornada, com total
fidelidade na angústia e no fervor: “Ti-Jean, nunca se esqueça de que você é
bretão”.
Segundo as pesquisas mais conclusivas, as de Patricia Dagier, foi em
torno de Urbain Le Bihan, sieur de Kerouack, sucessivamente Alexandre de
Kerouac ou Maurice-Louis Le Bris de Kerouack, que a trama se fez. Porém,
antes, precisamos voltar a 1648, em Morlaix, paróquia de Sainte-Mélaine,
onde se instala a família Le Bihan de Kerouach. Morlaix é descrita então
como uma cidade extremamente animada, acolhedora, cidade de
mercadores e marinheiros, aberta também a toda a Céltia. Auffroy Le
Bihan, nascido em 1618 em Lanmeur, de Henry Le Bihan e Jeanne Le
Disez, incorporou a terra de Kerouac, pequeno vilarejo no sudeste de
Lanmeur. Auffroy chega a Morlaix com a idade de trinta anos e se casa com
Marguerite Manchin, que morre em 1657 depois de lhe dar cinco filhos, dos
quais dois homens: Laurens (nascido em 1647) e Henri (nascido em 1657).
Casado novamente em 1659 com Marie Le Joyaux, que lhe dará por sua vez
dois filhos, Auffroy morre em Lanmeur com quarenta e quatro anos, em
1662, e Laurens o sucede. Em 1670, Laurens se casa com Anne Calaix e
vive em Huelgoat, no coração de Argoat, a trinta quilômetros de Morlaix.
Em fevereiro de 1670 nascem gêmeos. Laurens será feito notário em 1675.
A promoção social de sua família não será alterada pela revolta que sacode
a Bretanha de 1674 a 1680.
Laurens morre em 1686, seu filho François-Joachim o sucede e é
nomeado notário em 1691. Ele será uma figura notável incontestada em
Huelgoat. Em 1698, será homenageado com uma pedra talhada fixada perto
do grande portal acima da fachada da igreja, onde se pode ler: “Mandada
construir por Mestre François Le Bihan, notário, para a Fábrica”. François-
Joachim só tem trinta e dois anos. No dia quinze de julho do mesmo ano,
casa-se com Catherine Bizien. Seus filhos conhecerão uma juventude
dourada. Em 1706 nasce Urbain-François (o ancestral). Em 1709, o mais
velho, Laurens, entra no exclusivo colégio dos jesuítas de Quimper, o mais
reputado da Bretanha, logo seguido por Charles Marie François e Urbain-
François, e estudarão francês, latim, grego, filosofia, retórica, teologia,
numa época em que toda a região sente o apelo do largo, pois basta chegar
às portas da cidade para ver os grandes navios que sobem o Odet, um dos
rios da região (além do Steir), para se imobilizar em Quimper, enquanto a
Companhia das Índias está sendo instalada em 1664 por Colbert, em
Lorient. Uma tia Mauricette, irmã de François-Joachim e mulher de Jean
Chesnau, oficial de justiça depois vendedor de loja de vinhos, morava em
Brest, bairro de Recouvrance, e recebia as crianças, que adoravam subir a
Rue de Siam. Brest – sua enseada, seus navios coloniais, o arsenal, a
Penfeld – não deixará de despertar os filhos de François-Joachim para os
rumores marítmos.
Em 1711, Catherine Bizien morre com a idade de 44 anos. Em
novembro, François-Joachim casa-se em segundas núpcias com Julienne Le
Floch. Em 1720, no dia 23 de setembro, explode uma intriga contra Urbain-
François em seguida a uma denúncia caluniosa. Ele é injustamente acusado
de roubo – o que, ainda assim, resulta em um julgamento em tribunal, onde
tem ganho de causa. Trabalhando há muitos anos no escritório notarial de
seu pai, mesmo inocentado, é aconselhado, a fim de não manchar a
reputação de ofício da família, a exilar-se na Nova França (Canadá). Não se
sabe exatamente quando chega ao Novo Mundo, mas um documento
assinado em 25 de janeiro de 1727 atesta que ele já estava lá nessa data.
Muito provavelmente ele deve ter partido quando tinha seus 20 anos.
Desembarca, portanto, na América sob os nomes de Alexandre de
Kerouach, Alexandre Le Breton ou ainda Hyacinthe Louis de Kerouach Le
Bihan. Vai levar uma vida aventurosa, a exemplo dos missionários jesuítas
tidos como corajosos e intrépidos. Comerciante de peles, caçador, fora da
lei e impetuosamente independente, negocia com as tribos ameríndias.
Sucumbirá também ao encanto de alguma índia e se instalará em Quebec.
Em 1731, encontra Marie-Louise Bernier, uma moça de 20 anos que
ele engravida. Um menino nasce em 1732: Simon-Alexandre. Instalado em
Cap-Saint-Ignace, paróquia às margens do São Lourenço, o casal se casa na
igreja em 22 de outubro de 1732. Urbain-François leva então o nome de
sieur Maurice-Louis Le Bris de Karouac da paróquia de Berrien, bispado de
Cornouaille. Em 1733 nasce um segundo menino: Louis. No decorrer dos
anos, Urbain-François adquire uma grande reputação na paróquia de Saint-
Ignace e compra uma terra na seigneurie de La Rivière-du-Loup. Em 1735,
nascimento de um terceiro menino, chamado Alexandre, do qual se perdeu
o rastro.[1] A família deixa Saint-Ignace para se instalar em Kamouraska,
encantador vilarejo situado sobre o São Lourenço, a 25 quilômetros de
Quebec.
Em 5 de março de 1736 morre Urbain-François, sepultado no
cemitério da paróquia Saint-Louis de Kamouraska sob o nome de
“Alexandre Kerloaque, bretão de natureza, com a idade de cerca de 30 anos,
comerciante de função”. Assim se sela o destino mítico do ancestral vindo
do mundo longínquo e primordial cuja vida ensejará todo um florilégio de
contos e fábulas bizarras, como a história do tesouro dos Kerouac recolhida
por J.-C. Dupont em suas Légendes des villages. Depois de seu
desaparecimento precoce, quando sua reputação era notável e seus negócios
florescentes, foi sua mulher, Marie-Louise Bernier – sempre segundo
Patricia Dagier –, que fortaleceu a primeira descendência. Na ocasião da
morte de Alexandre, ela tem 24 anos de idade e recebe pouco como
herança, uma vez que Alexandre estava em vias de desenvolver novos
negócios e de começar a investir em uma imensa terra ainda inexplorada – a
terra dos Trois Ruisseaux –, cuja exploração futura era ainda apenas um
projeto. Ela assina então um documento de abandono de propriedade, em
1739, e vai viver em Cap-Saint-Ignace com seus dois filhos, Simon-
Alexandre e Louis, que constará nos atos notariais sob o nome de Louis
Caroach Jean Rodrigues. A breve vida em comum com Alexandre tinha
sido feliz e seu falecimento a entristece. Ela não teve segunda união.
Dedicou-se aos filhos, que depois cuidaram dela. Quando morre a mãe, em
1746, a situação material se torna claramente melhor. Ela morrerá em março
de 1802 com noventa e um anos. Algum tempo antes, seu segundo filho,
Louis, tinha sido o primeiro a se casar, em 1757, com Marie-Catherine
Methot, em Cap-Saint-Ignace; em junho de 1758, Simon-Alexandre fará o
mesmo com Élisabeth Chalifour na paróquia de L’Islet. Ele será pai de treze
crianças, e Louis, de nove. Esses vinte e dois Kerouac serão a primeira vaga
da linhagem. Simon-Alexandre morrerá em 1812 com oitenta anos e será
sepultado em L’Islet sob o nome de Alexandre Kerouac. Louis morreu em
1779 em Cap-Saint-Jacques sob o nome de Louis Kerouac dito Bretão.
Há uma outra pista também, que não exploraremos, conduzida por
Clémentine Bernier! – novamente uma Bernier! –, da linhagem materna dos
avós maternos, que seria ligada ao explorador Bernier. Essa pré-história
obcecará Kerouac a vida inteira, algumas vezes na fantasia, a exemplo do
francês nobre e aventuroso inventado por ele que parte de volta para a
Bretanha em 1705, ou de um outro, do exército de Montcalm, casado com
uma princesa iroquesa; porém o mais das vezes o obcecará com gravidade,
como ao ser visto no British Museum em abril de 1957 consultando a
heráldica e descobrindo a divisa dos Kerouac, ou, ainda, em junho de 1965
durante uma calamitosa viagem a Brest, conversando em meio aos vapores
alcoólicos com o livreiro Pierre Le Bris. Sua nostalgia elegerá a terra de
Cornualha, mesmo ignorando o humilde vilarejo de onde tudo veio,
patrônimo e lenda. Escutando o Pacífico junto das falésias fúnebres de Big
Sur, em 1960, ele escreverá sobre sua arrebentação, e seus pensamentos se
voltarão para o litoral bretão onde sonha encontrar um dia as harmônicas do
Atlântico, quando lá estiver.
Em seu frenesi, ele multiplicou as etimologias e triturou o gaélico Ker
(água) e ouac (língua), interrogou o irlandês e pôs na frente um Kerwick,
complicou sua exploração com as derivações de Ker, Kerre, Karre em
gaélico, car em córnico, câr em gaulês, Ker e Kir em bretão, sem falar do
“ouac” que apareceu em ortografias vizinhas – normandas e não célticas –
ozac’h ou ozec’h. Toda essa mistura será por ele exposta em 1967, na sua
longa entrevista para a Paris Review.
Essas brumas dispersas, essa volta no tempo nos leva para a segunda
metade do século XIX, em Quebec, no condado de Rivière-du-Loup, onde
trabalha como artesão carpinteiro Jean-Baptiste Kerouac (1848-1906), o
marido de Clémentine Bernier. Ele vive no vilarejo de Saint-Hubert, perto
das montanhas Notre-Dame, que Kerouac situa no condado próximo de
Témiscouata, “provavelmente, como escreve Barry Miles, porque este
nome lhe agradava”. Jean-Baptiste é ao mesmo tempo rude e inteligente.
Fala muito pouco inglês e exprime-se em “joual”, um patoá heteróclito no
qual se misturam palavras e expressões vindas de diferentes lugares e
estratos da imigração francesa às quais se juntam alguns trechos de línguas
ameríndias, considerando a coexistência de diversas etnias. Cansado de seu
vilarejo, decide emigrar para os Estados Unidos, na Nova Inglaterra, onde
existe uma importante comunidade de canadenses franceses emigrados, e se
fixa em New Hampshire, em Nashua, perto de Lowell (Massachusetts). Não
entra na manufatura têxtil, como a maioria da comunidade católica dedicada
ao trabalho e submissa. Insiste nas atividades florestais, cria sua empresa,
modesta porém suficiente para lhe assegurar um nível de vida aceitável.
Pouco antes da partida da família, nasce seu filho Joseph Alcide Leo
Kerouac (ou Kirouac), dito Leo, em 5 de agosto de 1889, que terá condições
de chegar à escola secundária e desviar-se mais tarde não apenas da
atividade têxtil como também da madeira, para se tornar impressor.
A linhagem materna preocupa menos Kerouac, de tanto que a origem
de seu nome e a aura paterna ocupam seu pensamento. A mãe se chama,
contudo, Gabrielle Ange L’Evesque, de velha cepa normanda. Ela nasceu
em 1895 em Saint-Pacôme, no condado de Kamouraska (onde viveu, como
vimos, Alexandre, o ancestral), a 120 quilômetros de Rivière-du-Loup.
Contava-se na família que a avó de Gabrielle tinha sangue iroquês nas
veias, hipótese sobre a qual Kerouac fabula, imaginando ser metade índio,
metade canadense. Órfã aos 14 anos, despojada dos bens por seus tutores,
Gabrielle vai por sua vez para os Estados Unidos, não tendo outra escolha
senão trabalhar em uma fábrica de sapatos, casa-se com Joseph Alcide Leo
em 25 de outubro de 1915 e lhe dá 3 filhos: Gerard (nascido em 1916),
Carolyn (apelidada Ti-Nin, 1919), Jean-Louis (Ti-Jean, 1922), que, mais
tarde, se tornará Jack.
[1]Em um artigo publicado em Les Bretons en Amérique française (15 de abril de 2004)
sob a coordenação de Marcel Fournier, pela editora Les Portes du Large, de autoria de
Patricia Dagier, Alexandre filho é substituído por Simon-Alexandre – ele aparece então
com o nome de Alexandre Le Bris de Kerouac (24 de maio de 1735 - 21 de agosto de
1779) – e o faz se casar com Élisabeth Chalifour. Simon-Alexandre, por sua vez, nasce em
1760 e morre em 1823. Casado com Ursule Guimont, é provavelmente um dos netos de
Urbain-François.

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Ahmed Zayed

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