Yuri Vieira - O Marceneiro e o Poeta PDF

 


Yuri Vieira - O Marceneiro e o Poeta PDF 

O MARCENEIRO E O POETA
banco de madeira rústico, que ele, com
a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor
avaliar o estrago causado pelos cupins. Com um formão, ia seguindo e
alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da
semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis
pessoas sentadas lado a lado —, e estava carcomido por toda sua extensão. O
Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente
todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da
parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por
aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia
observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a
missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas
maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da
tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não
sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um
negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era
a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo
hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um
artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente
davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e
espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em
nosso refúgio de escritores?
“¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é
mais eficiente na destruição do banco?”
Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: “Pois
é… Isso aqui é como combater um câncer… A gente precisa retirar o que tá
podre antes de iniciar o tratamento.”
“Humm… Você então trabalha mesmo como marceneiro, né.”
“Bom, a marcenaria é meu salva-vidas…”
Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava
os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de
desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de
madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio,
mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei,
embaraçado com minha tarefa.
“¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?”
“Ele me disse que voltava em uma semana.”
“¿E você va–”
“¿Ela tá com medo de mim, não tá?”, me interrompeu, sem deixar de
mirar o banco.
Eu sorri: “Na verdade… sim. Quer dizer, não é bem meeedo…”
“Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?”
“Exatamente”, respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e
que não era dado a rodeios. “Mas você não precisa ficar chateado com ela.”
“Não, claro que não, eu entendo.”
“Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida
costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às
vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?”
Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa
franqueza mútua, tivesse sido quebrado.
“Yuri — ¿seu nome é Yuri, né? — me passa por favor essa caixa de
ferramentas aí do seu lado.”
Estendi-lhe a caixa, que parecia uma caixa de engraxate, e resolvi ser tão
direto quanto ele.
“¿E então, Antônio?”, comecei em tom amistoso. “Além de ser um cupim
gigante, ¿há sobre você algum outro dado ameaçador que poderia fazer a Hilda
perder o sono?”
Ele parou com seu trabalho e me olhou direto nos olhos, sustentando uma
expressão simultaneamente irônica e inocente. As ferramentas luziam dentro
da caixa, que ele acabara de abrir.
“Humm. Depende… ¿Você acha que ela ia ficar assustada se soubesse que
eu sou… um fugitivo da justiça?”
Meu interesse viu-se elevado ao cubo.
“¿E você é?”
Ele riu, retomando o serviço: “Sou sim. Faz dois anos que fugi da prisão.”
Uma eletricidade percorreu meu corpo só de imaginar a reação da Hilda ao
receber uma notícia como aquela. Uma eletricidade extática. Muito difícil evitar
pequenos prazeres sádicos, ainda mais diante de uma mulher com discretas
necessidades masoquistas. A Hilda certamente ficaria aterrada com a
informação, mas a receberia rindo nervosamente, curtindo mais essa ironia do
destino. “Meu Deus, Yuri! Essa casa só atrai gente estranha!!”, diria,
degustando seu mais novo motivo para entrar em pânico.
“Peraí, Antônio, ¿não me diga que você já matou alguém?”
“Quando a gente fala em prisão, todo mundo já pensa logo em homicídio.
Mas não, nunca matei ninguém não.”
“¿E você foi preso por quê?”
“Drogas.”
“Ah, você traficava.”
“Não exatamente. Eu semprei fumei maconha. Maconheiro mesmo. E um
dia eu saí com um sobrinho meu, de carro. Uma blitz parou a gente e ele tava
com uma trouxinha no bolso. Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas achei
que minha irmã fosse me culpar caso ele fosse preso. Então eu disse ao polícia
que eu é que tinha dado o bagulho pra ele. Foi uma burrice dupla: primeiro
porque ele era menor de idade e não ia ter maiores problemas; segundo porque
eu não sabia que, na lei, presentear alguém com drogas é considerado tráfico.
Artigo 12.”
“Caramba. Onde foi isso?”
“Em Goiânia.”
“Ah, essa é boa! ¿Então você é de Goiânia? Morei alguns anos lá.”
“Eu cresci no Setor Macambira. Fiquei preso no CEPAIGO.”
Antônio agora retirava uma das pernas do banco, inutilizada pela ação dos
cupins.
“Nossa! O Carandiru do cerrado… ¿Você já tinha passado por algo assim
antes?”
“Não, nunca. Nunca fui do crime. Aprendi marcenaria primeiro com meu
pai e depois numa escola técnica. Sempre trabalhei com isso, desde a
adolescência. Meu pai achava ridídulo dizerem que criança não deve trabalhar.
Ele tava certo: sem um ofício a pessoa tá é perdida… Também participei de

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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