Yoani Sánchez - De Cuba, com carinho PDF

 


Yoani Sánchez escreve um dos blogs mais visitados do mundo, Generación Y, com vários milhões de acessos mensais, mas quase não consegue ser lida em Cuba, onde mora com seu marido Reinaldo Escobar e seu filho adolescente Teo. Quando eleita pela revista Time uma das mulheres mais influentes do mundo, ou quando recebeu o prêmio Ortega y Gasset, seus feitos não foram registrados, muito menos festejados pelo governo cubano. Mas ela não escreve sobre política. De Cuba, com carinho é um belo livro que narra a vida cotidiana de quem vive na ilha, sofre com a decadência da economia cubana, mas ama seu país. Alguém que não deseja que conquistas obtidas nas últimas décadas sejam jogadas fora, mas acha que o regime envelheceu junto com seus dirigentes. E conta tudo isso em textos cheios de vida, humor e certo amargor, mas muita esperança.


Yoani Sánchez - De Cuba, com carinho PDF 

Cuba virtual:
a história de uma balseira
no ciberespaço
GARRAS E ASAS
Há criaturas mestiças difíceis de classificar em alguma ordem
e uma delas é a minha escrita, a meio caminho entre a crônica, o
exorcismo pessoal e o grito. O hipogrifo que nasceu desses dois
anos escrevendo um blog na internet tem garras reais fincadas no
cotidiano para extrair os episódios que coloco nos meus posts. Suas
asas são brinde da virtualidade, o imenso ciberespaço onde meus
textos fazem o que eu não poderia: mover-se e expressar-se
livremente. Ao olhar esse híbrido, alguns pensam que seu corpo
leonino está próximo do jornalismo, enquanto outros o julgam
literatura. Eu, que já não posso controlar os empurrões e arranhões
que levo desse animal, só consigo recordar que seu nascimento foi
uma terapia pessoal para espantar o medo, para sacudir o temor
escrevendo – precisamente – sobre aquilo que mais me paralisava.
A unha retocada dessa besta virtual pode ser vista no site
Generación Y (Geração Y), porém a maior parte de sua anatomia tem
lugar na Cuba real do início deste milênio. Justamente num país
onde as classificações se revelam rígidas e os apelativos
contundentes. Aqui só é possível ser “revolucionário” ou
“contrarrevolucionário”, “escritor” ou “alheio à cultura”, pertencer
ao “povo” ou a um “grupelho”. Enfim, não há espaço para que meu
hipogrifo voe livre, sem o grilhão do “conflitivo” e sem as
represálias de quem não entende sua natureza híbrida. De maneira
que minha escrita acabou por mexer com minha vida, mudá-la,
virá-la de pernas pro ar e até colocar-me na mira de instituições
culturais e repressivas. Cada vez mais gostaria de imaginar que
minha obra está numa prateleira e não que a carrego nos ombros –
cada minuto de minha existência –, dizendo-me se continuo livre
ou se termino atrás das grades, se consigo ou se me negam uma
autorização para viajar ao exterior e se no térreo do meu prédio
estão – ou não – os dois homens que me seguem por toda parte.
De sde aquele abril de 2007, no qual comecei a redigir
minhas desencantadas vinhetas da realidade, não tive um minuto
de tédio. Em centenas de ocasiões evoquei – ao olhar o lugar de
minha passada inércia – quão sossegada eu estava até abrir a boca.
Em uma sociedade como a minha, pronunciar-se é o caminho mais
curto para atrair problemas. Ao tentar livrar-me de certos demônios
acumulados, na realidade estava gerando endríagos de múltiplas
cabeças que saíam totalmente de meu controle. Gostaria de ter
vivido mais placidamente o ato de escrever, mas em Cuba não há
escolha, não há lugar para criaturas híbridas e inovadoras como
pode vir a ser um blog.
Batizei meu novo espaço de exorcismo Generación Y, um blog
inspirado em gente como eu, cujo nome começa por (ou contém)
um “ípsilon”. Pessoas nascidas na Cuba dos anos 1970 e 1980,
marcadas pelas escolas rurais, pelos bonequinhos russos, pelas
saídas ilegais e pela frustração. Pois naquelas décadas tão
controladas, ao menos uma parcela de liberdade ficou sem
supervisão: o simples ato de dar nome aos filhos. Daí que nossos
pais – padronizados até ao excesso, todos vestindo o mesmo
modelo de calça ou de blusa que o racionamento lhes concedia –
se esbaldavam colocando esses nomezinhos exóticos. Sou fruto
direto dessa nesga de liberdade onomástica isenta de fiscalização,
daí minha obsessão por forçar os limites. Pertenço a esse
amontoado disperso, que inclui tanto interrogadores da polícia
política quanto jineteros [1] que caçam turistas para arrancar dólares.
Porém, uma corda de cinismo nos mantém atados uns aos outros. A
dose necessária para viver numa sociedade que sobreviveu aos
seus próprios sonhos e que viu o futuro esgotar-se antes de chegar.
A penúltima letra do alfabeto se destaca entre os que entraram na
puberdade quando o muro de Berlim já tinha caído e União
Soviética era apenas o nome de uma revista em cores que se cobria
de pó nas bancas de jornal. Na falta de utopias às quais aferrarse,
somos uma geração de plantas no chão, vacinada de antemão
contra as quimeras sociais.
Tampouco meu breve passado – de pioneira repetidora de
palavras de ordem, de adolescente evasiva e de aprendiz de toda e
qualquer linha esotérica que estivesse à mão – conta pontos diante
dos que exigem um histórico que me sustente. A esses tento dizer
que sou apenas uma trintona compulsiva que gosta de digitar e
registrar por escrito suas vivências; mas eles precisam de mais.
Exigem que, como nesses currículos exagerados, eu declare que
sempre fui esse amor de rebelde que pareço ser agora. Nem
pensar. Generación Y é a coisa mais arriscada que fiz em minhas três
décadas de vida e, depois de começar a escrevê-lo, sinto com
frequência os joelhos tremerem. Para evitar endeusamentos e
futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu
blog é um exercício pessoal de covardia: dizer na rede tudo aquilo
que não me atrevo a expressar na vida real.
Além do medo, há a delicada questão da tecnologia. Meu
velho laptop, que me foi vendido meio ano antes por um balseiro
que precisava de um motor de Chevrolet, foi a base material da
qual surgiu Generación Y. A Idade Mé dia comunicativa na qual vivi
todos esses anos me transformou numa especialista em utilizar os
mais incríveis meios para expressar-me. Tive telefone em casa –
pela primeira vez – aos 22 anos, por isso a engenhoca com fones e
botões não foi o meu primeiro nível de conexão com outras
pessoas. A computação chegou antes, num desses típicos saltos
tecnológicos que ocorrem com tanta frequência por aqui. Nesta Ilha
peculiar, vimos aparelhos de DVD serem vendidos, sem que antes
nenhuma loja vendesse videocassetes. Imbuída dessa tendência
para o salto tecnológico, construí meu primeiro computador no
distante 1994. Com a obstinação que já exibia aos 18 anos, uni-me
ao mouse e ao teclado para sempre. Pioneira em tantas coisas e
ignorante em outras, sou agora uma mescla rara de hacker e
linguista – se me us professores de semântica e fonologia tomassem
conhecimento da minha queda pelos circuitos elétricos, veriam
confirmados seus prognósticos negativos sobre meu futuro
acadêmico. Mo ntei meus frankensteins com peças de toda parte e,
em infinitas madrugadas, conectei placas-mães, micros e fontes de
alimentação. No momento em que decidi fazer meu próprio blog,
já tinha superado o furor de construir computadores e me dedicava
a alimentá-los com meus próprios textos.
De modo que meu trajeto rumo à escrita não o fiz da forma
linear como se poderia pensar de uma graduada em Letras que
passou a maior parte da vida lendo a obra dos outros. A primeira
guinada aconteceu em meados do ano 2000, quando me formei na
universidade e defendi uma tese intitulada Palavras sob pressão:
um estudo da literatura da ditadura na América Latina. Colocar por
escrito as características dos caudilhos, sátrapas e ditadores desta
parte do mundo causou – por parte da banca que avaliava minha
análise – a impressão de que eu fazia uma analogia provocadora
entre esses personagens da literatura e o autocrata que nos
governava. Tenho gravado na memória o dia em que defendi meu
trabalho de graduação, assim como o momento em que abandonei
de vez a carreira para a qual tinha estudado por cinco anos. A
partir daí me converti numa filóloga renegada, que descobriu no
código binário um entorno mais claro e com menos duplicidades
que o rebuscado mundo da intelectualidade. Empenhei-me em
devorar as longas cadeias da linguagem HTML, como compensação
por todos os adjetivos e verbos que não tinham me permitido usar
livremente.
Não tenho a objetividade do analista, as ferramentas do
jornalista nem a leve moderação de um professor universitário.
Me us textos são passionais e subjetivos, cometo o sacrilégio de usar
a primeira pessoa do singular e meus leitores sabem que só falo
daquilo que vivi. Nunca tive aulas de como apresentar uma
informação, mas o curso de Letras me legou uma doença
profissional que não posso negar: juntar palavras sem cometer
demasiados erros. Brinquei com o idioma no meu tempo de
estudante e sei das ciladas que a petulância verbal reserva aos que
pretendem desmontar a língua. Sou como esses designers gráficos
que um dia decidem pegar no pincel e comprovam que sua mão já
não se permite uma pincelada não estudada. Não há nada inocente
nos meus escritos, porque um linguista nunca poderá alegar que
não conhecia de antemão a força das frases que amontoou. Por
isso, diante da constante observação de que escrevo “bem”, sempre
respondo com uma frase curta: “sinto muito, não posso evitar, foi
para isso que me formaram”.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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