Yevgeny Ivanovich Zamyatin - Nós PDF

 


Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin. A história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita mas opressora, e seus conflitos ao perceber as imperfeições dele, ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o "Benfeitor", regente supremo da nação.


Yevgeny Ivanovich Zamyatin - Nós  PDF


Segunda Entrada
BAILADO
A HARMONIA DO QUADRADO
X
Primavera. De lá de trás do Muro Verde, das planícies selvagens que
escapam à nossa vista, o vento traz-nos o pólen amarelo e orvalho das
flores. Este pólen seca-nos os lábios; temos de passar constantemente a
língua pelos lábios e, muito provavelmente, todas as mulheres por quem
passamos têm os lábios doces (e o mesmo sucede, naturalmente, com os
homens). O que perturba, em certa medida, o pensamento lógico…
Mas que céu! Azul, nem a menor nuvem (tão primitivo era o gosto dos
antigos, que os poetas tinham que procurar a inspiração naquelas massas de
vapor informes, acasteladas umas sobre as outras!). Eu gosto e tenho a
certeza de não me enganar se disser que todos nós gostamos deste céu
assim, estéril, irrepreensível. Em dias como o de hoje, todo o universo
aparece moldado no mesmo vidro impassível e eterno de que são feitos o
Muro Verde e todas as nossas construções. Em dias como este podem ver-se
as profundezas azuis das coisas, percebem-se coisas até aqui tidas como
estranhas e desconhecidas… Vemos em tudo algo que antes
considerávamos normal, prosaico.
Seja, por exemplo, o seguinte: estava eu esta manhã na doca onde se
procede à construção do INTEGRAL quando, de repente, pus os olhos nas
máquinas. Cegamente, inconscientemente, rodavam as bolhas dos
reguladores; reluzentes, os pistões oscilavam para a direita e para a
esquerda; o balanceio movia orgulhosamente os ombros; a goiva do torno
gemia ao compasso duma música nunca ouvida. Compreendi naquele
momento toda a beleza daquele bailado grandioso e mecânico, que o sol e o
azul e etéreo céu banhava-se de luz.
E não pude deixar de perguntar a mim mesmo: «Porque é que tudo isto é
belo?””. Porque é bela esta dança?»
Porque se trata de um movimento que não é livre, porque o sentido
profundo da dança reside exatamente na obediência absoluta e extática, na
não liberdade ideal.
O fato de os nossos antepassados se entregarem à dança nos momentos mais
inspirados das suas vidas (no decorrer dos mistérios religiosos, dos desfiles
militares), só pode ter um significado: o instinto da não-liberdade é
organicamente inerente ao homem desde os tempos mais remotos, e nós,
hoje, na vida de todos os dias, mal temos consciência de que…
Mais tarde explanarei esta ideia. O intercomunicador acaba de me fazer
sinal neste momento. Quando olho: é 0-90, tinha que ser. Vêm-me buscar
para irmos dar um passeio.
Querida 0-…! Sempre achei que o nome condiz com o aspecto dela. Tem
cerca de dez centímetros menos do que manda a Norma Maternal, o que lhe
arredonda as formas, dando a impressão de ter sido feita num torno. O róseo
da sua boca entreabre-se para acolher cada uma das minhas palavras. Tem
nos pulsos rechonchudos um refugo como os das crianças.
Quando ela entrou, o volante da lógica zunia ainda dentro de mim e, devido
à inércia, não pude deixar de falar na fórmula que acabava de estabelecer e
na quais todos participaram, nós, a máquina e a dança.
— Maravilhoso, não é? — perguntei.
— Sim, é maravilhoso, é primavera — respondeu 0-90 com um sorriso
róseo.
É primavera, imagine-se! A falar-me em primavera… Estas mulheres!…
Fiquei calado.
Saímos. A avenida estava cheia de gente. Com um tempo destes,
habitualmente, a Hora Pessoal que se segue ao almoço é consagrada a um
passeio suplementar. Como habitualmente, a Oficina Musical tocava em
todos os seus alto-falantes a Marcha do Estado Único. Os números — às
centenas, aos milhares — todos de uniformes azulados, com placas de ouro
ao peito, placas com o número estatal de cada um ou de cada uma,
caminhavam em filas, quatro a quatro, acertando convictamente o passo
com o ritmo da música. E eu, em conjunto com os outros três do nosso
grupo, formávamos uma das inúmeras vagas daquela torrente poderosa. À
minha esquerda tinha a 0-90 (se um dos meus hirsutos antepassados
escrevesse isto há mil anos atrás, aplicar-lhe-ia com certeza o engraçado
pronome minha): à minha direita, tinha dois números desconhecidos, um
masculino e outro feminino.
O céu esplendorosamente azul, os minúsculos sóis de cada uma das nossas
placas, sóis pequenos como se fossem brinquedos, os rostos libertos de
pensamentos dementes, tudo se conjugava num espetáculo único, radioso,
risonho. Como se, ao ritmo dos metais — tra-ta-tam, tra-ta-ta-tam —,
brônzeos degraus refulgissem ao sol e, a cada degrau, todos subíssemos
cada vez mais alto no azul vertiginoso… E foi então, exatamente como já
me tinha acontecido esta manha nas docas, que vi uma vez mais todas as
coisas como se estivesse a vê-las pela primeira vez na vida… Vejo ruas
impecavelmente direitas, o vidro resplandecente das ruas, os divinais
*paralelepípedos (edifícios) das construções transparentes, a harmonia
quadrada das filas de números azuis-cinza. E tive a impressão de que não
tinham sido as gerações anteriores a mim, mas sim eu, eu precisamente,
quem tinha apego ao antigo Deus e a antiga vida, que tinha sido eu o criador
de tudo isto. E, com a sensação de ser uma torre, assaltou-me o receio de
mexer o cotovelo, de provocar a derrocada das paredes, das cúpulas, das
máquinas.
No momento seguinte dei um passo atrás no tempo, andei do + para o —.
Recordei (evidentemente numa associação por contraste), certo quadro visto
no museu, que representava uma avenida do século XX e nela uma
multidão desordenada, confusa, de gente, rodas, animais, cartazes, árvores,
cores, pássaros… E dizem que era realmente assim, que acontecia assim na
realidade. Para mim, essas coisas são tão inverossímeis que não pude deixar
de rir à gargalhada. O meu riso encontrou eco logo ali à minha direita.
Voltei-me: vi diante de mim uns dentes (extraordinariamente brancos e
afiados) e um rosto feminino desconhecido.
— Desculpe — disse-me ela —, mas vejo-o olhar para tudo com um ar tão
inspirado… Como o Deus mitológico do sétimo dia da criação. Pelo que
vejo, está convencido de que foi você e não outro quem foi que criou a
mim, fato este que muito me lisonjeia.
Tudo isto ela disse sem sorrir, direi mesmo que o disse com certa deferência
(possivelmente, sabia que era eu o construtor do INTEGRAL). Mas, não sei
se nos olhos se nas sobrancelhas, ela tinha um X estranho e irritante que não
consegui ver, por mais que tentasse calcular, reduzir a uma fórmula
numérica. Por qualquer razão, Senti-me embaraçado e, um tanto perplexo,
comecei a procurar as motivações lógicas do meu riso. Era perfeitamente
evidente que este contraste, este abismo intransponível entre as coisas de
hoje e as de antigamente…
— Intransponível, como? (Que dentes afiados ela tinha!) Sobre um abismo
é sempre possível estender uma ponte. Puxe pela imaginação: tambores,
batalhões, fileiras… Todas essas coisas existiam anteriormente e,
portanto…
— Sim, pois, é claro — exclamei eu.
A transmissão de pensamentos era espantosa: ela exprimia — com as
minhas próprias palavras — aquilo que eu tinha estado a escrever antes de
sair. «Está visto que até os próprios pensamentos se compreendem….E é
assim porque ninguém é ‘um’, todos somos ‘um entre’”. Somos tão
semelhantes…»
— Tem a certeza? — atalhou ela.
Reparei que as sobrancelhas dela formavam com as têmporas um ângulo
agudo como o que é formado pelas hastes dum X. Por não sei que motivo,
Senti-me outra vez perplexo; olhei para a direita, olhei para a esquerda e…
Seguia, à minha direita, a desconhecida E-330 (vi-lhe então perfeitamente o
número), elegante, firme, maleável como um chicote; à esquerda ia 0-90 (ou
simplesmente 0-), completamente diferente, toda ela esférica, com um
refego, igual ao das crianças, nos pulsos; no outro extremo do nosso grupo
seguia um número macho que eu não conhecia um indivíduo formado por
duas curvas, dando a ideia da letra S. Éramos todos diferentes uns dos
outros…
A outra, a da direita, a E-330, deu pelos meus olhares de perplexidade e
suspirou: «Ai, ai»!
Este «ai» vinha a propósito, não o nego, mas notei nas feições dela algo de
estranho… A não ser que fosse à voz.
— Não vale a pena suspirar — disse eu com uma brusquidão que em mim
não é habitual — A ciência progride e é evidente que, se não for dentro de
cinquenta anos, pelo menos dentro de cem anos…
— Mesmo os narizes de todos…
— Sim, os narizes — respondi quase aos gritos. —Enquanto houver
motivos para alguém invejar, seja em que grau for… Se eu tenho um nariz
em forma de botão e outra pessoa tem um em forma de…
— De fato, o seu nariz, sempre lhe digo que é um tudo nada clássico, como
se dizia naquele tempo. Já as suas mãos… Não, nada disso, posso ver as
suas mãos? Não suporto que as pessoas observem as minhas mãos; tenho-as
peludas, hirsutas — um atavismo ridículo.
Levantei-as e, numa voz tanto quanto possível indiferente, disse:
— São mãos de símio.
Ela observou-me as mãos e fitou-me logo a seguir: — Curiosamente, não
podia ser maior a concordância.
Pesava-me com os olhos como se eles fossem uma balança. Tornei a reparar
nos contornos que as pontas das sobrancelhas pareciam formar.
— Ele está registrado no meu nome — disse a boca rósea da 0-90, toda
contente.
Melhor fora estar calada; a observação não podia ser mais deslocada. A 0- é
adorável, mas… Como é que eu hei de dizer? A velocidade da língua dela
não é corretamente calculada; a velocidade por segundo da língua dela
atrasa-se sempre um bocadinho relativamente; e velocidade por segundo do
pensamento, nunca se verificando o inverso.
O grande sino da Torre Acumuladora fez soar às 17 horas.
Sinal de que chegava ao fim a Hora Pessoal. E-330 afastou-se na
companhia do número masculino em forma de S. A cara deste impunha
respeito e, percebi logo a seguir, não me era desconhecida. Devo tê-lo
encontrado em qualquer lado, não me recordo em que circunstâncias.
Na despedida, ela sorriu-me de forma enigmática, sempre com o tal X:
— Passe depois de amanhã pelo Auditório 112 — disse.
— Se acaso eu for convidado para o auditório que referiu… — respondi,
encolhendo os ombros.
— Vai sê-lo — ripostou ela com uma segurança que eu não consegui
perceber.
Aquela mulher exercia sobre mim um efeito tão desagradável como o duma
componente irracional que se introduz numa equação e não pode ser
analisada. Por isso me agradou ficar a sós com a minha querida 0-, embora
por pouco tempo. De braço dado, atravessámos quatro avenidas. Numa
esquina, ela teria que subir para a direita e eu para a esquerda.
— Gostaria muito de ir hoje contigo e baixar as cortinas. Hoje mesmo…
Agora mesmo — disse-me O-, olhando timidamente para mim com aqueles
olhos redondos de cristal azul.
Tão engraçada que ela é! Que podia eu responder? Tinha estado comigo
ontem e sabe tão bem como eu que o nosso próximo Dia Sexual é depois de
amanhã. Aqui está a tendência que elas têm de pôr a língua à frente do
pensamento… Um fenómeno análogo ao que se passa com a faísca que no
motor se inflama cedo demais, estragando-o.
Ao deixá-la, beijei-a duas vezes… Não, há que ser exato: dei-lhe três beijos
nos olhos maravilhosamente azuis, libertos de toda e qualquer nuvem negra


Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem