Yasunari Kawabata - A casa das belas adormecidas PDF

 


Yasunari Kawabata é um dos escritores japoneses contemporâneos de maior sucesso no mundo. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1968 e quatro anos depois cometeu suicídio. A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes. E uma das obras em que ele mais explora o erotismo feminino é A Casa das Belas Adormecidas.

Eguchi é um senhor de 67 anos que visita um hotel no qual moças são dopadas e pagas para passar a noite com velhos que “deixaram de ser homens”, nas palavras do prórpio personagem. Todas as meninas eram virgens, e a condição da casa é que nenhuma delas poderia ser corrompida pelos visitantes. Elas dormiam nuas e profundamente no quarto enquanto os senhores gozavam do prazer de estar ao lado delas.

Ao todo Eguchi tem contato com seis “belas adormecidas”, cada qual deixando uma marca diferente no velho. Ao longo do romance o personagem passeia por suas lembranças, além de encontrar-se com a alma feminina, com todas as mulheres de sua vida.

Ao ler A Casa das Belas Adormecidas, o leitor terá a impressão de estar diante de uma pintura da qual extrairará alguma interpretação, mas nunca uma resposta exata. A conclusão, ao contrário do que estavamos acostumados na cultura ocidental, é muito mais subjetiva do que certeira, digamos assim.

Acredito que exista uma beleza latente e incômoda nos textos do Kawabata, como se estivéssemos diante de um irrealizável constante. Como se fadados ao nada. E é exatamente por isso que vale muito a pena ler.


Yasunari Kawabata - A casa das belas adormecidas PDF

Capítulo 1
— Não faça nenhuma brincadeira de mau gosto, por favor. Não vá,
por exemplo, enfiar o dedo na boca da menina adormecida —
recomendara insistentemente a mulher da hospedaria ao velho
Eguchi.
No andar superior só havia dois cômodos, uma sala de oito tatames
onde Eguchi e a mulher conversavam e, ao lado, provavelmente um
quarto de dormir. Até onde se podia perceber, no andar térreo,
pouco espaçoso, também não havia quarto para hóspedes; assim, a
casa não poderia ser chamada de hotel. Não havia nenhuma placa
com letreiro anunciando uma hospedaria. Além do mais, os segredos
daquela casa não permitiriam colocar tal anúncio. Não se ouvia ali
nenhum ruído. Além da mulher que recebera o velho Eguchi no
portão com cadeado e que continuava à sua frente a conversar, ele
não vira nenhuma outra pessoa. Se ela era a propiciaria ou uma
empregada, Eguchi, que estava ali pela primeira vez, não podia
precisar. De qualquer forma, seria mais sensato não fazer perguntas
desnecessárias.
A mulher era miúda e aparentava ter cerca de 45 anos. Tinha voz
jovial e falava com uma inflexão deliberadamente atenuada. Mexia
os finos lábios, mal os afastando para falar, e evitava encarar o seu
interlocutor. Não só seus olhos quase negros tinham uma luz que
dissipava qualquer desconfiança, mas ela mesma parecia ter total
ausência de preocupação, demonstrando a tranquilidade de quem
está acostumada com seu ofício. No braseiro de palóvnia, a água
fervia na chaleira de ferro. A mulher preparou e serviu o chá ali
mesmo, mas a excelência da qualidade das folhas de sencha e o
bom preparo, que não esperava encontrar em tal lugar e em tais
circunstâncias, surpreenderam o velho Eguchi e aliviaram sua
tensão. No tokonoma pendia um quadro de Kawai Gyokudo, sem
dúvida uma reprodução de uma paisagem montanhesca em cores
quentes de outono. Não havia nenhum ar de mistério oculto naquela
sala de oito tatames.
— Não tente acordar a menina, por favor. Por mais que tente, ela
não abrirá os olhos... A menina dorme tão profundamente que não
sabe nada do que está acontecendo.
A mulher tornou a insistir.
— A garota dorme o tempo todo e não percebe o que acontece do
começo ao fim. Não sabe sequer com quem passou a noite... O
senhor se sentirá à vontade com ela.
Várias dúvidas afloraram à mente do velho Eguchi, mas ele não
chegou a formular qualquer pergunta.
— O senhor vai ver que ela é uma garota muito bonita. E os nossos
clientes, de total confiança...
Em vez de virar o rosto, Eguchi baixou o olhar para o relógio de
pulso.
— Que horas são? — perguntou a mulher.
— São quinze para as onze.
— Realmente já é bem tarde. Os senhores idosos costumam dormir
e acordar cedo, portanto, quando o senhor quiser...
Dizendo isso, ela se levantou e girou a chave da porta que dava
acesso ao quarto de dormir. Talvez por ser canhota, tivesse usado a
mão esquerda. Não havia nada de especial naquilo, mas,
observando a mulher que girava a chave, Eguchi susteve a
respiração. Ela espiou o interior do quarto, inclinando apenas a
cabeça para além da porta. Sem dúvida estava acostumada a espiálo
desse modo. Na realidade não havia nada de mais na sua silhueta
vista de trás, mas ela parecia misteriosa para Eguchi. A estampa do
ofoz’ ostentava um pássaro grande e estranho na parte decorativa
das costas. Ele não sabia que pássaro era aquele. Por que, num
desenho de pássaro tão estilizado, teriam posto olhos e pés
realistas? É certo que não se tratava de um pássaro sinistro, era
apenas um desenho malfeito, mas se Eguchi tentasse resumir o
sentimento inquietante suscitado pela silhueta da mulher, seria
precisamente esse pássaro. O obi era de um amarelo-claro, quase
branco. O quarto que espiava parecia estar na penumbra.
A mulher tornou a fechar a porta e, sem girar a chave de volta,
colocou-a sobre a mesa diante de Eguchi. Não mostrou nenhuma
expressão especial após inspecionar o quarto, e sua inflexão
também se manteve inalterada.
— A chave está aqui, por favor, descanse à vontade. Caso o senhor
não consiga pegar no sono, há um sonífero à sua cabeceira.
— Não teria alguma bebida?
— Não, senhor. Não servimos bebida alcoólica.
— Nem um pouco, só para pegar no sono?
— Não.
— A mocinha já está no quarto ao lado?
— Sim, bem adormecida e esperando o senhor.
— É mesmo? — Eguchi demonstrou um pouco de surpresa. Quando
aquela garota teria entrado no quarto? Desde quando estava
adormecida? A mulher teria espiado pela porta entreaberta para
conferir o sono da menina? Eguchi sabia, pelos comentários de um
amigo idoso, conhecedor daquela casa, que uma jovem o esperava
adormecida. Porém, indo ali pessoalmente, achou tudo isso ainda
mais incrível.
— Vai se trocar aqui mesmo? — a mulher parecia querer ajudá-lo.
Eguchi manteve-se calado. — Daqui da casa, ouve-se o barulho das
ondas. E do vento também...
— Ah, o barulho das ondas...
— Bom descanso! — disse a mulher. E retirou-se. Sozinho, o velho
Eguchi olhou à sua volta pela sala de oito tatames que não escondia
nenhum segredo, e deteve o olhar na porta de acesso ao quarto de
dormir. Era de cedro, com noventa centímetros de largura. Parecia
não fazer parte da casa quando esta foi construída, mas ter sido
colocada posteriormente. Ao se dar conta disso e observando
melhor, Eguchi achou que a parede que separava os cômodos
estava no lugar onde antes ficavam as portas de tipo fusuma,
substituindo-as para criar a câmara secreta da “bela adormecida”.
Ela fora pintada com a mesma cor do resto da sala, mas parecia
mais nova.
Eguchi tomou na mão a chave deixada pela mulher e a examinou.
Era uma chave comum. Pegá-la seria a ação antecedente à sua ida
para o quarto ao lado, mas Eguchi permaneceu sentado. Como a
mulher dissera, o ruído das ondas era forte. Era como se as ondas
batessem na alta falésia, como se aquela pequena casa estivesse à
beira delas. O som do vento trazia a aproximação do inverno. Sentilo
desse modo talvez se devesse àquela casa, talvez ao estado de
espírito do velho Eguchi, pois não fazia frio e só havia o braseiro
aceso. Aquela era uma região de clima ameno. Não havia sinais de
que as folhas secas das árvores se espalhassem com o vento. Como
Eguchi chegara tarde da noite, não pôde observar a topografia dos
arredores, mas sentiu o cheiro do mar. Além do portão ficava o
jardim, bastante amplo para a dimensão da casa, onde havia vários
pinheiros gigantes e bordos. Contra o céu sombrio, viam- se em
nítidos contrastes as agulhas dos pinheiros pretos. Aquela devia ter
sido uma casa de férias.
Eguchi acendeu um cigarro, ainda com a chave na mão. Deu uma ou
duas tragadas e logo apagou a ponta mal consumida no cinzeiro.
Porém, fumou lentamente o outro, que acendeu em seguida. Em vez
de zombar de si mesmo por sentir essa ligeira inquietação,
intensificava-se nele um sentimento de desgosto e vazio. Costumava
tomar um pouco de uísque para adormecer, mas o sono era leve e
muitas vezes tinha pesadelos. Havia um poema, escrito por uma
jovem poetisa que morrera de câncer, que falava a respeito das
noites de insônia: “O que a noite me reserva são os sapos, os cães
negros e os corpos afogados.” Desde que o conheceu, Eguchi não
foi mais capaz de esquecê-lo. Mesmo naquele momento, recordava
este poema e, ao imaginar que a garota que dormia, ou melhor,
tinha sido adormecida no quarto ao lado, fosse talvez um daqueles
“afogados”, sentiu certo receio em levantar-se e ir ao encontro dela.
Não foi informado com que recurso a garota fora adormecida, mas,
de qualquer forma, ela devia estar mergulhada na inconsciência do
profundo sono artificial, poderia ter a pele opaca, cor de chumbo,
como um viciado em drogas, os olhos rodeados de olheiras, ser
magricela e ressequida com as costelas salientes. Poderia também
ser uma garota inchada, com uma flacidez gélida. Poderia estar com
as gengivas sujas, de um roxo desagradável à mostra, roncando
levemente. Nos seus 67 anos de vida, o velho Eguchi com certeza
conhecera noites deploráveis. E essas noites lhe deixaram marcas
das mais inesquecíveis. O deplorável não provinha da falta de beleza
física das mulheres, mas de suas tragédias, suas vidas infelizes.
Tendo chegado àquela idade, Eguchi não desejava acumular mais
uma experiência de encontro deplorável. Fora para aquela casa e,
chegado o momento, não podia deixar de ter tais pensamentos.
Contudo, haveria algo mais deplorável do que um velho que se deita
ao lado de uma jovem adormecida que não acorda a noite inteira?
Acaso não teria Eguchi ido àquela casa à procura dessa extrema
miséria da velhice?
A mulher mencionara os “clientes de total confiança”, mas parecia
que todos que lá iam eram clientes em quem se podia confiar. O
velho que indicara aquela casa a Eguchi também era um desses. Um
velho que deixou de ser homem. Decerto pensara que Eguchi
também já tinha entrado na mesma fase de declínio. Talvez a
mulher estivesse acostumada a lidar com esse tipo de idoso, pois
seu olhar não expressou nenhuma compaixão para com Eguchi, nem
demonstrou curiosidade. Contudo, graças à vida licenciosa que
levava, o velho Eguchi ainda não era o que a mulher chamava de
“clientes que nos deixam tranquilos”, embora pudesse vir a sê-lo.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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