Yann Marte - As Aventuras DePi PDF

 



A VIDA É CAPAZ de pregar cada peça...! Tomemos o exemplo de Pisci­ne Molitor Patel, também conhecido como Pi (sim, isso mesmo, igual a 3,14). Um menino indiano de dezesseis anos, filho do dono de um zoológico, vegetariano e... bom... hindu, cristão e muçulmano. Muito bem; pois esse jovenzinho absolutamente normal será lançado numa das maiores aventuras já idealizadas pelo homem moderno, uma luta pela sobrevivência em meio à natureza selvagem e imprevisível do Pacífico. É uma história e tanto, não é? Em As aventuras de Pi, premiado romance de Yann Martel, somos apre­sentados a esse cativante personagem que subitamente perde tudo os so­nhos, a família, um futuro após o naufrágio de seu navio. E o que ele ganha em troca?, você poderia per­guntar, mal se contendo de curiosi­dade. Pois tudo que lhe resta são um vasto oceano, um bote e uma tripu­lação de sobreviventes composta de uma zebra, uma hiena, um orangotan­go e um tigre-de-bengala, animais do antigo zoológico. Animais selvagens, ferozes e letais, diga-se de passagem. E como poderia um menino india­no de dezesseis anos, um jovenzinho absolutamente normal, sobreviver em alto-mar ao lado de tão perigosas companhias?, insistiria você. Essa é mesmo uma excelente pergunta respondida a cada página com tal força e impetuosidade que não demoramos a descobrir por que este livro arranca urros e aplausos no mundo todo.


Yann Marte - As Aventuras DePi PDF 

CAPÍTULO 1

O sofrimento me deixou triste e melancólico.
O estudo acadêmico e a prática religiosa, realizados com firmeza
e aplicação, foram aos poucos me trazendo de volta à vida.
Continuei fiel ao que algumas pessoas chamariam de minhas
estranhas práticas religiosas. Depois de um ano de ensino médio,
entrei para a Universidade de Toronto e fiz duas graduações, uma
em estudos religiosos, outra em zoologia. A minha monografia de
fim de curso em estudos religiosos tratava de certos aspectos da
teoria cosmogônica de Isaac Luria, o grande cabalista de Safed, que
viveu no século XVI. A de zoologia era uma análise funcional da
glândula tireoide da preguiça-de-três-dedos. Escolhi esse animal
porque o seu jeitão — calmo, calado e introspectivo — conseguia
tranquilizar, de certa forma, o meu eu estilhaçado.
Existem as preguiças-de-dois-dedos e as de três, classificação que
se baseia nas patas dianteiras desses animais, já que todos têm três
garras nas patas traseiras. Num verão, tive a sorte de poder estudar
as preguiças-de-três-dedos in loco, nas florestas tropicais do Brasil.
Trata-se de uma criatura extremamente intrigante. O seu único
hábito efetivo é a indolência. Ela dorme ou descansa em média vinte
horas por dia. A nossa equipe testou os hábitos de sono de cinco
desses animais selvagens pondo na sua cabeça, ao anoitecer, logo
depois de eles pegarem no sono, uns pratos de um plástico
vermelho brilhante cheios de água. Na manhã seguinte, já bem
tarde, fomos encontrá-los no mesmo lugar, com a água enxameando
de insetos. A preguiça tem a sua hora de maior atividade ao pôr do
sol, considerando-se que o termo atividade está sendo usado, aqui,
num sentido bem amplo. Ela avança por um galho de árvore,
naquela posição característica, de cabeça para baixo, a uma
velocidade de cerca de quatrocentos metros por hora. No chão,
rasteja até a árvore mais próxima a uma velocidade de 250 metros
por hora, quando motivada, o que significa um ritmo 440 vezes mais
lento que o de um guepardo motivado. Sem essa motivação, a
preguiça percorre de quatro a cinco metros por hora.
A preguiça-de-três-dedos não tem muitas informações sobre o
mundo exterior. Numa escala de 2 a 10, em que o 2 representa uma
estupidez fora do comum e o 10, uma extrema acuidade, William
Beebe (1926) atribuiu aos sentidos do paladar, do tato, da visão e da
audição desse animal a nota 2, e ao seu olfato, 3. Se alguém topar
com uma preguiça-de-três-dedos dormindo na selva, duas ou três
sacudidelas são o bastante para acordá-la; ela vai então olhar
sonolenta em todas as direções, menos na de quem a acordou. Aliás,
por que será que ela olha assim, já que se sabe que esse animal vê
tudo embaçado, meio como Mr. Magoo? Quanto à audição, a
preguiça não é exatamente surda; ela não se interessa muito pelos
sons. De acordo com Beebe, disparos de armas de fogo feitos perto
de um desses animais dormindo ou comendo praticamente não
provocam nenhuma reação. Mesmo o seu olfato, o sentido que é um
pouco melhor que os demais, não deve ser superestimado. Segundo
consta, elas podem farejar e evitar galhos apodrecidos, mas Bullock
(1968) relatou que “é comum” as preguiças caírem no chão,
agarradas a galhos que se quebram.
Você deve estar se perguntando como ela consegue sobreviver.
Justamente por ser tão lerda. A sonolência e a preguiça afastam
esses animais dos perigos, impedem que elas sejam percebidas pelas
onças, pelas jaguatiricas, pelos gaviões-reais e pelas sucuris. Os seus
pelos abrigam umas algas que têm a cor marrom durante a época de
estiagem e verde no período das chuvas, o que faz com que esse
bicho se misture ao musgo e à folhagem que o cercam, parecendo
mais um cupinzeiro, um ninho de esquilos ou até mesmo uma parte
da própria árvore.
A preguiça-de-três-dedos leva uma vida pacata de vegetariano,
em perfeita harmonia com o meio que a cerca. “Ela tem sempre nos
lábios um sorriso afável”, como registrou Tirler (1966). Vi esse
sorriso com os meus próprios olhos. Não sou do tipo que projeta
traços e emoções humanos em animais, mas, por diversas vezes,
durante aquele mês que passei no Brasil, olhando as preguiças
descansando, senti que estava diante de iogues virados de cabeça
para baixo, em meditação profunda, ou de eremitas totalmente
entregues a orações, sábios cujas vidas intensas e imaginativas
ultrapassavam o alcance das minhas comprovações científicas.
Às vezes, eu misturava os meus dois cursos universitários. Vários
dos meus colegas de estudos religiosos — uns agnósticos confusos
que não sabiam o que era o quê; que eram escravos da razão, esse
falso ouro que engana os tolos com o seu brilho — me lembravam
as preguiças-de-três-dedos; e esses animais, um belíssimo exemplo
do milagre da vida, me faziam pensar em Deus.
Nunca tive problemas com os meus colegas cientistas. Os
cientistas são um bando de bebedores de cerveja amistosos, ateus e
trabalhadores; gente que só pensa em sexo, xadrez e beisebol
quando não está pensando em ciência.
Fui ótimo aluno, se é que posso dizer isso de mim mesmo. Por
quatro anos seguidos, tirei os primeiros lugares no St. Michael’s
College. Recebi todos os prêmios possíveis do Departamento de
Zoologia. Se não ganhei nenhum do Departamento de Estudos
Religiosos, foi simplesmente porque não existem prêmios nesse
departamento (ninguém ignora que a recompensa pelo estudo da
religião não está nas mãos de mortais). E teria ganhado a Medalha
Acadêmica do Governador-Geral, o prêmio máximo da Universidade
de Toronto para os cursos de graduação, e que já foi entregue a um
número considerável de canadenses ilustres, se não fosse por um
garoto branco, comedor de carne, com um pescoço que mais parecia
um tronco de árvore e um temperamento insuportavelmente
animado.
Ainda sofro um pouco com essa humilhação. Quando já se
passou por muita coisa ruim na vida, cada dor adicional acaba
sendo, a um só tempo, insuportável e insignificante. A minha vida é
como um memento mori pintado por algum artista europeu: há
sempre uma caveira sorridente ao meu lado para me lembrar que a
ambição humana é uma bobagem. Debocho dessa caveira. Olho para
ela, dizendo: “Você pegou o cara errado. Pode não acreditar na vida,
mas eu não acredito na morte. Vá embora!” A caveira dá uma
risadinha e chega ainda mais perto de mim, o que não me espanta.
Se a morte anda tão grudada à vida não é por uma necessidade
biológica — é por ciúme. A vida é tão linda que a morte se
apaixonou por ela, e é um amor ciumento, possessivo, que tenta
controlar o que pode. Mas a vida escapa a esse controle com a maior
facilidade, perdendo apenas uma coisinha ou outra sem grande
importância e, para ela, a tristeza nada mais é que a sombra
passageira de uma nuvem. O garoto branco também foi aprovado
pelo comitê de bolsas de estudos Rhodes. Gosto dele e espero que a
sua estada em Oxford tenha sido uma experiência enriquecedora. Se
Lakshmi, a deusa da fortuna, resolver um dia ser generosa comigo,
Oxford é a quinta cidade na lista dos lugares que gostaria de
conhecer antes de morrer, vindo depois de Meca, Varanasi,
Jerusalém e Paris.
Não tenho nada a dizer sobre a minha vida profissional, a não ser
que as gravatas são um nó e, se invertidas, podem perfeitamente
enforcar um homem caso ele não tome cuidado.
Adoro o Canadá. Sinto falta do calor da Índia, da comida de lá,
das lagartixas pelas paredes, dos filmes musicais, das vacas andando
pelas ruas, dos corvos grasnindo, até mesmo das conversas sobre os
jogos de críquete, mas adoro o Canadá. É um grande país, frio
demais para qualquer um que tenha um mínimo de bom senso,
habitado por gente inteligente e compassiva que usa uns penteados
horrorosos. De todo modo, eu não tinha motivo algum para voltar
para a minha terra, Pondicherry.
Richard Parker ficou comigo. Nunca o esqueci. Será que posso
dizer que sinto saudade dele? Pois sinto. Sinto mesmo. Até hoje
sonho com ele. Na maior parte das vezes, são pesadelos, mas
pesadelos com um toquezinho de amor. Como é estranho o coração
humano... Ainda não consigo entender como ele pôde me abandonar
daquele jeito, com tamanha facilidade, sem qualquer tipo de
despedida, sem olhar para trás uma vez sequer. Essa dor é como um
machado que me corta o coração.
No hospital, lá no México, os médicos e as enfermeiras foram
incrivelmente legais comigo. E os pacientes também. Fossem eles
vítimas de câncer ou de acidentes de trânsito, bastava ouvirem a
minha história para se aproximarem, mancando ou em cadeiras de
rodas, eles próprios e os seus parentes, embora ninguém ali falasse
inglês e eu não falasse espanhol. Sorriam para mim, apertavam a
minha mão, me davam uns tapinhas na cabeça, deixavam comida e
roupas de presente em cima da minha cama. Acabavam me fazendo
ter acessos de riso ou de choro incontroláveis.
Em um ou dois dias, eu já conseguia ficar de pé e até dar uns
poucos passos, apesar do enjoo, da tontura e da fraqueza que sentia.
Os exames de sangue revelaram que eu estava anêmico e que a
minha taxa de sódio estava elevadíssima enquanto a de potássio
estava bem baixa. O meu corpo retinha líquido, fazendo com que as
minhas pernas ficassem tremendamente inchadas. Parecia até que
tinham me feito um enxerto de duas patas de elefante. A minha
urina era de um amarelo escuro, chegando quase a ser marrom.
Depois de mais ou menos uma semana, já dava para eu andar quase
normalmente e até calçar sapatos, contanto que não amarrasse os
cadarços. A minha pele sarou, embora tenham ficado umas
cicatrizes nos meus ombros e nas minhas costas.
A primeira vez que abri uma torneira e vi aquele jato ruidoso,
esbanjador, superabundante, o choque foi tamanho que fiquei
atordoado: as minhas pernas bambearam e desmaiei nos braços de
uma enfermeira.
A primeira vez que fui a um restaurante indiano no Canadá, comi
com as mãos. O garçom me olhou com um ar de crítica e disse:
“Acabou de desembarcar, não é mesmo?” Fiquei lívido. Os meus
dedos, que, um segundo antes, eram papilas gustativas, saboreando
a comida ainda meio longe da boca, ficaram sujos diante daquele
olhar. Estancaram como bandidos apanhados em flagrante. Não
ousei lambê-los. Culpadíssimo, usei o guardanapo para limpá-los.
Aquele garçom não podia imaginar o quanto as suas palavras me
magoaram. Elas foram como pregos penetrando na minha carne.
Peguei o garfo e a faca. Praticamente nunca tinha usado esses
utensílios. As minhas mãos tremiam. O meu sambar ficou
completamente sem gosto.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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