Wolfgang e Heike Hohlbein - Os Filhos das Terras Sombrias PDF

 


Na segunda aventura da trilogia, o jovem Kim é a esperança dos pais de Märchenmond. Ele e seus amigos precisam desvendar o desaparecimento das crianças do local. Para isso, partem numa jornada repleta de perigos. Mais um sucesso daquele que é considerado o novo Tolkien (O Senhor dos Anéis), por sua inspiração mitológica e de temas nórdicos.


Wolfgang e Heike Hohlbein - Os Filhos das Terras Sombrias PDF 

Como tudo começou no hospital, nada mais lógico do que continuar ali
mesmo. Aliás, pensando bem, nada nesta história obedecia às leis da lógica,
refletiu Kim. Num misto de perplexidade e curiosidade, ele observava o piscapisca
azul da ambulância refletindo nas janelas da casa em frente. Estava louco
para descobrir o verdadeiro motivo de a ambulância estar parada a pouco
menos de dez metros do portão principal da Clínica de Düsseldorf, à espera
do guincho. Uma ambulância que tinha sofrido um acidente de trânsito? Era
mesmo hilário!
Como das outras vezes, tia Birgit ficou encarregada de lhe fazer
companhia, enquanto a mãe e Bekky estivessem na clínica para os exames de
rotina a que Bekky tinha de se submeter.
Segundo tia Birgit, ninguém havia se machucado no acidente. Ainda
bem, pensou Kim, porque assim não sentiria nenhuma dor de consciência pela
quase incontrolável vontade de rir ao olhar para a ambulância avariada. Kim
desembrulhou o último dos chicletes que tia Birgit havia comprado para ele e
jogou o papel na lixeira da beira da calçada. Errou na pontaria e o papel foi
parar a meio metro de distância da lixeira. Lançou uma olhadela furtiva na
direção da tia, rezando para que ela não tivesse percebido a façanha. Mas, pelo
visto, a atenção da tia estava voltada para outros acontecimentos. Sua cabeleira
curta e negra apontava para o círculo de curiosos que se formara ao redor da
ambulância, dificultando o trabalho da polícia e dos enfermeiros.
Comportamento típico de adulto, refletiu Kim, irritado. O tempo todo pregam
sermões do tipo: isso não se faz, é feio demonstrar curiosidade quando
acontece um acidente. Afinal de contas, um acidente não é uma quermesse. É
algo muito grave! (palavras da tia Birgit). Mas, no final das contas, nem ela
seguia as próprias regras.
Kim gostava muito da tia, porém, por mais simpática que ela fosse,
agora estava fazendo exatamente o contrário do que sempre ensinava.
Kim estava mal-humorado, pois odiava ser tratado como criança. Toda
vez que Bekky precisava ir à clínica para fazer os exames periódicos, os pais
obrigavam-no a ir junto e — pior — impunham-lhe a companhia da tia para
“tomar conta” dele, como se fosse um bebê.
Kim costumava protestar de maneira veemente, mas o pai mostrava-se
irredutível. E tudo porque, uma única vez, quando ficara sozinho em casa,
havia convidado uns amigos, o que resultou numa pequena confusão. Pura
injustiça! Afinal, não era culpa sua nem de seus amigos que alguém tivesse
colocado a infeliz da televisão sobre uma mesa tão pequena e frágil. Tanto a
televisão quanto a mesa não resistiram a um leve choque com uma bola, e
acabaram desabando. A conseqüência foi uma tela rachada. Uma bobagem, é
claro!
Os pais deviam ser-lhe gratos, pois há meses vinham planejando a
compra de uma televisão nova e, depois do “acidente”, finalmente realizaram o
seu sonho. Não foi bom?
No quarto dos pais havia agora uma televisão enorme, como o pai
sempre sonhara, apesar dos argumentos contrários da mãe, alegando que o
aparelho velho ainda servia. Seu pai devia agradecer-lhe, em vez de castigá-lo!
Não era justo! Aliás, alguma vez os adultos foram justos com as crianças?
Kim perdeu a vontade de mastigar chiclete e resolveu cuspi-lo com
força para dentro da lixeira. Mas novamente errou a pontaria e o chiclete foi
parar longe. Enfiou as mãos nos bolsos da calça e, desanimado, virou para o
outro lado. Na calçada oposta, a tia girou a cabeça para se certificar de que seu
protegido continuava no mesmo lugar. Afinal, que mal havia em espiar párachoque
amassado? Bah! Seus dedos tocaram em algumas moedas no fundo do
bolso. Por um momento hesitou, depois pegou-as e se pôs a contar o seu
tesouro: pouco mais de três euros! O bastante para ir ao café e comprar uma
Coca-Cola! Sua mãe e Bekky provavelmente ainda demorariam um bom tempo
naquele hospital. E, pela milésima vez, Kim se perguntou por que um exame
de rotina, que não deveria levar mais do que dez minutos, costumava demorar
duas ou três horas. E, como sempre, ficou sem resposta. Pelo jeito, a lentidão
nos hospitais era uma lei inquestionável, até mesmo em casos menos
complicados. Também não entendia por que sua irmã precisava voltar lá a cada
seis semanas. Afinal, há muito tempo ela tinha se recuperado. Talvez os
médicos não conseguissem entender o que havia acontecido com ela naquela
época. Aliás, como poderiam entender? Apenas duas pessoas neste mundo
eram capazes de compreender, e elas jamais revelariam o segredo. Ninguém
acreditaria mesmo...
Naquele mesmo hospital ele vira Temístocles pela primeira vez, talvez
por isso seus pensamentos se voltaram para aquele dia longínquo, quando tudo
começou. Foi do outro lado da rua que o velho mago sorriu para Kim. Mais
tarde Kim o viu novamente na janela do café, onde ele e seus pais estavam
sentados depois da consulta. Foi nesse instante que Kim sentiu pela primeira
vez que a irmã não estava doente de verdade e que estava acontecendo algo
bem estranho...
Para que lembrar disso agora? Faz tanto tempo! Não estava esquecido,
mas era passado. Ele e sua irmã Rebekka haviam entrado em contato com um
mundo estranho, aliás, foi uma experiência bem mais profunda do que um
simples contato, eles penetraram no mundo que ficava do outro lado do sono,
onde a realidade se transformava em sonho e os sonhos se tornavam realidade.
E lá viveram a maior e mais estranha aventura de suas jovens vidas.
Às vezes, quando Kim lembrava de Märchenmond e dos amigos que lá
deixara, Temístocles, o velho mago cheio de bondade, com a barba branca e os
olhos ternos, Gorg, o gigante sem nenhuma maldade, o urso Kelhim, o dragão
dourado Rangarig, o príncipe Priwinn, Ado e todos os outros que cruzaram
seu caminho nessa fantástica viagem, ele sentia uma leve nostalgia, pois
provavelmente nunca mais os veria.
Mas, por outro lado, também sabia que nunca perderia Märchenmond,
pois uma parte desse mundo maravilhoso ficaria para sempre em sua alma. Às
vezes era como se uma luz interior, suave e aquecedora, iluminasse seus dias. E
quanto mais melancólico estivesse o mundo ao seu redor, mais intensa se
tornava esta luz.
Ele e Rebekka viveram mais do que uma simples aventura, lhes fora
concedida uma dádiva! Talvez muitas crianças tinham recebido esta dádiva sem
saber, isto é, talvez apenas poucas crianças tinham aquela profunda sabedoria
de acreditar que além da realidade do mundo visível e material havia muito
mais e que o mundo em que vivemos era apenas uma minúscula parte daquilo
que a maioria das pessoas rotulava de realidade.
Às vezes Kim se perguntava o que diriam todos aqueles que se julgavam
tão sábios e superiores, com seus computadores e seus conhecimentos
adquiridos apor meio dos livros científicos, caso conhecessem a verdade.
Nestes momentos, a tentação de se abrir e contar tudo se tornava imensa.
Mas jamais o fez. O que Rebekka e ele viveram continuaria sendo um
segredo só deles. E, é claro, de Temístocles.
Pensativo, Kim ficou olhando para as moedas na palma da mão e, com
um suspiro resignado, devolveu-as ao fundo do bolso. O café era caro demais
para a sua mesada, que — diga-se de passagem — era bem modesta. Tentaria
convencer tia Birgit a comprar uma Coca-Cola? A tia, além de muito legal, era
também muito generosa, pelo menos na maioria das vezes.
Kim ia se voltar para lançar à tia um olhar de cachorro pidão, quando
percebeu um reflexo distorcido no vidro do café. Em apenas uma fração de
segundo, como um breve lampejo.
Era como se fosse o furtivo reflexo da luz da ambulância... mas era
mais! Era o contorno de uma figura humana! Uma figura bastante familiar!
Um homem velho, de barba branca que, com o braço esquerdo erguido,
acenara em sua direção um gesto de desespero!
Perplexo e mal conseguindo conter um grito, Kim se virou para ver se
havia alguém atrás dele. Não havia vivalma, fora a multidão de curiosos.
Algumas pessoas se voltaram para o garoto ali parado, de olhos arregalados, a
boca escancarada, o rosto lívido como cera. Uma mulher fez menção de
segurar-lhe braço:
— Está tudo bem com você, rapaz? — perguntou. Kim não reagiu e ela
repetiu a pergunta.
Mudo, Kim acenou com a cabeça, forçando-se a esboçar um sorriso.
Pasmo, olhou ora para o vidro, ora para o ponto vazio atrás dele, onde o velho
de barba branca devia estar, quando seu reflexo apareceu no vidro do café. Um
homem que não usava terno ou casaco, como os outros aqui presentes. Usava
uma espécie de túnica negra sobre a qual pendia a comprida barba, na mão
direita um bastão, no qual figurava uma serpente entalhada, de boca
escancarada.
Kim se virara com uma tal rapidez que era impossível ao velho
desaparecer na multidão em tão curto espaço de tempo. Por outro lado, não
restava dúvida, Kim viu o homem nitidamente na janela do café!
— Você está bem mesmo, rapaz? — repetiu a mulher. — Está lívido!
A mulher aproximou-se e, sorrindo, pousou de leve a mão no ombro
dele, num gesto amigável. Estava de fato preocupada.
Kim tirou a mão da mulher do seu ombro e novamente forçou-se a
sorrir:
— Está tudo bem... é que... eu fiquei assustado.
— Assustado?!
Kim apontou com a cabeça para a janela atrás dele:
— Alguém apareceu no vidro, sabe?
A mulher não entendia nada, ou talvez não acreditasse nele:
— Ah... alguém apareceu no vidro?
— Não, eu me enganei — apressou-se Kim a dizer. — Está tudo bem,
de verdade.
A mulher olhou para ele meio desconfiada. Depois deu de ombros,
virou-se e desapareceu na multidão. Kim continuou parado, aparentemente
calmo, mas sua cabeça fervilhava. O breve diálogo com a mulher lhe custou
um bocado de energia. Tudo em ordem? Nada estava em ordem!
A voz da razão lhe dizia que era impossível, mas ainda havia uma outra
voz, mais poderosa! Esta outra voz lhe dizia que ele não tivera nenhuma
alucinação e que tudo, até a expressão de desespero no rosto do velho,
realmente acontecera!
Se fosse verdade, Kim tinha todas as razões do mundo para se
preocupar, porque a figura que aparecera no vidro era ninguém mais do que
Temístocles, o mago de Märchenmond!
— Está tudo bem com você?
Era a terceira vez que lhe faziam a mesma pergunta, desta vez tia Birgit.
O quase imperceptível aceno com a cabeça de Kim não a convenceu. Quando,
finalmente, conseguiu dominar o tremor das mãos e dos joelhos, Kim resolveu
atravessar a rua para chegar até a ambulância, o que não seria nada fácil. A tia
franziu a testa, ao vê-lo tão pálido:
— Tudo bem — disse Kim. — É que...
— O que é? — insistiu a tia colocando a mão no seu braço. Kim resistiu
à tentação de empurrar a mão dela, como fez com a mulher desconhecida.
— É que eu me sinto... meio esquisito — disse vagamente.
A tia ficou ainda mais preocupada. Tirou a mão do seu braço e colocoua
em sua testa:
— Hum... não está com febre — observou de maneira objetiva. Kim
apressou-se em tranqüilizá-la:
— Não é nada, só estou um pouco enjoado, vai ver que é gripe que vem
por aí.
— Talvez — concordou a tia. Depois perguntou: — Você comeu?
— Claro — respondeu Kim. — Você sabe que mamãe não me deixa
sair de casa sem o café-da-manhã.
— Café-da-manhã? — exclamou tia Birgit. — Agora são quase quatro
horas da tarde!
— Não estou com fome — murmurou Kim —, é que eu...
— Bobagem! — interrompeu a tia, num tom que abafou qualquer
eventual protesto. — Vamos para o café e você vai comer um pedaço de bolo,
ou melhor, dois pedaços.
Kim se resignou. Conhecia bem a tia e sabia que qualquer tentativa de
oposição, além de inútil, seria desgastante. Mesmo assim, arriscou:
— A mamãe e Bekky voltam logo e...
— Elas irão nos encontrar — interrompeu a tia, enérgica. — Do café
podemos ver a entrada do hospital, além disso as chaves do carro estão
comigo, esqueceu? Uma xícara de café é tudo que eu quero neste momento.
Venha!
— O que aconteceu? — perguntou Kim à tia, apontando para a
ambulância.
Finalmente alguém teve a idéia de desligar o pisca-pisca azul e os dois
motoristas deixaram o carro. Um deles ficou parado, com as mãos enfiadas
nos bolsos, abanando a cabeça sem tirar os olhos do pára-lama amassado.
Kim, como a maioria dos presentes, viu quando aconteceu o acidente: o carro
se chocou, com os freios cantando, mas com a velocidade reduzida, contra um
dos postes que flanqueavam a entrada da clínica. Depois subiu na calçada e
acabou com os canteiros das flores. A batida até que foi relativamente fraca,
sem grandes estardalhaços, mas, mesmo assim, o pára-lama e a tampa do
radiador sofreram consideráveis estragos. Com o impacto, o pára-choque se
desprendeu e furou os pneus. Mas como o carro estava vazio e o motorista e
seu acompanhante estavam com o cinto de segurança, ninguém se machucou.
Como a ambulância danificada bloqueava a metade da rua, o motorista ligou o
pisca-pisca azul para prevenir que outro carro, por descuido, se chocasse
contra eles.
— Como aconteceu o acidente? — insistiu Kim.
Tia Birgit o encarou, desconfiada. Seria o mal-estar do sobrinho
pretexto para se aproximar do local do acidente? Depois deu de ombros e
apontou para um pequeno grupo que discutia ao lado da entrada do hospital.
Kim viu o acompanhante do motorista de uniforme branco e, escoltado por
dois policiais, um garoto alto de cabelos negros. O comportamento do garoto
despertou sua atenção.
— Está vendo aquele garoto? — perguntou tia Birgit. E, sem esperar
reposta: — Sem mais nem menos pulou para o meio da rua. O motorista teve
que desviar bruscamente para não atropelá-lo. E aí perdeu o controle sobre o
veículo. Pelo menos foi isso que ouvi dizer.
Kim se pôs na ponta dos pés para enxergar melhor. Os dois policiais, o
motorista da ambulância e o menino estavam meio escondidos pelo portão
arqueado da clínica, o que dificultava a visão. Mesmo assim, ele pôde perceber
que havia algo de estranho com o menino. Demonstrava certa apatia, como se
tudo ao seu redor não lhe dissesse respeito. Um dos policiais tocou seu ombro,
falou com ele e depois o sacudiu, mas o menino não demonstrou a menor
reação.
— É o choque — diagnosticou tia Birgit, ao perceber o espanto do
sobrinho. — É comum acontecer. Provavelmente vai demorar algum tempo
até que o coitado se lembre do que aconteceu. — Tia Birgit suspirou: —
Certamente alguém vai cuidar dele, afinal, para que existe um hospital do outro
lado da rua? Agora venha... eu pedi que você não viesse até aqui, lembra?
Kim obedeceu, não antes de lançar um último olhar para o menino.
Conhecia-o de algum lugar...? Impossível! Nunca vira o seu rosto antes! Algo
lhe dizia que era de suma importância descobrir a identidade do menino. Era
tudo muito inquietante!
Ainda há poucos minutos Kim afirmara que não sentia fome, mas a
primeira garfada do delicioso bolo e o primeiro gole de Coca-Cola
despertaram seu apetite e acabaram com a tremedeira e a inquietação. A figura
que vira no espelho nada mais era do que fruto de uma associação de
lembranças que vieram à tona neste café, onde tudo começou. Por alguns
momentos as lembranças, guardadas a sete chaves no seu subconsciente,
turvaram o seu senso de realidade. Kim sempre acreditou que com o tempo
ele conseguiria assimilar o acontecido naquela época, o que, na verdade, não
era tão simples. É muito difícil, senão impossível, superar certas experiências,
por mais que se queira, como, por exemplo, as aventuras que ele e sua irmã
Rebekka viveram em Märchenmond.
Tia Birgit ofereceu-lhe outro pedaço de torta e Kim aceitou. Afinal,
desde o café-da-manhã não comera mais nada, a não ser mascar cinco tiras de
chiclete. Para ele, comer era um mal necessário. Não era fã de refeições
regulares e só gostava de comer quando realmente sentia fome, como agora.
Prazeroso, mastigava a torta, enquanto mantinha os olhos fixos na rua em
frente ao portão do hospital, onde remava um total congestionamento. O
guincho conseguira, a muito custo e com mil manobras, aproximar-se do carro
avariado, mas ao redor dele inúmeros carros bloqueavam a rua. No começo
eram apenas alguns curiosos que reduziram a velocidade para olhar, forçando
os carros que vinham atrás a fazer o mesmo, e logo se criou um verdadeiro nó
no trânsito
Depois de algum tempo Kim desviou os olhos do emaranhado de
automóveis e pedestres e se concentrou num policial que saía da clínica e, com
certo esforço, tentava chegar até a sua viatura. Estava sozinho.
— O que foi? — perguntou tia Birgit, que seguira o olhar do sobrinho.
— Nada... por quê?
— Você não desgruda os olhos daquele policial.
Kim deu de ombros. Ganhou tempo enfiando um enorme pedaço de
torta na boca e tomou o resto da Coca-Cola.
— Ele está sozinho — disse, finalmente. — Eu pensei que ele levaria o
menino... é que... ele provocou o acidente, não foi?
Tia Birgit ergueu os ombros:
— Devem ter feito uma ficha com os dados pessoais do menino —
respondeu. — Afinal, ele não cometeu nenhum crime. Talvez o tenham
deixado no hospital... não me parecia muito bem.
A tia apontou para a entrada da clínica:
— Lá vem a sua mãe com a Bekky.
Kim queria levantar, mas tia Birgit o impediu com um gesto:
— Termina de comer, temos tempo. Elas já nos viram.
A tia levantou a mão e acenou para as duas. Do outro lado da rua, a
mãe de Kim também acenou. Ela e Bekky abriram caminho entre os carros e,
poucos minutos depois, se aproximaram da mesa.
— O que está acontecendo? — indagou a mãe de Kim. — O trânsito
está em total confusão.
— Um acidente — informou tia Birgit, apontando para o guincho
amarelo que, neste momento, lançava-se à difícil tarefa de tirar a ambulância da
rua sem atingir meia dúzia de outros carros.
Kim seguiu as manobras do guincho que, centímetro por centímetro,
deslocava o pesado veículo sem ganhar considerável espaço. Os policiais, por
sua vez, gritavam ordens que ninguém atendia. Kim, com sua imaginação
fértil, encontrou a solução: cobrir a rua toda com concreto. Quando o
concreto estivesse seco, poderiam abrir novas faixas, talvez seria bem mais
rápido do que estas tentativas frustradas de desatar o nó. Ele trocou um breve
olhar com a irmã sentada à sua frente e lhe empurrou o prato com os restos da
torta. Estava satisfeito.
— Você não precisa comer o resto do seu irmão — disse tia Birgit,
olhando o sobrinho com reprovação. Empurrou o prato de volta para ele. —
Vou pedir um bolo para você, Bekky. — Levantou a mão e chamou a
garçonete.
— Acho melhor voltarmos para casa — sugeriu a mãe de Kim. Tia
Birgit soltou uma risadinha:
— Voltar para casa? No momento você só conseguiria sair daqui com
um tanque de guerra. Senta e toma um café.
A mãe de Kim hesitou, mas depois de lançar um olhar pela janela se
conformou e aceitou o convite da irmã. Com um suspiro pediu um capuccino,
mais um suco de laranja e um pedaço de torta para Rebekka.
Tia Birgit voltou-se para a sobrinha:
— E aí, como foi?
Não era segredo que as idas periódicas ao hospital deixavam Rebekka
mal-humorada. Aliás, nos últimos meses Bekky mostrara uma resistência cada
vez maior e desta vez por pouco a mãe e a tia não tiveram que levá-la à força.
Esta resistência da irmã era um enigma para Kim. Afinal, ninguém a
machucava, os médicos queriam apenas certificar-se de que não restaram
seqüelas, pois naquela época ficara algumas semanas em coma.
— Foi ótimo — respondeu a mãe no lugar de Rebekka. — Foi a última
vez, pelo menos este ano.
Kim e sua tia ficaram surpresos.
— A última vez? — repetiu a tia.
— Ela tem que retornar somente daqui a seis meses — confirmou a
mãe. — Hoje até o médico responsável pela clínica a examinou e se mostrou
muito satisfeito com o seu estado. Não há por que voltar a cada mês. Só mais
duas vezes e depois acabou definitivamente.
— Mas que maravilha! — exclamou tia Birgit. — Não é mesmo, Bekky,
meu tesouro?
O semblante de Bekky era de raiva, talvez por não gostar de ser
chamada de tesouro. Mas Kim teve a impressão de que ainda havia outro
motivo. Rebekka nunca fora muito falante, mas agora não pronunciara uma só
palavra desde que haviam entrado no café. Como se algo a incomodasse, ou
como se estivesse assustada...
— Idiotice — ela pronunciou, finalmente. — Eu odeio a clínica. Tia
Birgit ficou visivelmente chocada, enquanto a mãe mal conteve o riso. Afinal, a
tia também acabou rindo.
— De qualquer maneira, agora você está livre — disse a tia. Rebekka
lançou-lhe outro olhar sombrio e depois se voltou para a garçonete que estava
trazendo a torta.
Na rua, o guincho finalmente conseguiu desencalhar a ambulância
danificada, mas acabou preso no engarrafamento. Fascinado, Kim observou
uma moça num elegante carro esporte, que tentava se aproveitar de uma
pequena brecha para escapar e, depois de algumas investidas malsucedidas,
acabou batendo no pára-choque do carro da frente. O motorista desceu e,
como era de esperar, teve um ataque de cólera.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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