Willian Gibson - Count Zero PDF

 



Willian Gibson - Count Zero PDF

 UMA ARMA BEM AZEITADA

Colocaram um sabujo-detonador no rastro de Turner em Nova Delhi,

sintonizado para seus feromônios e a cor de seu cabelo. O sabujo o

alcançou em uma rua de nome Chandni Chauk e dirigiu-se, com

dificuldade, para seu BMW alugado, em meio a uma selva de pernas

morenas desnudas e pneus de bicitáxi. No coração, tinha um quilo de

hexógeno recristalizado e TNT em flocos.

Turner não percebeu a aproximação. A última coisa que viu da índia

foi a fachada de estuque rosa de um lugar chamado Hotel Khush-Oil.

Por ter um bom agente, tinha um bom contrato. Por ter um bom

contrato, estava em Cingapura uma hora depois da explosão. Ou, pelo

menos, a maior parte dele. O cirurgião holandês gostava de brincar sobre

aquilo, sobre como uma porcentagem indefinida de Turner não conseguira

sair do Palam International naquele primeiro voo e teve de passar a noite lá,

em um barracão, dentro de um tanque de suporte.

Levou três meses para o Holandês e sua equipe remontarem Turner.

Clonaram um metro quadrado de pele para ele, cultivado em placas de

colágeno e polissacarídeos de cartilagem de tubarão. Compraram olhos e

genitais no mercado aberto. Os olhos eram verdes.

Turner passou a maior parte desses três meses em um constructo

simstim, gerado por ROM, de uma infância idealizada na Nova Inglaterra

do século passado. As visitas do Holandês eram sonhos cinzentos ao

alvorecer, pesadelos que se desvaneciam quando o céu iluminava-se do lado

de fora da janela do quarto no segundo andar. Era possível sentir o cheiro

dos lilases tarde da noite. Lia Conan Doyle à luz de uma lâmpada de

sessenta watts de um abajur de pergaminho com ilustrações de veleiros

clíper. Masturbava-se em meio ao perfume de lençóis limpos de algodão,

pensando em líderes de torcida. O Holandês abria uma porta na parte de trás

do cérebro e adentrava para fazer perguntas, mas, de manhã, sua mãe o

chamava para comer cereais Wheaties, ovos com bacon e café com leite e

açúcar.

Até que, uma manhã, acordou em uma cama estranha, com o Holandês

parado ao lado de uma janela que inundava o quarto com um verde tropical

e uma luz solar que feria os olh

— Pode ir pra casa, Turner. Já acabamos de trabalhar em você. Está

novo em folha

Estava novo em folha. E como era isso? Não sabia. Pegou as coisas que

o Holandês lhe deu e partiu de Cingapura. "Casa" era o hotel Hyatt do

próximo aeroporto.

E do próximo. Como sempre.

Continuou voando. Seu chip de crédito era um retângulo preto

espelhado com borda dourada. As pessoas por trás dos balcões sorriam ao

ver o chip e faziam que sim com a cabeça. As portas se abriam e depois se

fechavam às suas costas. Rodas saíam do concreto armado, bebidas

chegavam, jantares eram servidos.

Em Heathrow, um grande naco de memória soltou-se de uma abóbada

vazia de céu de aeroporto e caiu sobre ele. Vomitou em uma vasilha plástica

azul sem alterar o passo. Quando chegou ao balcão, no fim do corredor,

trocou a passagem.

Voou para o México.

Acordou com o barulho de baldes de aço sobre ladrilhos, o assobio

úmido de vassouras, um corpo quente de mulher contra o seu.

O quarto era uma caverna alta. O reboco branco exposto refletia os

sons com clareza demais; de algum lugar, além do tinido das faxi-neiras no

pátio voltado para o sol da manhã, podia-se ouvir o bater das ondas. Os

lençóis, amontoados entre seus dedos, eram de cambraia rústica, amaciada

por inúmeras lavagens.

Lembrou-se da luz do sol atravessando uma grande janela fumê. Um

bar de aeroporto, Puerto Vallarta. Teve de caminhar vinte metros desde o

avião, olhos apertados contra o sol. Lembrou-se de um morcego morto,

achatado como uma folha seca no concreto da pista.

Lembrou-se de ter tomado um ônibus, de uma estrada na serra e do

mau cheiro do motor a combustão, as bordas do para-brisa cobertas de

cartões-postais holográficos de santos azuis e rosas. Ignorou a vista

íngreme, preferindo uma esfera de lucite rosa e a dança trémula do mercúrio

em seu interior. A bola coroava a haste de aço recurva do câmbio e era um

pouco maior do que uma bola de beisebol. Havia sido fundida em volta de

uma aranha agachada de vidro transparente, oca e cheia até a metade com

mercúrio, que pulava e escorregava quando o motorista jogava o ônibus nas

curvas em ziguezague, balançava e tremia nos trechos retos. A bola era

ridícula, artesanal, um desastre; estava ali para lhe dar as boas-vindas de

volta ao México.

Dentre os mais de dez microsofts — microprogramas — que o

Holandês lhe dera, estava um que oferecia fluência limitada em espanhol.

Mas, em Vallarta, ele havia remexido atrás da orelha esquerda e inserido, no

lugar, um tampão-protetor, ocultando soquete e tampão debaixo de um

quadrado de material micropore da cor da pele. Um passageiro perto do

fúndo do ônibus tinha um rádio. Uma voz interrompia periodicamente o

pop agudo para recitar um tipo de ladainha, cadeias de dez dígitos: os

números vencedores do dia na loteria federal.

A mulher ao lado agitava-se no sono.

Ele se apoiou no cotovelo e ergueu-se para olhá-la. O rosto de uma

estranha, mas não aquele que a vida em hotéis lhe havia ensinado a esperar.

Teria esperado uma beleza de praxe, criada a partir de cirurgias eletivas

baratas e do incansável darwinismo da moda, um arquétipo reunindo os

rostos da grande mídia nos últimos cinco anos.

Um pouco do Meio-Oeste no osso do queixo, arcaico e norte--

americano. Os lençóis azuis estavam franzidos sobre os quadris, a luz do sol

entrava inclinada através de venezianas de madeira de lei para listrar suas

longas coxas com diagonais douradas. Os rostos com quem ele acordava

nos hotéis do mundo eram como os adornos de capô do próprio Deus.

Rostos adormecidos de mulheres, idênticos e solitários, expostos, apontados

diretamente para o vazio. Mas este era diferente. Já havia, de alguma forma,

um significado agregado. Um significado e um nome.

Sentou-se, girando as pernas para fora da cama. As solas dos pés

registraram a granulação de areia de praia sobre o piso cerâmico frio. Havia

um cheiro débil, porém penetrante, de inseticida. Nu, com a cabeça doendo,

ficou em pé. Mexeu as pernas. Caminhou e experimentou a primeira de

duas portas, encontrando ladrilhos brancos, mais reboco branco, um

chuveiro cromado em forma de bulbo, ligado a um cano de ferro salpicado

de ferrugem. As torneiras da pia ofereciam goteiras idênticas de água com a

temperatura do sangue. Havia um relógio de pulso antiquado ao lado de um

copo plástico, um Rolex mecânico com uma pulseira de couro claro.

As venezianas fechadas do banheiro não tinham vidros, mas eram

dotadas de uma tela de plástico verde. Perscrutou por entre as ripas de

madeira de lei, pestanejando diante do sol forte, e viu um chafariz seco de

azulejos floridos e a carcaça enferrujada de um Rabbit da VW.

Allison. Era esse o nome dela.

Ela vestiu shorts cáqui gastos e uma das camisetas brancas dele. Suas

pernas eram muito morenas. O relógio Rolex, com sua caixa inoxidável

fosca, envolvia o pulso esquerdo da mulher com a correia de pele de javali.

Foram caminhando, seguindo a curva da praia em direção a Barre de

Navidad. Mantiveram-se na estreita faixa de areia úmida e fria acima da

linha de rebentação.

Já tinham uma história juntos; ele se lembrava dela em uma bar-raca

naquela manhã no mercado de telhado de zinco da cidadezinha, de como

segurara a enorme xícara de café fervente com as duas mãos. Enquanto ele

limpava, com uma tortilha, os ovos e o molho mexicano

do prato branco rachado, observou moscas voando em torno de

dedos de luz solar que conseguiam entrar através de uma mixórdia de folhas

de palmeira e chapas de revestimento onduladas. Ela talou um pouco sobre

o trabalho em algum escritório de advocacia de Los Angeles, sobre como

vivia sozinha em uma das cidades flutuantes, caindo aos pedaços, atracada

ao largo de Redondo. Ele lhe contou que trabalhava no departamento de

pessoal. Ou tinha trabalhado, de qualquer forma.

— Talvez eu esteja procurando um novo tipo de trabalho...

Mas a conversa parecia secundária para o que havia entre os dois, e

agora um pássaro-fragata pairava acima deles, manobrando contra a brisa.

Então deslizou para o lado, fez uma curva e se foi. Os dois sentiram um

arrepio diante daquela liberdade, do voo planado e despreocupado do bicho.

Ela pressionou a mão dele.

Um vulto azul veio andando pela praia na direção deles, um policial

militar a caminho da cidade, suas botas negras brilhando de graxa, irreais

em contraste com a praia radiante e suave. Enquanto o homem passava, seu

rosto moreno e impassível debaixo de óculos espelhados, Turner observou o

laser Steiner-Optic, em formato de carabina, com miras da Fabrique

Nationale. A farda estava impecável, com vincos afiados como facas.

O próprio Turner havia sido um soldado durante a maior parte da vida

adulta, embora nunca tivesse usado farda. Um mercenário. Seus

empregadores, grandes corporações em guerras secretas pelo controle de

economias inteiras. Era um especialista na extração de altos executivos e

pessoal de pesquisa. As multinacionais para as quais trabalhava nunca

admitiriam que existissem homens como Turner...

— Você conseguiu beber quase uma garrafa de Herradura ontem à

noite — disse ela.

Ele concordou. A mão dela, na sua, estava quente e seca. Ele prestava

atenção em como os dedos dos pés dela se abriam a cada passo, as unhas

pintadas com esmalte rosa lascado.

Os vagalhões iam e vinham, suas bordas transparentes como vidro

esverdeado.

O borrifo enfeitava de gotas o bronzeado dela.


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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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