William Shakespeare - A tragédia do Rei Ricardo II PDF

 


A peça Ricardo II é a única obra dramática de Shakespeare a retratar a deposição de um rei, como também, ao que se sabe, foi a única que foi certa vez encenada, supõe-se que pelo próprio Shakespeare - ainda que sem sua ciência, para estimular um golpe de Estado.

William Shakespeare - A tragédia do Rei Ricardo II PDF 

CENA I
Londres. Um quarto no palácio. Entram o rei Ricardo, com
séquito; João de Gaunt e outros nobres.
REI RICARDO — Lencastre honrado, velho João de Gaunt,
conforme teu penhor e juramento trouxeste Henrique de
Hereford, teu filho temerário, porque ele ora sustente a grave
acusação que não pudemos ainda julgar e que ele fez, há
pouco, contra Tomás Mowbray, duque de Norfolk?
GAUNT — Sim, veio ele comigo, Majestade.
REI RICARDO — Dize-me, ainda: acaso já o sondaste? Não se
funda em antigas desavenças a acusação lançada contra o
duque, ou provém essa queixa, como fora de esperar de um
vassalo dedicado, de provas positivas de traição?
GAUNT — Tanto quanto sobre isso foi possível examiná-lo,
trata-se, realmente, de perigo que ameaça Vossa Alteza, não
de malícia alguma da denúncia.
REI RICARDO — À nossa real presença os trazei logo. Face a
face, sobrolho carregado contra sobrolho, agora nos dispomos
a ouvir o que disserem livremente.
(Saem alguns homens do séquito.)
São teimosos; da cólera no afogo surdos são como o mar,
ardem qual fogo.
(Voltam os homens com Bolingbroke e Mowbray.)
BOLINGBROKE — Muitos anos de dias venturosos desejo ao
meu gracioso soberano, meu senhor e meu rei idolatrado.
MOWBRAY — Que ultrapasse em venturas cada dia quantos o
precederam, té que a inveja do céu, ante a terrena e feliz sorte,
um título imortal vos acrescente.
REI RICARDO — A ambos agradecemos, muito embora seja
um dos dois adulador, tal como se depreende da causa que vos
trouxe, a alta traição de que vos acusais. Primo Hereford, que
assacas contra Norfolk, Tomás Mowbray?
BOLINGBROKE — Primeiro o céu me sirva de testemunha! —
é como devotado súdito, sempre cioso da saúde preciosa de
seu príncipe, liberto de qualquer ódio baixo ou mal nascido, que
no papel de acusador eu me acho na vossa real presença. Ora,
Tomás Mowbray, é a ti que eu digo o que se segue; observa
minha saudação, pois tudo quanto eu disser, na terra este meu
corpo vai confirmar, ou responder minha alma divina no alto
céu. És miserável e traidor; de origem boa para seres isso, e
ruim demais para viveres. Quanto mais belo o céu, mais ele
esplende, mais feia é a nuvem que lhe o brilho ofende. E a fim
de arrematar o caso, digo que és traidor e que para teu castigo,
se meu rei consentir, a minha espada vai logo te privar da alma
danada.
MOWBRAY — Que minhas expressões pouco violentas o zelo
não me acusem. Nossa causa não será decidida pela prova de
guerra entre mulheres, por grosseiros palavrões de duas
línguas irritadas: quente está o sangue para que se esfrie por
esse meio. Mas também não posso de paciência orgulhar-me
assaz submissa para nada falar e ficar calmo. Em primeiro
lugar, o alto respeito diante de Vossa Alteza não me deixa soltar
as rédeas e calcar esporas em meu discurso livre, que teria
disparado até haver lançado ao rosto deste homem, duplicada,
a felonia de que ele ora me acusa. Se de parte pusermos a
realeza de seu sangue, sem que do parentesco nos lembremos
que o liga ao meu senhor, eu o desafio, cuspindo-lhe no rosto:
dou-lhe os nomes de covarde, de vil e maldizente. Sustento
quanto disse, concedendo-lhe vantagens, ainda mesmo que eu
tivesse de ir a pé até aos picos congelados dos Alpes, ou a
qualquer lugar inóspito em que jamais inglês haja pisado, isto
defenderá minha lealdade contra sua perfídia e falsidade.
BOLINGBROKE — Eis, trêmulo covarde, que te atiro, também,
o meu penhor, pondo de lado meu parentesco real e
renunciando à nobreza do sangue, que teu medo, não o
respeito, agora fez lembrada. Se o medo criminoso ainda te
deixa força bastante para levantares o penhor de minha honra:
então te abaixa para apanhá-lo, que, por ele e todo rito
cavaleiresco, braço a braço, sustento agora quanto aqui te
disse ou o que de pior tua malícia invente.
MOWBRAY — Levanto-o, e juro pela minha espada que a
honra de cavaleiro gentilmente nos ombros me depôs, que hei
de encontrar-te em qualquer condição lícita e justa, segundo as
nobres regras dos costumes cavaleirescos. E, uma vez
montado, não quero descer vivo se, em verdade, traidor eu for
ou falto de lealdade.
REI RICARDO — Que acusação levanta o nosso primo contra
Mowbray? Grande é, decerto, para nos fazer despertar o
pensamento de algo ruim por ele praticado.
BOLINGBROKE — Vede: o que eu vou dizer, provo-o com a
vida. Digo, pois, que Mowbray recebeu oito mil nobres como
empréstimo do soldo do exército de Vossa Majestade, que ele
desviou para uso inconfessável, como biltre injurioso e vil
traidor. Afirmo, ainda, e o provarei na liça, aqui ou alhures, ou
nas mais distantes paragens que olho inglês possa ter visto,
que todas as traições imaginadas durante estes dezoito últimos
anos têm no falso Mowbray a fonte e a origem. Digo mais, e
pretendo sustentá-lo, tirando-lhe a existência miserável, porque
surja a verdade, que ele a morte deu ao duque de Gloster, por
ter feito sugestões aos seus crédulos inimigos, e assim, como
traidor e pusilânime, em sangue lhe afogou a alma inocente,
sangue esse que me grita, como o sangue de Abel sacrificado,
das cavernas mudas de toda a terra, reclamando justiça pronta
e justa punição. Por meus avós, eu perderei a vida ou lhe darei
a pena merecida.
REI RICARDO — Como alto as suas decisões se elevam!
Tomás de Norfolk, que respondes a isso?
MOWBRAY — Oh! que meu soberano vire o rosto e deixe surdo
o ouvido alguns instantes, até que eu mostre à mancha do seu
sangue como Deus e as pessoas de respeito dedicam ódio a
tais caluniadores.
REI RICARDO — Ouvidos e olhos imparciais eu tenho, Tomás
Mowbray. Se irmão ele me fosse, digo mais: fosse o herdeiro da
coroa — com ser apenas filho do meu tio — juro pelo respeito
do meu cetro que a vizinhança ao nosso sacro sangue privilégio
nenhum lhe ensejaria, nem deixara parcial a inabalável firmeza
de minha alma íntegra e justa. És meu vassalo, como ele o é
também; fala, pois, sem receio de ninguém.
MOWBRAY — Então te digo, Bolingbroke, ao baixo coração,
pela porta estreita e falsa dessa garganta: mentes! Pois três
partes do pagamento de Calais em tempo foram devidamente
distribuídas entre os homens de Sua Majestade. A outra parte
eu guardei, depois de obtido consentimento do meu rei. É que
ele me devia ainda o resto de uma conta, do tempo em que eu
à França fora enviado, para trazer-lhe a esposa. Agora engole
toda a tua calúnia. Quanto à morte de Gloster, não fui eu seu
assassino, mas por minha desgraça, neste caso me acusa a
consciência de um descaso do dever. Quanto a vós, meu nobre
lorde de Lencastre, muito alto e venerando pai do meu inimigo,
uma cilada, de fato, eu preparei para matar-vos, pecado que me
punge a alma angustiada. Mas antes de tomar o sacramento,
não faz muito, eu contei todo o ocorrido, já tendo suplicado a
Vossa Graça que me perdoasse a falta, o que, suponho, não
me foi denegado. Eis o meu erro. Tudo o mais da denúncia
nasce apenas do rancor de um vilão, de um miserável, da
inveja de um traidor degenerado, contra o que eu próprio ainda
hei de defender-me, motivo por que jogo a minha luva, também,
aos pés desse traidor ousado para, no sangue que seu peito
albergue, provar que sou um fido gentil-homem. Marque, pois,
Vossa Alteza, sem demora, para o nosso recontro o dia e a
hora.
REI RICARDO — Guiai-vos por mim, fidalgos enraivados,
deixando-vos placar sem perder sangue. Sem ser médico, digo
que não há de cortar fundo demais vossa maldade. Sede
cordatos, esquecei; que o dia, diz o doutor, não é para sangria.
Vamos, bondoso tio, achar um meio que ponha logo um fim a
este torneio. Vós vos incumbireis de vosso filho; eu, de
Mowbray: sairão ambos com brilho.
GAUNT — Esse ofício diz bem com a minha idade. Vamos,
filho, revela urbanidade: solta o penhor do duque.
REI RICARDO — Faze o mesmo, Mowbray, com o dele.
GAUNT — Como! Acaso, a esmo falamos, Harry? A obediência
manda que ordens eu dê usando de voz branda.
REI RICARDO — Norfolk, a luva joga; qual o dano que disso te
advirá?
MOWBRAY — Meu soberano, atiro-me a teus pés. De minha
vida podes dispor, porém não te é devida minha vergonha.
Devo-te a primeira; mas meu nome, que a Morte, embora o
queira, jamais me apagará da sepultura, só poderá viver com a
fé mais pura. Acusado me vejo, escarnecido, tratado com
desprezo imerecido, transpassado até na alma pela espada
venenosa da infâmia, de que nada me poderá curar, senão
somente todo o sangue do biltre cujo dente me fez esta ferida.
REI RICARDO — Não devemos soltar rédeas à cólera; os
extremos se destroem: leões domam leopardos.
MOWBRAY — Mas perduram as manchas, pelos dardos
provindos da calúnia. Se a vergonha me tirares, prometo que a
peçonha não mais me há de lembrar. Meu soberano, o mais
puro tesouro, o mais que humano benefício que o tempo nos
concede é um nome imaculado, sem que adrede lhe
manchemos o brilho. Não passamos. sem isso, de uma argila
com recamos, simples poeira pintada. A mais preciosa jóia em
cofre inviolável é danosa reputação num peito leal e puro.
Minha honra é minha vida; meu futuro de ambas depende.
Serei homem morto, se me privarem da honra, do conforto de
um nome imaculado. Por tudo isso, meu caro rei, far-me-ás alto
serviço, se me deixares defender com a vida minha reputação
tão bem nascida.
REI RICARDO — Vamos, primo, começa.
BOLINGBROKE — Deus não queira que minha alma se
manche por maneira tão vergonhosa. E crível que eu, à vista de
meu pai, me rebaixe e que ele assista à minha humilhação, sem
que eu me guarde de mostrar-me inferior a este covarde? Antes
que a língua possa a honra ferir-me por maneira tão baixa, ou
que confirme minha queda, chamando a parlamento
vergonhoso, servindo-me do alento que me resta, com os
dentes eu cortara o órgão servil da humilhação amara e ao
rosto de Mowbray o jogaria, sangrento, onde se acoita a vilania.
(Sai Gaunt.)
REI RICARDO — Não temos por costume pedir nada, senão
dar ordens. Já que não podemos vos deixar como amigos,
aprestai-vos, respondendo com a vida nesse ponto, que em
Coventry vos batereis no dia de São Lambert. As lanças e as
espadas patentearão as intenções malvadas. Já que o não
pude, incumba-se a justiça de fazer ressaltar a fé castiça.
Marechal, aos arautos manda aviso para que vejam tudo o que
é preciso.
(Saem.)

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Ahmed Zayed

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