William Shakespeare - Trabalhos de Amor Perdidos PDF

 


Ferdinando, rei de Navarra, e três lordes querem cultivar o espírito e o conhecimento. Decidem-se então a três anos de jejum, abstinência sexual, muito estudo e pouco sono: quem for flagrado com uma mulher será acusado de traição. Mas logo chegam a princesa da França e três damas de companhia, fazendo com que os homens se arrependam amargamente dos seus juramentos. Cartas são escritas e entregues ao destinatário errado, disfarces e máscaras roubam a cena nesta hilariante e atualíssima comédia de Shakespeare sobre a dificuldade de se manter a palavra. Escrito entre 1595 e 1596, trata-se de um trabalho da juventude do autor e um dos mais exuberantes e espirituosos dos seus textos.


William Shakespeare - Trabalhos de Amor Perdidos PDF 

Cena I
O parque do rei de Navarra. Entram o rei, Biron, Longaville e
Dumaine.
REI - Possa a Fama, que em vida todos buscam, gravar-se em nossos
túmulos de bronze e amparar-nos da Morte perniciosa, quando,
apesar da ação voraz do Tempo, nos propiciar o esforço do presente a
honra que há de embotar-lhe o alfanje agudo e nos fizer herdeiros
incontestes de toda a Eternidade. Por tudo isso, bravos
conquistadores - sim, que o sois, vencendo as vossas próprias
afeições e a força incalculável dos desejos que o mundo vos desperta
- por tudo isso, o nosso edito agora publicado em todo o seu rigor
será mantido. Navarra vai tornar-se o grande assombro do mundo;
nossa corte, uma pequena academia, calma e circunspecta no que
tem relação com a arte da vida. Vós três, Biron,
Dumaine e Longaville, jurastes que haveríeis de comigo viver aqui
três anos, quais colegas de escola, e de observar os estatutos que se
acham consignados nesta cédula. Já o jurastes; agora assinai todos,
para que a própria mão desonre o nome do que violar qualquer
destes artigos. Se jurar e fazer é um só momento, mostrai-vos ora
fiéis ao juramento.
LONGAVILLE - Quero ver: é jejum só de três anos; folga o espírito,
embora o corpo sofra. Ventre grande é sinal de espírito oco; quando
a gordura é muita, o senso é pouco.
DUMAINE - Dumaine, meu senhor, se mortifica; deixa as maneiras
rústicas dos gozos deste mundo aos escravos vis e baixos deste
mundo grosseiro. Eis o programa: morrer para a riqueza, o amor e o
viço, e na filosofia herdar tudo isso.
BIRON - Meu caro soberano, só me cabe repetir os protestos deles
todos, pois o jurei, de aqui estudar três anos. Mas outras
observâncias rigorosas cumpre atender também: que não vejamos
mulher alguma nesse tempo todo, o que, penso, não foi aqui
anotado; nada comer num dia da semana e uma só refeição fizer ao
dia, o que penso, não foi aqui anotado; depois, dormir três horas só
por noite, sem cabecear de dia um só momento e eu que nunca
pensei durante a noite e meio dia em noite transformava - o que,
penso, não foi aqui anotado. Nessa viagem de estudos, que de
abrolhos: não ver mulher, jejuar, não pregar olhos!
REI - Jurastes cumprir todos esses pontos.
BIRON - Perdão, milorde; só se formos tontos. Eu só jurei que em
vossa companhia três anos cá na corte estudaria.
LONGAVILLE - Jurastes sim, Biron, o rei não mente.
BIRON - Então foi por brinquedo, unicamente. Se não, dizei: com o
estudo, que queremos?
REI - Ora! aprender o que ainda não sabemos.
BIRON - O que o senso comum pegar não pode?
REI - Sim, que o poder de cima nos acode.
BIRON - Vejamos: vou jurar precisamente conhecer o que está
proibido à mente. Por exemplo: onde achar um bom pitéu, muito
embora a jejuar seja obrigado; ou como transformar a terra em céu,
com bela amante, o que nos é vedado; ou como a juramento seja
infido, sem que como perjuro fique tido. Se do estudo esse é o grande
galardão, saber o que não sabe ainda a razão, - juro também, pois
nunca direi Não.
REI - Essa é a imensa vaidade que hoje em dia do estudo o nosso
espírito transvia.
BIRON - Vaidade é tudo, então; mas a suprema vaidade é a que
conosco em dor se extrema, como a mente nos livros mergulharmos
em busca da luz pura que, magana, nos cega, sem de nós nos
importarmos. Anelando mais luz, a luz se engana. Assim, querendo
achar no escuro a luz, acabais por não ver: prêmio de truz! Ensinaime,
ao invés disso, como a vista possa em olhos fixar de extremo
encanto, que, ofuscando-a, lhe valha por conquista tão radiosa que à
mente causa espanto. Comparo o estudo aos raios do sol claro que
perscrutar não pode o olhar mesquinho; sempre foi despiciendo o
lucro avaro que nos vem de alfarrábio ou pergaminho. Os padrinhos
terrestres da luz pura, que aos astros sabem dar nomes em messe,
não têm nas belas noites mais ventura do que o pastor que a todos
desconhece. Saber muito é de nomes ser zeloso, trabalho de
padrinho carinhoso.
REI - Como é sábio em defesa da ignorância!
DUMAINE - Das trevas, que de amor, quanta ganância!
LONGAVILLE - Para ele o trigo é nada, o joio é certo.
BIRON - Calma! O tempo dos ovos já está perto.
DUMAINE - A que vem isso?
BIRON - Hei de serrar de cima.
DUMAINE - Não tem lógica.
BIRON - Então pode ter rima.
REI - Biron é tal qual geada vastadora que destrói a esperança do
colono.
BIRON - Pode ser; mas é certa essa lavoura se, mudo, o passaredo
ainda tem sono? Por que ficar alegre antes do dia? Jamais desejei
flores no Natal, ou neve em maio, tempo da Bíblia; tudo tem seu
período natural. A idade mais estudos não comporta; pulais o muro,
em vez de abrir a porta.
REI - Adeus, Biron; contigo eu serei mudo.
BIRON - Perdão, milorde; eu lembro-me de tudo. Falei só como
bárbaro sincero quanto aos sábios presentes ofendeu mas cumprir a
palavra agora quero de abjurar por três anos o meu eu. Dai-me o
papel; desejo conhecê-lo para em todos os pontos pôr meu selo.
REI - Recuaste a tempo, ouvindo o nosso apelo.
BIRON (lê) - "Item: Nenhuma mulher poderá chegar a menos de
uma milha de nossa corte." Isso já foi proclamado?
LONGAVILLE - Há quatro dias.
BIRON - Vejamos qual é a penalidade: "Sob pena de perder a
língua". Quem teve essa idéia?
LONGAVILLE - Eu, decerto.
BIRON - E por que tanta crueldade?
LONGAVILLE - O remédio eficaz não tem piedade.
BIRON - Para a galantaria que maldade! "Item: Se dentro do prazo
de três anos for visto algum homem a conversar com uma mulher,
sofrerá a humilhação pública que a corte achar conveniente." Este
artigo, senhor, nos causa susto, que o rei da França à corte nos envia
por vos falar, sua própria filha, augusto modelo de beleza e cortesia.
Vem pleitear para o pai, velho e acamado, a entrega da Aquitânia. É,
pois, patente, ou que este artigo em vão será aprovado ou que a
princesa aqui virá vãmente.
REI - Como nos esquecemos desta parte?
BIRON - Zelo demais transcende o engenho e a arte; querendo
conquistar o que deseja, descura da porção mais benfazeja, e ao
contemplar a esplêndida conquista no fim só fogo e ruínas é o que
avista.
REI - É forçoso essa parte pôr de lado, pois o pacto não pode ser
quebrado.
BIRON - Em três anos, assim, perjuraremos três mil vezes.
Nascemos com pendores que vencer as mais vezes não podemos sem
a Graça, o só bálsamo das dores. Se eu faltar num só ponto,
pressuroso direi como desculpa: foi forçoso. Posso, pois, subscrever
tudo sem medo, (Assina.) porque quem perjurar um só dos pontos
sem honra viverá, como em degredo; não devo ter mais medo do que
os tontos. Mas embora revele repugnância, estou certo de que hei de
ter constância. Mas não há diversão em perspectiva?
REI - Há, pois não? Nossa corte ora se aviva com um viajante de
Espanha, refinado que a moda sempre traz em roda-viva e de frases o
cérebro enxertado, a quem a fala vã causa deleite como a mais
agradável harmonia, verniz por fora, apenas, mas aceite como árbitro
em questiúnculas do dia. Esse Armado, da fábula nascido, vai contarnos
em termos rebuscados quanto a morena Espanha tem crescido
nos feitos de seus homens olvidados. Não posso predizer se haveis de
amá-lo; enquanto a mim, agrada-me escutá-lo e como cantor meu
ora empregá-lo.
BIRON - Armado é um cavalheiro muito ilustre, cheio de termos
novos e de lustre.
LONGAVILLE - Ele e Costard! O pacto já está feito; três anos serão
curtos desse jeito.
(Entram Dull, com uma carta, e Costard.)
DULL - Qual é a própria pessoa do rei? BIRON - Esta, amigo. Que
desejas?
DULL - Eu mesmo represento sua pessoa, por ser o oficial de justiça
de Sua Graça; mas desejo ver a sua pessoa em carne e osso.
BIRON - Aqui está ele.
DULL - O signior Arm... Ami... se recomenda. Está havendo vilania
por aí; esta carta vos dirá melhor o que há.
COSTARD - Senhor, o assunto desta carta me diz respeito.
REI - Uma carta do magnífico Armado!
BIRON - Por mais insignificante que seja o assunto, confio em Deus
que vamos ouvir termos alevantados.
LONGAVILLE - Uma grande esperança para céu tão baixo! Deus nos
proveja de paciência. BIRON - Para escutar ou para não rir?
LONGAVILLE - Para ouvir com paciência, senhor, e rir com
moderação, ou para nos livrarmos de ambas as coisas.
BIRON - Dois pararemos, senhor, onde o seu estilo nos atirar.
COSTARD - O assunto é comigo, senhor, e diz respeito a Jaqueneta.
O caso é que eu fui apanhado no próprio caso.
BIRON - Que caso é esse?
COSTARD - No caso e na forma seguinte, senhor, sem faltar um só
dos três: eu fui apanhado com ela no castelo, sentado junto dela,
segundo a forma, e fui visto, quando a seguia para o parque, e isso,
em conjunto, foi da maneira e da forma seguintes: quanto à maneira,
senhor, foi da maneira por que um homem fala com uma mulher;
quanto à forma.., foi de qualquer forma.
BIRON - E a conseqüência, senhor?
COSTARD - A conseqüência é a minha correção. Deus defenderá o
Direito!
REI - Quereis ouvir com atenção a leitura desta carta?
BIRON - Como ouviríamos a palavra da própria Sibila.
COSTARD - É isso mesmo; basta um sibilo para que a gente saia
correndo atrás da carne.
REI (lê) - "Grande governador, vice-regente do firmamento e
dominador exclusivo de Navarra, deus terreno de minha alma e
mestre alimentador do meu corpo..."
COSTARD - Sobre Costard nenhuma palavra até agora.
REI - ''Foi assim..."
COSTARD - Pode ser que tenha sido assim; mas se ele diz que foi
assim, dizendo a verdade, ele é apenas assim, assim.
REI - Paz!
COSTARD - Para mim e para todos os que têm medo de briga.
REI - Nem mais uma palavra!
COSTARD - Acerca dos segredos dos outros, posso asseverar-vos.
REI - "Foi assim: vencido pela melancolia de cor negra, eu entregava
o humor escuro e deprimente ao tratamento salutar de tua atmosfera
reconfortante, e tão certo como ser um gentil-homem, pus-me a
passear. Em que momento? Pelas seis horas, quando o gado gosta de
pastar, os pássaros bicam de melhor grado e os homens se sentam
para tomar o alimento a que dão o nome de sopa. Isso quanto ao
tempo em quê. Agora, quanto ao terreno sobre quê, quero dizer,
sobre que eu me movia: tem o nome de teu parque. Quanto ao lugar
em quê, digo, em que eu descobri este acontecimento altamente
obsceno e despropositado, que arranca da minha pena branca como
neve a tinta de cor de ébano que aqui vês, observas ou percebes. No
que respeita ao lugar em quê, ficar a nor-nordeste e a este do ângulo
oeste de teu jardim curiosamente inextricável. Foi aí que eu vi a esse
estúpido pastor, a esse mesquinho gobião que te faz rir..."
COSTARD - Eu!
REI - "...essa alma iletrada e ignorante.."
COSTARD – Eu!
REI - "....esse vaso de pouco fundo..."
COSTARD - Ainda eu!
REI- "...que, se não me falha a memória, tem o nome de Costard..."
COSTARD - Pobre de mim!
REI - "...unido e reunido, contrariamente ao edito estabelecido e
proclamado e aos cânones continentes com... com... Oh! com quem
só de dizer me faz revolta..."
COSTARD - Com uma rapariga.
REI - "...com uma filha de nossa avó Eva, uma fêmea, ou, por
maneira mais adequada ao teu entendimento, uma mulher.
Obediente às injunções do meu sempre comprovado dever, para que
receba o castigo merecido envio-te esse tal pelo oficial de tua doce
Graça, Antônio Dull, pessoa de bom nome, boa conduta, bons
costumes e grandemente estimado."
DULL - Sou eu, com vossa permissão; Antônio Dull sou eu.
REI - "Quanto a Jaqueneta - que assim se chama o fraco vaso que eu
surpreendi com o referido pastor - conservo-a como vaso para a fúria
de tua lei, pronto a levá-la para o julgamento ao menor sinal de tua
doce notícia. O teu, com todos os cumprimentos de um coração
devotado e ardoroso do desejo de cumprir o dever, Dom Adriano de
Armado."
BIRON - Não é tão bom como eu esperava, mas é o que de melhor já
ouvi no gênero.
REI - Sim, o melhor do pior. Mas vós aí, amigo, que dizeis disso
tudo?
COSTARD - Senhor, eu confesso a rapariga.
REI - Não ouvistes a proclamação?
COSTARD - Confesso que ouvi falar muito dela, mas não lhe dei
grande atenção.
REI - A proclamação fala em um ano de prisão para quem quer que
fosse visto com uma mulher.
COSTARD - Eu não fui visto com nenhuma mulher, senhor; eu fui
apanhado com uma donzela.
REI - Seja; a proclamação dizia "donzela".
COSTARD - Não era donzela também, senhor; era virgem.
REI - Abrangia tudo; foi proclamado também "virgem".
COSTARD - Se é assim, nego-lhe a virgindade; fui apanhado com
uma rapariga.
REI - Essa rapariga não vos servirá de nada, senhor.
COSTARD - Essa rapariga vai servir-me de muito, senhor.
REI - Senhor, vou pronunciar vossa sentença: sereis obrigado a
jejuar durante uma semana somente a pão e água.
COSTARD - Preferira rezar um mês com sopa e carne de carneiro.
REI - Dom Armado vai ser o vosso guarda. E ora, milordes, vamos
dar começo à jura que entre nós já está firmada.
(Saem o rei, Longaville e Dumaine.)
BIRON - Perderei a cabeça, sem pôr preço, se não for dar tudo isso
em patuscada. Vamos, malandro!
COSTARD - Eu sofro pela verdade, senhor; porque a verdade é que
eu fui apanhado com Jaqueneta e Jaqueneta é uma rapariga
verdadeira. Por isso, seja bem-vinda a amarga taça da prosperidade!
Algum dia ainda poderá sorrir-me de novo a aflição. Até lá, tristeza,
toma conta de mim!
(Saem.)

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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