William Shakespeare - Ricardo III PDF

 


Ricardo III é uma das peças históricas de William Shakespeare e narra um pedaço da história da Inglaterra. Encenada pela primeira vez entre 1592 e 1593, com enorme sucesso, se passa no final da Guerra das Rosas (1455-1485), conflito sucessório pelo trono da Inglaterra ocorrido entre 1455 e 1485 que coloca em choque político os dois ramos da dinastia Planta­geneta: a Casa Real de York e a Casa Real de Lan­caster. A peça oferece uma visão rica dos bastidores políticos no que se refere à imoralidade e à ambição desmesurada para chegar ao poder. Ricardo, Duque de Gloucester – que de fato governou a Inglaterra de 1483 a 1485 –, não sente remorso algum ao eliminar seus adversários, tramando complôs, traindo familiares e casando-se por interesse com o único fim de chegar ao trono. Shakespeare retratou Ricardo III exagerando-lhe as características físicas de feiúra e sua maldade pessoal, criando um vilão fascinante aos olhos do leitor. Além disso, os diálogos elaborados pelo autor no fim do século XVI chegam ao século XXI, por meio desta tradução, em toda a sua força, carregados de maldades, ressentimentos e ódios à flor da pele, legítimos duelos verbais.


 William Shakespeare - Ricardo III PDF 

Cena I
(Entra Ricardo, Duque de Gloucester)
RICARDO (Duque de Gloucester) — O inverno do nosso
descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por
este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa
casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora
as nossas frontes estão coroadas de palmas gloriosas. As
nossas armas rompidas suspensas como troféus, os nossos
feros alarmes mudaram-se em encontros aprazíveis, as nossas
hórridas marchas em compassos deleitosos, a guerra de rosto
sombrio amaciou a sua fronte enrugada. E agora, em vez de
montar cavalos armados para amedrontar as almas dos
temíveis adversários, pula como um potro nos aposentos de
uma dama ao som lascivo e ameno do alaúde. Mas eu, que não
fui moldado para jogas nem brincos amorosos, nem feito para
cortejar um espelho enamorado. Eu, que rudemente sou
marcado, e que não tenho a majestade do amor para me
pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privado
sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da
natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de
tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e
de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me
ladram quando passo, coxeando, perto deles. Pois eu, neste
ocioso e mole tempo de paz, não tenho outro deleite para
passar o tempo afora a espiar a minha sombra ao sol e cantar a
minha própria deformidade. E assim, já que não posso ser
amante que goze estes dias de práticas suaves, estou decidido
a ser ruim vilão e odiar os prazeres vazios destes dias. Armei
conjuras, tramas perigosas, por entre sonhos, acusações e
ébrias profecias, para lançar o meu irmão Clarence e o Rei um
contra o outro, num ódio mortífero, e se o Rei Eduardo for tão
verdadeiro e justo quanto eu sou sutil, falso e traiçoeiro, será
Clarence hoje mesmo encarcerado devido a uma profecia que
diz será um “gê” o assassino dos herdeiros de Eduardo.
Mergulhai, pensamentos, fundo, fundo na minha alma. Ali vem
Clarence. (Entram Clarence e Brakenbury com alguns guardas.)
Irmão, bom dia. Que significam estes guardas armados ao
serviço de Vossa Graça?
CLARENCE — Sua Majestade, interessada na segurança da
minha pessoa, enviou esta escolta para me conduzir à Torre.
RICARDO (Duque de Gloucester) — E qual a causa?
CLARENCE — Porque o meu nome é George.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Oh! Senhor meu, não, não
é vossa a culpa. Deveria ele, por tal razão, prender vossos
padrinhos. Oh, talvez Sua Majestade tenha intento de outra vez
vos batizar na Torre. Mas que se passa, Clarence? Posso
saber?
CLARENCE — Podes, Ricardo, quando eu próprio o souber,
porque juro que não sei ainda, mas, pelo que ouvi, ele crê em
profecias e em sonhos, e do alfabeto escolhe a letra “gê”, e diz
que um mago feiticeiro lhe revelou que é por um “gê” que um
dia será deserdada a sua prole e porque o meu nome começa
por gê ele conclui que serei eu. Estas, quanto eu sei, e outras
ninharias semelhantes levaram Sua Alteza a mandar-me
prender.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Pois assim é quando os
homens são dominados por mulheres. Não é o Rei quem vos
manda para a Torre, mas a senhora de Grey, sua esposa,
Clarence, é ela quem o leva a tais extremos. Não foi ela e
aquele homem que tem fama tão subida, Antônio de Woodville,
esse seu irmão, que o fizeram mandar Hastings para a Torre,
donde hoje mesmo sairá? Não estamos a salvo, Clarence, não
estamos a salvo!
CLARENCE — Oh, céus, não creio que alguém esteja a salvo
afora os parentes da Rainha e os mensageiros da noite que
percorrem a distância entre o Rei e essa senhora Shore. Não
ouviste dizer quantas humilhações sofreu o senhor de Hastings
para conseguir a liberdade?
RICARDO (Duque de Gloucester) — Humildes súplicas a essa
deidade concederam a Sua Excelência o Camareiro-Mor a
liberdade. Uma coisa te direi: cuido que nosso caminho será, se
nos quisemos manter nas boas graças de El-Rei, fazermo-nos
servos dela e usar sua libré. Desde que nosso irmão as
transformou em nobres damas, a viúva gasta e invejosa, e ela
própria, são comadres poderosas neste reino nosso.
BRAKENBURY — Perdoem-me Vossas Graças: sua Majestade
com rigor recomendou que ninguém, fosse quem fosse,
pudesse em privado conversar com vosso irmão.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Ah; sim? Se aprouver a
Vossa Mercê, Brakenbury, podeis tomar parte em tudo o que
dissemos. Não falamos de traição, homem, dizemos que o Rei
é astuto e virtuoso, e a nobre Rainha bem conservada, formosa,
e sem ciúme. Dizemos que a mulher de Shore tem pé de jaspe,
boca de rubi, belos olhos, língua amável e fugaz; e que os
parentes da Rainha agora são fidalgos. Que tendes a dizer,
senhor? Ousais negar estas sentenças?
BRAKENBURY — Nada disso, senhor, me diz respeito.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Nada, nem a senhora
Shore? Digo-te, companheiro, que, a não ser um só, quem com
ela tiver trato melhor fará que o faça secretamente, a sós.
BRAKENBURY — Quem é esse “um só”, senhor?
RICARDO (Duque de Gloucester) — O marido dela, velhaco!
Querias trair-me.
BRAKENBURY — Imploro o perdão de Vossa Graça e ao
mesmo tempo que cesse de falar com o nobre Duque.
CLARENCE — Sabemos o teu dever, Brakenbury, e
obedeceremos.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Somos os míseros servos
da Rainha, somos forçados a obedecer. Irmão, adeus. Vou ao
encontro de El-Rei, seja o que for que me mandeis fazer,
mesmo chamar “irmã” à viúva do Rei Eduardo eu o farei para
vos libertar. Entretanto, este rude golpe nos fraternos laços fereme
mais profundamente do que podeis cuidar. (Abraça
Clarence, chorando)
CLARENCE — Eu bem sei que isso não apraz a nenhum dos
dois.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Bom, vossa prisão não
será longa. Libertar-vos-ei, ou eu me enredarei por vós. Em
tanto, sofrei com paciência.
CLARENCE — Assim por força terei de fazer. Adeus.
(Sai Clarence Brakenbury e guardas)
RICARDO (Duque de Gloucester) — Vai, percorre esse
caminho que não terás regresso. Simples, incauto Clarence, hei
por ti tamanho amor que em breve enviarei para o céu a tua
alma, se o céu aceitar o dom feito assim por nossas mãos. Mas
quem vem aí? Hastings neste instante libertado?
(Entra o senhor de Hastings)
HASTINGS — O meu bom dia a meu ilustre senhor.
RICARDO (Duque de Gloucester) — O mesmo desejo a meu
bom senhor, o Camareiro-Mor; mui bem-vindo sois a este ar
puro e livre. Como suportou Vossa Senhoria a prisão?
HASTINGS — Com paciência, nobre senhor, como é dever dos
cativos, mas viverei, senhor, para dar graças aos que foram
causa da minha prisão.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Que assim seja! E o
mesmo será com Clarence, porque os que eram inimigos
vossos, dele o são também, e contra ele ganharam, como
contra vós.
HASTINGS — Pena é haver águias prisioneiras quando
milhafres e abutres rapinam em liberdade.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Que novas haveis de fora?
Não há, de fora, nova tão má como esta cá de dentro: o Rei
está enfermo, fraco e melancólico, e os físicos temem por ele.
RICARDO (Duque de Gloucester) — Por São João essa nova é
deveras má. Oh, ele teve por usança largo tempo nocivas
regras e gastou em demasia sua real pessoa. É doloroso
pensar em tal. Onde está ele, em seu leito?
HASTINGS — Em seu leito.
RICARDO (Duque de Gloucester) — I-vos adiante, eu vos
seguirei. (Sai Hastings) Ele não viverá, assim espero, e não
pode morrer antes de George ser mandado de carruagem para
os céus. Vou procurar El-Rei para mais excitar seu ódio contra
Clarence com mentiras temperadas de argumentos
ponderosos; e se não errar este meu profundo intento, Clarence
não terá nem mais um dia para viver. Feito isto, tenha Deus em
sua misericórdia El-Rei Eduardo, e deixe a mim o mundo para
eu me mover nele. Então desposarei a filha mais nova de
Warwick. Que importa se lhe matei o marido e lhe matei o pai?
A melhor forma de dar remédio ao mal que fiz à moça é tornarme
seu marido e seu pai também. É isto que eu quero, não
tanto por amor mas por outro intento mui secreto que alcançarei
casando-me com ela. Porém, cada coisa a seu tempo. Clarence
ainda respira, Eduardo ainda vive e reina; quando eles já não
forem, então farei contas aos meus ganhos. (Sai)

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Ahmed Zayed

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