William Shakespeare - Otelo PDF

 


Raros são os textos a abordarem com tamanha complexidade as relações humanas como aqueles escritos por William Shakespeare (1564 - 1616). Otelo é uma das mais maduras tragédias escritas pelo dramaturgo. Em um enredo único, Shakespeare desenvolve o tema do ciúme nutrido pelo mouro Otelo em relação à jovem, bela e casta esposa Desdêmona. Esse ciúme é fomentado por Iago, alferes de Otelo, que vê sua oportunidade de promoção interrompida quando é preterido por Cássio, tenente do general. De uma sagacidade sem tamanho, com propósitos de vingança, Iago induz Otelo a suspeitar da fidelidade de sua mulher. O enredo está armado e Otelo, o grande e imbatível general de outrora, terá à sua frente a maior batalha de sua vida a enfrentar, pois ela sepassará dentro dele mesmo. Vivendo o conflito entre acreditar em sua esposa ou duvidar dela, Otelo oscila entre o bem, representado por Desdêmona em contraposição ao mal, representado pelo diabólico Iago.


William Shakespeare - Otelo PDF

Cena I
Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.
RODRIGO — Cala-te! Não me fales. Aborrece-me demais
verificar que justamente tu, Iago, que dispunhas à vontade de
minha bolsa, como se teus fossem seus cordões, conhecesses
isso tudo...
IAGO — Mas escuta-me, ao menos! Se eu já sonhei alguma
vez com isso, podes abominar-me.
RODRIGO — Dito me havias que lhe tinhas ódio.
IAGO — Despreza-me, se não for assim mesmo. Três pessoas
de grande influência aqui vieram falar-lhe, chapéu na mão, com
humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha
fé de homem, tenho plena consciência do que valho; não
mereço posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultando
somente o orgulho e os próprios interesses, furtou-se com
fraseado bombástico, recheado só de epítetos de guerra. Em
conclusão: não entendeu aos meus intercessores. “Pois já
escolhi meu oficial”, lhes disse. E quem é ele? Ora, por minha
fé, um matemático, um tal Micael Cássio, um florentino, um tipo
quase pelo próprio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que
nunca comandou nenhum soldado em campo de batalha e que
conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudição de
livros, simplesmente, sobre o que podem dissertar com a
mesma proficiência que a dele os nossos cônsules togados;
palavrório sem sentido, carecente de prática: eis sua arte. No
entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, que aos
próprios olhos dele provas cabais já dera em Chipre e Rodes e
em muitos outros pontos habitados por cristãos e pagãos, terei
de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, só por causa do devere-
haver de um simples calculista, que — oh tempos! — vai
tornar-se tenente, enquanto que eu — Deus me perdoe! —
continuarei sendo do Mouro o alferes.
RODRIGO — Pelo céu, preferira ficar sendo carrasco dele.
IAGO — Já não há remédio. É a maldição do ofício: as
promoções se obtêm só por pedidos e amizades, não pelos
velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do
primeiro. Ora, senhor, ajuizai vós mesmos se razões tenho para
amar o Mouro.
RODRIGO — Assim, eu não ficara sob suas ordens.
IAGO — Ó senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens
é só em proveito próprio. Mestres nem todos podem ser, nem
todos os mestres podem ter bons servidores. Já tereis visto por
aí bastantes sujeitos obsequiosos, de flexíveis joelhos que,
apaixonados pela própria escravidão, o tempo todo gastam
como o asno do amo, só pela comida; e, quando ficam velhos:
despedidos. Chicote nessa gente muito honesta! Outros há que
sabendo a forma externa revelar do dever, as feições próprias,
o coração conservam sempre atentos no proveito pessoal;
enquanto aos amos dispensam mostras de serviço, apenas,
prosperam muito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes
forram, a si próprios prestam boa homenagem. Esses tipos têm
alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afiançar-vos.
Pois senhor, tão certo como serdes Rodrigo, se em verdade eu
fosse o Mouro, não queria um Iago sob minhas ordens, pois
seguindo-o, apenas sigo a mim próprio. O céu é testemunha:
não me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, só o
interesse. Se as mostras exteriores de meus atos me
traduzissem os motivos próprios do coração em traços
manifestos, carregaria o coração na manga, para atirá-lo às
gralhas. Ficai certo: não sou o que sou.
RODRIGO — Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se
puder, realmente, levar isso até ao fim.
IAGO — Chama o pai dela; desperta-o; corre atrás do Mouro,
põe-lhe veneno na alegria; o nome dele proclama pelas ruas, os
parentes dela deixa excitados, e ainda que ele more em clima
adorável, atormenta-o com praga de mosquitos. Muito embora
sua alegria seja verdadeira, com tais contrariedades o
persegue, que a cor a perder venha.
RODRIGO — Fica aqui mesmo a casa do pai dela; vou chamar
em voz alta.
IAGO — Mas com vozes de medo e uivos terríveis, como
quando por negligência, à noite, o fogo estala num burgo
populoso.
RODRIGO — Olá, Brabâncio! Senhor Brabâncio, olá!
IAGO — Ladrões! Brabâncio! Brabâncio, despertai! Ladrões!
Ladrões! Cuidai de vossa casa, vossa filha, de vossos cofres!
Acordai! Ladrões!
(Brabâncio aparece na janela.)
BRABÂNCIO — Qual é o motivo de tão grande bulha? Que
aconteceu?
RODRIGO — Senhor, tendes aí dentro toda vossa família?
IAGO — Vossos quartos estão fechados?
BRABÂNCIO — Ora, qual a causa de perguntardes isso?
IAGO — Com mil diabos, senhor, fostes roubado; por vergonha,
ide vestir a toga; arrebentado tendes o coração; metade da
alma já vos foi alienada. Agora mesmo, neste momento, um
velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o
sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do
contrário, o diabo vos fará ficar avô. Despertai! É o que eu digo.
BRABÂNCIO — Mas que é isso! Perdestes o juízo?
RODRIGO — Venerável senhor, reconheceis-me pela voz?
BRABÂNCIO — Não; mas quem sois?
RODRIGO — Rodrigo; assim me chamo.
BRABÂNCIO — Pior nome não podias revelar-me. Não te proibi
de me rondar a casa? Não me ouviste dizer, com leal
franqueza, que para ti não era minha filha? Por que me vens
agora, transtornado pela ceia e os vapores da bebida, com tua
tratantagem maliciosa perturbar-me o repouso?
RODRIGO — Meu senhor, senhor, senhor...
BRABÂNCIO — Mas podes ficar certo de que minha coragem e
meu posto na república têm poder bastante para fazer-te
amargurar por isso.
RODRIGO — Paciência, bom senhor.
BRABÂNCIO — Por que me falas em roubo? Estamos em
Veneza; minha casa não é uma granja.
RODRIGO — Venerável senhor, vim procurar-vos com lisura.
IAGO — Ora, senhor! Sois uma dessas pessoas que se
negariam a servir a Deus, se fosse o diabo que lhes ordenasse.
Por que viemos prestar-vos um serviço e nos tendes na conta
de velhacos, quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo
berbere e que vossos netos relinchem atrás de vós? Quereis ter
cordeis como primos e ginetes como parentes?
BRABÂNCIO — Quem és tu, miserável licencioso?
IAGO — Sou um homem, senhor, que vim revelar-vos que
vossa filha e o Mouro se acham no ponto de fazer o animal de
duas costas
BRABÂNCIO — Sois um vilão.
IAGO — E vós... um senador.
BRABÂNCIO — Vais pagar-me. Conheço-te, Rodrigo.
RODRIGO — Responderei por tudo. Mas pergunto-vos, senhor,
se foi com vosso assentimento, vosso sábio conselho — como
quase fico a pensar — que vossa linda filha, na calada de noite
tão escura, saiu em companhia de um sujeito nem melhor nem
pior do que um velhaco por qualquer alugado, num gondoleiro,
para aos abraços torpes entregar-se de um Mouro luxurioso; se,
realmente, sabeis de tudo e concordais com isso, bem: nesse
caso é certo vos fazermos inominável e atrevida ofensa. Mas se
desconheceis o que se passa, ensina-me o costume que não
tendes razão de censurar-nos desse modo. Não creiais que tão
falho eu me revele de cortesia, para vir agora zombar de vossa
grande reverência. Vossa filha — de novo vos declaro — se não
lhe destes permissão, mui grave pecado cometeu, unindo o
espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro
andejo e desgarrado daqui e de toda parte. Convencei-vos
neste momento: se no quarto dela fordes achá-la, ou mesmo
em toda casa, entregai-me à justiça da república por vos ter
enganado desse modo.
BRABÂNCIO — Acendei fogo! Olá! Dai-me uma vela! Despertai
todo mundo. Este incidente não destoa dos sonhos que já tive.
Só de pensar em tal, me sinto opresso. Luz, repito! Um vela!
(Retira-se da janela.)
IAGO — Adeus; não posso ficar mais tempo aqui. Não é
prudente — dado o meu posto — nem recomendável ser
chamado a juízo contra o Mouro, o que aconteceria se eu
ficasse. Pois sei-o bem: o Estado, muito embora venha a afligilo
com alguma crítica, não pode dispensar-lhe os bons serviços
sem correr grande risco. Com tão fortes razões o encarregaram
da campanha contra os chipriotas — que ora se acha em curso
— que para a vida assegurar de todos não encontram ninguém
de igual calibre capaz de dirigir esse negócio. Por isso, muito
embora lhe vote ódio como às penas do inferno, sou forçado
pelas necessidades do presente a arvorar a bandeira da
amizade que não passa de simples aparência. Para terdes
certeza de encontrá-lo, encaminhai na direção do albergue do
Sagitário os que hão de procurá-lo. Lá, como ele estarei. E
agora, adeus. (Sai.)
(Entram Brabâncio e criados, com tochas.)
BRABÂNCIO — Minha infelicidade é mais que certa. Fugiu
mesmo. Do tempo desprezível que me resta de vida não espero
senão tão-só tristezas. Onde a viste, Rodrigo? — Oh! que
menina sem juízo! — Junto com o Mouro, foi o que disseste? —
Quem quisera ser pai! — Por quais indícios vieste a reconhecêla?
Oh! Iludiu-me de modo inconcebível. Que te disse? — Olá!
Trazei mais velas! Despertai todos os meus parentes! —
Acreditas que se tenham casado?
RODRIGO — É o que parece, para vos ser sincero.
BRABÂNCIO — Oh céus! Que meios ela encontrou para sair de
casa? Oh! que traição do sangue! Doravante, pais, não confieis
no espírito das filhas só por suas ações. Não há feitiços
capazes de alterar as qualidades das virgens inocentes? Nunca
lestes, Rodrigo, qualquer coisa a esse respeito?
RODRIGO — Em verdade, senhor, li qualquer coisa.
BRABÂNCIO — Ide chamar o mano. — Oh! se a tivésseis
desposado! — Cada um vá por um lado. — Sabeis onde
podemos apanhá-la juntamente com o Mouro?
RODRIGO — Estou bem certo de poder encontrá-los, se
quiserdes dar-me uma boa escolta e vir comigo.
BRABÂNCIO — Servi de guia. Baterei em todas as casas; meu
poder é muito grande. — Trazei armas, olá! Fazei que venha
logo a ronda! — Sigamos, bom Rodrigo; hei de saber vos ser
agradecido.
(Saem.)

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Ahmed Zayed

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