William S. Burroughs _ Junky PDF

 


Com uma prosa precisa e linear (quase como se fossem relatórios de um agente secreto investigando o submundo das drogas e do homossexualismo), William Burroughs narra em "Junky" suas primeiras experiências com narcóticos (heroína, morfina etc.), em um texto que arrombou as portas da festa (junto com "On the Road", de Jack Kerouac) e inaugurou a era de hedonismo barato dos anos 1960 e 1970.

William S. Burroughs _ Junky PDF 

Prólogo
Nasci em 1914, numa sólida casa de tijolo aparente, de três
andares, numa grande cidade do Meio-Oeste. Meus velhos viviam
bem. Meu pai tocava seu próprio negócio madeireiro. A casa tinha
uma área na frente, um quintal nos fundos com jardim, um laguinho
cheio de peixes e uma cerca alta de madeira protegendo tudo. Me
lembro do homem dos lampiões acendendo o gás nas ruas, do
enorme Lincoln preto reluzente e dos passeios pelo parque aos
domingos. Não faltava nada: era uma vida segura e confortável,
para sempre perdida agora. Eu podia vir com uma dessas
conversas nostálgicas sobre o médico alemão que morava ao lado,
os ratos que rondavam o quintal, o carrinho elétrico da minha tia e o
meu sapo de estimação que vivia na beira do laguinho dos peixes.
Na verdade, minhas primeiras lembranças são matizadas pelo
medo de pesadelos. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo do
escuro e medo de dormir por causa dos pesadelos, em que um
horror sobrenatural estava sempre a ponto de se materializar. Tinha
medo de que um dia, ao acordar, o pesadelo ainda estivesse lá. Me
lembro de uma empregada falando sobre ópio, que o ópio trazia
sonhos lindos, e eu disse: “Vou fumar ópio quando eu crescer”.
Quando criança eu vivia assolado por alucinações. Uma vez,
acordei de manhã bem cedo e vi uns homenzinhos brincando numa
casa de cubos que eu tinha erguido. Não tive medo, só uma
sensação de imobilidade e espanto maravilhado. Outra alucinação
ou pesadelo muito comum envolvia “animais na parede”, e
começava com o delírio provocado por uma febre estranha, jamais
diagnosticada, que eu costumava ter aos quatro, cinco anos.
Frequentei uma escola moderna, ao lado dos futuros cidadãos
íntegros — advogados, médicos e empresários de uma grande
cidade americana. Junto das outras crianças eu ficava tímido, com
medo de violências físicas. Tinha uma lésbica mirim muito agressiva
que puxava meu cabelo tão logo me via. Eu bem que gostaria de
socar a cara dela nesse mesmo instante, mas, anos atrás, ela caiu
do cavalo e quebrou o pescoço.
Quando eu tinha sete anos, meus pais resolveram se mudar para
o subúrbio “pra se verem livres de gente”. Compraram um casarão
com muito terreno, bosques e um lago com peixes; em vez de ratos,
havia esquilos no quintal. Vivíamos numa redoma aprazível, ao lado
de um belo jardim, afastados da vida urbana.
Me botaram num ginásio particular de subúrbio. Eu não era
especialmente bom ou mau nos esportes, nem brilhante ou
retardado nos estudos. Tinha um bloqueio definitivo para
matemática e tudo que fosse mecânico. Jamais gostei de jogos
competitivos de equipe, e os evitava sempre que possível. O fato é
que me tornei um doente imaginário crônico. Porém, gostava pra
valer de pescar, caçar e caminhar. Lia mais do que a média dos
garotos americanos daquele tempo e lugar: Oscar Wilde, Anatole
France, Baudelaire e até Gide. Criei um apego romântico por um
garoto, e a gente passava os sábados explorando velhas pedreiras,
passeando de bicicleta e pescando em lagoas e rios.
Por essa época, fiquei muito impressionado pela autobiografia de
um ladrão, intitulada Você não pode vencer. O autor afirmava que
tinha passado boa parte da vida na prisão. Me parecia melhor que a
chatice do subúrbio, onde todo contato com a vida estava cortado.
Eu encarava meu amigo como um aliado, um cúmplice no crime. A
gente descobriu uma fábrica abandonada, quebrou todos os vidros e
roubou um formão. Fomos apanhados e nossos pais tiveram de
pagar os prejuízos. Depois dessa, meu amigo me virou a cara,
porque a nossa relação punha em risco sua permanência no grupo.
Eu logo vi que não havia compromisso possível com aquele grupo
— os outros — e, quando dei por mim, estava bem sozinho.
O ambiente era estéril, o adversário vivia oculto e eu parti para
aventuras solitárias. Meus atos criminosos eram meros gestos
gratuitos, não visavam vantagens, e, na maior parte, não eram
punidos. Eu invadia casas, ficava zanzando lá dentro sem pegar
nada. Na verdade, não tinha nenhuma necessidade de dinheiro. Às
vezes, eu percorria a região com uma carabina 22, acertando
galinhas. Dirigia como um tarado, sem ligar pra segurança, até que
um acidente, do qual saí sem um único arranhão por milagre, me
assustou a ponto de me tornar prudente.
Entrei numa das três grandes universidades, onde me graduei em
literatura inglesa por falta de interesse em outro assunto. Detestava
a universidade e a cidade em que estava instalada. Tudo ali era
morto. A universidade era um estabelecimento inglês postiço dirigido
por graduados em renomadas escolas inglesas não menos postiças.
Eu vivia só. Não conhecia ninguém, num lugar em que os estranhos
eram vistos com desdém pela fechadíssima corporação dos
benquistos.
Caí por acaso num grupo de homossexuais abonados da cena
gay internacional que vivia perambulando pelo mundo e tropeçando
uns nos outros nas bibocas de entendidos, de Nova York ao Cairo.
Conheci um novo estilo de vida, um novo vocabulário, referências
específicas — um sistema simbólico global, enfim, como dizem os
sociólogos. Mas quase só dava idiota nessa turma e, depois de um
curto período de fascínio, caí fora.
Uma vez graduado, sem distinções, me deram uma pensão de
cento e cinquenta dólares por mês. Isso, no tempo da Depressão,
quando não havia empregos; em todo caso, eu não conseguia
mesmo pensar em nenhum emprego que me interessasse. Fiquei
passeando pela Europa durante um ano mais ou menos. Os
remanescentes da decadência do pós-guerra vadiavam pela
Europa. Os dólares americanos podiam comprar uma boa
porcentagem dos habitantes da Áustria, machos ou fêmeas. Isso foi
em 1936, com os nazis avançando rapidamente.
Voltei aos Estados Unidos. Minha pensão dava para viver sem ter
de trabalhar ou trambicar. Eu ainda estava apartado da vida, como
nos tempos do subúrbio do Meio-Oeste. Vivia bestando, entre
cursos de psicologia e aulas de jiu-jítsu. Comecei a fazer
psicanálise, o que durou três anos. A psicanálise removeu inibições
e ansiedades, me facilitando viver do jeito que eu queria. Muito do
meu progresso na psicanálise foi obtido a despeito do meu analista,
que não concordava com a minha “orientação”, como ele dizia. Por
fim, ele abandonou a objetividade analítica e me botou pra fora, me
acusando de “degenerado e fora da lei”. Eu estava mais satisfeito
com os resultados da análise do que ele.
Cinco programas de treinamento para oficiais me rejeitaram por
motivos físicos. Mesmo assim, o Exército acabou me incorporando
com um certificado de capacidade para qualquer tipo de serviço.
Percebendo que eu não ia me dar bem no Exército, apelei para
minha ficha do hospício. Certa vez, entrei numas de Van Gogh e
cortei um pedaço do dedo pra impressionar uma pessoa em quem
eu estava interessado na ocasião. Os médicos do hospício nunca
tinham ouvido falar em Van Gogh. Me engaiolaram como
esquizofrênico, acrescentando um diagnóstico de “tipo paranoide”,
para justificar o fato de eu saber onde estava e quem era o
presidente da República. Quando o Exército viu esse diagnóstico, fui
logo dispensado, com a ressalva: “Este homem não deve nunca
mais ser recrutado ou reclassificado”.
Depois de abandonar o breve convívio com o Exército, arranjei
uma série de empregos. Naquela época já era possível arrumar
qualquer tipo de trabalho que se quisesse. Trabalhei como detetive
particular, exterminador de insetos e roedores e barman. Trabalhei
em fábricas e escritórios. Fui xeretar nas redondezas do crime.
Contudo, meus cento e cinquenta dólares mensais estavam sempre
à mão. Eu não precisava ganhar dinheiro. Gostava da extravagância
romântica de pôr em risco minha liberdade em atos criminosos de
valor simbólico. Foi por esse tempo, e nessas circunstâncias, que
entrei em contato com drogas pesadas, me tornei viciado e, em
função disso, passei a ter uma necessidade real de dinheiro, que até
então desconhecia.
Sempre se formula a mesma questão: por que um sujeito se torna
viciado?
A resposta é que, em geral, ele não pretende se tornar viciado.
Ninguém levanta de manhã e resolve se viciar. Demora pelo menos
dois meses, com duas aplicações diárias, para se ficar realmente
dependente. E ninguém sabe de fato o que é fissura por droga
pesada até passar por vários períodos de dependência. Eu demorei
quase quatro meses para ficar dependente pela primeira vez, e,
mesmo então, os sintomas da privação da droga foram suaves. Não
acho exagero afirmar que é preciso um ano e várias centenas de
injeções para se produzir um verdadeiro viciado.
Outras questões, é claro, poderiam ser formuladas: por que você
resolveu experimentar entorpecentes? Por que continuou a usá-los
tempo suficiente para se viciar? Bem, você se vicia em
entorpecentes quando não tem motivações fortes que apontem para
outras direções. A droga pesada ganha por desistência. Eu a
experimentei por curiosidade. Ia tomando umas picadas sempre que
descolava a droga. Acabei fisgado. A maioria dos viciados com
quem conversei relata a mesma experiência. Ninguém começou a
usar drogas por algum motivo especial. Apenas foram tomando seus
picos até se verem fisgados. Quem nunca foi viciado não consegue
entender o que significa precisar da droga pesada com a urgência
do vício. Ninguém decide virar viciado. Certa manhã o sujeito acorda
fissurado e pronto — é um viciado.
Nunca me arrependi da minha experiência com drogas. Acho que
estou melhor de saúde agora, depois de ter tomado drogas pesadas
em vários períodos da vida, do que estaria se nunca tivesse me
viciado. Quando se para de crescer, se morre. Um viciado nunca
para de crescer. A maioria dos usuários costuma cortar a
dependência periodicamente, o que envolve o encolhimento do
organismo e a substituição das células dependentes da droga. Um
usuário está em contínuo processo de encolhimento e crescimento
no seu ciclo diário de carência e satisfação através da picada.
Os viciados, na maioria, parecem mais jovens do que são.
Recentemente, cientistas fizeram experiências com um verme que
obrigavam a encolher pela privação de alimento. Repetindo
periodicamente esse processo de encolhimento, mantiveram o
verme em crescimento contínuo, o que prolongou indefinidamente
sua vida. Se um junky (viciado em droga pesada, junk) pudesse se
manter num constante estado de dependência e cura, talvez
conseguisse viver até uma idade assombrosa.
Droga pesada — junk — é uma equação celular que ensina ao
usuário (junky) verdades de validade universal. Aprendi muito
usando junk: vi a vida sendo medida em conta-gotas com solução
de morfina. Senti a privação agônica da droga — a chamada
“fissura” — e o alívio prazeroso quando as células sedentas de junk
bebiam da agulha. É possível que todo prazer seja apenas alívio.
Aprendi o estoicismo celular que a droga ensina ao usuário. Vi uma
cela repleta de junkies fissurados, silentes e imóveis em suas
misérias estanques. Eles sabiam o quanto era inútil reclamar ou se
mover. Sabiam que ninguém ali podia ajudar ninguém. Não há
nenhum recurso, nenhum segredo que alguém possua e possa te
oferecer.
Aprendi a equação junk. Droga pesada não é um meio de
aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de
vida.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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