William P. Young - A Travessia PDF

 



Um derrame cerebral deixa Anthony Spencer, um multimilionário egocêntrico, em coma. Quando “acorda”, ele se vê em um mundo surreal habitado por um estranho, que descobre ser Jesus, e por uma idosa que é o Espírito Santo. À sua frente se descortina uma paisagem que lhe revela toda a mágoa e a tristeza de sua vida terrena. Jamais poderia ter imaginado tamanho horror. Debatendo-se contra um sofrimento emocional insuportável, ele implora por uma segunda chance.

Sua prece é ouvida e ele é enviado de volta à Terra, onde viverá uma experiência de profunda comunhão com uma série de pessoas e terá a oportunidade de reexaminar a própria vida. Nessa jornada, precisará “enxergar” através dos olhos dos outros e conhecer suas visões de mundo, suas esperanças, seus medos e seus desafios.

Na busca de redenção, Tony deverá usar um poder que lhe foi concedido: o de curar uma pessoa. Será que ele terá coragem de fazer a escolha certa?


William P. Young - A Travessia PDF 


Uma tempestade se aproxima
O homem mais digno de pena é aquele que transforma
seus sonhos em prata e ouro.
– Khalil Gibran
Há anos em que o inverno em Portland, no estado do Oregon, é
muito rigoroso. Em sua violenta batalha contra a chegada da
primavera, ele ataca com tempestades de granizo e neve, reivindicando
algum direito de continuar sendo o rei das estações – no fim
das contas, uma tentativa inútil. Este ano, no entanto, não foi assim.
O inverno simplesmente se retirou como uma mulher
derrotada, partindo de cabeça baixa com suas roupas brancas e
marrons sujas e esfarrapadas, sem uma única palavra de protesto
nem promessa de retorno. Mal dava para notar a diferença entre
sua presença e sua ausência.
Para Anthony Spencer, não importava. O inverno era uma
chateação e a primavera não ficava atrás. Se pudesse, removeria as
duas estações do calendário, juntamente com a parte úmida e
chuvosa
do outono. Um ano de cinco meses seria o ideal, sem dúvida melhor
do que aqueles longos períodos de incerteza. Todo final de
primavera,
Tony se questionava por que permanecia no Noroeste do país, mas
a
cada ano que passava ele se via fazendo a mesma pergunta. Talvez
a
monotonia decepcionante tivesse lá seus confortos. A ideia de uma
verdadeira mudança era desanimadora. Quanto mais arraigado em
seus hábitos seguros, menos inclinado ele ficava a crer que
qualquer
outra coisa valesse o esforço, ainda que possível. Por mais
angustiante que a velha rotina fosse às vezes, ao menos ela era
previsível.
Ele se recostou na cadeira e ergueu os olhos da mesa entulhada
de papéis para a tela do computador. Bastava pressionar uma tecla
para ter acesso ao sistema de monitoramento de suas propriedades:
o
apartamento no prédio bem ao lado de onde estava; seu escritório
principal situado estrategicamente no centro de Portland, no meio de
um arranha-céu comercial de médio porte; sua casa de praia e seu
casarão em West Hills. Ficou observando a tela enquanto
tamborilava
incansavelmente em seu joelho com o indicador. O silêncio era total,
como se o mundo estivesse prendendo a respiração. São muitas as
maneiras de se estar sozinho.
Embora as pessoas que se relacionavam com Tony em ambientes
sociais ou profissionais pudessem pensar o contrário, ele não era
um
homem alegre. Era, sem dúvida, determinado, e estava sempre em
busca da próxima oportunidade. Isso muitas vezes exigia uma
atitude
extrovertida e sociável, sorriso largo, contato visual e aperto de mão
firme, não por causa de uma admiração genuína, mas porque todos
potencialmente tinham informações que poderiam ser valiosas para
o
sucesso de seus empreendimentos. Suas perguntas constantes
faziam
pressupor um interesse sincero, o que dava a seus interlocutores a
impressão
de que eram importantes, embora também transmitissem
uma sensação de vazio. Famoso por suas iniciativas filantrópicas,
Tony entendia a compaixão como um meio de alcançar objetivos
mais
palpáveis. O altruísmo tornava as pessoas muito mais fáceis de manipular.
Depois de algumas tentativas hesitantes, ele havia
concluído
que amizades eram mau investimento, pois traziam lucros baixíssimos.
O verdadeiro altruísmo era um luxo para o qual ele não tinha
tempo nem energia.
Em vez disso, baseou seu sucesso na administração e na construção
de imóveis, empreendimentos comerciais diversificados e
numa carteira de investimentos em expansão, meios em que era respeitado
e temido como um empresário agressivo e um mestre das
negociações.
Para Tony, a felicidade era um sentimento tolo e
efêmero,
uma brisa passageira se comparada ao perfume de um negócio em
potencial
e ao gosto viciante da vitória. Como um velho sovina, ele adorava
sugar os últimos resquícios de dignidade daqueles ao seu
redor,
especialmente dos funcionários que suavam a camisa mais por
medo
do que por respeito. Como um homem desses poderia merecer
amor
ou compaixão?
Quando sorria, Tony quase podia passar por um homem bonito.
A genética o abençoara com mais de 1,80m de altura e um cabelo
que,
mesmo aos 40 e tantos anos, não dava sinais de rarear, embora já
estivesse
ficando grisalho nas têmporas. Obviamente anglo-saxão,
ainda
assim algo de mestiço e delicado suavizava seus traços, sobretudo
naqueles raros momentos em que abandonava sua habitual postura
séria, de homem de negócios, e se deixava levar por um riso
incontido.
Para os padrões usuais, ele era rico, bem-sucedido e muito bom
partido. Um tanto mulherengo, exercitava-se o suficiente para
manter
a forma, ostentando apenas uma barriga pouco proeminente que
podia
ser encolhida quando necessário. E as mulheres iam e vinham,
as
mais espertas pulando fora antes que as outras, e todas elas se
sentindo
péssimas depois da experiência.
Ele havia se casado duas vezes com a mesma mulher. A primeira
união, quando ambos tinham apenas 20 e poucos anos, tinha
gerado
um casal de filhos. A filha, uma jovem revoltada, vivia do outro lado
do país, perto da mãe. O garoto era outra história. O casamento terminara
em divórcio por incompatibilidade de gênios, um exemplo
clássico de indiferença e falta de atenção. Em poucos anos, Tony
tinha conseguido deixar em frangalhos a autoestima de Loree.
O problema foi que, da primeira vez, ela saíra de casa com a
cabeça erguida, o que não poderia significar uma vitória de verdade.
Então, depois de passar os dois anos seguintes tentando
reconquistála,
Tony organizou uma magnífica cerimônia de segundo casamento,
para duas semanas depois voltar a lhe apresentar os papéis de
divórcio.
Há quem diga que os papéis tinham sido preparados antes
mesmo de os dois selarem de novo os votos em cartório. Mas,
dessa
vez, quando ela o atacou com toda a fúria de uma mulher
desprezada,
ele a esmagou financeira, legal e psicologicamente. Isso, sim,
poderia ter sido considerado uma vitória. Tudo não passou de um
jogo cruel,
mas apenas para ele.
O preço que Tony pagou foi perder a filha no processo, algo que
voltava a atormentá-lo sempre que ele bebia além da conta. Mas era
apenas um pequeno fantasma que ele rapidamente enterrava
ocupando-se em trabalhar e vencer. Só o filho deles já seria motivo
suficiente para afogar as mágoas no uísque, um remédio sem prescrição
que cegava as lâminas cortantes da memória e do
arrependimento
e amenizava as terríveis enxaquecas que, vez por outra,
teimavam em lhe fazer companhia.
Se a liberdade é um processo gradativo, o mesmo vale para o mal.
Com o tempo, pequenas deturpações da verdade e justificativas
aparentemente
sem importância erguem um edifício inesperado. Isso se
aplica a um Hitler, a um Stalin ou a pessoas comuns. A casa da
alma é
magnífica, porém frágil. Qualquer traição ou mentira que se agarre a
suas paredes ou seus alicerces pode fazê-la crescer em direções
inimagináveis.
O mistério de cada alma humana, até mesmo da de Anthony
Spencer, é profundo. Seu nascimento desencadeou uma explosão
de
vida, um universo interno em expansão, formando seu próprio sistema
solar e galáxias, com uma simetria e uma elegância inconcebíveis.
Em algum momento do caminho, no entanto, a dor e a frustração
chegaram com força esmagadora, abalando a delicada
ordem
desse arranjo complexo, que começou a desmoronar sob seu
próprio
peso. Essa deterioração veio à tona na forma de um medo
autoprotetor,
de uma ambição egoísta e do endurecimento de qualquer tipo de
ternura. O que antes era um órgão vivo, um coração de carne, se
transformou em pedra; uma pequena rocha que vivia no casulo oco
daquele corpo. Antes, a aparência externa era um reflexo do
encanto e
do esplendor internos. Agora, não passava de uma fachada em
busca
de um coração que devia encontrar seu caminho sem auxílio algum,
um astro moribundo, faminto dentro de seu próprio vazio.
A dor, a frustração e, por fim, o abandono são feitores cruéis, mas
juntos eles se tornam uma desolação quase insuportável. Esses
sentimentos tornaram-se um arsenal na existência de Tony,
fazendo-o
esconder facas dentro das palavras, erguer muros para proteger-se
de
qualquer aproximação, e aprisionando-o numa ilusão de segurança,
quando na verdade estava isolado e solitário. Restava pouca música
verdadeira na vida de Tony; apenas resquícios de criatividade quase
inaudíveis. A trilha sonora de sua sobrevivência não passava de
música de elevador, melodias insossas que acompanhavam o ritmo
da
subida.
As pessoas que o reconheciam na rua meneavam a cabeça para
cumprimentá-lo, os mais sensíveis cuspindo com desdém na
calçada,
depois que ele passava. Mas muitos se sentiam atraídos por ele;
puxasacos
e bajuladores que aguardavam suas próximas ordens, loucos
para conquistar uma migalha de aprovação ou do que imaginavam
ser
afeto. Sempre existem aqueles que aproveitam a onda de um
suposto
sucesso por necessidade de garantir sua própria importância, identidade
e intenções. A percepção faz a realidade, mesmo que essa
percepção
seja uma mentira.
Tony possuía uma mansão em West Hills e, a não ser que tivesse
organizado algum evento em benefício próprio, mantinha apenas
uma
pequena parte dela aquecida. Embora raramente ficasse lá, gostava
de
pensar na propriedade como um monumento à derrota de sua
esposa.
Loree tinha ficado com a casa como parte do primeiro acordo de divórcio
dos dois, mas precisou vendê-la para pagar as exorbitantes
despesas legais referentes ao segundo. Com a ajuda de alguns
comparsas,
ele a comprou de volta por uma mixaria, chegando a chamar
a
polícia para retirar sua perplexa esposa da propriedade no dia em
que
foi sacramentada a venda.
Ele tornou a se inclinar para a frente, desligou o computador e,
apanhando seu uísque, girou a cadeira para encarar uma lista de
nomes que tinha escrito num quadro branco. Levantou-se, apagou
quatro nomes e acrescentou um. Então deixou-se cair na cadeira,
seus
dedos tamborilando no tampo da mesa. Hoje, seu humor estava pior
do que o normal. Compromissos profissionais haviam exigido que
ele
participasse em Boston de uma conferência que não lhe despertava
o
menor interesse. Em seguida, uma pequena crise no setor de
recursos
humanos fez com que precisasse voltar um dia antes do esperado.
Por
mais aborrecido que fosse ter que lidar com uma situação que
poderia
muito bem ser resolvida por seus subordinados, ele ficou grato por
ter uma desculpa para abandonar os seminários quase
insuportáveis e
voltar à ligeiramente tolerável rotina que controlava melhor.
Mas algo havia mudado. O que antes era uma leve inquietação
acabou se transformando em uma voz consciente. Fazia algumas
semanas
que Tony tinha a sensação incômoda de estar sendo seguido.
A
princípio, achou que fosse apenas efeito do estresse, delírios de
uma
mente sobrecarregada de trabalho. Mas, uma vez plantada, a ideia
encontrara
solo fértil – e o que começou como uma semente
facilmente

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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