William Hope Hodgson - A Casa no Limiar PDF

 



Tido como um clássico eterno, que vem sendo lido e relido desde a sua primeira publicação em Londres no ano de 1908. "A Casa no Limiar", de William Hope Hodgson, combina ficção científica, fantasia e terror numa mistura poderosa. Narra a história de um nobre irlandês, o nome nunca é dito, que se isola em uma antiga e estranha mansão, no extremo oeste do país, o chamado Gaeltacht — a região onde todo mundo falava (pelo menos na época em que a história se passa) apenas a língua irlandesa céltica. É leitura obrigatória para os verdadeiros conhecedores do gênero terror - e oferece um passeio fantasmagórico pela linha tênue que delimita fantasia e realidade, viver e sonhar, esperança e morte.


William Hope Hodgson - A Casa no Limiar PDF 

Capítulo I · A Descoberta do
Manuscrito

Na distante costa Oeste da Irlanda há um lugarejo chamado
Kraighten, localizado solitariamente no sopé de uma colina baixa.
Ao seu redor estende-se uma região deserta, estéril e totalmente
inóspita onde, a grandes intervalos, aqui e ali, pode-se achar as
ruínas de chácaras há muito descuidadas, quase descobertas, mas
ainda de pé. Todo o território está desnudo e desabitado e a própria
terra mal recobre a rocha que há por debaixo, e que ali aflora
abundantemente do solo em serras ondulantes.
Porém, apesar desta desolação, meu amigo Tonnison e eu
escolhemos passar nossas férias lá. Ele tinha encontrado o lugar
por mero acaso no ano anterior, em meio a uma longa caminhada, e
descoberto oportunidades para um pescador em um riacho pequeno
e sem nome que passa ao largo do pequeno vilarejo.
Eu disse que o rio não tem nome, mas devo acrescentar que
ele não consta de nenhum mapa que eu já consultei, e nem o
vilarejo. Eles parecem ter escapado inteiramente à observação. Na
verdade eles podem nem mesmo existir, pelo que os guias
normalmente dizem. Em parte isto pode se dever ao fato de que a
estação ferroviária mais próxima, Ardrahan, está a uns sessenta e
cinco quilômetros de distância.
Foi pouco depois do entardecer, em uma noite morna, que meu
amigo e eu chegamos a Kraighten. Tínhamos desembarcado em
Ardrahan na noite anterior e dormido lá, em quartos alugados na
agência de correios local, que deixamos bem cedo na manhã
seguinte, agarrados precariamente a uma das típicas carruagens de
passeio.
Nos custou o dia inteiro para completar nossa viagem através
de uma das piores estradas que se possa imaginar, de forma que
estávamos exaustos e bastante mal humorados. Mesmo assim, a
tenda tinha que ser armada e nossas provisões, guardadas em
segurança antes de pensarmos em comer ou descansar. E então
começamos a trabalhar, com a ajuda de nosso condutor, de forma
que armamos a tenda sobre um pequeno descampado logo ao redor
da aldeia, bem perto do rio.
Nesse momento, depois de termos guardado todos os nossos
pertences, dispensamos o condutor, porque ele tinha de tomar o
caminho de volta tão rápido quanto possível, e lhe pedimos que
voltasse para nos buscar ao fim de uma quinzena. Tínhamos trazido
conosco provisões suficientes para durar tal período e poderíamos
beber da água do riacho. De combustível não precisávamos, porque
tínhamos incluído um fogareiro a óleo entre nossos equipamentos e
também o tempo andava morno e límpido.
Foi ideia de Tonnison acampar em vez de buscar abrigo em
uma chácara. Tal como disse, não havia graça alguma em dormir
num grande salão com uma numerosa família de irlandeses em um
canto e o chiqueiro no outro, enquanto acima de nós uma colônia de
aves empoleiradas distribuía suas bênçãos imparcialmente, sendo o
lugar tão denso de fumaça de turfa que nos faria arrebentar o nariz
de tanto espirrar tão logo transpuséssemos a porta de entrada.
Tonnison acendera o fogareiro e estava distraído cortando fatias
de bacon para fritar, então peguei a chaleira e fui ao rio buscar
água. A caminho passei por um grupo de pessoas do vilarejo, que
me olharam com curiosidade, mas não inamistosamente, embora
nenhuma arriscasse uma palavra.
Quando voltava com a chaleira, fui até eles e depois de um
gesto amistoso, a que eles responderam da mesma forma,
perguntei-lhes a respeito da pesca. Em vez de me responderem,
eles apenas gesticularam em silêncio, encarando-me. Repeti a
pergunta, dirigindo mais particularmente a um indivíduo alto e magro
que estava ao meu lado. Mais uma vez não obtive resposta. Então
esse homem se voltou para um de seus companheiros e disse algo
rapidamente em uma língua que não consegui entender; após o
que, todo grupo deles começou a tagarelar naquela língua que,
depois de alguns minutos, adivinhei ser o mais puro irlandês. Ao
mesmo tempo eles lançaram muitos olhares em minha direção. Por
um minuto, talvez, eles conversaram entre si desta forma, então o
homem ao qual eu me dirigira encarou-me e disse algo. Pela
expressão e seu rosto eu adivinhei que ele estava, por sua vez, me
fazendo uma pergunta, mas foi a minha vez de balançar a cabeça
para indicar que não tinha entendido o que queria saber. Desta
forma, ficamos olhando um para o outro até eu ouvir Tonnison me
chamando para ir depressa com a chaleira. Então, com um sorriso e
um gesto, eu os deixei, e todos no pequeno grupo também sorriram
e gesticularam por sua vez, embora suas faces traíssem seu
embaraço.
Era evidente, refleti enquanto voltava para a tenda, que os
habitantes daquelas poucas cabanas no descampado não
conheceriam uma palavra sequer de inglês. Quando contei isso ao
Tonnison, ele acrescentou que já sabia do fato e que, ainda mais, tal
não era incomum naquela parte do país, onde as pessoas ainda
viviam e morriam em seus vilarejos isolados sem nunca entrarem
em contato com o mundo exterior.
— Gostaria que o condutor tivesse servido de intérprete para
nós antes de ir-se — observei ao me sentar para comer — pareceme
estranho que o povo desse lugar nem chegue a saber para que
viemos.
Tonnison grunhiu de acordo e depois ficou em silêncio por um
momento.
Depois, tento satisfeito nossos apetites de certo modo,
começamos a conversar, fazendo planos para a manhã. Então,
depois de fumarmos, fechamos a borda da tenda e nos preparamos
para deitar.
— Creio que não há nenhuma chance daqueles camaradas lá
fora roubarem alguma coisa? — perguntei enquanto nos
enrolávamos nos cobertores.
Tonnison disse que não pensava assim, pelo menos enquanto
estivéssemos por perto e, como disse a seguir, poderíamos por
tudo, exceto a tenda, no grande cesto que havíamos trazido para
nossas provisões. Eu concordei com isso, e então logo
adormecemos.
Na manhã seguinte, bem cedo nos levantamos e fomos tomar
um banho no riacho, depois do que nos vestimos e tomamos o
desjejum. Desempacotamos então nossa aparelhagem de pesca e a
verificamos. Quando terminamos, nossas refeições já haviam sido
parcialmente digeridas e nós guardamos tudo dentro da tenda e nos
dirigimos ao rumo que o meu amigo havia explorado em sua visita
anterior.
Ao longo do dia nós pescamos alegremente, subindo sempre
contra a correnteza, e ao cair a noite tínhamos um dos mais belos
cestos de peixes que eu tinha visto em anos. Retornando ao
povoado, fizemos bons pratos de nosso pescado e depois de
selecionarmos os melhores peixes para o desjejum seguinte,
presenteamos os demais ao grupo de locais que havia se reunido a
uma distância respeitável para vigiar nossos passos. Eles
pareceram muito gratos e nos lançaram sobre nossas cabeças o
que presumimos ser uma montanha de bênçãos em irlandês.
Assim passamos vários dias, desfrutando de um esplêndido
esporte e gozando de apetites que faziam justiça às nossas presas.
Ficamos satisfeitos em descobrir o quão amistosos os habitantes do
vilarejo estavam inclinados a ser, e que não havia nenhum sinal de
que tivessem se metido com nossos pertences durante nossas
ausências.
Fora numa quinta-feira que chegáramos a Kraighten, e foi no
domingo seguinte que fizemos uma grande descoberta. Até então
havíamos sempre subido contra a correnteza, mas naquele dia nós
deixamos de lado nossos bastões e, levando algumas provisões,
partimos para uma longa caminhada na direção oposta. O dia
estava morno e andamos nos divertindo bastante, parando por volta
do meio dia para comer nosso almoço sobre uma grande pedra
achatada perto da margem do rio. Depois disso nos sentamos e
fumamos um pouco, recomeçando nossa caminhada só quando nos
cansamos da inação.
Por talvez mais uma hora nós continuamos em frente,
conversando calma e confortavelmente sobre este ou aquele
assunto, e em vários momentos paramos enquanto meu amigo —
que é quase um artista — rascunhava aspectos destacados da
paisagem selvagem.
Então, sem nenhum tipo de aviso, o rio que havíamos seguido
tão confiantemente, chegou a um fim abrupto, desaparecendo pelo
chão adentro.
— Bom Deus! — eu disse — quem teria pensado nisso?
E eu olhei maravilhado, depois me virei para o Tonnison. Ele
estava observando, com uma expressão pálida no rosto, o lugar
onde o rio desaparecia.
Então ele falou.
— Vamos continuar um pouco. Ele pode reaparecer mais
adiante. De qualquer forma, é algo que merece ser investigado.
Concordei e continuamos mais um pouco, embora sem muita
direção, porque não tínhamos nenhuma certeza de qual direção
seguir em nossa busca. Por talvez um quilômetro e meio nós
andamos ainda, então Tonnison, que tinha estado olhando em volta
curiosamente, parou e levou as mãos aos olhos.
— Veja! — ele disse — aquilo lá longe, à direita daquele
rochedo grande, não é névoa ou algo assim? — e ele indicou com
sua mão.
Eu olhei com atenção e depois de um minuto pareceu-me ver,
mas não tinha certeza, e não confirmei.
— De qualquer forma — meu amigo respondeu — vamos lá dar
uma olhada.
E começou a seguir na direção que tinha sugerido, comigo
acompanhando. Então chegamos a um matagal e depois de um
tempo saímos no topo de um barranco alto e pedregoso, do alto do
qual contemplávamos abaixo uma vastidão de arbustos e árvores.
— Parece que chegamos a um oásis nesse deserto de pedras
— murmurou Tonnison, olhando com interesse. Então ficou em
silêncio, com seus olhos vidrados, porque a partir de um certo ponto
no meio da baixada coberta de vegetação erguia-se no ar calmo
uma grande coluna de névoa difusa, na qual o sol brilhava,
produzindo inumeráveis arcos-íris.
— Como é bonito! — exclamei.
— Sim — concordou Tonnison, pensativamente. — Deve haver
por ali uma cascata ou algo assim. Talvez o nosso rio ressurgindo.
Vamos lá ver.
Descemos pelo barranco inclinado e nos vimos entre as árvores
e macegas. Os arbustos eram entrelaçados e as árvores, mais altas
do que nós, de forma que o lugar era desagradavelmente escuro;
mas não o bastante para me impedir de ver que muitas das árvores
eram frutíferas e que, aqui e ali, podiam ser vistos traços quase
indistintos de um cultivo há muito abandonado. Assim eu entendi
que estávamos passando através do que fora antigamente um
grande jardim. Eu o disse ao Tonnison, e ele concordou que
pareciam haver motivos razoáveis para minha opinião.
E que lugar desolado ele era, tão melancólico e sombrio!
Parecia, enquanto seguíamos, que um pouco da silenciosa solidão e
abandono do velho jardim me abatia, e eu me senti estremecer.
Pode-se imaginar que coisas espiam por entre os arbustos
emaranhados enquanto, até no ar do lugar, parecia haver algo
incomum. Creio que Tonnison estava consciente disso também, mas
não disse nada.
Subitamente tivemos que parar. Por entre as árvores vinha
crescendo em nossos ouvidos um ruído distante. Tonnison curvouse
para a frente, ouvindo. Então eu ouvi mais claramente: era
contínuo e ríspido, um tipo de rugido ou zumbido que parecia vir de
muito longe. Eu tive uma ligeira sensação de estranho e indescritível
nervosismo. Que tipo de lugar era aquele a que havíamos chegado?
Olhei para o meu companheiro, para tentar ver o que ele achava do
assunto, e notei que só havia surpresa em seu rosto, e então,
enquanto olhava sua expressão, uma expressão de entendimento
surgiu nela, e ele balançou a cabeça:
— É uma cachoeira — ele exclamou, com convicção. — Agora
reconheço o som. — E ele começou a correr vigorosamente entre
os arbustos, na direção do barulho.
À medida em que continuamos, o som foi ficando mais definido,
mostrando que íamos exatamente em sua direção. Gradualmente o
rugido ficou mais alto e mais próximo, até parecer que surgia, como
comentei com o Tonnison, bem debaixo de nossos pés, embora nós
ainda estivéssemos cercados de árvores e moitas.
— Tome cuidado — gritou o Tonnison — Olha onde você está
pisando!
E então, de repente, saímos de dentro das árvores e demos
com um enorme espaço aberto onde, menos de seis passos à
nossa frente, se escancarava a boca de um tremendo abismo, de
cujo fundo o ruído parecia subir, junto com a névoa contínua e
suave que tínhamos visto do alto do distante barranco.
Por quase um minuto nós ficamos em silêncio, contemplado
maravilhados a paisagem e então o meu amigo adiantou-se
cautelosamente até a beira do precipício. Eu o segui, e juntos
olhamos para baixo através da nuvem de umidade de uma
monstruosa catarata de água espumante que brotava, esguichando,
de um dos lados do precipício, quase trinta metros abaixo.
— Bom Deus! — disse o Tonnison
Eu fiquei em silêncio, bastante aterrado. A visão era
inesperadamente grandiosa e estranha, embora esta segunda
qualidade eu só notei um pouco mais tarde.
Naquele momento eu olhei acima e além, na direção do outro
lado do abismo. Lá eu vi algo que se erguia por entre a neblina:
parecia o fragmento de uma grande ruína, e eu toquei Tonnison no
ombro. Ele olhou em torno, assustado, e eu lhe apontei a coisa. Ele
seguiu meu dedo com seu olhar e os seus olhos se acenderam com
um súbito brilho de excitação, tão logo o objeto apareceu em seu
campo de visão.
— Vem comigo! — ele gritou no meio do barulho. — Vamos dar
uma olhada naquilo. Tem algo esquisito nesse lugar, eu sinto isso
nos meus ossos.
E ele saiu andando, contornando a borda do abismo que
parecia uma cratera. Quando nos aproximávamos da novidade, eu
vi que não me enganara em minha primeira impressão. Era sem
dúvida parte de um edifício arruinado, mas então eu vi que não tinha
sido construído à borda do precipício propriamente dita, como eu
supusera, mas pregada quase na ponta de uma enorme espora de
rocha que se lançava até uns quinze ou vinte metros para dentro do
abismo. Na verdade, a massa desordenada de ruínas estava
literalmente suspensa no ar.
Chegando ao lado oposto, caminhamos até o braço de rocha
que se projetava. Devo confessar que tive uma sensação de
intolerável terror ao olhar do alto daquela frágil passarela as
profundezas desconhecidas abaixo de nós — profundezas de onde
nos subia continuamente o troar da água em queda e o véu de
névoa.
Chegando às ruínas, escalamos até elas e achamos no lado
oposto um monturo de rochas caídas e destroços. A ruína me
parecia, enquanto eu a examinava em detalhe, parte dos muros
exteriores de alguma estrutura prodigiosa. Era bem grossa e
firmemente construída, mas o que ela estava fazendo naquele lugar
eu não podia sequer imaginar. Onde estava o resto da mansão,
castelo ou o que quer que tivesse havido?
Fui para o outro lado da muralha, e portanto à borda do abismo,
deixando Tonnison procurando sistematicamente nas pilhas de
pedras e entulho no outro lado. Então eu passei a examinar a
superfície do chão, perto da borda do abismo, para ver se ali não
haviam outros restos do edifício a que a ruína fragmentária
evidentemente pertencia. Mas embora eu perscrutasse a terra com
o maior cuidado, não pude ver nenhum sinal que indicasse que
tivesse jamais existido um edifício erguido ali, e isso me fez ficar
mais intrigado do que antes.
Então ouvi um grito do Tonnison, que excitadamente chamava
meu nome e não demorei a correr ao longo do promontório até a
ruína. Primeiro pensei que ele tivesse se ferido, e só mais tarde
imaginei que pudesse ter encontrado algo.
Cheguei à muralha caída e a contornei. Então achei Tonnison
dentro de uma pequena escavação que tinha feito no monturo: ele
estava limpando a poeira de alguma coisa que parecia um livro, mas
muito amarrotado e danificado, e abria a boca a cada segundo ou
dois para gritar o meu nome. Tão logo viu que eu tinha aparecido
ele me entregou seu achado, dizendo-me para pô-lo na minha
sacola para proteger da umidade enquanto continuávamos nossas
explorações. Isso eu fiz, antes porém o folheei entre meus dedos,
notando que suas páginas estavam totalmente preenchidas com
uma caligrafia rigorosa e antiquada que ainda estava bem legível,
exceto por um trecho, no qual várias páginas tinham sido quase
destruídas, pelo mofo e pelo amarrotamento, como se o livro tivesse
sido dobrado ao contrário naquela parte. Assim foi que o Tonnison o
encontrara, tal como logo descobri, e o dano era devido,
provavelmente, à queda da construção sobre a parte aberta.
Curiosamente, porém, o livro estava bem seco, o que eu atribuí a ter
estado tão bem enterrado entre as ruínas.

Download


Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem