William Goldoni -O Protocolo Anubis 02 - O Chamado PDF

 


William Goldoni -O Protocolo Anubis 02 - O Chamado PDF 

Estado de New York, EUA
7 de agosto
Noite

NA ESCURIDÃO MACIÇA, O prisioneiro ouviu o som de batida em madeira.
Concentrou toda atenção, e uma segunda vez o som veio de seu lado
direito, justamente onde a comida e a água apareciam sempre. Estava
num cubículo.
— Onde fica o caminho do chacal? — disse uma voz metálica masculina.
Estático e amedrontado, pensou não ter entendido a pergunta.
— O que você quer? Não sou rico! Não tenho dinheiro!
— Diga onde fica o caminho do chacal, se quiser sair vivo daqui!
— Caminho do chacal?! O que é isso?
— Você nos traiu, Hatusi. Entregue-nos o segredo ou morre!
— Não sei de caminho do chacal nenhum! Deixe-me sair daqui! Sou
importante em meu país e você terá problemas se não me soltar agora!
A voz silenciou e, por mais que o desgraçado chamasse, exigisse ou
ameaçasse, não teve resposta.
A escuridão era tão impenetrável como noite sem lua sob mata densa. Há
quantos dias estava trancado no cômodo sem luz, onde a própria
respiração era o único ruído? A respiração e seu choro, de vez em
quando. Seu desespero atingiu o auge.
Estava preso por dois ou cinco dias? A intervalos regulares, água e
comida apareciam sempre no mesmo lugar, sem um barulho sequer, nem
a menor luz, numa bandeja plástica na qual esbarrou por acaso na
primeira vez. Perdeu a contagem do tempo.
Não adiantava mais gritar ameaças ou pedir por socorro. Nem o eco
tivera como resposta. O que queriam seus raptores? Dinheiro? Chamar a
atenção do governo de seu país? Negociar sua vida em troca de algum
favorecimento? Não conseguia chegar a uma conclusão.
A roupa e o corpo, por dias sem banho, cheiravam mal, e a alimentação
bem diferente da costumeira já produzia reações do organismo: febre
contínua, dor de cabeça latejante e desarranjos intestinais. Um balde
servia de latrina, enchendo o cubículo de um odor insuportável.
Dali a algumas horas, a voz ressurgiu, insistindo para ele dizer onde
estava o tal "caminho do chacal". Ele negava obstinadamente conhecer
isso. Um grupo de pessoas vestidas de preto invadiu o cômodo e surrou-o,
deixando-o desacordado no chão. Quando acordou, esforçou-se, sem
sucesso, em se lembrar se tinha conhecimento de algum "caminho do
chacal".
Após acordar e continuar negando, foi espancado mais três vezes.
Decidiu investigar de novo o cômodo. Andou cauteloso até tocar na
parede acarpetada. Foi apalpando-a. Totalmente concentrado na
percepção dos dedos, encontrou uma emenda do carpete. Puxou a ponta
dele e foi arrancando-o cuidadosamente da parede. Não tardou a
perceber que estava num cômodo de madeira, uma caixa talvez.
Continuou arrancando e depois passou a tatear a parede até —
indescritível alegria! — encontrar uma dobradiça a meio metro do chão.
Percorreu com os dedos o vão da portinhola por onde entrava a comida.
A fresta entre a portinhola e o chão era suficientemente larga para enfiar
os dedos nela.
Do outro lado tudo deveria ser escuridão também, pois pelas frestas não
vinha qualquer luz. Aplicando toda a força possível nas mãos, puxou a
portinhola para dentro, sentando-se no chão e apoiando os pés na parede.
Com os dedos sangrando de tanto forçar o mecanismo, conseguiu
arrebentar o pequeno ferrolho que mantinha a portinhola fechada por
fora.
O arrebentar da porta não fez barulho alto. Mesmo se fizesse, sua
empolgação era demais para esperar ou ter cautela. Atravessou deitado a
passagem e percorreu uma outra sala totalmente escura. Abriu em
silêncio uma porta de madeira e saiu para um corredor igualmente
tomado de trevas. Atravessou-o e chegou a uma segunda porta. Quando
abriu-a, teve a impressão de ver a silhueta de um matagal, numa noite
sem lua. O frescor comprovou-lhe estar ao ar livre.
Antes de qualquer pensamento ou reação planejada, atendeu ao único
impulso do momento: correr. Alucinado, voou por entre as árvores do
bosque, ferindo-se ao raspar em galhos, trombando, tropeçando, caindo,
levantando-se e continuando a correr. Por quanto tempo correu no
desespero de fugir ao cativeiro, jamais chegou a saber. Em certo instante,
atingiu uma espécie de clareira onde as árvores rareavam e a relva
dominava. Na corrida, tropeçou em algum fio ou cordão estendido. Caiu
de rosto no chão.
Quando se levantou para continuar, o nariz sangrava.
Uma lâmpada acendeu no alto de um poste. Luz violeta forte iluminou
todas as partes brancas de sua roupa e de seu corpo — os dentes e os
olhos. Naquela escuridão, a luz não tornou nenhum outro objeto visível
na clareira, a não ser os troncos de algumas bétulas de casca branca.
Mesmo assim, o ponto de luz afigurou-se como um copo d'água surgindo
no deserto: não estava cego como pensara!
A temporária alegria foi interrompida. Forte zunido surgiu de todos os
lados. O som ficou mais intenso. Imaginou-se no meio de uma nuvem de
pernilongos. Talvez estivesse próximo de um brejo. Ia recomeçar a
correr, mas foi violentamente atingido por uma agulhada na nuca. Depois
outra. Começou a se debater. Em segundos, centenas de ferroadas
invisíveis o alvejavam no pescoço, no rosto, nas mãos e nas demais partes
do corpo descobertas.
— Socorro! As abelhas estão me picando! — gritou em vão, correndo pela
clareira.
Sinistra gargalhada saiu do meio das árvores.
O infeliz caiu no relvado úmido e tapou os olhos com as mãos,
debatendo-se em indescritível desespero. Minutos depois, quando os
insetos começaram a abandoná-lo, principiou a sentir dores em partes
internas do corpo, além dos locais ferroados. Um terrível mal-estar e
súbito enfraquecimento dominaram-no. Ânsia de vômito, inchaços, suor
intenso e tontura. Não conseguiu mais ficar em pé. A respiração foi se
tornando difícil, a saliva engrossou e o mal-estar piorava aceleradamente.
Finalmente desmaiou.
Os GRITOS DA INDIANA de sári colorido despertaram a atenção dos outros
turistas da balsa no rio Hudson, levando-os de Manhattan para Liberty
Island. Em minutos apreciariam de perto a Estátua da Liberdade. A guia
da viagem, se esmerando para explicar como foi glorioso o momento da
chegada das primeiras caravelas européias naquele rio, interrompeu o
discurso.
Os turistas se aproximaram do gradil para ver a razão dos gritos da garota:
a duas dúzias de metros da embarcação, um corpo boiava nas águas
cinzentas, de costas para cima. Parecia um homem negro.
Menos de vinte minutos após, um barco da Guarda Costeira de New
York içava o corpo perto da Ellis Island.
— Parece ter se afogado — disse um policial observando o terno cinzento
do homem, enquanto ajeitava-o no barco.
— Coitado! — murmurou o outro.
Após procedimentos preliminares, o homem foi declarado morto no local
e o cadáver seguiu para necropsia. A médica legista do Centro de
Medicina Forense do Estado de New York, dias depois, informou ao
investigador do caso:
— Morreu por afogamento.
— Como é possível saber?
— Havia água nos pulmões.
— Mas... não há nenhum sinal de golpe ou asfixia? — arriscou o policial.
— Há muitos sinais de espancamento — disse a legista, mostrando as
fotos tiradas de várias partes do corpo. Estava repleto de manchas roxas e
hematomas avermelhados, do diâmetro de uma cereja. — Além das
manchas das pancadas, ele tem, no corpo inteiro, oitocentos e vinte e três
destes hematomas, causados pela ferroada de um inseto que não consegui
descobrir.
— Ferroada de abelha?
— Abelhas deixam o ferrão. Nas oitocentas e vinte e três picadas não há
um ferrão.
— Mas então ele morreu pelas picadas, e não afogado.
— Não. Teve um choque anafilático; é uma reação alérgica violenta ao
veneno injetado pelas picadas. Nesse estado ele caiu ou foi jogado na
água. O choque anafilático pode produzir parada respiratória, mas ele
ainda respirava, por isso a água chegou aos pulmões. Provavelmente
estava desmaiado, e se afogou.
— Você é capaz de dizer se ele se afogou no rio? Ou foi jogado lá depois
de ter se afogado em outro local?
— No próprio rio Hudson, não muito longe de Manhattan.
— Como dá para saber isso?
— A água na foz do Hudson é salobra, cheia de algas e plâncton, assim
como a dos pulmões dele. Algumas milhas rio acima é só água doce, as
algas são diferentes e o plâncton é em quantidade muito menor.
— Sei... E você encontrou algo para nos ajudar a identificá-lo?
— Sim. — disse a médica estendendo-lhe um envelope grande — Aqui
está o relatório completo e as coisas dele: um relógio, a carteira,
documentos e um anel. É o Sr. Michel Hatusi, embaixador de Burkina
Faso na ONU.
— O quê?! — era acostumado a encontrar pessoas de procedência
comum, quase sempre vítimas de assaltos, estupros ou brigas entre
quadrilhas rivais. Outras vezes, os afogados eram suicidas, bêbados ou
drogados. Quando caíam na água, não tinham a coordenação necessária
para nadar ou pedir ajuda. Nunca imaginaria encontrar um político
estrangeiro. Não nessas condições. Isso obviamente viraria um incidente
internacional.
— Provavelmente foi este o inseto que o picou — disse a médica
retirando do envelope um saco plástico transparente, pequeno. Dentro,
um inseto meio esmagado.
— Uma abelha?
— Uma vespa. Semi-digerida. Estava no estômago dele. Provavelmente
foi atacado por um enxame delas e, ao tentar fugir, esta entrou na boca e
ele a engoliu.
— É daqui da região?
— Esta espécie existe só na África. Uma das muitas existentes no Egito,
segundo um amigo biólogo.
Bastante surpreso no princípio, o policial, habituado a ver os mais
pavorosos e insanos crimes cometidos por motivos estranhos, em pouco
tempo retomou o habitual temperamento calmo e um tanto indiferente
aos horrores próprios do seu trabalho.
Por tratar-se de um crime envolvendo um estrangeiro e, mais ainda, um
político, o escritório do Federal Bureau of Investigation — FBI, de New
York, passou a conduzir as investigações. No mesmo dia, o apartamento
do hotel na avenida Madison, em Manhattan, onde o embaixador estava
hospedado, foi vasculhado pelos policiais. O quarto estava bagunçado,
revirado, mas sem sinais de luta. Encontraram impressões digitais por
toda parte. Como se faz nesses casos, as digitais encontradas foram
comparadas com as de pessoas próximas: empregados do hotel e colegas
da chancelaria de Burkina Faso apenas, pois parentes e amigos não havia
nenhum com ele no país. As digitais do apartamento não combinavam
com as de ninguém.
Os investigadores concluíram que o embaixador fora seqüestrado fora do
hotel e os criminosos invadiram seu quarto depois, procurando alguma
coisa.
A notícia da morte do embaixador se espalhou na comunidade
internacional, especialmente entre os corpos diplomáticos, no pior
momento possível. Fazia um mês que o embaixador do Egito fora
assassinado em Bagdá, Iraque. O mundo todo viu com horror o vídeo
veiculado inicialmente através da Internet, e depois pelas redes de TV,
no qual a organização terrorista Al Qaeda reivindicava a autoria do
seqüestro e da morte do embaixador egípcio, intitulando-o "o embaixador
dos infiéis".
Além disso, outro fato viria agravar as cada vez mais putrefatas relações
entre Oriente e Ocidente: o Irã, país arquiinimigo dos Estados Unidos,
contrariando todas as recomendações, pedidos e ameaças da Casa Branca
e do Conselho de Segurança da ONU, declarara ao mundo que em breve
retomaria seu programa nuclear.
Logo o FBI anunciou tratar-se de algum tipo de doente mental motivado
a matar o embaixador por circunstâncias próprias de alguma fixação
mental patológica. Afinal, nada fora encontrado ligando o assassinato a
outros e nem houve manifestações ou ameaças de cunho político,
religioso ou outro qualquer. Segundo os peritos, os sinais deixados na
própria vítima eram de tortura, próprios de criminosos sádicos,
portadores de distúrbios mentais. O afamado Bureau não poderia lançar
ao público a verdadeira hipótese que formularam sem ter mais
evidências.
Os embaixadores, as chancelarias e os serviços de inteligência de vários
países não ficaram mais tranqüilos com essas declarações; havia algo no ar
não compreendido, a ponta de um iceberg não visto. Muito raramente
um diplomata era assassinado fora de seu país por motivos não políticos.
A morte do embaixador acontecera dias antes da reunião da Assembléia
Geral das Nações Unidas, onde Burkina Faso sempre tinha posições
firmes e definidas. Se o corpo do embaixador apareceu num lugar
turístico na véspera da assembléia da ONU, um recado foi dado a alguém
— pensavam os acompanhantes do caso — mas quem?

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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