William Gibson - Neuromancer PDF

 



Um hacker renegado, uma samurai das ruas, um fantasma de computador, um terrorista psíquico e um rastafari orbital num thriller sexy, violento e intrigante. De Tóquio a Istambul, das estações espaciais ao não-espaço da realidade virtual, o tenso jogo final da humanidade contra as Inteligências Artificiais... Evoluindo de Blade Runner e antecipando Matrix, Neuromancer é o primeiro - e ainda hoje o mais famoso - livro de William Gibson. É considerado não só o romance que deu origem ao gênero cyberpunk, mas também o seu melhor representante.


William Gibson - Neuromancer PDF 


O céu por cima do porto tinha a cor de uma TV que saiu do ar. — Não é
que eu queira — Case ouviu enquanto abria caminho pela multidão que
estava na porta do Chat. — Mas é como se o meu corpo tivesse criado, por
si mesmo, esta enorme dependência da droga.
Obviamente uma voz Sprawl e uma piada Sprawl. O Chatsubo era um
bar para expatriados profissionais; era possível freqüentá-lo assiduamente
durante uma semana e jamais ouvir duas palavras em japonês.
Ratz estava de serviço no balcão, com o braço protético balançando
monotonamente, enchendo uma bandeja de copos com Kirin tirada sob
pressão. Reparou em Case e sorriu, exibindo uma dentadura que mais
parecia uma trama formada por aço da Europa do Leste e matéria de cor
castanha em decomposição. Case encontrou um lugar junto ao balcão entre
o impossível bronzeado solar de uma das prostitutas do Lonny Zone e o
rígido uniforme naval de um africano alto, cujos malares estavam rodeados
de filas bem-defini-das de cicatrizes tribais.
— O Wage já esteve aqui com dois capangas — informou Ratz, ao
mesmo tempo que empurrava um dos copos com mão hábil. — Talvez
estivesse te procurando, Case.
Case encolheu os ombros. A moça da sua direita deu uma risadinha e
tocou-o com o cotovelo.
O sorriso do barman tornou-se mais aberto. A feiúra do homem
constituía motivo de lenda: numa época de beleza ao alcance do bolso,
havia nela qualquer coisa de heráldico.
A antigüidade em forma de braço chiou quando estendeu para agarrar
mais uma caneca; tratava-se de uma prótese militar russa, um manipulador
de sete funções com realimentação de energia, envolvido em um plástico
sujo e cor-de-rosa.
— Você é demais como artista, Herr Case! — rosnou Ratz; o grunhido
servindo como uma gargalhada. Cocou sua barriga protuberante com a
garra cor-de-rosa sobre a camisa branca. — Você é um artista de pequenas e
engraçadas transações.
— Claro — retorquiu Case, bebendo um gole da cerveja —, alguém tem
que ser o engraçado aqui. Certamente o fodido não é você.
A risadinha da puta subiu uma oitava.
— Nem você, irmãzinha. Portanto, desapareça, ok? O Zone é meu
amigo pessoal.
Ela olhou Case bem nos olhos e produziu o que era o mais brando som
de desprezo possível com um mínimo de movimento de lábios; e foi
embora.
— Meu Deus! — queixou-se Case. — Que merda de espelunca é esta?
Um homem já não pode tomar um trago sossegado.
— Ah! — replicou Ratz, limpando o tampo de madeira cheio de marcas
com um trapo. — O Zone dá porcentagem. Quanto a você, permito que
freqüente isto pelo valor do divertimento que você representa.
No momento em que Case agarrava de novo o copo de cerveja, um
desses estranhos instantes de silêncio caiu como se uma centena de
conversas, independentes umas das outras, tivesse atingido
simultaneamente a mesma pausa. A risadinha da puta soou então mais
estridente, tingida por uma certa histeria.
— Um anjo passou — resmungou Ratz.
— Os Chineses — berrou um australiano bêbado — os malditos
Chineses é que inventaram o entrelaçador de nervos. Eu prefiro, em
qualquer hora, um trabalhinho de nervos em terra firme. Um trabalho
perfeito, cara.
— Bem, isso... — falou Case para o copo a sua frente, com toda a
amargura subindo subitamente como um sabor de fel — é apenas uma bela
conversa de merda.
Os Japoneses já tinham esquecido mais neurocirurgia do que os
Chineses alguma vez haviam conhecido. As clínicas clandestinas de Chiba
City estavam permanentemente na frente: todos os meses, técnicas
completíssimas ficavam superadas; contudo, não havia meio de
conseguirem reparar o estrago que lhe havia sido causado naquele hotel de
Memphis.
Um ano aqui e ainda continuava sonhando com o ciberespaço, enquanto
sua esperança se enfraquecia noite após noite. A despeito de toda a droga
tomada, de todas as esquinas dobradas em Night City, ainda vislumbrava
durante o sono a matriz, a brilhante esteira de lógica desdobrando-se pelo
vazio sem cor... O Sprawl era um estranho caminho de regresso a casa
agora, através do Pacífico; contudo ele continuava a ser um homem sem
console, um cowboy do ciberespaço. Meramente outro biscateiro, tentando
sobreviver.
Mas os sonhos regressavam continuamente, durante a noite japonesa,
como um vodu elétrico, e nesses momentos ficava chorando, suplicando no
meio do sono, e acordava sozinho em plena escuridão, enrolado na coberta
num hotel qualquer de urnas, com as mãos fincadas na cama de espuma
plástica, comprimida entre os dedos, numa tentativa de obter o console que
não estava lá.
— Vi sua garota ontem à noite — informou Ratz, ao mesmo tempo que
lhe passava a segunda Kirin.
— Não tenho nenhuma — replicou, e bebeu um gole.
— A Linda Lee.
Case balançou a cabeça.
— Sem garota? Sério? Apenas o negócio, amigo artista? A dedicação ao
comércio? — Os olhinhos castanhos do barman enterravam-se
profundamente na carne carregada de rugas. — Acho que gostava mais de
você quando andava com ela. Ria mais. Uma noite destas você fica
demasiadamente artístico e acaba parando num tanque de clínica como
estoque de peças sobressalentes.
— Você está partindo meu coração, Ratz
Case acabou a cerveja, pagou e saiu, com os ombros altos e estreitos
curvados sob o seu blusão de nylon cáqui manchado. Ao mesmo tempo que
abria caminho entre a multidão do Ninsei, sentia o cheiro rançoso do seu
próprio suor.
Case estava com 24 anos. Aos 22, já era um cowboy, um ladrão, um dos
melhores do Sprawl. Treinado pelos melhores, McCoy Pauley e Bobby
Quine, figuras lendárias do negócio, operava com uma alta taxa de
adrenalina quase permanente, numa mistura de juventude e competência,
integrado em seu comportamento ciberespacial, que lhe projetava a
consciência separada do corpo na alucinação consensual da matriz. Um
ladrão que trabalhava para outros ladrões, mais ricos, que forneciam o
software necessário para conseguir penetrar nas paredes reluzentes dos
sistemas das grandes empresas e abrir janelas para os riquíssimos campos
de dados.
Cometera o erro clássico, o erro que havia jurado jamais cometer:
roubara os patrões. Guardou alguma coisa para si e tentou passá-la através
de um receptador em Amsterdã. Ainda não sabia bem como é que fora
descoberto, nem isso era coisa que interessasse agora. Esperou a morte,
então, mas eles apenas sorriram. Claro que era bem-vindo, disseram-lhe,
bem-vindo ao dinheiro, pois iria precisar dele. Porque — e continuavam a
sorrir — iriam providenciar para que nunca mais pudesse trabalhar.
Danificaram seu sistema nervoso com uma microtoxina russa, do tempo
da guerra.
Amarrado a uma cama de hotel, em Memphis, com as suas capacidades
sendo consumidas mícron a mícron, alucinou durante trinta horas seguidas.
O estrago fora minucioso, sutil e extremamente eficaz.
Para Case, que havia vivido na incorpórea exaltação do ciberespaço,
isso constituiu a Queda. Nos bares que freqüentara quando era um cowboy
no auge, a atitude de elite era de um certo desprezo pela carne. O corpo era
carne; Case caíra na prisão do próprio corpo.
Convertera o total de suas posses em ienes novos, um gordo pacote do
velho papel-moeda que continuava interminavelmente a circular através do
circuito fechado dos mercados negros mundiais, como as conchas dos
habitantes das ilhas Trobiand. Era difícil no Sprawl efetuar qualquer
negócio legítimo com dinheiro vivo; no Japão era quase ilegal.
Tinha adquirido aí, no Japão, uma certeza firme e absoluta de que
encontraria a cura. Em Chiba City. Ou numa clínica registrada, ou numa
zona sombria da medicina clandestina, sinônimo de transplantes, separação
do sistema nervoso, microbiônica biotecnológica. Chiba constituía um pólo
de atração para subculturas tecno-criminais do Sprawl.
Uma vez em Chiba, vira o desaparecimento dos seus ienes novos, ao
fim de dois meses de circuito por exames e consultas. Os homens das
clínicas clandestinas, a sua derradeira esperança, limitavam-se a admirar a
eficiência com que ele fora mutilado, e sacudiam lentamente a cabeça.
Agora, dormia nas urnas mais baratas, as que ficavam junto ao porto,
sob os projetores de quartzo-halogêneo que iluminavam as docas durante
toda a noite, como se estas fossem enormes palcos; onde não era possível
ver as luzes de Tóquio devido ao clarão do céu que luzia como um aparelho
de televisão, nem sequer o logotipo holográfico no topo da torre da Fuji
Electric Company. A Baía de Tóquio era um espaço negro onde as gaivotas
circulavam sobre mantas errantes de espuma de borracha plástica branca.
Além do porto, espalhava-se a cidade, as cúpulas das fábricas dominadas
pelos amplos cubos das sedes das grandes empresas. O porto e Chiba
encontravam-se separados por uma zona fronteiriça de ruas antigas. Uma
zona sem nome oficial, a Night City, com o Ninsei no centro.
Durante o dia, os bares do Ninsei ficavam fechados e descaracterizados,
à espera, com os néons apagados, os hologramas inativos, sob um céu
prateado e venenoso.
Numa casa de chá de nome Jarre de Thé, situada duas quadras à direita
do Chat, Case engoliu a primeira pílula da noite com café expresso duplo;
tinha a forma de um octógono cor-de-rosa achatado — uma variedade
potente da dextrina brasileira que comprara de uma das garotas do Zone.
As paredes do Jarre eram revestidas de espelhos, com uma moldura de
néon vermelho em volta de cada um.
A princípio, quando se encontrara sozinho em Chiba, com pouco
dinheiro e menos esperança ainda de encontrar cura, entrara numa espécie
de aceleração terminal, arrancando grana com uma intensidade tão fria que
mais parecia outra pessoa. No primeiro mês, matara dois homens e uma
mulher por somas que um ano antes seriam ridículas para ele. O Ninsei
desgastara-o até ao ponto em que a própria rua parecia uma exteriorização
de um desejo de morte qualquer, um veneno secreto que ignorara
transportar consigo.
Night City era como uma experiência alucinante de darwinismo social,
concebida por um investigador aborrecido que mantivesse
permanentemente o polegar em pressão sobre o botão de movimento
acelerado para a frente. Se um homem desistia de tentar desenrascar-se,
afundava-se sem deixar quaisquer vestígios; se andasse depressa demais,
quebrava a frágil tensão de superfície do mercado negro; de qualquer modo,
desaparecia, nada deixando de si a não ser uma vaga recordação na
memória de um homem como Ratz, ainda que o coração, ou os pulmões, ou
os rins pudessem sobreviver, a serviço de um homem qualquer, com ienes
novos suficientes para os tanques da Clínica.
O negócio aí era um constante sussurro subliminal, e a morte, uma
punição aceita para a preguiça, o desleixo, a falta de elegância, o fracasso
de não se conseguir dar satisfação às exigências de um intrincado protocolo.
Sozinho,sentado a uma mesa no Jarre de Thé, com o octógono
começando fazer efeito, algumas gotas de suor surgindo nas palmas da suas
mãos, e subitamente consciente de cada um dos seus cabelos, que lhe
formigavam nos braços e no peito, Case sabia, já há algum tempo, que
começara um jogo consigo mesmo, um jogo muito antigo, sem nome, um
último jogo de paciência.
Não trazia nenhuma arma, já não se preocupava em tomar as mais
básicas precauções. Aceitava os negócios mais perigosos, mais marginais, e
tinha a reputação de conseguir arranjar tudo o que lhe era pedido. Uma
parte de si sabia que o halo de autodestruição era luminosamente óbvio para
os seus clientes, que com regularidade se tomavam cada vez menos; essa
mesma parte de si próprio, porém, acalentava-se no reconhecimento de que
era apenas uma questão de tempo. E essa era a parte que, certa na sua
expectativa de morte, mais odiava o pensamento em Linda Lee.
Encontrara-a, em uma noite de chuva, numa sala de jogos.
Sob fantasmas brilhantes ardendo através de uma fumaça azulada de
cigarros, de hologramas do Castelo do Feiticeiro, da Guerra de Tanques na
Europa, da linha do horizonte nova-iorquino... Recordava-se agora como
fora: o rosto banhado na incansável luz do laser, as feições reduzidas a um
código; as maçãs do rosto ardendo vermelhas, enquanto o Castelo do
Feiticeiro se incendiava; a fronte banhada de azul-celeste quando Munique
cedia na Guerra dos Tanques; a boca atingida por um raio de ouro quente ao
mesmo tempo que um cursor deslizante fazia faiscar a parede de um canyon
de arranha-céus.
Nessa noite, estava na melhor das disposições: com um pacote de
quetamina de Wage a caminho de Yokoama e o dinheiro já no bolso.
Entrara para escapar da chuva quente que fustigava ao longo do passeio do
Ninsei, e, fosse como fosse, ela havia-lhe sido destinada, um rosto
destacado entre as dúzias que permaneciam presas nos painéis de comando
dos jogos, absorta no jogo em que se envolvia. A expressão na cara da
garota fora a mesma que ele pudera observar, horas mais tarde, na face
adormecida na urna do porto: o lábio superior fazendo lembrar o traço que
as crianças desenham para representarem um pássaro em pleno vôo.
Uma vez atravessado o salão para conseguir ficar junto dela, sentindo-se
o máximo por causa do negócio que havia feito, Case reparou no olhar de
relance que a garota lhe lançara: olhos cinzentos pintados de rimei preto,
borrado, uns olhos de animal fixado pelos faróis de um automóvel em
aproximação.
A noite que passaram juntos prolongara-se até de manhã, até dois
bilhetes de hovercraft e a primeira viagem de Case através da Baía.
Continuava chovendo incessantemente em Harakuju; a chuva formava
pequenas contas sobre o blusão de plástico dela e as crianças de Tóquio
passavam em desfile pelas butiques famosas, vestindo capas pretas e
mocassins brancos; por fim, a moça ficara imóvel, ao seu lado, no meio da
algazarra da meia-noite característica de um salão de pachinko e pegara-lhe
na mão como uma criança.
Foi preciso um mês para que o regime de droga e tensão em que se
movimentava transformasse esses olhos, perpetuamente espantados, num
jogo de necessidade reflexiva. Observara a sua personalidade fender-se,
como um iceberg, largando os fragmentos à deriva, até que finalmente
percebeu a crua necessidade, a armadura esfomeada do vício. Observara-a
quando ela vivia a expectativa da próxima dose com uma concentração tal
que lhe fazia lembrar um louva-a-deus como os que eram vendidos nas
barracas do Shiga, ao lado dos tanques de carpas azuis, mutantes, e grilos
em gaiolas de bambu.
Fixou o anel escuro que a borra deixara na xícara vazia, que vibrava à
velocidade da droga que ingerira. O laminado castanho do tampo da mesa
era opaco, com uma patina de estanho rabiscado. Enquanto a dextrina subia
pela sua coluna, considerou quantos impactos por acaso teriam sido
necessários para criar uma superfície como essa. A decoração do Jorre
caracterizava-se por um estilo perfeitamente datado, do século anterior, mas
anônimo: uma incômoda mistura de plástico japonês tradicional e milanês
pálido; tudo parecia estar revestido por uma película sutil, como se os
nervos desarranjados de um milhão de clientes houvessem, de algum modo,
atacado os espelhos e os plásticos, outrora brilhantes, deixando todas as
superfícies escurecidas por algo que nunca mais poderia ser lavado ou
extraído.
— Olá, Case...
Case olhou para cima e encontrou os olhos cinzentos ornados de rimei;
a garota tinha as pálpebras cobertas com um tipo de sombra francesa,
desbotada, e calçava tênis brancos, novos.
— Tenho andado a sua procura, cara. — Ela ocupou o lugar na sua
frente e apoiou os cotovelos na mesa. As mangas do macacão azul que

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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