William Gibson - Idoru PDF

 


Idoru, escrito por William Gibson, é um excelente romance de ficção científica, que leva os leitores ao minúsculo espaço da nanotecnologia - minúsculo, porém responsável por grandes revoluções. É um livro de verdade que fala de coisas “que não existem”. Ou seja, de coisas que acontecem no ciberespaço, termo criado pelo próprio Gibson em 1984 e publicado em Neuromancer, livro de grande sucesso. Ciberespaço é um termo utilizado pelos usuários da internet como sinônimo de rede, lugar onde acontecem coisas incríveis em um mundo (ou em mundos) novo e imprevisível.

William Gibson - Idoru PDF 

1- DEATH CUBE K
Depois de sair do Slitscan, Laney soube de outro emprego por
Rydell, que fazia a segurança noturna no Chateau. Rydell era um cara
grande e quieto do Tennessee, com um sorriso forçado, tímido e triste,
óculos escuros baratos e um walkie-talkie permanentemente enfiado numa
orelha.
- Paragon-Asia Dataflow - disse Rydell, lá pelas quatro da manhã,
os dois sentados num par de enormes poltronas velhas. As vigas de concreto
no teto foram pintadas à mão, de modo a lembrar vagamente carvalho
descolorado. As poltronas, como o resto da mobília no saguão do Chateau,
eram tão grandes que faziam com que todos que se sentavam nelas
parecessem ser de outra escala, menores.
- É mesmo? - perguntou Laney, mantendo a farsa de que alguém
como Rydell fosse saber onde ele ainda poderia encontrar trabalho.
- Tóquio, Japão - disse Rydell, e tomou seu latte gelado por um
canudo de plástico. - Um cara que conheci em São Francisco no ano
passado. Yamazaki. Trabalha pra eles. Disse que estão precisando de um
internauta profissional.
Internauta. Laney, que gostava de ver a si mesmo como
pesquisador, reprimiu um suspiro. - Por empreitada?
- Acho que sim. Ele não disse.
- Acho que eu não gostaria de morar em Tóquio.
Rydell usou o canudo para mexer a espuma e o gelo que sobraram
no fundo do copo de plástico, como se tivesse a esperança de encontrar um
brinde surpresa - Ele não disse que era para morar lá. - Levantou os olhos. -
Já esteve em Tóquio?
- Não.
- Deve ser um lugar interessante, depois do terremoto e tudo. - O
walkie-talkie estalou e sussurrou. - Tenho que sair e checar o portão perto
das cabanas agora. Quer vir?
- Não - disse Laney. - Obrigado.
Rydell se levantou, esticando automaticamente os amassados na
calça cáqui do uniforme. Ele estava usando um cinto trançado de náilon
preto com vários estojos dependurados, todos pretos, uma camisa branca de
mangas curtas e uma gravata preta peculiarmente imóvel. - Vou deixar o
telefone no seu escaninho - disse ele.
Laney ficou vendo o segurança cruzar o piso de cerâmica e os
vários tapetes e sumir depois dos painéis apagados do balcão da recepção.
Pelo que deduzira, em outros tempos ele fizera alguma coisa num canal a
cabo. Cara legal. Perdedor.
Laney ficou lá sentado até a aurora vir esgueirando-se pelas janelas
altas e arqueadas, e até que o som dos talheres de Taiwan pudesse ser
ouvido, suave, vindo do salão de café da manhã às escuras. Vozes de
imigrantes, em algum dialeto das estepes russas que os grandes Khans
poderiam muito bem ter entendido. Ecos despertaram do piso de cerâmica,
das vigas altas sobreviventes de uma era que deve ter visto o advento de
tipos como Laney ou seus predecessores, sua ecologia de notoriedade e a
terrível e inviolável ordem daquela cadeia alimentar.
* * *
Rydell deixou uma folha de papel timbrado do Chateau dobrada no
escaninho de Laney. Um número de Tóquio. Laney a encontrou na tarde
seguinte, junto com uma estimativa atualizada de sua dívida enviada pelos
advogados. Levou as duas para o quarto, que não mais podia nem sequer
fingir que seria pago.
* * *
Uma semana mais tarde ele estava em Tóquio, seu rosto refletido
no espelho de veios dourados do elevador, indo para o terceiro andar do
agressivamente anônimo Edifício O My Golly. Indo ao Death Cube K,
aparentemente um bar temático sobre Franz Kafka.
Saiu do elevador para um espaço amplo, anunciado em metal
gravado a ácido como A Metamorfose. Onde assalariados de camisas
brancas, havendo tirado seus paletós, afrouxado suas gravatas pretas e
sentado num balcão de aço artisticamente enferrujado, bebiam. Os
espaldares altos das cadeiras moldados a partir de alguma resina marrom
quitinosa. Mandíbulas insetóides curvavam-se sobre as cabeças dos clientes
como segadeiras.
Avançou para dentro da luz marrom, um murmúrio baixo de
conversa. Não entendia japonês. As paredes, desigualmente transparentes,
repetiam um motivo de élitros e abdomens bulbosos, membros finos
marrons dobrados a intervalos regulares. Aumentou o passo na direção de
uma escada em curva moldada para se parecer com uma lustrosa carapaça
marrom.
Os olhos de prostitutas russas o seguiram de mesas em frente ao
balcão do bar, apáticos e artificiais como de bonecas àquela luz de barata.
As Natashas estavam por toda a parte, operárias despachadas de
Vladivostok pelo Kombinat. Cirurgia plástica de rotina emprestava-lhes
uma desgraciosa beleza de linha de montagem. Barbies eslavas. Uma
operação mais simples implantara um dispositivo de rastreamento para o
proveito de seus manipuladores.
A escada dava na Colônia Penal, uma disco, vazia a esta hora,
pulsos de silenciosa luz vermelha marcando os passos de Laney pelo salão
de dança. Um tipo de máquina estava dependurada no teto. Cada um de
seus braços articulados, que sugeriam equipamento antigo de dentista,
tinham pontas afiadas de aço. Penas de escrever, pensou ele, vagamente
lembrando-se da história de Kafka. Sentença de culpa, gravada na carne das
costas do condenado. Encolheu-se com a lembrança de olhos voltados para
cima sem enxergar. Afastou esse pensamento. Seguiu em frente.
Uma segunda escada, estreita, mais íngreme, e entrou no Processo,
de teto baixo e escuro. Paredes da cor de antracito. Pequenas chamas
tremeluziam por trás de vidro azul. Hesitou, com cegueira noturna e jet lag.
- Colin Laney, não é?
Australiano. Enorme. Atrás de uma mesinha, ombros caídos como
os de um urso. Algo estranho com o feitio de sua cabeça raspada. E outra
figura, muito menor, sentada. Japonês, numa camisa xadrez de manga
comprida abotoada até o colarinho grande demais. Piscando para Laney por
trás de lentes redondas.
- Sente-se, sr. Laney - disse o grandão.
E Laney viu que a orelha esquerda dele estava faltando, tosada, só
tendo
sobrado um toco retorcido.
* * *
Quando Laney trabalhava para o Slitscan, sua supervisora era
Kathy Torrance. Loura das mais pálidas. Com tamanha palidez que chegava
ao ponto de ser translúcida, alguns ângulos de incidência de luz sugeriam
não sangue, mas algum fluido do tom de palha no verão. Em sua coxa
esquerda, a estampa em azul-índigo puro de algo torcido e farpado, um
pictoglifo extravagantemente primitivo. Visível todo sábado, quando ela
tinha o hábito de ir trabalhar de shorts.
Reclamava, sempre, que a essência da notoriedade estava batida
demais. Desgastada, inferiu Laney, por gerações de colegas dela.
Apoiou os pés na aba de uma hotdesk. Usava meticulosa
reprodução em tamanho menor de botas de atacante, afiveladas no peito do
pé e fortemente amarradas nos tornozelos. Ele olhou para as pernas de
Kathy, a extensão de carne dura que ia do remate das meias de lã até a
fímbria lixada dos jeans cortados. A tatuagem parecia algo de outro planeta,
sinal ou mensagem marcada a fogo das profundezas do espaço, ali deixada
para ser interpretada pela humanidade.
Laney perguntou o que ela queria dizer. Kathy tirou um palito de
dente sabor menta da embalagem. Olhos que ele supunha serem cinza
encararam-no por detrás de lentes de contato cor de hortelã.
- Ninguém mais é realmente famoso, Laney. Não percebeu?
- Não.
- Realmente famoso. Não sobrou muita fama, não como
antigamente. Não o suficiente para todo mundo.
- Como antigamente?
- Nós somos a mídia, Laney. Transformamos esses panacas em
celebridades. É um esquema de toma-lá-dá-cá. Eles vêm até nós para serem
inventados. - As travas de Vibran bateram com um baque seco na hotdesk.
Recolheu os pés, calcanhares contra os quadris de brim, joelhos brancos
ocultando a boca. Equilibrada no pedestal da cadeira sueca articulada da
hotdesk.
- Bem - disse Laney, voltando para sua tela -, isso também é fama,
não?
- Mas é de verdade? Ele a encarou.
- Descobrimos como fazer dinheiro a partir dessa coisa - disse ela.
-Nossa própria moeda. Bem, fizemos dinheiro demais; até o público sabe.
Os índices de audiência mostram isso.
Laney assentiu, desejando que ela o deixasse trabalhar.
- Exceto - disse Kathy, separando os joelhos para que ele pudesse
vê-la dizendo isso - quando decidimos destruir um deles.
Por trás dela, por trás da espiral anodizada da Gaiola, além da
estrutura retangular de vidro que filtrava qualquer vestígio de poluição, o
céu por sobre Burbank era perfeitamente inexpressivo, como um chip de
tinta azul celeste provido pelo fornecedor do universo.
* * *
A orelha esquerda do sujeito era debruada de tecido rosa, suave
como cera. Laney se perguntou por que não houvera nenhuma tentativa de
reconstrução.
- Para que eu me lembre - disse ele, lendo os olhos de Laney.
- Lembre do quê?
- De não me esquecer. Sente-se.
Laney sentou-se em uma coisa que só vagamente sugeria7 uma
cadeira, uma estrutura delgada de hastes de uma liga metálica preta e
Hexcel laminado. A mesa era redonda e do tamanho aproximado de um
volante. Uma chama votiva lambia o ar por trás do vidro azul. O japonês
com a camisa xadrez e óculos de aro de metal piscava furiosamente. Laney
observou o sujeito corpulento se acomodar, outra daquela coisa parecida
com cadeira perdida por baixo de um corpanzil de lutador de sumo, que
parecia ser totalmente feito de músculos.
- Já passou o efeito do jet lag?
- Tomei uns comprimidos. - Lembrou o silêncio do transporte
supersônico, sua ausência de movimento aparente.
- Comprimidos - disse o homem. - O hotel é adequado?
- E - disse Laney. - Estou pronto para a entrevista.
- Muito bem - vigorosamente esfregando o rosto com mãos
bastante marcadas por cicatrizes. Abaixou as mãos e olhou espantado para
Laney, como se o visse pela primeira vez. Laney, evitando aquele olhar,
observou o seu traje, um tipo de roupa de ginástica de nanoporo, feita para
ficar folgada num homem menor mas ainda assim bem grande. De nenhuma
cor em particular na escuridão do Processo. Aberta do pescoço até o
esterno. Totalmente esticada por envolver toda aquela massa anormal. Pele
exposta marcada e cruzada por um mapa de cicatrizes, desnorteantes em sua
variedade de feitios e texturas. - Bem, então?
Laney levantou os olhos das cicatrizes. - Estou aqui para uma
entrevista.
- Está, é?
- É você o entrevistador?
- Entrevistador? - O trejeito ambíguo do rosto do cara revelou uma
óbvia prótese dental.
Laney virou-se para o japonês de óculos redondos. - Colin Laney.
- Shinya Yamazaki - disse ele, estendendo a mão.
Cumprimentaram-se.
- Falamos ao telefone.
- É você que vai fazer a entrevista?
Uma azáfama de piscar de olhos. - Não, desculpe - disse ele. E,
então:
- Sou um estudioso da sociologia existencial.
- Não entendi - disse Laney. Os outros dois não falaram nada.
Shinya Yamazaki parecia embaraçado. O homem de uma orelha só fechou a
cara.
- Você é australiano - disse Laney para o homem de uma orelha só.
- Da Tasmânia - corrigiu ele. - Tomamos o partido do Sul durante
os Distúrbios.
- Vamos começar de novo - sugeriu Laney. - Paragon-Asia
Dataflow. Vocês são eles?
- Veadinho persistente.
- Ossos do ofício - disse Laney. - Quer dizer, profissionalmente.
- Está certo. - O sujeito levantou as sobrancelhas, uma delas
cortada por um cordão rosa retorcido de tecido de cicatriz. - Rez, então. O
que você acha dele?
- Está falando do astro do rock? - perguntou Laney, após lutar com
um problema básico de contexto.
Assentiu com a cabeça. O homem olhou para Laney com a maior
seriedade.
- Da Lo/Rez? A banda? - Meio irlandês, meio chinês. Nariz
quebrado, nunca consertado. Olhos verdes amendoados.
- O que eu acho dele?
No esquema de coisas de Kathy Torrance, havia um desdém
especial reservado para o cantor. Ela o via como um fóssil vivo, um
sobrevivente importuno de uma era anterior, menos evoluída. Ele era ao
mesmo tempo maciça e insignificativamente famoso, dizia ela, da mesma
forma que era maciça e insignificativamente rico. Kathy pensava a
notoriedade como um fluido sutil, um elemento universal, como o flogisto
dos antigos, algo disperso uniformemente no momento da criação por todo
o universo, mas com tendência a aglutinar-se, sob condições específicas, em
torno de certos indivíduos e suas carreiras. Rez, na opinião de Kathy, havia
simplesmente durado demais. Monstruosamente demais. Ele estava

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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