William Faulkner - ENQUANTO AGONIZO PDF

 



William Faulkner - ENQUANTO AGONIZO PDF 

“Amar a
Humanidade
Inteira"
HÉLIO PÓLVORA
Na obra vasta de William Faulkner, Prêmio Nobel de Literatura
em 1949, As I Lay Dying — o Enquanto Agonizo desta versão
brasileira — surgiu em 1930. Para ser mais preciso, no dia 7 de
outubro daquele ano. Posterior, portanto, a Sartoris e The Sound
and the Fury, que foram publicados em 1929, e, cronologicamente,
seu terceiro grande romance.
O romancista trabalhava, à noite, na usina elétrica da
Universidade de Mississipi, com a incumbência de levar carvão para
a caldeira. Mas, como entre a meia-noite e as 4 horas da manhã
nada tivesse que fazer, escreveu Enquanto Agonizo em seis
semanas, junto a um dínamo que emitia "um zumbido profundo e
constante".
O critico alemão Gunter Blocker1 lembrou, a propósito de The
Sound And the Fury, que em 1929, quando este romance saiu,
excertos do Ulysses de James Joyce circulavam na revista
americana Little Review e, quase dez anos antes, Proust recebia o
Prêmio Goncourt pela segunda parte de À la Recherche du Temps
Perdu. Eu acrescentaria três romances de Virginia Woolf: To the
Lighthouse (1927), Orlando (1928) e The Waves (1931). A época,
portanto, era de mudanças profundas, estruturais, na novelística.
Estava instalado, sem dúvida, o laboratório de renovação do
romance, e Faulkner, a começar de Sartoris, contribuía
decisivamente para a visão nova do ficcionismo. Sartoris, no
entanto, ainda é um livro de carpintaria quase clássica. The Sound
and the Fury e As I Lay Dying é que rompem ousadamente com as
convenções até então observadas no gênero e abaladas a partir de
Proust e Kafka.
Quando apareceu, Enquanto Agonizo trazia sabor intenso de
novidade. Uma novidade insólita, incômoda. Quarenta e três anos
depois, as inovações do romance, na sua maneira de narrar,
entraram inteiramente para o patrimônio da novelística moderna.
Mesmo assim, embora algumas de suas conquistas técnicas
estejam hoje ao alcance de qualquer escritor, principalmente do
escritor jovem, que procura caminhos novos de expressão,
Enquanto Agonizo conserva sua força original e uma imagística
poderosa, que frequentemente incorpora o microcosmo no
macrocosmo. Além, naturalmente, de uma visão sombria,
pessimista, da vida e dos homens, interrompidas de vez em quando
pelo grotesco de situações esdrúxulas.
Entre as novidades deste romance, pelas quais Faulkner seria
imitado, copiado e pastichado, convém destacar: a) ausência do
escritor em relação ao relato, ou seja, sua absoluta neutralidade; b)
a fragmentação da narrativa: o romance é um patchwork, uma
colcha de retalhos; e) predominância do tempo psicológico, interior,
sobre o tempo convencional, cronológico — ou a alternância dos
dois tempos, habilmente dosada; d) a incerteza do romancista: ele
não sabe, ou finge ignorar o que se passa ou o que virá; e) a
verdade do relato, ou dos vários relatos entrelaçados, é uma coisa
sempre sujeita a contestação: depende de versões que ora lançam
luz, ora obscurecem os fatos, e a verdade procurada será sempre,
por conseguinte, ambivalente, ambígua, incompleta — e, no
entanto, una, indivisível; f) a narração é feita pelas personagens,
que se explicam pela maneira de falar, de reagir aos
acontecimentos: suas psicologias estão indissoluvelmente presas às
suas palavras; g) a linguagem das personagens deste romance
equivale a um signo, é o reflexo de seus temperamentos,
inclinações, conflitos; h) os depoimentos fazem a ação do romance
avançar e retroceder, e um vai esclarecendo o outro, embora certas
zonas permaneçam obscuras — intencionalmente ou não.
O plot é bastante simples: a família Bundren, representante
do poor white do Sul dos Estados Unidos, ao tempo da decadência
agrícola, viaja até a cidade de Jefferson, em carroça, levando o
caixão de Addie, que manifestara em vida o desejo de ser enterrada
ali, e fizera o marido Anse prometer-lhe a satisfação de tão humilde
vontade. "Não fiz mais que imaginar um grupo de pessoas e as
submeti simplesmente a essas catástrofes naturais, universais, que
são a inundação e o fogo, com um motivo lógico e simples, para dar
sentido à sua evolução"2, disse o romancista.
Depois de várias peripécias (Addie fica oito dias sem
sepultura), os Bundren chegam a Jefferson. Atravessaram um rio
turbulento, pelo lugar do vau, e salvaram o caixão de um incêndio.
Anse é um preguiçoso, um oportunista, um pobre diabo cheio de
fraquezas morais, mas aferra-se à palavra empenhada. Sepultada a
mulher, aparece com uma dentadura nova, cabelo bem alisado e
outra Mrs. Bundren, que apresenta aos filhos sentados na carroça e
todos eles atônitos.
A abertura do Romance é solene: o quadro trágico de Addie
agonizante, ouvindo pela janela aberta as marteladas de Cash e o
ruído de sua serra, no preparo do caixão, somente é quebrado por
algumas cenas grotescas, de humor negro, e descrições de um
lirismo fundamental — um lirismo de começo de mundo. "A cena
inicial tem o ar macabro de uma pintura medieval da Dança da
Morte", dizem os críticos Campbell e Forster.3
Mas são muitas, na verdade, as passagens literariamente
admiráveis de Enquanto Agonizo — e eu citaria, entre outras, o
monologo de Addie, alguns monólogos de Darl e Vardaman, as
cenas de travessia do rio e o incêndio no celeiro de Gillespie.
Campbell e Forster referem-se, a propósito dos capítulos
sobre a travessia do rio, à capacidade que tem Faulkner de "dar o
salto metafísico para o cósmico". As personagens de Enquanto
Agonizo são pessoas rudes, toscas, assoberbadas por apetites
mesquinhos e pequenos interesses. No entanto, têm, como a gente
sofrida do povo, em qualquer parte, sobretudo no campo, uma
compreensão da vida que envolve formulações não raro de alto teor
filosófico. Este poder de aceitar os acontecimentos, por piores que
sejam, e a eles resignar-se, equivale à submissão das dramatis
personae ao Destino, no teatro grego que universalizou a tragédia.
O romance parece, com efeito, desenvolver-se em função de
dois cenários. No seu início, a figura magra de Addie na cama,
ouvindo (e vendo) seu caixão mortuário ser preparado pelo filho
mais velho. A partir da viagem para Jefferson, a carroça onde está o
caixão, com o pai e filhos. O romance se compõe com estes dois
elementos como núcleo. Eles funcionam como cenário, ponto de
referência, ponto de partida, atração e repulsão. Enquanto Agonizo
é a mais teatral das tragédias de Faulkner, e os capítulos curtos,
esquemáticos, correspondem, sem dúvida, à entrada de
protagonistas em cena e às suas falas.
Em 1962, pouco antes de falecer, William Faulkner foi
sabatinado em West Point. Perguntaram-lhe, entre outras coisas,
"em que medida a apresentação de personagens mais ou menos
pervertidas pode contribuir para elevar o coração do homem". Sua
resposta: "A primeira coisa que um escritor sente é compaixão por
suas personagens, como, aliás, pelas personagens de não importa
que outro autor. Ele não estima o poder que tem para julgá-las, e
essas personagens permanecem com suas taras, quer o escritor
queira ou não.
Quando conta uma história, parece-lhe necessário,
bom,essencial mesmo, ter em conta essa evidência. Não lhes
advoga a causa, não as condena; uma vez consciente de seus
defeitos, a primeira coisa que deve fazer é amar a humanidade
inteira, embora chegue a odiar certos indivíduos. Entre as
personagens que criei, há algumas que odeio ferozmente, mas não
me compete julgá-las, condená-las: elas existem, fazem parte do
quadro em que vivemos. E recusando falar delas não aboliremos o
mal."4 Ao receber o Prêmio Nobel, Faulkner disse, em discurso, que,
enquanto permanecer o medo universal, físico, que caracteriza
nossa época, o escritor "escreverá não do amor, mas do desejo, de
derrotas em que ninguém perde nada de valor, de vitórias sem
esperança e, o que é pior, sem piedade nem compaixão. (... )
Escreverá a respeito das glândulas, não do coração".5 Das
personagens de Enquanto Agonizo, a única moralmente boa, pura,
será Cash, o carpinteiro.
A tradução requer algumas palavras. O estilo de Faulkner,
aqui, é direto, extremamente condensado, como se ele pretendesse
carregar uma frase ou uma palavra do maior número possível de
significações. O tradutor optou pela versão quase literal do texto,
somente a ela fugindo quando forçado pela necessidade de clareza.
O outro critério possível neste caso seria traduzir literariamente a
linguagem de Faulkner; o texto ficaria mais bonito, mais fluente, mas
não teria a rudeza, o coloquialismo e a feroz condensação do
original, O leitor não afeiçoado a este universo deve nele procurar
penetrar munido de paciência: a cena vai se esclarecendo aos
poucos, à medida que falam as personagens. Certos trechos
permanecerão obscuros, porque, em alguns casos, as personagens
não sabem o que dizer ou como dizer. Conforme observou o próprio
Faulkner, "ninguém procura ser obscuro só pelo prazer de sê-lo,
Mas, em certos momentos, o escritor é simplesmente incapaz de
encontrar um meio mais eficaz de contar a história que busca
contar".6 Preferiu o tradutor o diálogo à americana. Indicado por
aspas, em vez de travessão. Não fosse assim e seria obrigado a
alterar a estrutura de composição do livro, quebrando-lhe o ritmo,
uma vez que muitos diálogos estão embutidos no texto. Procurou
também manter a pontuação do autor, especialmente em certos
monólogos que aparecem em grifo.
NOTAS
1Faulkner — A Collection of Critical Essays, edited by Robert
Penn Warren, Prentice-Hall, Inc., 1966, New Jersey. USA. 2Citado
por Agustin Caballero, no prefácio a Obras Escogidas de William
Faulkner, Tomo I. Aguilar, 1956, Madrid. 3Harry M Campbell e Ruel
E. Forster, William Faulkner. Editorial Schapire, Buenos Aires, 1954.
4Faulkner at West Point. Citado do resumo traduzido por Hélio
Pólvora no Diário Carioca, dezembro de 1964.
5Ver Nota 2.
6Ver nota 4.

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Ahmed Zayed

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