Wilde Oscar - De Profundis PDF

 



Tento imaginar um leitor ou leitora jovem confrontando-se com este texto pela primeira vez. Ele ou ela – mas fiquemo-nos pelo “ele”, não só para facilitar a escrita, mas para reforçar a identificação entre Wilde e o seu leitor – muito provavelmente terá chegado ao livro através da inclusão de Oscar Wilde na galeria dos autores gay históricos (pelo menos eu escrevo a partir dessa premissa, tanto ou tão pouco válida como outras); terá chegado a ele com a informação, algo vaga, de se tratar de uma carta a um amante desavindo; e ainda com a referência a um texto escrito na sequência de uma punição judicial marcadamente homofóbica. O estranhamento e a empatia configuram-se logo aqui.

Miguel Vale de Almeida (excerto do Prefácio)


Wilde Oscar - De Profundis PDF 


Ler De Profundis no séc. XXI é uma experiência que gera
simultaneamente estranhamento e empatia. O estranhamento advém do
contexto histórico do texto, do que ele transmite sobre a tessitura e a textura
das relações sociais e amorosas da época; a empatia advém do
reconhecimento que o lado confessional e de discurso amoroso do texto
consegue gerar para lá da distância histórica e cultural. Wilde é e não é
“nosso”.
Tento imaginar um leitor ou leitora jovem confrontando-se com este texto
pela primeira vez. Ele ou ela – mas fiquemo-nos pelo “ele”, não só para
facilitar a escrita, mas para reforçar a identificação entre Wilde e o seu
leitor – muito provavelmente terá chegado ao livro através da inclusão de
Oscar Wilde na galeria dos autores gay históricos (pelo menos eu escrevo a
partir dessa premissa, tanto ou tão pouco válida como outras); terá chegado
a ele com a informação, algo vaga, de se tratar de uma carta a um amante
desavindo; e ainda com a referência a um texto escrito na sequência de uma
punição judicial marcadamente homofóbica. O estranhamento e a empatia
configuram-se logo aqui. E consigo identificar dois níveis de estranhamento
e dois níveis de empatia, mesclando-se os dois do meio. Comecemos pelo
primeiro.
O primeiro nível de estranhamento consubstancia-se no facto de Oscar
Wilde ter escrito De Profundis a partir da prisão, onde foi encarcerado na
sequência do escândalo público que, em última instância, radicava na sua
homossexualidade. Foi preso por gross indecency, de acordo com a Secção
11 do Criminal Law Amendment Act de 1885. A lei previa pena de prisão
até 1 ano, com ou sem trabalhos forçados, para qualquer homem culpado de
gross indecency com outro homem. Esta não surgia claramente definida na
lei, talvez seguindo (e assim contrariando em parte a visão de Michel
Foucault) algum pudor vitoriano em estabelecer, pelo menos na lei,
descrições exactas do que era considerado imoral. A “indecência grosseira”
era interpretada como dizendo respeito a qualquer comportamento
homossexual, excepto a sodomia no sentido estrito do termo, considerada
um crime à parte e mais grave. O leitor de hoje sabe, certamente, que ainda
existem países onde a homossexualidade é criminalizada, havendo inclusive
países onde pode ser punida com a pena de morte. Mas as auto-percepções
de muitos Ocidentais tendem a remeter essas situações para um território
vago – e preconceituoso – de “outras culturas”, normalmente associadas ou
a uma ideia generalizadora e imprecisa de “subdesenvolvimento” ou à
predominância de fundamentalismos religiosos. Quando, na realidade, a
perseguição legal dos homossexuais é uma herança ocidental e europeia
historicamente recente – e muitas vezes exportada (e depois mantida) para
contextos colonizados justamente pelo Ocidente. A experiência de Wilde,
homem culto e das elites da época, serve portanto de constante chamada de
atenção e memória para aqueles que hoje podem, pelo menos no plano
formal e legal, usufruir das liberdades e direitos garantidos para a expressão
e vivência da sua orientação sexual. Em suma, progredimos, e Oscar Wilde
é um antepassado que nos ajuda a construir a consciência desse progresso.
Ainda hoje – e porque os desenvolvimentos e transformações históricas não
se dão necessariamente numa linha de progresso cumulativo e positivo,
antes muitos tempos e modos coexistem, sobrevivem, contradizem-se em
simultâneo... – as razões pelas quais Wilde foi punido e ostracizado são
invocadas por sectores da nossa sociedade para negar o reconhecimento, a
dignidade ou a igualdade de direitos. Aí, e de certa maneira com uma ironia
histórica de matiz trágico, o estranhamento cessa.
O segundo nível de estranhamento prende-se com a natureza e a retórica
de Wilde (e da sua época) sobre a homossexualidade. O seu discurso em De
Profundis é totalmente omisso em relação ao que hoje entenderíamos por
“sexualidade” ou mesmo por “erotismo”. Duas figuras retóricas parecem
substituir aqueles tropos: por um lado a “Arte” (assim, maiusculizada), ou
todo um processo de construção estética da vida e das relações; por outro a
amizade, como um chapéu-de-chuva abrangente para as relações entre
homens e à sombra do qual se podem entrever as possibilidades amorosas e
sexuais. Para o meu leitor imaginário, o estranhamento é provavelmente
grande neste aspecto: onde está a emoção do apaixonamento? E a do desejo
sexual? E a frutificação de uma relação amorosa, com corte, namoro,
momentos de felicidade e de conflito e de “fazer pazes”? Onde está, no
fundo, a aplicação, às relações entre dois homens (ou entre duas mulheres),
do mesmo modelo de amor e romantismo aplicado às relações entre um
homem e uma mulher – e que constitui hoje o modelo amoroso que orienta
hegemonicamente as relações amorosas homossexuais, graças a esse
processo de normalização da homossexualidade que se seguiu à igualização
ideal das relações entre homens e mulheres?
Não está. E não poderia estar, pelo menos no plano discursivo, pois na
época de Wilde a homossexualidade não está ainda definida como
identidade possível, como descritor de uma forma de ser, de uma
identificação colectiva, de uma “natureza possível” em plano de igualdade
com a bissexualidade a heterossexualidade. E as emoções amorosas
homossexuais eram vividas como emoções amistosas, desenvolvidas num
plano idealmente espiritual e separado das relações socialmente aceites – as
da heterossexualidade: Oscar Wilde era casado e tinha filhos com a sua
mulher, referindo-se por várias vezes a eles e a ela, e com um afecto não
fingido, em De Profundis. Era outra coisa, eram dois mundos separados, o
da amizade homoerótica e o do casamento heterossexual, aparentemente
sem uma contradição sentida e necessitando de resolução, como aconteceria
hoje. Não se trata, pois, necessariamente, como um leitor de hoje poderia
suspeitar, de uma questão de hipocrisia, de separação entre uma relação de
casamento heterossexual de fachada, para efeito social, e relação verdadeira
no plano emocional e do desejo, íntima e secreta.
Se é certo que na época vitoriana se assiste ao surgimento do que hoje se
designa por família nuclear, baseada num contrato de casamento
preocupado sobretudo com a reprodução social, a hierarquia entre os
géneros, a garantia da paternidade e a reprodução do capital comercial e
empresarial, também é certo que a época do surgimento da família nuclear
foi acompanhada do surgimento do modelo do amor romântico, muito
impulsionado pelas próprias mulheres que, na burguesia, se viram
especializadas na gestão do lar, da vida dos maridos e dos filhos, à
dissemelhança da anterior aristocracia – que prosseguira a total separação
entre casamento por conveniência, de um lado, e vida sexual por outro – ou
do proletariado, a quem não era social e moralmente exigida a consagração
legal das uniões amorosas.
As relações de género eram marcadas por uma forte separação entre
esferas de interacção, cabendo aos homens o espaço público onde lidavam
exclusivamente com outros homens nos planos profissional, artístico,
intelectual e do lazer, cultuando não só os negócios mas também a amizade,
claramente complementar, no plano emocional, da relação doméstica do
casamento. Wilde não pode ser, hoje e de forma anacrónica, situado na
categoria do homossexual “no armário”, pois não havia um espaço público
da homossexualidade que pudesse, por antinomia, ajudar a definir um
universo de “armário”; e tão-pouco poderia situar-se na categoria do
“homem que tem sexo com homens” ou do “hipócrita”. Tanto mais que o
que transparece do seu discurso amoroso e sexual é uma percepção da
homossexualidade marcada por masculinismo e elitismo, fruto da sua
especialização como artista e esteta na época romântica.
É este ponto, aliás, que constitui simultaneamente o último nível de
estranhamento e o primeiro de empatia, já que este modelo ainda sobrevive
hoje e é largamente utilizado por quem procura, ou no seu processo de
identificação como homossexual, ou no processo de aceitação da
homossexualidade por parte do maistream. Leia-se uma passagem da defesa
de Wilde no seu julgamento:
«O amor que não se atreve a dizer o nome [The love that dare not
speak its name] é, neste século, um afecto sentido por um homem mais
velho em relação a um homem mais novo, tão grande quanto o sentido
entre David e Jonathan, o mesmo em que assentou a filosofia de Platão,
e o mesmo que se pode encontrar nos sonetos de Michelangelo e
Shakespeare. É aquela afeição espiritual profunda que é tão pura quanto
perfeita. Ela dita e atravessa as grandes obras de arte, como as de
Shakespeare e Michelangelo, bem como as minhas duas cartas. Este
século não o compreende, de tal maneira que pode ser descrito como “o
amor que não se atreve a dizer o nome”, e é por isso que me encontro
agora aqui. É um sentimento lindo, correcto, a forma mais nobre de
afecto. Nada tem de antinatural. É intelectual, e existe repetidamente
entre um homem mais velho e um outro mais jovem, quando o mais
velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o
glamour da vida à sua frente[1].»
Notem-se as palavras-chave: “mais velho” e “mais jovem”, “espiritual”,
“arte”, “nobre”, “intelecto”. Toda uma tentativa (e uma crença nela) de
resgatar a homossexualidade do lado negativo da dicotomia ocidental entre
o carnal e o espiritual, o emocional e o intelectual, o básico e o nobre. É, de
facto, no modelo da homossexualidade grega antiga que Wilde e os seus
contemporâneos se inspiram para o discurso homofílico, assim como,
simetricamente, os homofóbicos se inspiravam em leituras acríticas dos
textos judaico-cristãos que se haviam revoltado contra o referido modelo
clássico grego no plano dos costumes de género e sexualidade. Sabemos
hoje que não se pode, em rigor, falar de homossexualidade na Grécia antiga,
mas sim de relações de género e sexualidade geridas por princípio de poder,
manifestos em profundas e muito codificadas hierarquizações e
desigualdades: entre homens e mulheres, com os primeiros ocupando o
espaço público e as segundas remetidas para o espaço privado, sob a tutela
última dos homens; entre pessoas livres e escravos; e entre homens seniores
e homens juniores, com relações de tutela que podiam incluir o sexo, sendo
este por sua vez codificado em termos de performance: papel “activo”
exclusivo do mais velho e “passivo” do mais novo (assim como para as
relações entre senhores e escravos ou entre homens e mulheres). Pode
mesmo dizer-se que talvez a paisagem de género e de sexualidade em que
Wilde viveu tivesse sido mais próxima da paisagem da Grécia antiga do que
da paisagem em que vivemos hoje em parte significativa do mundo euroamericano.
O resgate que os românticos contemporâneos de Wilde fazem da
“homossexualidade” grega antiga é enviesado, centrando-se nas relações de
tutoria intelectual e artística e aceitando implicitamente a hierarquia entre o
espiritual como nobre e positivo, por um lado, e o carnal como poluidor e
negativo, pelo outro. Semelhantes classificações aplicavam-se, aliás, às
relações entre classes, marcadas pelo abuso de jovens e homens proletários
ou camponeses por homens burgueses, aristocratas ou terratenentes, não
sem que essas relações sexuais interclassistas fossem muitas vezes
erotizadas através da inversão das relações de poder, contidas e limitadas
que estavam ao secretismo e ao carácter não público, e na ausência total da
tão apreciada confluência espiritual da amizade ou da tutoria.
Este modelo é simultaneamente estranho e reconhecível hoje. Estranho
porque vivemos uma época de normalização da homossexualidade. Por
normalização entenda-se um processo de criação de analogias entre a
“natureza” da relação homossexual e a “natureza” da relação heterossexual.
São vistas como a mesma coisa, diferentes apenas no objecto de desejo, na
forma, assentes no mesmo sentimento de desejo e de amor, concretizadas
em relações idealmente igualitárias (pois a transformação da hierarquia das
relações heterossexuais em relações idealmente igualitárias foi um passo
fundamental para o surgimento da crescente normalização da
homossexualidade) e durando o tempo que o sentimento amoroso durar,
independente de formas contratuais socialmente reconhecidas. É por isso
que para o leitor de hoje é crescentemente normal que o debate público
sobre a homossexualidade inclua a questão do casamento ou da
parentalidade, por exemplo, algo que teria sido impensável para a
mentalidade de Wilde e seus contemporâneos. Não teria sido pensável.
O que Wilde fez, sim, foi contestar a moralidade judaico-cristã de
opróbrio a que era remetida a prática da homossexualidade ou a visibilidade
dessa prática, a sua criminalização e, quando muito (como o fizeram alguns
seus contemporâneos da área científica), o modelo médico que a definia
como desvio ou doença. Mas nunca lhe poderia ter ocorrido pensá-la como
forma igual de vida por comparação com a heterossexualidade. Via-a como
outra coisa, como um complemento à norma da relação heterossexual
reprodutiva marcada pelo casamento. Via-a no plano mais da homosociabilidade
do que da homo-sexualidade, sendo a sexualidade uma
prática (e não uma identidade) e uma instância possível mas não necessária
daquela sociabilidade. E o recurso simbólico para a legitimação da sua
ocorrência não podia ser outro, na época romântica, que não o da então
muito valorizada e apreciada Grécia (ou Roma) antiga – se bem que
desprovida das hierarquias de poder entre mais velhos e mais novos,
“higienizada” de modo a vangloriar as relações entre artistas e professores
mais velhos e aprendizes mais novos no seio da mesma classe e meio social.
O leitor de hoje consegue, todavia, vislumbrar o “modelo” da época de
Wilde como plausível. Porque o processo do que viria a chamar-se
libertação gay, que a partir dos anos sessenta levaria à reivindicação da
normalização da homossexualidade, não teve efeito igual nem à mesma
velocidade em todos os contextos ocidentais. Em muitas sociedades do sul
da Europa e do Mediterrâneo e mais ainda nas que passaram por longos
processos ditatoriais, como Portugal, e que mantiveram estruturas sociais
em larga medida pré-modernas, o modelo que transparece do testemunho de
Wilde prevaleceu em alguns segmentos da sociedade. Não é difícil
identificar em textos literários e outros, nomeadamente portugueses, ou
mesmo na memória viva de algumas pessoas, uma vivência da
homossexualidade parecida com a que transparece em Wilde, à semelhança
aliás de relações de género marcadas pela assimetria ou pelas contradições
do amor romântico e suas brechas.
Será então que o leitor de hoje lê De Profundis motivado por uma espécie
de voyeurismo histórico? Com o intuito egocêntrico, de sorriso ao canto da
boca, de confirmar como a sua vida é hoje melhor do que a de Wilde?
Como quem visita o passado como um país estrangeiro de costumes

Download

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem