Walter Campos de Carvalho - O Púcaro Búlgaro PDF

 


Walter Campos de Carvalho - O Púcaro Búlgaro PDF

 

Os Prolegômenos

No verão de 1958 o autor visitava tranquilamente o Museu
Histórico e Geográfico de Filadélfia quando, ao voltar-se um pouco
para a direita, avistou de repente um púcaro búlgaro. A impressão
causada pelo estranho acontecimento foi tamanha que no dia
seguinte ele embarcava de volta no primeiro avião, deixando a
mulher no hotel sem dinheiro ao menos para pagar as despesas.
Não falou o autor sobre o caso com ninguém, nem mesmo
na ação de desquite que lhe moveram a mulher e todos os seus
parentes consanguíneos ou colaterais, até que ano e meio mais
tarde resolveu escrever ao próprio diretor do museu indagando,
após muitos circunlóquios, se na sala x à direta, e à luz do meio-dia,
podia inequivocamente ser visto um — e disse o nome. A resposta
veio pronta e sem evasivas:
Prezado Senhor.
Respondendo a sua insólita e despropositada carta de 18 do
corrente, venho informar que, após minuciosa diligência efetuada
por pessoal altamente técnico e de reputação acima de qualquer
suspeita, chegou-se à constatação de que na sala 304-B (ala direita)
deste museu existe, sem a menor sombra de dúvida, um precioso
exemplar de PÚCARO BÚLGARO, provavelmente do início do
século 13 a.C. — sob a dinastia Lovtschajik.
Atenciosamente.
Isso veio decidir, de uma vez por todas, sobre o destino do
autor.
Como toda gente, também ele sempre ouvira falar, desde a
mais tenra infância, sobre púcaros e sobre búlgaros — mas sempre
achando que se tratava apenas de um jogo de palavras ou, na
melhor das hipóteses, de personagens de contos de fadas, tão reais
quanto as aventuras do barão de Munchhausen. Nunca lhe passara
pela cabeça que, numa esquina qualquer do mundo, de repente lhe
pudesse aparecer pela frente um búlgaro segurando um púcaro, ou
então um púcaro com um búlgaro dentro, ou ainda e muito menos
um púcaro simplesmente búlgaro — com data, etiqueta e tudo, e
sob a proteção da bandeira dos Estados Unidos da América. Afeito
a indagações altamente filosóficas, sem falar das metafísicas e das
metapsíquicas, além das que vêm de Nostradamus e de outros
planetas — dispôs-se o autor a, passado o primeiro instante de
surpresa que durou exatamente 18 meses, vir a campo e aceitar o
desafio que acintosamente lhe ativara a poderosa máquina de
propaganda ianque, armando-se se preciso fosse até os dentes,
sobretudo os caninos, em defesa de seus princípios e
consequentemente de seus fins.
Outros 18 meses levou o autor nessa luta desigual com o
imperialismo norte-americano, ele e mais ninguém — que todos se
recusavam cinicamente a discutir sequer de longe o assunto,
pretextando a hora do chá ou outros afazeres semelhantes sempre
que se aventava a hipótese de os céus de Filadélfia estarem
acobertando uma deslavada impostura. Em vão se tentou chamar à
realidade os espíritos mais pragmáticos, para os quais a Wall Street
e o Vaticano sempre se constituíram na última palavra, esquecidos
eles de que as últimas palavras sempre foram as dos mortos, dos
que já morreram há milênios e ainda estão se putrefazendo de pé,
como as múmias e as ruínas ditas clássicas — como se também
isso fosse possível, uma coisa ser clássica e ruína ao mesmo
tempo.
Nada tinha como nada tem o autor, evidentemente, contra
nenhum búlgaro em carne e osso, desde que ele se dispusesse a
exibir a sua carne e os seus ossos a quem os quisesse ver, como
terá que fatalmente exibi-los no Dia do Juízo. Nada tem igualmente
contra os púcaros na sua simples condição de púcaros, uma vez
que não se metam a búlgaros e saiam para a praça pública a gritar
— SOU UM PÚCARO BÚLGARO, SOU UM PÚCARO BÚLGARO
— sem que se possa examiná-los de perto e mesmo tocá-los com
os dedos, como acontece nos museus. Nos dicionários eles lá
estão, um e outro, com os seus verbetes — mas isso é fácil, Deus
também lá está: queria é vê-los o autor aqui fora, resplandecentes
de luz solar e não de luz elétrica ou gás neón, e sem os canhões de
Tio Sam para lhes garantir a pucaricidade ou a bulgaricidade.
O autor tentou honestamente imaginar-se um púcaro ou um
búlgaro e não conseguiu, e ainda menos um púcaro búlgaro ou um
búlgaro com púcaros na mão, na cabeça ou debaixo das axilas.
Imaginou-se sem dificuldade um cavalo ou um guarda-chuva, e até
mesmo um cavalo com um guarda-chuva — chegando ao extremo
de imaginar-se um dia o próprio Museu Histórico e Geográfico de
Filadélfia, mas sem púcaro búlgaro dentro. Essa experiência,
também ela, lhe foi decisiva.
E como o que existe, ou dizem existir, é o reino dos búlgaros
e não o reino dos púcaros, entendeu o autor que o mais prudente
seria organizar uma expedição que fosse logo à procura daquele e
não deste — o que fez ou se pôs a fazer no verão de 1961,
exatamente três anos após aquele infausto acontecimento que lhe
valeu quando menos a liberdade de dormir sozinho, embora não
dormindo.
Do que se passou e sobretudo do que não se passou nessa
expedição já famosa é o relato que se vai ler em seguida, o mais
pormenorizado e o mais honesto possível, embora tenha sido
reduzido ao mínimo para que pudesse caber num só volume e
mesmo num só século — o que afinal se conseguiu.

Download

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem