Walter Campos de Carvalho - A LUA VEM DA ÁSIA PDF

 



Walter Campos de Carvalho - A LUA VEM DA ÁSIA PDF 

Capítulo 18º

Chuva, chuva, chuva.
É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede
— neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção
do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do
dia e da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na
mesa garantiu-me que estávamos em agosto, e até fez o sinal da
cruz sobre o peito para demonstrar que não estava mentindo; mas
eu tenho minhas dúvidas a respeito e continuo acreditando que não
estamos sequer em janeiro ou em março, pois o rio que ouço a
distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da
primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente
belo.
Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns
vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a
cama, as cadeiras e a mesinha de cabeceira, e não sou de me
habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei,
perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou
mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa
tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e
o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite
de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco
que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de
tão discreto e de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da
minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.
De resto, a noite não é tão triste assim, e eu bem posso,
querendo, sentar-me à beira da cama, colocar as duas mãos na
fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me
assim com o espetáculo da parede sempre branca e sempre imóvel,
a dois palmos do meu nariz. Livros eu não tenho para ler no
momento, nem eles dão coisa que preste e que me faça mais sábio
do que sou, pelas amostras que já tive nestes últimos tempos (À
Bíblia que me deram a ler era exatamente igual a todas as Bíblias
que eu já conhecia antes de vir para cá, e o romance policial que de
certa feita me emprestou a empregada trazia uma história ingênua e
fácil de ser desvendada, como pude verificar logo pelas últimas
páginas.) Violão também não tenho, nem piano, nem saxofone, de
maneira que a chuva ainda é a melhor coisa que me poderia
acontecer nesta noite sem mês e sem ano, já que as paredes
brancas e iguais já não me oferecem segredo nenhum, à força de
eu me postar diante delas como diante de um espelho.
Exatamente: a noite foi feita para os galos dormirem e os
insones roerem a sua insônia. Roerem — não disse bem?
Assombra-me (sempre me assombrou) ver a facilidade com
que certas criaturas se recostam num travesseiro e caem logo num
sono profundo, como se se houvessem suicidado inteiramente, sem
problema nenhum a resolver no dia seguinte. Parecem bonecos de
corda a que de repente faltasse a corda, e a sua consciência é
também uma simples questão de corda a mais ou a menos, como o
é também a sua voz, em tudo igual à de um boneco que fala
mamãe. Em mim, o superlúcido, o sono foi sempre uma conquista
muito difícil, e sua escalada através dos anos sempre me pareceu
mais penosa e meritória do que a do Himalaia ou mesmo a do
monte Everest.
Agora a chuva baila em torno da minha cabeça, e no hotel
todos dormem ou fingem que dormem pelo menos, num silêncio que
marca com exatidão o barulho da chuva sobre o telhado. Seu eu
gritasse é possível que a chuva continuasse caindo, mas o silêncio
pelo menos deixaria de existir dentro do meu quarto e dentro dos
quartos vizinhos, e a chuva já não teria a marcá-la o compasso
unânime do sono de todos os imbecis da terra. Vou gritar, espera!...
— Não, é melhor eu deixar para gritar amanhã, ou num domingo,
que é dia de júbilo universal e é quando todos gritam sem motivo ou
pelos motivos mais tolos. Agora vou pentear o cabelo com a água
da chuva, olhar um pouco mais o céu indevassável através das
grades da janela (por causa dos ladrões) e depois recolher-me ao
leito, como uma criança de dois anos. Nos meus bons tempos esta
era a hora exatamente de eu sair à rua, de guarda-chuva aberto e a
alma escancarada, até que encontrasse um bar simpático que me
acolhesse e ao guarda-chuva e nos deixasse ficar a sós até alta
madrugada. (Neste hotel, não sei por que, o regime é mais severo
do que nos outros, e o hóspede não tem direito de pôr o pé na rua
sem falar com o gerente ou com o subgerente, que geralmente lhe
negam autorização. Coisas da nova democracia, parece-me.)
Outra coisa que a chuva me faz lembrar sempre são os
mortos. Tive um amigo que de certa feita escreveu esta frase
lapidar: A chuva dá de beber aos mortos, e talvez por isso eu não
possa sentir a chuva sem sentir a presença dos mortos ao meu
lado, e até mesmo dentro de mim.
Por outro lado, não é verdade que os mortos hão de sentir-se
apavorados dentro da terra encharcada e gotejante, sobretudo os
mortos recentes e que ainda não estão acostumados com a sua
solidão? Eu, depois de morto, tanto se me dá que chova ou que
deixe de chover, mas aquela frase do meu amigo não deixa de ser
bela e profundamente inspiradora. Não acredito que a sede seja o
que mais importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é
sempre necessária e é bom que os poetas estejam lembrando-se
dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe dos seus filhos.
Agora que já olhei a chuva mais uma vez, e que o silêncio
persiste dentro deste hotel mal-assombrado (mudar-me-ei amanhã)
— o que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar
que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes
de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitarme-
ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito — bela
imagem, sem dúvida — apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu
que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e
fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me
bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é
completamente escura, como o podem atestar todos os insones da
terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva,
a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as
esperanças e as ideias felizes, que são sempre as mesmas sempre,
apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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