Walcyr Carrasco - A corrente da vida PDF

 



Raquel se aflige quando Nel, seu melhor amigo, desaparece da escola. O rapaz está doente, o vírus da aids se manifestou. E, quando a notícia afinal corre entre os estudantes, a discriminação e o preconceito explodem na escola. No combate a esta injustiça, Raquel se junta a Marcelo e a Joca para garantir a Nel o direito de continuar vivendo.


Walcyr Carrasco - A corrente da vida PDF 


1. Amigo, nome e apelido

Chamava-se Nelson. Mas ainda me lembro dele pelo apelido: Nel.
Ele não gostava muito, é verdade. Achava estranho. Reclamava que
seu nome estava sendo cortado pela metade.
— Nome é nome — dizia. — É como se fosse a marca registrada
da gente.
Eu brincava. Respondia que existem pessoas com nomes
pavorosos, e preferem mudar. Ele não se abalava.
— Cada caso é um caso, cada pessoa tem sua cabeça —
teimava. — Gosto de ser Nelson. É o nome do meu pai.
Em seguida ficava de um jeito triste, pois o pai morrera há muito
tempo. Nem se lembrava bem como ele era.
Mas por que estou falando tudo isso? Talvez porque sempre seja
tão bom me lembrar de Nel, ou Nelson, como ele preferia. Dos
momentos bonitos que vivemos juntos. Repare: eu não estou
falando de acontecimentos felizes, absolutamente felizes. As
pessoas valorizam apenas a alegria, como se a tristeza não tivesse
sua importância. Claro que é bom estar contente. Dar boas risadas,
se divertir. Mas o ser humano não é um robô programado para dar
risadas o tempo todo. Não! A gente tem tristezas, melancolias,
horas de sofrimento e ansiedade. Tudo faz parte da vida.
Quando a tristeza chega, não acho que a gente deva fugir dela.
Contar piadas para disfarçar. Tentar esquecer. Eu aprendi a viver a
tristeza como se vive a alegria. Enfrentar as dificuldades têm uma
beleza que nem dá pra explicar com simples palavras. Deixar o
sentimento brotar como água da fonte. Chorar e aceitar que nem
tudo na vida é como se quer, traz um alívio. Um sentimento de
realização que é um tipo de felicidade. Por isso quero falar de Nel,
de Nelson. Neo. New. Neo. Eu brincava tanto com seu nome, e
escrevia de tantas maneiras!
É assim que vou começar. Falando dele. Contando o quanto foi
importante na minha vida.
Tudo começou de forma tão casual! Até hoje me espanto quando
lembro a maneira como as coisas foram acontecendo, uma depois
da outra. Na escola, estávamos na mesma turma. Gostava de fazer
trabalhos em grupo com ele. Tinha quem dissesse que éramos
namorados. Nunca fomos, realmente. Nem sei se eu sonhava com
isso. Nossa amizade foi nascendo sem compromisso. Era o tipo de
amizade que às vezes acontece entre uma garota e um rapaz.
Conversávamos sobre tudo, como dois amigos. Não nos víamos
todos os dias porque Nel morava um pouco longe do meu prédio.
Há pouco tempo, meus pais realizaram seu grande sonho:
comprar um apartamento. Quer dizer, fizeram a dívida. Depois de
anos de economia, conseguiram dar a entrada neste pequeno
apartamento onde moramos. O resto está sendo pago em
prestações, e, às vezes, atravessamos o mês na corda bamba! Só
para dar uma ideia, estamos até sem telefone, para economizar na
conta. Mas também é a primeira vez que tenho um quarto só para
mim. Armário embutido para minhas roupas. Escrivaninha para fazer
as lições. Onde morávamos antes, era bem mais apertado. A única
mesa disponível no quarto e sala ficava na cozinha. Bem… nem era
bem uma cozinha. Parecia um corredor, com o fogão e a pia de um
lado, e a mesinha de fórmica do outro. Muitas vezes era obrigada a
estudar com mamãe fritando peixe.
Agora, sou obrigada a pegar duas conduções para chegar na
escola. Meus pais até pensaram em me transferir de colégio. Não
quis. Gosto da turma. E também da escola. Entrar em faculdade
hoje em dia não é fácil. Principalmente as públicas. Acho bom
continuar perto dos professores em quem confio.
Puxa, eu escrevo, escrevo e pareço estar dando voltas como um
redemoinho. Só falei do apartamento para explicar que morava
longe de Nel. Quando ele faltou três dias seguidos na aula, não fui
correndo saber o que acontecia. Como disse, estamos sem telefone.
O único aparelho público perto do meu prédio vive quebrado. Há
uma turma de vândalos no meu bairro que tem prazer em destruir os
aparelhos. Arrancar os fios. Não sei o que passa na cabeça dessa
gente. Cada vez que são consertados, duram uma semana. Alguém
quebra de novo. Dá até raiva. Acho uma bobagem, para que destruir
um telefone? Só prejudica gente como eu, que precisa ligar para
alguém e não tem onde.
Comecei a ficar preocupada quando ele faltou no quarto dia.
Conversei com o Marcelo, que morava perto da casa dele. Os dois
sempre vinham juntos para a escola. Também não sabia de nada.
Até brincou.
— O Nel já está numa legal, foi bem o ano todo. Pode se dar ao
luxo de faltar.
Não concordei. Faltar por faltar? Não combinava com o Nel. Ele
queria rachar direto até a época da faculdade. Queria entrar em
Medicina. Justamente, um dos cursos com mais candidatos.
Combinamos que Marcelo passaria na casa dele. Saber notícias.
No dia seguinte, chegou com a novidade:
— O Nel está doente.
— Doente, como?
— Não sei. Falei com a avó dele, que está passando uns dias
com a família. Parece que foi parar no hospital.
Hospital é o tipo de palavra que deixa a gente assustada. Seria
uma operação? Meu amigo no hospital. E eu sem visitar, nem nada?
Mais esquisito ainda, Marcelo não tinha descoberto o nome do
hospital.
— A avó dele disse que não sabia qual era.
Isso sim, era ainda mais estranho! Eu conhecia a avó, dona Berta.
Era esperta. Como não ia saber o nome? E a mãe do Nel, dona
Mariana? Claro que teria deixado um endereço, um telefone.
Francamente, tudo parecia cada vez mais estranho. Alguma coisa
não combinava. Muitas vezes, tive essa sensação. É como se uma
espécie de fumaça flutuasse dentro da gente. O peito fica apertado.
Tento entender, mas não consigo, porque é impossível pegar a
fumaça na mão. Olhar. Descobrir. Fica somente a inquietação. Foi
meu primeiro sentimento. Eu sabia que alguma coisa estava errada.
Eu e Marcelo conversamos mais um pouco.
— Quem sabe dona Berta confundiu o nome do hospital, e não
soube dizer.
Não concordei.
— Se tivesse confundido, teria dito um nome errado. Talvez até
parecido com algum que conhecemos.
Lembrei. Nel tinha uma irmã casada. Uma vez, ele tinha me dado
o telefone dela. Quando cheguei no meu apartamento, procurei.
Tenho mania de anotar telefones nas capas dos cadernos. Depois,
misturo todos. Fica uma confusão! Mas sim… eu lembrava. Tinha
anotado o telefone dela antes das férias de julho. Quando liguei
para pegar a receita de um bolo de fubá para a quermesse. Então
não estava em um caderno comum. Mas em outro, que eu uso só
para marcar receitas. Um dia ainda serei uma grande cozinheira,
mas isso é outra história! Finalmente, achei, bem no meio da pilha.
Esperei o dia seguinte. Torci para que Nel aparecesse na aula.
Mas não. Era o quinto dia de falta! Na escola, há um telefone
público. O Marcelo tinha um cartão. Ligamos. Foi ela mesma quem
atendeu. Suzana, a irmã. Perguntei o que ele tinha. Ela fez voz de
surpresa.
— Quem disse que o Nel está doente?
Falei da ida de Marcelo à casa dele. Da conversa com a avó,
dona Berta. A irmã ficou em silêncio. Demorou tanto que eu disse:
— Alô, alô!
Certa de que a ligação tinha caído! Mas não. Ela estava lá, do
outro lado. Absolutamente quieta. Quando finalmente falou, sua voz
parecia esquisita. De repente, estava tentando ser muito simpática.
Só que era uma simpatia esquisita, porque falava depressa, com um
tom de voz metálico, como se a garganta estivesse rangendo.
— Foi só uma gripe forte. Nada sério.
Estava preparada para ouvir falar de apendicite. De alguma coisa
assim. Mas gripe?
— Ninguém vai pro hospital por causa de gripe!
Ou será que ia? Fiquei em dúvida. Ela silenciou novamente.
Depois de um instante, voltou a falar depressa.
— É que ele pegou friagem. A gripe virou pneumonia. Já está
passando. Não é nada.
Pedi o nome do hospital. Queria tanto fazer uma visita. Quem
sabe levar um pedaço de bolo, feito por mim mesma! Estava
disposta a passar o resto do dia no fogão, para fazer um bem
gostoso! Mas nesse instante, tudo ficou ainda mais esquisito.
Suzana demorou ainda mais para responder. Finalmente, explicou:
— Ele não pode receber visitas.
— Por que, se não é nada sério?
Posso ter pouca experiência. Boba não sou. Tive certeza de que
estava acontecendo alguma coisa horrível. Bem pior do que ela
estava querendo contar.
— Por favor, me diz o nome do hospital! — insisti.
Ela continuou falando que não era necessário. Explicando que
estava tudo bem, e eu não precisava visitar. Percebi que estava
sendo enrolada. A língua dela parecia uma enorme toalha me
envolvendo, me confundindo. Quis argumentar. Ela não deixou.
Falava, falava, falava, sem me dar chance de responder. Os créditos
do cartão foram acabando. A ligação caiu. Por um instante, fiquei
paralisada. Olhei para o Marcelo. Só tinha uma certeza: era alguma
coisa grave.
Dias depois, o Marcelo descobriu que Nel tinha voltado para casa.
Tentamos telefonar. Atendeu a mãe, dona Mariana. Foi muito, muito
simpática. Mas parecia determinada a impedir que a gente fizesse
uma visita. Insisti, várias vezes. Teimei.
— O Nel está muito cansado. Tem que repousar. Não pode se
cansar com visitas — ela repetia, a cada um dos meus argumentos.
Era óbvio: nenhuma visita seria bem-vinda. A gente nem passaria
da porta.
Os dias foram passando e Nel não voltava para a escola. Eu e o
Marcelo, que nunca fomos muito amigos, passamos a conversar
mais. Muitas vezes, a gente ficava todo o intervalo tentando
descobrir a verdade dos fatos. Formulamos hipóteses. Mas é claro,
por pior que fossem, a gente estava muito longe de descobrir a
verdade. Fomos procurar o professor Ismael. O Nel e o professor
tinham uma certa amizade, gostavam de bater papo. Ele sorriu.
Disse que já andava preocupado com o sumiço. Tinha procurado
saber notícias.
— Foi só estafa. Ele andou estudando muito porque quer tentar
uma bolsa de estudos.
Marcelo abriu a boca. Pronto para perguntar se era gripe,
pneumonia ou estafa. Cada um dava uma versão! Sorri como se
estivesse tudo esclarecido. Agradeci. Puxei o Marcelo pela mão. Foi
engraçado. Quando toquei seus dedos, ele puxou o braço.
Surpreso, como se eu tivesse tido um gesto extravagante. Andamos
até a esquina.
— Por que você não me deixou perguntar? — ele reclamou.
— O professor Ismael também está escondendo alguma coisa —
respondi.
Expliquei meu raciocínio:
— Se foi só estafa, por que não podemos visitar? Além do mais,
ele não ia sumir completamente, só porque está estudando.
— Será que não fugiu de casa? — refletiu Marcelo.
Era uma possibilidade. Mas quem tinha vontade de morar sozinho
era o Marcelo, não o Nel. Todo mundo sabia disso. Sempre dizia:
— Mal posso esperar para estar trabalhando e ter minha vida!
Eu mesma não entendia porque tanto desejo de ser
independente! Hoje, eu sei qual era o seu segredo. Mas isso é outra
história. Não vou falar dele agora, para não me confundir. Na hora
certa, eu conto. Quando falar de tudo que foi acontecendo, os fatos
virão por si mesmo. O que quero dizer agora é que o Marcelo tinha
o hábito de ver tudo através do seu próprio ponto de vista. Para ele,
era lógico que o Nel fugisse para morar sozinho. Mas era
exatamente o oposto.
— O Nel sempre foi superligado na mãe — comentei. — Nunca
disse que queria sair de casa.
Que fazer? Eu andava cada vez mais nervosa. Nem conseguia
prestar atenção nas aulas. Marcelo propôs:
— Hoje, depois das aulas, vamos até a casa dele. Vamos e
pronto!
De repente, tudo estava claro. Era a melhor solução! Exatamente
o que eu deveria ter feito desde que ele saiu do hospital. Batido na
porta. Tive uma sensação de alívio. Finalmente, ia descobrir tudo!
Não era tão longe da escola. Pegamos um ônibus e fomos
conversando. Na verdade, o Marcelo era um sujeito isolado. Assim
como não era muito meu amigo, também não era do Nel. Percebi
que estava sendo simplesmente… legal! Indo junto para não me
deixar sozinha nessa história. Senti até um calorzinho no peito.
Fomos conversando. Quando chegamos à casa do Nel, estava
tranquila. Devia ser tudo uma bobagem. Talvez até exagero da
minha parte.
Não estava nem um pouco preparada para o que ia enfrentar.
Apertamos a campainha duas vezes. Finalmente, dona Mariana
apareceu. Espantou-se:
— Raquel, você aqui?
Tentei falar normalmente. Sabia que estava forçando a situação.
Era até falta de educação, pois por telefone, ela havia dispensado
as visitas. Mas fui em frente:
— Eu e o Marcelo viemos ver o Nel. É só uma visitinha.
Percebi sua hesitação. Quase disse alguma coisa, mas as
palavras não saíram da boca. Ficou parada na porta um tempão.
Acho que teria fechado a porta na minha cara. Mas um vulto surgiu
atrás dela. Vi uma fina silhueta escondida pela escuridão do interior
da sala. A voz disse, do fundo:
— Quem é?
Apesar de estar um tanto rouca, era a voz do Nel! Mas… como
estava magro!
Nem esperei a resposta de dona Mariana. Preguei um sorriso no
rosto. Fui entrando, com a maior cara de pau. Nel estava de pé no
fundo da sala. De pijama. Magro, tão magro! Era chocante, ver
como tinha emagrecido!
Mais tímido, Marcelo ficou na porta. Corri até Nel e o abracei.
— Que bom que você veio! — ele disse.
Abraçados, andamos até seu quarto. Ele deitou. Marcelo tomou
coragem. Entrou na casa. Parou no umbral do quarto. Só então,
passado o primeiro instante de emoção, observei o rosto de Nel.
Encovado. Expressão de absoluto cansaço. Gelei. Sim, havia
alguma coisa muito errada. Era ele, mas… não parecia! Seus traços
estavam quase desaparecidos de tanta magreza! Peguei em sua
mão. Apertei forte. Perguntei:
— Diz! O que você tem!?
Imediatamente, dona Mariana entrou no quarto. Sorria, como se
estivesse no melhor dos mundos. Mas era um sorriso forçado. Dava
para perceber que estava tentando parecer alegre.
— O Nel teve uma gripe forte, que virou pneumonia. Com os
antibióticos, perdeu o apetite. Ficou mal do estômago. Acabou
perdendo uns quilinhos.
Se não tentasse fingir que estava tudo tão bem, teria me
enganado. Mas como podia estar sorrindo se o Nel parecia um
papel!? Marcelo tentou botar panos quentes.
— Ele nunca foi gordo — comentou.
Olhei para ele, profundamente.
— Você está bem, Nel? Diz, está mesmo legal?
Então ele sorriu. Garantiu que sim.
— Já estou bem melhor. O médico disse que na semana que vem
posso voltar pra escola.
Falou e tossiu. Percebi que estava no fim da pneumonia. Melhor
não forçar conversa. Dona Mariana me chamou para ajudar a servir
café com bolo. Fomos para a cozinha. Dona Berta estava
começando o jantar. Falamos sobre receitas. Dona Berta sabe fazer
uns bolos bem antigos, cuja massa tem até uma dúzia de gemas.
Hoje em dia não se fazem essas receitas. Mas tenho curiosidade
em experimentar algum dia. Levamos o café e o bolo. Marcelo
comeu bem uns três pedaços. Nel mal colocou na boca. Começou a
escurecer. Eu e Marcelo nos despedimos. Dei um beijo estalado no
Nel. Prometi voltar no fim de semana.
Na saída, suspiramos aliviados.
— Afinal, não era nada — comentou Marcelo.
Concordei.
— Ainda bem. O Nel é o caçula. A dona Mariana e a dona Berta
sempre aprontaram um barulhão com cada doencinha que ele teve.
Mas quando cheguei em casa, refleti. Alguma coisa estava
esquisita. Nem consegui assistir a novela. Fui para meu quarto.
Pensei. “Se não tem problema nenhum, por que a dona Mariana não
estava trabalhando, em pleno dia da semana?”
Fechei os olhos. Vi novamente o rosto magro. Os olhos fundos.
Parecia ouvir a tosse novamente. Sim, havia alguma coisa errada.
Muito errada!
Em seguida, mudei de opinião. Talvez estivesse exagerando! Vou
dizer a verdade. Dizem que as avestruzes enterram a cabeça na
areia, diante de algum perigo. Nunca vi uma avestruz, não sei se é
assim. Mas a gente é. Tenta fugir da realidade. Quanto mais eu
pensava, menos queria ver. Talvez ele nem estivesse tão magro,
fosse só impressão! Dali a pouco estava me convencendo de que a
tosse não era tão forte.
Para completar, no dia seguinte, Marcelo também estava otimista.
Rimos de nossos temores.
— Quisemos bancar os espiões! — ele comentou. — Mas não
tinha nada para espionar.
Achei o comentário meio bobo, mas concordei.
Chegou o fim de semana. Não pude cumprir a promessa. Meus
pais foram convidados a viajar para a praia, no apartamento de um
amigo. Eu, é lógico, tive de ir junto. Francamente, não me divirto
nem um pouco nesse tipo de viagem. Fomos em duas famílias. O
cara, dono do apartamento, tem três filhos. Todos pequenos. O
apartamento fica perto da praia. Mas é minúsculo. Tive que ficar
com as crianças na sala. O que significa que era a primeira a
acordar e a última a dormir. Diversão? Nem um pouco! Em fim de
semana na praia, as mulheres acabam trabalhando como loucas!
Cozinhando, cuidando das crianças e lavando a louça, enquanto
meu pai, o dono do lugar e uma porção de amigos ficavam bebendo
cerveja e falando de política. O pior é que me tratavam como se eu
fosse um fenômeno da natureza.
— Como ela cresceu! — comentava um conhecido.
— Já está ficando uma moça! — continuava outra pessoa.
É horrível esse tipo de comentário. Já me considero adulta, e
aposto que sei muitas coisas que eles nem imaginam. Mas adianta
o que acho de mim mesma? Estou naquela idade em que sou
tratada como mulher para algumas coisas e como criança para
outras. Por exemplo: se quero sair na rua de shorts, me proibem.
Dizem que já estou crescida, não devo exibir as pernas desse jeito.
(Embora seja justamente isso que quero: exibir minhas pernas, que
são longas e bonitas). Se começo a conversar com algum garotão
na praia, só para fazer amizade, e peço para ir tomar um sorvete
com ele, é um desespero. Minha mãe diz que sou muito nova. É o
caos. Torço para que os anos passem depressa. Para ser
considerada adulta de uma vez. Ter mais liberdade. Às vezes acho
que isso jamais vai acontecer. Volta e meia, mamãe diz:
— Para mim, você será sempre minha garotinha.
Pode?
Enfim, fui viajar para a praia. Mesmo me remoendo por dentro.
Para piorar, choveu. Passamos o fim de semana trancados no
apartamento com as crianças berrando. Meu humor ficou péssimo.
Nem lembrei muito do Nel. A maior parte do tempo, estava
preocupada em ser gentil e educada, embora minha vontade fosse
sair correndo aos gritos daquele apartamento.
Segunda-feira, quando voltei às aulas, tive uma surpresa. Uma
excelente surpresa!

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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