GOLDING WILLIAM - O senhor das moscas PDF

 


Em “O senhor das moscas” (1954), primeiro e mais conhecido romance de William Golding, trinta meninos são os únicos a se salvar de um naufrágio em que morrem todos os adultos. Enquanto tratam de sobreviver nessas condições, não tardam a criar dois grupos com os respectivos líderes. Ralph torna-se o cabeça dos que se dispõem a construir refúgios e dedicar-se à colheita, enquanto Jack se converte no chefe dos caçadores, animados por um espírito mais aventureiro. As tensões entre os bandos desembocam em enfrentamento. O senhor das moscas aborda a contraposição entre civilização e barbárie, o valor da disciplina, entre outros temas.


GOLDING  WILLIAM - O senhor das moscas PDF

A voz da concha

O menino louro deixou-se escorregar ao pé da rocha e avançou
rumo à lagoa. Havia tirado o suéter da escola e o carregava agora
na mão, mas a camisa cinza estava colada no seu corpo e os
cabelos aderiam à sua testa. Em torno dele, um banho de calor: a
ampla cicatriz aberta na selva. Avançou com dificuldade por entre
trepadeiras e troncos quebrados. Foi quando um pássaro, uma
visão de vermelho e amarelo, faiscou, subindo, com um grito de
bruxo. Grito que foi ecoado por outro.
— Ei! — dizia. — Espere um pouco!
Os arbustos rasteiros se agitaram, ao lado da escarpa; caiu uma
multidão de gotas de chuva, tamborilantes.
— Espere um pouco — a voz repetiu. — Fiquei preso.
O menino louro parou e puxou as meias com um gesto automático,
e a selva, por um instante, fez-se um lugar muito familiar.
A voz falou de novo.
— Mal posso me mexer com essas trepadeiras.
O dono da voz apareceu, retrocedendo por entre os arbustos,
deixando os espinhos riscarem um blusão sujo. As rótulas
gorduchas dos joelhos também estavam espetadas por espinhos.
Ele se abaixou, tirou cuidadosamente os espinhos e se virou. Era
mais baixo que o menino louro e muito gordo. Avançou, procurando
pôr os pés em lugar seguro e, então, deu uma olhada pelos óculos
grossos.
— Onde está o homem do megafone?
O menino louro balançou a cabeça.
— Isto é uma ilha. Pelo menos, acho que é. Há recifes no mar.
Talvez não haja nenhum adulto aqui.
O menino gordo parecia espantado.
— Mas havia aquele piloto. E ele não estava na cabina de
passageiros, ficou lá na frente.
O menino louro, apertando os olhos, examinava o recife.
— Todos aqueles meninos — continuou o gordinho —, entre eles
deve haver alguns que escaparam. Deve mesmo, não é?
O menino louro começou a andar do modo mais casual possível
rumo à água. Tentava agir normalmente e não parecer
desinteressado demais, mas já o menino gordo corria atrás dele.
— Não há nenhum adulto aqui?
— Acho que não.
O menino louro disse isso em tom solene, mas aí o prazer de uma
ambição afinal realizada tomou conta dele. No meio da clareira,
plantou uma bananeira e fez uma careta para o menino gordo, de
cabeça para baixo.
— Nenhum adulto!
O menino gordo pensou um instante.
— O piloto.
O menino louro mergulhou os pés na areia e se sentou no chão
quente.
— Ele deve ter continuado depois de nos deixar. Não podia
aterrissar aqui. Não com aquelas rodas.
— Ele foi atacado!
— Voltará mais tarde!
O menino gordo balançou a cabeça.
— Quando estávamos descendo, olhei por uma das janelas. Vi a
outra parte do avião. Estava pegando fogo.
Olhou para a encosta, de cima a baixo.
— E foi isso que aconteceu com a cabina.
O menino louro estendeu a mão e tocou a ponta úmida de um
tronco. Por um momento, mostrou-se interessado.
— Mas que aconteceu? — perguntou. — Onde está agora?
— Aquela tempestade levou-o para o mar. A queda não deve ter
sido tão perigosa com todos esses troncos de árvores. Acho que
ainda havia alguns dos nossos lá dentro.
O menino gordo hesitou por um instante, depois falou novamente.
— Como se chama?
— Ralph.
O menino gordo ficou esperando que o outro perguntasse seu
nome, mas esse sinal de intimidade não foi feito; o menino louro
chamado Ralph sorriu vagamente, levantou-se e começou a andar
outra vez rumo à lagoa. O menino gordo segurou-o pelo ombro com
firmeza.
— Acho que há uma porção dos nossos espalhados por aí. Você
não viu nenhum dos outros, não é?
Ralph sacudiu a cabeça e apressou o passo. Tropeçou num galho e
caiu ruidosamente.
O menino gordo parou perto dele, arquejando.
— Minha tia disse-me para não correr — explicou. — É por causa
da minha asma.
— Asma?
— Pois é. Fico sem ar. Eu era o único aluno da escola que tinha
asma — disse o menino gordo com um toque de orgulho. — E uso
óculos desde os três anos.
Tirou os óculos e os estendeu a Ralph, piscando e sorrindo; depois,
começou a esfregá-los no blusão sujo. Os pálidos traços do rosto
foram alterados por uma expressão de dor e concentração íntima.
Enxugou o suor da cara e colocou novamente os óculos no nariz.
— Deve haver frutas.
Olhou em volta.
— Deve haver frutas — disse. — Espero...
Arrumou os óculos, afastou-se de Ralph e se enfiou, agachado, pela
folhagem emaranhada.
— Voltarei num minuto...
Ralph levantou-se cuidadosamente e meteu-se por entre os ramos.
Em poucos segundos, deixava para trás os arquejos do menino
gordo e corria na direção das árvores ainda entre ele e a lagoa.
Subiu num tronco quebrado: e estava fora da selva.
A praia era toda enfeitada de palmeiras. Erectas, oblíquas ou
reclinadas contra a luz, suas palmas verdes estavam a trinta metros
de altura. Sob elas, o chão arenoso era coberto de mato, todo
dilacerado pelas raízes das árvores tombadas, cheio de cocos
apodrecidos e rebentos de palmeira. Além, era a escuridão da
floresta e o espaço aberto do desfiladeiro. Ralph parou, encostou a
mão num tronco cinzento e, cerrando os olhos, fixou a água
brilhante. Lá longe, talvez a mais de um quilômetro, a arrebentação
alvejava num recife de coral; além, o mar aberto e azul escuro.
Dentro do arco irregular de coral, a lagoa era calma como um lago
de montanha — azul de todos os tons, verde de sombra e violetaescarlate.
A praia entre a cobertura de palmeiras e a água era como
um fino aro de barril, aparentemente infinito, pois à esquerda de
Ralph a visão de palmeiras, praia e água continuava
indefinidamente. E sempre, quase visível, o calor.
Desceu do tronco onde estava. A areia grossa cobriu seus sapatos
pretos e o calor atingiu-o. Teve consciência do peso das roupas,
chutou desafiadoramente os sapatos para longe e arrancou as
meias e as ligas elásticas num só movimento. Subiu de novo, tirou a
camisa e ficou ali, entre os cocos semelhantes a caveiras e as
verdes sombras das palmeiras, sentindo na pele o fremir da floresta.
Afrouxou o cinto, que o prendia como uma cobra, tirou a calça e a
cueca; ficou nu, olhando para a praia ofuscante e para a água.
Tinha idade suficiente, aos 12 anos e alguns meses, para ter
perdido a barriga proeminente da infância, mas ainda não chegara à
deselegância da adolescência. Podia-se ver agora que parecia um
pugilista, ao menos pela largura e solidez dos ombros, mas a
suavidade da boca e dos olhos demonstrava brandura. Bateu de
leve no tronco de palmeira e, forçado a acreditar afinal na realidade
da ilha, riu com gosto outra vez e plantou outra bananeira. Voltou a
ficar de pé, agilmente, desceu para a praia, ajoelhou-se e lançou um
duplo punhado de areia no peito. Sentou-se e ficou olhando para a
água com olhos brilhantes e excitados.
— Ralph...
O menino gordo desceu do arvoredo e se sentou cuidadosamente,
usando a beirada como assento.
— Desculpe ter demorado. As frutas...
Limpou os óculos e colocou-os no nariz de botão, onde a armação
sulcara um “V” profundo e rosado. Olhou criticamente para o corpo
dourado de Ralph e, depois, seus olhos voltaram-se para suas
roupas. Levou a mão à ponta de um zíper que cruzava seu peito.
— Minha tia...
Abriu o zíper com decisão e lançou o blusão por cima da cabeça.
— Pronto!
Ralph olhou-o de lado, sem dizer nada.
— Acho que seria bom sabermos os nomes de todos e fazer uma
lista. Deveríamos fazer uma reunião — disse o menino gordo.
Ralph não aproveitou a deixa e o menino gordo foi obrigado a
continuar.
— Não me importo como me chamem — disse confidencialmente
—, desde que não me chamem do mesmo jeito que na escola.
Ralph interessou-se levemente.
— Como era?
O menino gordo deu uma olhadela por sobre o ombro, depois
inclinou-se para Ralph.
E cochichou.
— Me chamavam de “Porquinho”.
Ralph explodiu numa gargalhada. Levantou-se num salto.
— Porquinho! Porquinho!
— Ralph... por favor!
Porquinho esfregava as mãos, de tanto desespero.
— Eu disse que não queria...
— Porquinho! Porquinho!
Ralph dançava no ar quente da praia: aproximou-se de Porquinho e
metralhou-o, como um avião de caça, de asas em “V”.
— Ta-ta-ta-tata!
Mergulhou na areia aos pés de Porquinho e ficou ali, morrendo de
rir.
— Porquinho!
Porquinho deu um sorriso amarelo, mas contente — apesar de tudo
— com essa atenção.
— Contanto que você não conte aos outros...
Ralph ria na areia. A expressão de dor e concentração voltou ao
rosto de Porquinho.
— Um instante.
Correu de volta à floresta. Ralph levantou-se e lá se foi para o lado
direito.
Ali, a praia era interrompida abruptamente pelo elemento principal
da paisagem: uma grande plataforma de granito rosado metia-se
firmemente pela floresta, pelas palmeiras, pela areia e pela lagoa,
até formar uma elevação pedregosa de mais de um metro de altura.
Coberta por uma fina camada de terra e mato, era sombreada por
pequenas palmeiras. Não havia terra suficiente para que as
palmeiras crescessem muito e, quando atingiam no máximo uns
seis metros, caíam e secavam, formando um emaranhado compacto
de troncos, excelente para sentar. As palmeiras que ainda estavam
de pé faziam um teto verde, e, ali, a parte inferior das palmas era
coberta com os coruscantes reflexos da lagoa. Ralph alçou-se até a
plataforma, percebeu a sombra e o frescor, fechou um olho, acabou
decidindo que as sombras no seu corpo eram mesmo verdes.
Avançou para a ponta da plataforma que entrava pelo mar e ficou
ali, olhando água adentro: clara até o fundo, a água brilhava com a
eflorescência do coral e das algas tropicais. Um cardume de
peixinhos faiscantes luzia aqui e ali. Ralph falou consigo, fazendo
soar os tons graves do prazer.
— Uizzô!
Além da plataforma havia outros encantos. Algum ato de Deus —
talvez um tufão, ou a tempestade que acompanhara a sua chegada
— amontoara areia dentro da lagoa, de modo que havia uma
comprida e profunda extensão de água, uma “piscina” na praia, com
uma alta saliência de granito rosado na ponta mais distante. Ralph
já fora enganado antes pela aparente profundidade dessas poças na
praia e aproximou-se dessa já preparado. Mas a ilha confirmou
ainda uma vez suas virtudes e a incrível “piscina” que,
evidentemente, só era invadida pelo mar com a maré alta, mostrouse
tão profunda numa das extremidades que chegava a ser verde
escura. Ralph verificou cuidadosamente os trinta metros e então
mergulhou. A água estava mais quente que o seu corpo e era como
se nadasse numa enorme banheira.
Porquinho apareceu de novo, sentou-se na saliência rochosa e
olhou com inveja para o corpo verde e branco de Ralph.
— Você nada bem.
— Porquinho.
Porquinho tirou os sapatos e as meias, arrumou-os cuidadosamente
na pedra e experimentou a água com o pé.
— Está quente!
— O que esperava?
— Eu não esperava nada. Minha tia...
— Mande essa tia pro inferno!
Ralph mergulhou e nadou embaixo da água de olhos abertos; a
beirada arenosa da poça subia como se fosse uma colina. Virou-se,
segurando o nariz; uma luz dourada dançou e estilhaçou-se junto ao
seu rosto. Porquinho parecia ter tomado uma decisão e começou a
tirar a cueca. Agora estava nu — uma nudez pálida e obesa.
Desceu, na ponta dos pés, pelo extremo arenoso da poça e se
sentou ali, com água até o pescoço, sorrindo orgulhosamente para
Ralph.
— Você não vai nadar?
Porquinho balançou a cabeça.
— Não posso. Não me deixam. Minha asma...
— Mande a asma para o inferno!
Porquinho aguentou isso com uma espécie de paciência humilde.
— Você nada bem mesmo.
Ralph deu umas braçadas, mergulhou a cabeça e lançou um jato de
água para o ar. Levantou o rosto e falou.
— Eu já sabia nadar com cinco anos. Meu pai me ensinou. É
capitão da Marinha. Quando tiver uma licença ele virá nos salvar. E
o seu pai, o que é?
Porquinho corou, de repente.
— Meu pai morreu — disse rapidamente —, e minha mãe...
Tirou os óculos e procurou inutilmente alguma coisa com que limpar
as lentes.
— Eu morava com minha tia. Ela tem uma confeitaria. Eu
costumava comer doces o dia todo. Tantos quanto eu quisesse.
Quando seu pai virá nos salvar?
— Assim que puder.
Porquinho levantou-se, pingando, e ficou de pé, nu, limpando os
óculos com uma meia. O único som que os alcançava agora,
através do calor da manhã, era o longo e triturante rugido da
arrebentação nos recifes.
— Como ele sabe que estamos aqui?
Ralph estendeu-se na água. O sono invadiu-o como as miragens
envolventes que lutavam com o brilho da lagoa.
— Como ele sabe que estamos aqui?
Sabendo, pensou Ralph, sabendo, sabendo. O rugido dos recifes
tornou-se muito distante.
— Disseram pra ele no aeroporto.
Porquinho abanou a cabeça, colocou os óculos cintilantes e baixou
o olhar até Ralph.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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