Zelia Gattai - Um Chapeu Para Viagem Pdf

 



Em "Um Chapéu Para Viagem", Zélia Gattai relata sua viagem sentimental como mulher e testemunha do marido, Jorge Amado. Neste livro, o mundo da política e da literatura se embaralham, assim como a nitidez dos eventos históricos e a turvação da memória pessoal. As origens familiares e as recordações da juventude de Jorge e de Zélia se misturam às ações corriqueiras do presente e aos sobrevoos da imaginação. Mario de Andrade, Carlos Lacerda, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e outros personagens desfilam ao lado de parentes distantes cheios de histórias.

Zelia Gattai - Um Chapeu Para Viagem Pdf 

DEZEMBRO DE 1945 — VÉSPERA DE
VIAGEM

Tudo arrumado, malas prontas, o apartamento com ar de
abandono. Partiríamos no dia seguinte para o Rio de Janeiro. Jorge
acabara de ser eleito deputado federal por São Paulo.
Convocado meses antes pelo Partido Comunista, do qual era
membro, foi-lhe comunicado ter sido seu nome um dos escolhidos
para compor a chapa de candidatos do Partido a deputado federal
por São Paulo, nas eleições marcadas para 2 de dezembro daquele
ano de 1945. Jorge relutara em aceitar, não nascera para político
profissional, a atuação parlamentar não o tentava. O que desejava
era escrever — sua única vocação -, viajar, ser dono de seu tempo.
Não conseguira, no entanto, safar-se da tarefa; os argumentos
apresentados convenceram-no: seu renome de escritor ampliaria a
chapa, sua popularidade arrastaria votos. Concordou em ser
candidato, com uma condição: eleito, renunciaria em seguida ao
mandato, cedendo a cadeira no Parlamento a seu suplente.
Os dirigentes tinham razão: Jorge foi eleito com votação
excelente; pessoas que não votariam em outro candidato comunista
votaram no escritor. Detalhe curioso: obteve a maioria dos votos da
colônia judaica, apesar de concorrer também a uma cadeira no
Congresso Nacional um judeu ilustre, Horácio Lafer.
Jorge esperava apenas chegar ao Rio para concretizar sua
renúncia. Em seguida partiríamos para o Rio Grande do Sul, Uruguai
e Argentina, em necessitadas e merecidas férias.
Na viagem para o Rio faria minha estreia em avião. Jorge me
perguntara se estava com medo de voar e eu lhe dissera que não
tinha medo de avião nem de nada; nem mesmo de enfrentar Lalu,
acrescentei. Lalu era a forma carinhosa com que marido e filhos
tratavam dona Eulália Leal Amado, mãe de Jorge. Já sabia tudo a seu
respeito de tanto ouvir falar; tudo e mais ainda, pois seu filho mais
velho divertia-se em me assustar: — Lalu é fogo! — dizia ele. — Vá se
preparando! Matreira, sabida como ela só! Tem sangue índio; é
desconfiada e curiosa... se prepare para passar no exame... Vai te
espremer, te apertar no torniquete, querer saber tudo de tua vida...
Jorge me contara que, havia muitos anos, Lalu perdera a audição:
— Vá se preparando para gritar se quiser que ela te ouça, mas,
sobretudo, para ouvir... Minha mãe gosta de contar casos dos filhos,
e se você der corda ela vai longe... Tome cuidado, nunca se atreva a
fazer queixas de mim — ria divertido. — Para dona Eulália não existe
nada no mundo tão perfeito quanto os três filhos. Ela mente um
pouquinho... — disse e foi logo corrigindo: — mente, não, inventa
histórias fantásticas! Tem uma imaginação prodigiosa!
Essa fora a maneira que Jorge encontrara para me apresentar sua
mãe e o fazia com graça, entre risadas. Confusa, eu não sabia se devia
lhe dar ouvidos ou não. Do Coronel João Amado, o pai, as
informações eram mais alentadoras: — O Coronel é alegre, bastante
franco, às vezes um pouco rude, diz as coisas na cara... Só fala aos
berros. Acostumado a gritar com os jagunços no tempo da conquista
da mata, continuou por hábito e por necessidade, com o problema da
surdez de mamãe. Boa pessoa, é um grande coração.
Jorge não escondia sua admiração pelos pais. Naquela última
semana de São Paulo, ele lhes telefonara várias vezes para o Rio,
onde viviam, hóspedes de um pequeno hotel na Rua Santo Amaro, o
Hotel Ópera. Chamadas interurbanas, difíceis de serem obtidas, com
horas e horas de espera, requerendo um tom de voz especial, gritado
e prolongado, voz de longa distância: — ... É... Chegamos no
domingo... meio-dia mais ou menos... Olhe! Vou casado! Já sabia?...
o nome dela é Zélia... é.... Zélia...
Olhe, diga à minha mãe que ela vai gostar da nora... o senhor
também, é claro... diga a Joelson para ir com vocês ao aeroporto...

UM CHAPÉU PARA VIAGEM

Fanny Rechulski, secretária de Jorge, quis saber qual chapéu eu

usaria na viagem.

— Chapéu? — admirei-me.

Não cogitara disso, nem pensara usar chapéu... Havia muito

tempo que não possuía nenhum.

— E você acha que é preciso chapéu para viajar de avião, Fanny?

— Bem, preciso não é... mas cairia bem. O chapéu sempre dá um

toque chique, dá mais importância... Teus sogros não vão esperar

vocês no aeroporto?

— Os velhos e Joelson também... — respondi, rindo para Fanny

com malícia.

Joelson, o segundo irmão de Jorge, estudante de Medicina, havia

pouco estivera em São Paulo e tínhamos pilheriado, inventando um

imaginário casamento de Fanny com ele.

Joelson regressara para o Rio mas a brincadeira perdurava.

Fanny já trabalhava para Jorge havia algum tempo, quando eu

me mudei para o apartamento que ele ocupava na Avenida São João,

em agosto de 1945. A partir daquela data, tornara-se pública a nossa

ligação. A notícia espalhou-se rapidamente e não faltaram

comentários.

Bastante relacionada e por dentro dos disse-que-disses, em geral

desfavoráveis, Fanny me punha a par das últimas novidades. A

minha união com Jorge incomodara muita gente, transformara-se

num pequeno escândalo, repercutindo nos meios de esquerda e em

portas de livrarias. Agora íamos partir deixando para trás todos

aqueles mexericos.

Ao regressar do almoço, naquela tarde, Fanny trouxe uma caixa

de papelão redonda, dentro dela um chapéu de feltro bege.

É

— É para tua viagem, combina com a saia marrom e a blusa

creme que você vai usar.

Ganhei de presente de minha tia Cora, está quase novo, veja. Usei

pouco, só umas duas ou três vezes.

A tia de Fanny, chapeleira famosa, cobria e enfeitava as cabeças

das damas mais chiques de São Paulo e Rio. Um chapéu com etiqueta

"Cora" custava um dinheirão, não era para qualquer uma. Segundo

Fanny, a tia ficara "podre de rica" fazendo chapéus. Aquele que eu

acabava de ganhar era sóbrio e elegante: aba levantada de um lado,

caída do outro, cobrindo a orelha direita em ligeira curva.

Sem dar tempo para outras explicações, meti o elegante "Cora" na

cabeça: — Deixa ver se me fica bem...

Segurando pela parte desabada, puxei-o para baixo. Ouvi apenas

um grito assustado de Fanny: — Ai!

Meus dedos se enterravam na parte levemente em curva do feltro,

varando-a de lado a lado. A pobre moça, coitada, estava sem jeito. Eu

não lhe dera oportunidade de me fazer o histórico da preciosa

prenda. Ela a havia recebido das mãos da tia com a recomendação de

que tivesse todo o cuidado ao colocá-lo na cabeça. Uma freguesa grãfina,

que o encomendara, havia estragado o chapéu, esgarçando o

feltro ao experimentá-lo, forçando os dedos na aba, sem modos,

estabanadamente (como eu o fizera, certamente), e, ao vê-lo

inutilizado, ainda tivera a petulância de não assumir a culpa,

recusando-se a. receber e a pagar a encomenda.

Muito decepcionada com o acidente, Fanny me explicou tudo.

Tratei de tranquilizá-la: — Pode deixar, Fanny, que eu dou um

jeitinho...

Após uma passadela de ferro com um pano úmido e vapor e um

cerzidinho invisível, o chapéu voltou à sua forma, quase perfeito.

Enchapelada, chique e distinta, eu estava comme il faut para

enfrentar os sogros.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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