Z. Rodrix - Zorobabel: Reconstruindo o Templo PDF

 


A aventura, iniciada em Johaben -Diário de um construtor do Templo , prossegue neste Zorobabel - Reconstruindo o Templo , segundo volume da Trilogia do Templo. Nele, os leitores conhecerão Zorobabel, um jovem da Grande Baab el, movido por sua missão, seus desejos e sua arte, dividido entre um Império Babilônio rico e poderoso e uma Jerusalém decadente e esquecida até mesmo pelo Grande Arquiteto do Universo. Neste segundo volume da Trilogia, conheceremos não apenas os grandes senhores da época, como Cyro e Darius, mas também nos aprofundaremos mais ainda nos segredos dos pedreiros e nas ricas e antigas tradições da Maçonaria, como eram praticadas em seus primórdios.

Z. Rodrix - Zorobabel: Reconstruindo o Templo PDF 

Capítulo 1

Nunca prestei atenção ao fato de que era escravo, durante minha
infância e juventude na Grande Baab’el. Nossa vida em meio a essa imensa
cidade de grandes terraços e varandas à beira do Eufrates era vivida sem um
segundo de preocupação com o passado ou o futuro. Só o presente importava:
poucos viviam para o passado de uma Jerusalém que o tempo se encarregara
de desfazer, e meu desinteresse pelo que tínhamos sido era absoluto. Falo em
meu nome e em nome dos outros que conheci, por saber que o que andava em
suas mentes e almas era o mesmo que andava na minha: a completa
inconsciência de nosso próprio valor, numa vida sem anseios nem desejos, a
não ser aqueles que vão da mão para a boca, no dia-a-dia de quem vive nas
ruas.
Eu e meus companheiros éramos gente da rua. Tínhamos casa e família,
mas num mundo em que a vida era cada vez mais vivida do lado de fora das
moradias, onde tudo se fazia, indo-se ao interior delas quase que
exclusivamente para dormir, não era de admirar que nós, nova geração de
babilônios, preferíssemos estar ao relento, cada vez mais longe dos que nos
haviam antecedido e mais perto daquilo que acreditávamos ser nosso destino,
sem realmente acreditar nele, nesse tempo risonho e franco em que somos
todo-poderosos e nem os deuses ou a morte têm coragem de nos enfrentar.
Quando jovens, sentimo-nos capazes de tudo, e nada nos pode vencer em
combate, seja o Dilúvio ou uma intervenção direta dos próprios deuses.
Era um mundo maravilhoso, a Baab’el de minha juventude: dos grandes
terraços à beira dos rios que a cercavam, víamos os canais de todos os
tamanhos, larguras e profundidades, pelos quais circulavam sem parar as
embarcações dos mais diversos tipos, levando e trazendo as riquezas com que
a Natureza nos aquinhoava e as pessoas de todas as raças que nos formavam,
entre palácios que se erguiam a alturas inacreditáveis, como diziam os que já
haviam viajado pelo resto do mundo. A cidade se apoiava em incontáveis
colunas de tijolos cozidos, moldados no rico barro que o Tigre e o Eufrates
depositavam no mar, todas de grossura impressionante. Por várias vezes já
havíamos tentado, de mãos dadas, abarcar a circunferência de algumas delas,
em vão: meu amigo Daruj sempre procurava uma coluna que pudesse ser
abraçada por nós, mas mesmo quando conseguíamos juntar tantos meninos
quanto os dedos de cinco mãos, a tarefa se mostrava irrealizável. Os tijolos de
que eram feitas eram cozidos quase que à beira do mar na cidade de Qornah,
que muitos anos antes fora banhada pela água salgada: os dois rios, ao mesmo
tempo em que iam se aproximando um do outro, derramavam tal quantidade
de lama em sua foz, que empurravam o mar para mais longe, fazendo de
Qornah uma cidade mais interiorana a cada dia que passava. Os operários que
faziam esses tijolos tinham trabalho duplo: primeiro os moldavam em formas
de madeira, sendo seguidos pelos escribas do barro, que traçavam em sua
superfície os sinais determinados pelos sacerdotes, para abençoar as peças da
construção de seu Império, perpetuando sua história em cada edifício erguido.
Depois de secos ao sol, os tijolos eram cozidos em grandes fornos
alimentados pela nafta de que o território era quase todo encharcado, e uma
vez esfriados eram colocados em formas de tamanho um pouco maior, para
que em volta deles fosse moldado um novo tijolo, como uma casca protetora,
novamente garatujada pelos escribas e novamente posta a secar e cozer, indo
depois ser depositados nas grandes barcaças que os levariam através dos canais
a todos os lugares onde fossem necessários.
O grande Império da Babilônia era como esses tijolos,
permanentemente dividido entre a aparência e a essência das coisas. Nós, seus
habitantes, não importa de onde tivessem vindo nossos pais ou a que deuses
eles prestassem homenagens, também éramos como esses tijolos: nosso
interior estava oculto por uma casca mais ou menos grossa de hábitos e
costumes. Enquanto jovens a casca protetora era fina o bastante para que o
que nela se inscrevesse ficasse também marcado em nosso interior, mas com o
passar dos anos a casca se endurecia, cristalizando-se em modos e maneiras
mais ou menos idênticos, e os de Baab’el nos tornávamos um conjunto de
identidade quase infinita, da qual acabávamos por nos orgulhar. A necessidade
de destaque individual que os seres humanos possuem era entre nós
perfeitamente dispensável, pois a vida em Baab’el era direcionada
exclusivamente para o que trouxesse ganho e fortuna, e esse padrão de
igualdade se media pela forma como exibíamos os sinais de riqueza que nos
igualavam a todos os outros.
Re’hum, nosso companheiro de cara fechada e sobrancelhas cerradas,
sempre acompanhado pelo fracote Sam’sai, ouviu dizer que no terraço do
mercado, à beira do Eufrates, havia chegado uma enorme partida de braceletes
de ônix e lápis-lazúli vindos do Egito. A moda nessa temporada em Babilônia
era o uso de incontáveis braceletes, e todos, homens, mulheres, crianças, até
mesmo macacos, cães e aves de estimação, os usavam. Aquilo que antes servira
para diferenciar os ricos dos pobres tornara-se uma constante para todos,
igualando-nos no modo babilônio de ser: até que essa moda ganhasse o
descaso dos poderosos, que imediatamente inventariam outra coisa para
colocar em seu lugar, destacando-se dos que possuíam menos que eles, nada
era mais importante que os braceletes, pois todos, sem exceção, tinham que têlos,
não sendo possível viver sem eles.
Re’hum era ousado, e nos propôs:
— Vamos, amigos! Quem somos nós para dispensar um momento
como este, em que nosso coração baterá mais forte, em que o sangue correrá
mais depressa em nossas veias, em que nossa vida estará um pouco mais
próxima à dos deuses que olham para nós?
Sam’sai, fraco e agitado, pulou em nossa frente como um alucinado:
— É a oportunidade de fazer com que os deuses invejem a nós, simples
mortais. O que nos custa gastar nossa manhã em uma expedição ao cais, onde
conseguiremos pelo menos alguns braceletes para nosso próprio uso? Pelo
menos para nosso uso... — adicionou, com um ar de grande cinismo, que nos
fez rir despregadamente. — É preciso dizer mais?
Pronto, estávamos convencidos: seria uma deliciosa aventura, com a qual
nos faríamos um pouco mais homens, como era nosso projeto desde que nos
uníramos pela primeira vez. Era comum entre nós essa união em torno de
alguma coisa inesperada, alguma aventura perigosa que nos desse a sensação
de sermos todo-poderosos, na medida de nossa arrogância juvenil.
Yeoshua, meu companheiro de bairro, com seus cabelos encaracolados,
sempre tremia mais que todos nós quando uma aventura dessas se aproximava.
No seu caso, era apenas medo, e ele aprendera a confessá-lo sem hesitar. Nós,
ao contrário, só dizíamos “Vamos!, e o tremor de nossas mãos, lábios e pernas
era o da excitação ante o perigo, como da primeira vez em que nos juntáramos
numa dessas excursões, para nos apoderarmos do que não nos pertencia. Essa
sensação de poder sobre o futuro era o que buscávamos, mas cada vez que a
alcançávamos ela se desfazia tão rapidamente que imediatamente
procurávamos outra maneira de renová-la. Nosso grupo, exatamente igual a
tantos outros grupos de jovens aventureiros que faziam das ruas da Grande
Baab’el o seu território de lutas e diversões, era de tamanho variável, com um
núcleo que nunca mudava: além de mim e de Yeoshua, vindos do bairro dos
alfaiates, o bairro onde moravam e trabalhavam quase todos os que tinham
famílias nascidas em Judah, também incluía: o mal-encarado Re’hum e seu
duplo-oposto invariável, Sam’sai, ambos do bairro dos tintureiros, onde todos
tinham vindo da Samaria; Mitridates, um também jovem samaritano cuja
família vinda de Soqo chegara havia pouco tempo à Grande Baab’el, cheio de
talento para contas e valores; e o filho do mais importante tapeceiro persa da
cidade, o ousado Daruj, nosso estrategista, general, lutador principal, nossa
garantia de sucesso caso alguma coisa corresse mal.
O medo de Yeoshua, por incrível que pareça, era o que nos
impulsionava para coisas cada vez mais ousadas, das quais sempre ríamos
muito, depois que o perigo passava. Combinamos para a madrugada do dia
seguinte o Grande Castigo aos Egípcios, como meu vizinho Yeoshua havia
denominado nossa aventura, e voltamos para nossas casas, ao norte da grande
cidade, às margens do canal denominado Che’bar, limite final de nosso bairro,
chamado de teVaviv pelos de Judah que lá viviam. A noite já caía sobre a
cidade de Marduq, deus de Baab’el, o maior de todos os deuses da Babilônia.
Nossos passos, antes tão ágeis e determinados, começaram a se tornar
hesitantes, indecisos, fracos e arrastados. Qualquer um perceberia perto de que
casa estávamos chegando, já que seu morador entrava em mutismo quase
absoluto, deixando-se ficar para trás até desaparecer pela porta da casa de sua
família. Era sempre assim, e eu hoje compreendo que, por mais diferentes que
fôssemos, nos unia a sensação de que em nossas casas não havia quem nos
amasse ou nos compreendesse.
Eu e Yeoshua morávamos perto um do outro, no bairro dos alfaiates, e
quando Daruj começou a arrastar seus pés, deixando gradativamente de falar
conosco quase no limite entre nosso bairro e a rua onde vivia com seus pais,
eu e Yeoshua percebemos que o pedaço mais desinteressante de nossa vida
estava por começar. As estrelas no céu, os cheiros das comidas preparadas nas
casas, as conversas, risos e imprecações que tomavam o ar marcavam a
travessia dessa fronteira entre a deliciosa vida agitada da maior cidade do
mundo e a entediante vida familiar que se aproximava a cada segundo. Eu não
gostava disso, portanto afivelei em minha face a máscara do tédio absoluto,
única defesa contra o que minha família significava e que eu chegava quase a
abominar. Tudo o que me fazia feliz estava fora de casa: dentro dela, eu só
encontrava os sinais de uma vida sem sentido, na nostalgia de um lugar que já
não existia. Os momentos em que minha família chorava por uma Sião sem
existência real só conseguiam me entediar, e por isso arrastei meus pés o mais
lentamente que pude, cruzando o limiar dos dois mundos. Quando percebi, já
estava dentro da casa onde me sentia o mais infeliz dos moradores.
Era o Shabbath, aquelas horas sagradas entre dois pores-de-sol durante
as quais nada se fazia, nada se comia, nada se realizava, imitando um deus que
fizera o mundo em seis dias e descansara no sétimo. Sobre a mesa estavam
acesas as lamparinas de azeite, e meu pai, a cabeça coberta por seu manto,
balbuciava suas infindáveis orações. Em volta dele, minhas irmãs, meu irmão
Shimei e minha mãe, ungidamente contritos, ocultavam suas faces nas mãos,
balbuciando a oração que eu já não suportava mais ouvir:
— Oh, Yahweh, junto aos rios da Babilônia, nos assentamos e
choramos, lembrando-nos de Sião...
Minha família se entregava às emoções das lembranças que lhes davam a
certeza de outra vida, outro mundo, enquanto a mim só interessava o mundo
presente, a rica Baab’el de minhas aventuras. Olhos fechados, braços caídos ao
longo do corpo, eu sequer fingia prestar atenção aos resmungos de meu pai:
minha mente estava verdadeiramente longe de tudo, esperando ardentemente
que se satisfizessem com o que eu lhes podia dar, minha presença e minha
passividade.
Quando as orações terminaram, meu pai me olhou com a sisudez que
lhe era peculiar, sem proferir uma palavra sequer. Por motivos que nunca pude
vir a perceber, eu fora criado no silêncio quase absoluto, na exigência
extremada, na obediência mais estrita. Meu pai nunca me estendera a bênção
de sua mão carinhosa ou de sua palavra doce, como eu o via fazer com minhas
irmãs e meu irmão mais novo. Eu acabara aprendendo a ler em seu olhar
sempre frio as coisas que ele me pretendia fazer saber, as admoestações, o
constante desagrado, os cada vez mais raros elogios. Um abismo se cavara
entre nós, e eu considerava meu pai o responsável por ele, não entendendo o
que pretendia de mim, nem percebendo o quanto eu mesmo colaborava na
erosão do terreno fértil entre nós. Não havia a menor possibilidade de uma
ponte que nos unisse: meu pai só atirava cordas em direção ao passado,
enquanto eu firmava minha vida cada vez mais no futuro. O tempo, hoje sei,
não existe: mas eram as duas pontas opostas dessa coisa não existente o que
nos afastava um do outro. Enquanto minhas irmãs e irmão se colocavam em
volta dele para ouvir as histórias de um povo outrora grande, eu esperava
apenas que me esquecessem, ansiando mais uma vez fugir para a grande cidade
que nos cercava, pois a casa de minha família era o único lugar da terra onde
eu era completamente infeliz.
Meu pai, Salatiel, era rosh’ha’golah dos judeus que moravam na Grande
Baab’el, capital do Império da Babilônia: sendo um dos mais velhos entre os
poucos que haviam sobrevivido aos massacres de Nebbuchadrena’zzar e de
seus sucessores no comando desse império, tinha toda a comunidade de Judah
reunida à sua volta. Os homens, as mulheres, as crianças, e principalmente os
velhos, estavam sempre esperando de meu pai a palavra profética que lhes
garantisse num futuro muito próximo o retorno à terra que Yahweh nos dera,
onde viveriam para sempre em comunhão com Ele. Cabia a meu pai manter
viva a tênue chama de esperança da volta a Sião. Não havia nada que me
interessasse menos que isso: por que ansiar pelo que não existe, quando a Bela
e Grande Baab’el ali estava, a meu alcance, e tudo o que eu precisava fazer era
estender o braço e apanhar o que desejava? A língua falada nesses momentos
também me agastava profundamente: eu não era um desses de Judah, eu não
queria ser um desses de Judah, eu nunca seria um desses de Judah. Por mais
que os sons fossem familiares, por tê-la ouvido durante toda a minha infância,
o que a Babilônia me ensinara quando eu caíra em suas ruas pela primeira vez
era mais do que a língua de um povo: era o meu prazer. Eu preferia
indubitavelmente falar a língua franca do brilhante povo de Baab’el, dono da
imensa torre que um dia tocara os céus, e que se podia ver de qualquer ponto
da cidade. Um povo que ergue uma torre que toca os céus é muito mais
interessante que um povo que pretende apenas tocar uma terra morta, falando
uma língua também morta que eu cada vez esquecia mais.
Meu pai contava mais uma de suas intermináveis histórias sobre Yahweh
e Moisés nas terras do Faraó. Era insuportável: lendas sem sentido, inventadas
por alguém de grande e fértil imaginação, que com elas tentava explicar não só
a nossa grandeza em face da adversidade, como também nossa pequenez
diante de um deus que nos impusera sermos o foco de toda a Sua atenção.
Minhas irmãs e irmão, de idades diversas, ouviam atentamente suas palavras, e
eu só desejava que ele se calasse. Meu pai, no entanto, nunca se calava, até que
tivesse enchido nossa cabeça com tudo o que queria, e sempre em excesso:
— Moisés estava apascentando o rebanho de seu sogro Jeter, e indo
atrás das ovelhas acabou por subir o monte Horeb muito acima de qualquer
lugar que já conhecesse. Entre as pedras, num campo de areia branca, estava
um arbusto em chamas. Era um fogo que ele nunca havia visto, pois ardia sem
queimar, e o arbusto mantinha suas folhas verdes em meio às labaredas. Era
Yahweh que aparecia a ele dessa forma, já que nenhum homem pode vê-Lo
como realmente é e continuar vivo.
Recordo vivamente da figura de meu pai, com a cabeça coberta, os olhos
semicerrados, entoando a história sem sentido que não me interessava em
absoluto. A visão de seu rosto enevoado por lembranças de outros tempos está
até hoje gravada indelevelmente em minha memória:
— E Yahweh disse a Moisés: “Eu vi a miséria de meu povo que está no
Egito, ouvi seu clamor por causa de seus opressores, pois Eu conheço as suas
angústias. Por isso, desci ao mundo que criei a fim de libertá-lo da mão do
Faraó. Vai, pois, que eu te enviarei ao Faraó, para libertar meu povo, os filhos
de Israel.” E Moisés disse: “Mas, Senhor, quem sou eu para ir ao Faraó e
libertar os filhos de Israel?”
Alguma coisa nessa história não soava bem: por que esse deus daria uma
missão tão importante a um simples pastor de ovelhas? Meu irmão e irmãs
bebiam as palavras de meu pai com verdadeira fascinação, enquanto eu, oculto

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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