Zelia Gattai - Anarquistas Gracas A Deus pdf

 



Anarquistas, Graças a Deus é o livro de estreia da escritora brasileira Zélia Gattai, publicado em 1979. Nele a autora, filha de imigrantes italianos, traz reminiscências do país na primeira metade do século XX, bem como histórias de sua infância. Zélia Gattai recebeu pelo livro o Prêmio Paulista de Revelação Literária de 1979. A Rede Globo produziu uma minissérie de mesmo nome, com direção-geral de Walter Avancini. A produção foi realizada pelo Núcleo da TV Globo em São Paulo, em 1982.


Zelia Gattai - Anarquistas Gracas A Deus pdf 

ALAMEDA SANTOS NÚMERO 8

Num casarão antigo, situado na Alameda Santos número 8, nasci,
cresci e passei parte de minha adolescência.
Ernesto Gattai, meu pai, alugara a casa por volta de 1910, casa
espaçosa, porém desprovida de conforto. Teve muita sorte de
encontrá-la, era exatamente o que procurava: residência ampla para
a família em crescimento e, o mais importante, o fundamental, o que
sobretudo lhe convinha era o enorme barracão ao lado, uma velha
cocheira, ligada à casa, com entrada para duas ruas: Alameda Santos
e Rua da Consolação. Ali instalaria sua primeira oficina mecânica.
Impossível melhor localização!
Para quem vem do centro da cidade, a Alameda Santos é a
primeira rua paralela à Avenida Paulista, onde residiam, na época, os
ricaços, os graúdos, na maioria novos-ricos.
Da Praça Olavo Bilac até o Largo do Paraíso, era aquele
desparrame de ostentação! Palacetes rodeados de parques e jardins,
construídos, em geral, de acordo com a nacionalidade do
proprietário: os de estilo mourisco, em sua maioria, pertenciam a
árabes, claro! Os de varandas de altas colunas, que imitavam os
"palázzos" romanos antigos, denunciavam - logicamente - moradores
italianos. Não era, pois, difícil, pela fachada da casa, identificar a
nacionalidade do dono.
O proprietário do imóvel que meu pai alugou era um velho
italiano, do Sul da Itália, Rocco Andretta, conhecido por seu Roque e
ainda, para os mais íntimos, por tzi Ró (tio Roque). Dono de uma
frota de carroças e burros para transportes em geral, fora intimado
pela Prefeitura a retirar seus animais dali; aquele bairro tornava-se
elegante, já não comportava cocheiras e moscas. O velho Rocco fizera
imposições ao candidato: reforma e limpeza do barracão, pinturas e
consertos da casa por conta do inquilino.
Dona Angelina, minha mãe, assustou-se: gastariam muito
dinheiro, um verdadeiro absurdo! Onde já se vira uma coisa
daquelas? Velho explorador! Por que o marido não comprava um
terreno em vez de gastar as magras economias em reformas de casa
alheia? E o aluguel? Uma exorbitância! Como arranjar tanto dinheiro
todos os meses? Onde? Como? Mas ela sabia que não adiantava
discutir com o marido. Considerava-o teimoso e atrevido.
O vocabulário de dona Angelina era reduzido - tanto em
português como em italiano, sua língua natal -, não sabia expressarse
corretamente; por isso deixava de empregar, muitas vezes, a
palavra justa, adequada para cada situação. Usava o termo
"atrevimento" para tudo: coragem, audácia, heroísmo, destemor,
obstinação, irresponsabilidade e' atrevimento mesmo. Somente
conhecendo-a bem se poderia interpretar seu pensamento, saber de
sua intenção, se elogiava ou ofendia. No caso da reforma em casa
alheia, não havia a menor dúvida, ela queria mesmo desabafar,
chamar o marido de irresponsável: "...um atrevido é o que ele é!"
Disse e repetiu.

O ATREVIDO COMPRA UM CARRO “
MOTOBLOC"

Havia pouco, quando da compra do "Motobloc", mamãe não
lutara também? Emburrara, discutira. Adiantara alguma coisa?
Tinha três filhos para sustentar, como ia comprar um carro
amassado? Papai não se abalou com os argumentos da mulher, com
seus emburros, não lhe deu atenção, não era louco de perder aquela
oportunidade única.
O proprietário do "Motobloc" em questão andava desacorçoado,
às voltas com as complicações do automóvel - comprado num
momento de animação e insensatez - que ele não conseguia manejar.
Não acertava a virar a manivela e já levara um contragolpe que quase
lhe fraturara o braço. De outra feita, ficara encalhado, em plena
escuridão da noite, mulher e filhos a tremer de medo e de frio
naquele carro aberto, os faróis apagados por falta de carbureto, ele
sem saber que rumo dar, quais as providências a tomar, nada
entendendo do assunto. Seu desgosto culminou ao bater contra uma
árvore. Atrapalhara-se na direção, não conseguira dominar nenhum
dos dois travões, duros e emperrados; o choque fora inevitável.
Quanto iria pagar pelo estrago? Sentiu-se aliviado quando o
mecânico lhe propôs comprar o automóvel rebentado. Nem pensou
em discutir preço, queria livrar-se daquele pesadelo. Vendeu-o por
alguns vinténs e sentiu-se feliz. Mais feliz ainda ficou o habilidoso
comprador, que, num abrir e fechar de olhos, botou o carro tinindo,
novo, travões devidamente engraxados, aptos a brecar a máquina em
qualquer emergência, as correntes de transmissão das rodas traseiras
também deslizando de fazer gosto.
A paixão de seu Ernesto por automóveis começou quando seu pai,
de sociedade com alguns amigos, importou da França um "Dedion
Boutton", o primeiro carro dessa marca a rodar nas ruas de São
Paulo. Automóvel de três rodas, motor debaixo do assento. A
regulagem da máquina era feita nas ladeiras: se subisse com três
pessoas, estava em ordem.
Outros automóveis foram aparecendo, papai sempre a par das
novas marcas e dos novos tipos, procurando compreender e dissecar
os estranhos motores a explosão, penetrar em seus mistérios.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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