Z. Rodrix - Johaben: Diário de um Construtor do Templo PDF

 


Diário de um construtor do templo conta uma história de aventura, na costa leste do Mediterrâneo, de um personagem fascinante, Joab, um jovem fenício. Ameaçado por uma trama sinistra, o jovem descobre que só existe uma fuga: ocultar-se em meio aos operários ( hebreus, egípcios e fenícios ( que erguem o Templo de Yahweh, em Jerusalém. É neste lugar que ele toma conhecimento da existência de uma sociedade secreta, que une todos os envolvidos na construção: desde o mais humilde dos escravos canaanitas até o próprio rei Salomão. Esta experiência, a descoberta do segredo da Pedra, o conduz a uma viagem interior, à percepção de um sentido para sua vida.


Z. Rodrix - Johaben: Diário de um Construtor do Templo PDF

Capítulo 1

Nasci no mês de Nisan durante o vigésimo segundo ano de reinado de
Abchal, pai de Hiram, sobre a cidade de Tiro. Nossa cidade, mesmo vencendo
a guerra em que tínhamos sido aliados dos hebreus contra os filisteus, tinha
perdido grande parte de seus homens, tornando-se a cidade das viúvas, no
dizer de seus invejosos detratores. A estas mulheres sem marido, que tinham a
responsabilidade de criar seus filhos e cuidar de suas famílias, pouca coisa
restava a fazer. Sendo Tiro um porto comercial de grande importância,
vivíamos literalmente invadidos por gente de todos os cantos do mundo, e
minha mãe decidiu transformar nossa confortável casa em uma hospedaria.
Não estávamos assim tão perto do porto: em verdade ficávamos no continente
e não na ilha de Tiro, mas o que poderia ser um fator prejudicial acabou se
convertendo em uma vantagem. Nunca éramos procurados pela escória que
sempre é a maior parte dos navegantes de todo o mundo. Nosso
estabelecimento, nunca ficando superlotado como os mais próximos ao porto,
era freqüentado por gente de melhor qualidade, que procurava descanso e bom
tratamento. Minha mãe Tirzah, ajudada por minhas quatro irmãs mais velhas e
por mim, controlava os negócios com mão de ferro, sem perder a afabilidade e
a boa educação que tinham sido o ponto de maior interesse nas negociações
de casamento entre ela e meu pai. A razão da boa freqüência, que se tornou a
marca da hospedaria de minha mãe, é o começo da vida que eu vim a viver no
estrangeiro, a qual nem sonhava pudesse ser possível. Mas para que isso fique
claro, é preciso que eu conte histórias das quais só ouvi falar, já que se deram
antes que eu visse a luz do sol nesse lado do mundo conhecido.
Minha mãe tinha vindo de uma família de abastados negociantes de
tecidos e seu casamento com meu pai, importante oficial do exército de Tiro,
sempre fora feliz e produtivo, mesmo estando nosso pai mais ausente de casa
que presente, por força de sua profissão. Tiveram quatro filhas, nascidas
sempre nove meses depois do estabelecimento da paz entre Tiro e seu último
inimigo vencido. Quando eu nasci, minha irmã mais nova, Sibat, já tinha doze
anos de idade. Meu nascimento ocorreu em um raro período de paz
continuada e de excelentes negócios, e minha infância foi excepcionalmente
calma e bem organizada. Em homenagem ao comandante-em-chefe dos
exércitos dos israelitas, a quem meu pai admirava incondicionalmente, ganhei o
sonoro nome hebraico de Joab. Quando completei dez anos de idade, Tiro
novamente foi forçada a entrar em guerra contra os filisteus. O esforço de
guerra do rei Abchal, em apoio ao rei David, demonstrava seu desejo de que
essa guerra fosse definitiva, destroçando qualquer inimigo que pudesse pensar
em combatê-lo, reafirmando de uma vez por todas a superioridade dos
homens de Tiro sobre qualquer outro reino, excetuando-se o do rei David.
Recordo com muita precisão o dia em que meu pai, com sua farda de
combate, foi acordado por seus soldados a cavalo para que assumisse seu lugar
à frente da tropa. Nós nos despedimos dele com a mesma solenidade com que
Tiro se despediu de seu rei, que pela primeira vez iria participar de uma grande
batalha. Eu, ainda inconsciente dos funestos resultados que essa despedida
traria para mim e minha família, estava fascinado pelo ruído dos cascos e das
armas, e me recordo vivamente de ter imitado a saudação militar enquanto os
soldados desciam nossa rua em direção ao porto. Alguns meses depois,
enquanto Tiro comemorava uma vitória absoluta contra os inimigos de seu
aliado, o rei David, nossa casa se fechava em luto. Meu pai tinha morrido em
combate franco contra os filisteus naquela que seria a última batalha da mais
sangrenta guerra já lutada. A notícia de sua morte se confundiu com os
festejos de vitória, e eu, na inconsciência dos meus quase dez anos, não
entendia muito bem que meu pai, dessa vez, fosse demorar mais que das
outras vezes.
A família de minha mãe, como bons negociantes que eram, ainda tentou
casá-la com um de meus tios, irmãos de meu pai, como reza a tradição. Mas
todos eram soldados, com exceção de Jubal, o coxo, e minha mãe fez valer sua
vontade, contrariando todos os seus parentes:
— Já sou uma velha, cheia de filhos. Ninguém vai me querer, e isso É
muito bom. Minhas meninas breve estarão se casando, e eu prefiro cuidar de
meu único filho, para que nunca venha a ser um soldado como o pai.
Muita gente se ofendeu com isso, e tanto a família de minha mãe quanto
a de meu pai cortaram relações conosco. Então esta louca se recusava a seguir
a tradição? Não sabia que a herança de seu marido se perderia, já que mulheres
não podem herdar? Mas minha mãe insistiu em sua posição, baseada
unicamente em minha existência. Durante muitos anos, enquanto teve minhas
quatro irmãs, foi conhecida apenas como a filha de Mair, seu pai. Meu
nascimento tinha dado a ela o novo e respeitável título de mãe de Joab, e era
em minha existência e sobrevivência que ela se apoiava para manter uma vida
independente, coisa inaceitável pelo pensamento tacanho da época. Seus
parentes exigiam que ela voltasse a ser responsabilidade da família, já que não
desejava casar-se com nenhum de seus cunhados. Mas ela fez pé firme e
recusou-se a ouvir qualquer outra palavra sobre o assunto, e ainda ameaçou
recorrer ao próprio rei Abchal se acaso algum de seus parentes tentasse
apossar-se dos bens de seu marido morto. O único a manter seus laços com
minha mãe e mesmo a ampliá-los foi meu tio Jubal, escriba de profissão.
Numa época de grandes embates pela supremacia desse lado do mundo, nove
em cada dez homens abraçavam a carreira militar, e a meu tio só restara o
trabalho intelectual, essencial nos períodos de paz, quando os negócios
florescem. Sua banca de escriba era a mais procurada no porto de Tiro, e a
partir de certa data sua assinatura tomou força de selo oficial, tamanha a
procura que havia por seus serviços. O próprio rei Abchal já fizera uso de suas
capacidades mais de uma vez, e isso como que oficializara meu tio,
transformando-o em um grande sucesso entre seus pares. Não havia negócio
que não passasse por sua mão, e o comentário geral era de que Jubal, o coxo,
devia ser mais rico que um Faraó do Egito.
Ao saber da opinião de minha mãe sobre o casamento e a profissão de
militar, meu tio veio nos visitar. Minha mãe o recebeu de cara fechada, mas a
afabilidade e a simplicidade de meu tio foram lentamente conquistando a
todos. Confesso que, quando o vi apeando de seu dromedário à porta de nossa
casa, não pensei nada de bom. Ao saber que era meu riquíssimo tio coxo,
esperei que debaixo de sua túnica branca saltassem riquíssimos presentes.
Depois da conversa dele com minha mãe, tive a nítida impressão de que nossa
vida iria mudar. E realmente mudou, mas eu só pude ter certeza disso alguns
anos depois, quando comecei a compreender as diferenças entre nossa vida e
as vidas de tantos outros compatriotas.
Anos mais tarde eu tomei conhecimento da proposta que meu tio Jubal
viera fazer a minha mãe, a louca Tirzah, como vinha sendo chamada por seus
parentes de ambos os lados. Para que nada de mau acontecesse, e em honra a
meu pai, seu irmão recém-falecido, meu tio Jubal propôs à minha mãe um
casamento de conveniência. Casar-se-iam oficialmente, e ela passaria a ser sua
esposa de direito, mas não de fato, pois era desejo de ambos, meu tio e minha
mãe, manter a vida exatamente como era até esta data, sem mudanças bruscas
de qualquer tipo, mais inaceitáveis ainda a partir do fato de que não havia laços
afetivos a unir os dois. Minha mãe a princípio recusou com veemência a
estranha idéia de seu cunhado coxo, mas seus poderes de persuasão eram
quase infinitos, e ela finalmente concordou.Todas as condições que minha mãe
impôs para que o enlace se fizesse meu tio Jubal aceitou. Seu interesse, como
mais tarde todos viemos a descobrir, não era material. Suas posses como
escriba oficial do porto de Tiro estavam infinitamente acima das nossas. Não
era também carnal, pois meu tio, desde muito cedo consciente de seu defeito
físico, aparentemente abrira mão de qualquer desejo mundano. Refugiava-se
dos prazeres do mundo em sua impressionante biblioteca, que mais tarde vim
a conhecer. Quando os desejos da carne se faziam mais fortes do que ele
mesmo, visitava uma sua casa na aldeia de Abel-beit-Maaca, voltando depois
de alguns dias, pacificado e satisfeito.
O casamento, por assim dizer, de minha mãe e meu tio veio a satisfazer
as tradições de suas duas famílias, que mesmo desconfiando do que haveria
por trás de tão inesperada aliança, e irritados por ter perdido o controle sobre
os bens de minha mãe, deram suas bênçãos aos dois. Meu tio transferiu uma
parte de seus arquivos pessoais para uma sala no segundo andar de nossa casa,
e aquele ficou sendo conhecido como o seu quarto. Ele passou a nos visitar
com regularidade, depois de um certo tempo começou a receber determinados
parceiros de negócios que requeriam um pouco mais de privacidade, chegando
mesmo a passar conosco o dia de descanso, assumindo publicamente o papel
de marido de sua cunhada e de pai de seus sobrinhos.
Num momento difícil como o que estávamos por viver, a presença
quase que oficial de meu tio Jubal se revelou uma bênção. A hospedaria que
minha mãe começava a fazer funcionar se beneficiou muito da existência de
meu tio como aparente chefe da casa. Se era minha mãe quem
verdadeiramente controlava e gerenciava a hospedaria e a casa, cuidando
também das vidas de seus filhos, a fama e a presença de nosso tio e padrasto
faziam com que a freqüência de hóspedes necessária ao bom andamento dos
negócios fosse constante e de muito boa qualidade, como já mencionei antes.
A extrema discrição de minha mãe, aliada ao excelente serviço que ela e
minhas irmãs prestavam aos usuários do lugar, correu rapidamente, e quem
fazia questão de um serviço de qualidade vinha invariavelmente hospedar-se
conosco.
Houve, no início, quem se enganasse. Uma casa comandada por uma
mulher, com quatro filhas em idade núbil dispostas a um serviço de qualidade,
fez com que alguns homens se enganassem quanto ao verdadeiro objetivo de
nossa hospedaria. Me recordo de uma noite em que quatro marujos, um deles
um cabeludo grego de sobrancelhas hirsutas que parecia ser o piloto de seu
navio, entraram em nosso estabelecimento desejando vinho e diversão. O
vinho seria possível, já que meu tio tinha cuidado para que nossa adega
incluísse o que de melhor e mais caro havia. Mas a diversão que o grego
desejava incluía algumas horas de luxúria desenfreada sobre a cama de uma de
minhas quatro irmãs. Eu entrei rapidamente na sala ao ouvir o primeiro grito
de minha irmã Sibat, a mais nova, e notei com estranheza que meu tio coxo,
que em condições normais se movia com a lentidão de um cágado, tinha
descido a escada e chegado à sala mais depressa do que eu. Sua bengala de
madeira de roseira descreveu um arco muito largo e acertou os nós dos dedos
do grego, enquanto sua outra mão afastava minha irmã da mesa, pondo-a atrás
de si. O grego, fulo de ódio, arrancou de dentro de sua curta túnica uma faca
curta e começou a brandi-la na direção de meu tio:
— Aleijado dos demônios! Vou te arruinar o outro pé!
Não sei se foram os vapores do álcool que lhe envolviam a cabeça ou o
inesperado da situação, mas o grego não foi feliz. A bengala de meu tio
ergueu-se pelo outro lado e, com um movimento curto, acertou a têmpora
esquerda do grego, que arregalou os olhos, balançou sobre os pés e caiu para
trás, com um ronco surdo. Seus amigos tentaram reagir, mas a bengala de meu
tio começou a descrever meios-arcos muito rápidos no ar. Nesse momento
outros hóspedes da casa, irritados com os acontecimentos, avançaram na
direção do grupo. Os outros três homens, vendo que a situação não lhes era
favorável, viraram as costas e saíram em desabalada carreira.
Meu tio Jubal, novamente coxeando, e com um esgar de dor no rosto,
pediu ajuda a dois fregueses mais fortes e arrastou o corpo inerte do grego
para fora da casa, jogando-o em um monturo. Depois de algum tempo os três
voltaram para dentro, com uma expressão séria na face, e meu tio se
encarregou de tentar tranqüilizar minhas irmãs e minha mãe: — Fiquem
calmas. Não foi nada sério. Se pensarmos com correção veremos que, na
verdade, isso foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Duvido que a
partir de hoje qualquer embarcado que venha a essa hospedaria confunda as
coisas.
Meu tio agradeceu com gravidade aos hóspedes que o tinham ajudado e
subiu para seu quarto, acompanhado por minha mãe, que ainda tremia de
medo e ódio, e os dois conversaram longamente. No dia seguinte tudo estava
de volta ao normal, e depois de alguns dias o incidente ficou como que
esquecido. Mas o que nunca me saiu da memória é o seguinte fato: eu acordei
no meio da noite, ouvindo ruídos do lado de fora da casa. Arrastei-me, ainda
sonolento, até uma janela, e vi no beco atrás de meu quarto os três marujos
remanescentes da noite anterior carregando o que me pareceu ser o corpo do
grego cabeludo. Achei estranho o seu silêncio e a maneira como carregavam o
corpo. Só muitos anos mais tarde, ao me recordar do fato, é que percebi que o
corpo do grego não tinha cabeça. Não soube na época como essa cabeça se
perdeu e nem compreendi os motivos e os meios pelos quais isso possa ter
acontecido. O que posso garantir é que aquilo que tio Jubal dissera
efetivamente aconteceu: nunca mais houve nenhum tipo de incidente
desagradável em nossa casa, pelo menos no tempo em que ainda permaneci ao
lado de minha mãe e minhas irmãs.
Minha vida correu tranqüila nos poucos anos que se seguiram à morte
de meu pai. Por ser o filho mais moço, e único varão em uma casa de
mulheres, acabei sendo tratado como um pequeno rei. Poderia ter me
transformado em um pequeno tirano, se não fosse a rigidez de minha mãe. Ela
me mantinha em um imutável círculo de tarefas braçais que se repetia todos os
dias, sem exceção. Era meu dever transportar água em dois baldes de madeira
do poço para as grandes bilhas na cozinha, com as quais se cozinhava e se
enchiam as tigelas dos hóspedes. Eu também tinha de alimentar as aves da
capoeira no fundo da casa e cuidar do pequeno rebanho de cabras que
forneciam o leite, ajudando também a queijeira que vinha de semana em
semana para transformar o leite talhado em frescas bolas brancas de queijo,
que eram imediatamente postas a conservar dentro de azeite perfumado com
alecrim e estragão. Por mais cansativas que fossem essas tarefas, acabaram
ocupando de forma quase que absoluta o meu tempo, incutindo em meu
espírito o hábito da disciplina férrea. Com tanto a fazer, não me restava sequer
um instante para conviver com os meninos de minha idade, que passavam o
dia em uma interminável e constante brincadeira de guerra. Minha mãe me
mantinha o mais longe possível deles e exigia de mim uma obediência estrita a
seus desejos. Eu acordava cedo, quando o sol ainda tingia de rosa-escuro o
horizonte, e executava minhas obrigações de forma contínua, parando apenas
para comer e descansar. O período diurno de descanso sempre se dava logo
depois do meio-dia, quando tudo como que se interrompe e um silêncio
sepulcral toma a natureza. Nessa hora eu me deitava debaixo de uma velha e
nodosa oliveira que ficava perto do grande poço que meu tio mandara escavar,
e ficava olhando o céu azul, os formatos das raras nuvens, ouvindo os cantos
longínquos dos pássaros e às vezes os ruídos das equipagens lá longe no porto
de Tiro, sentindo os perfumes que se elevavam das casas à nossa volta:
coentro, cardamomo, canela.
Um dia, já no segundo ano dessa nova vida de hospedeiros e sob a
proteção de meu tio, a minha rotina de todos os dias foi interrompida por
minha mãe que me chamava da cozinha. Entrei correndo e ela, cercada por
minhas quatro irmãs, me olhou com seriedade:
— Joab, seu tio precisa que você vá vê-lo. Coloque suas sandálias e vá
procurá-lo no porto.
Minha alegria foi flagrante. O porto! O centro da vida da cidade de Tiro!
O lugar onde tudo acontecia, tão importante para nossa cidade que o próprio
rei Abchal era encontrado lá com mais facilidade do que em seu palácio real.
Nós, fenícios, já tínhamos sido senhores absolutos de toda a costa da Palestina,
por conta de nossa infinita capacidade marítima. Mas o tempo e os combates
nos reduziram à condição de vassalos dos israelitas. Se éramos guardiãs da
estrada do mar e uma espécie de tampão entre os egípcios e os filisteus,
quando o rei David os venceu em definitivo, seu filho Salomão mais tarde
manteve o respeito à nossa supremacia nas águas. Éramos vassalos respeitados,
de primeira qualidade, e o próprio David, e mais tarde seu filho Salomão,
mesmo dispondo de portos exclusivamente israelitas, não faziam negócio sem
contar com a participação fenícia. O porto de Tiro, centro do poderio fenício,
era a jóia desse litoral, com seu golfo natural extremamente confortável e
seguro. Eu tinha ido ao porto apenas uma vez, montado nos ombros de meu
pai, que pretendia me exibir a seus companheiros de farda, e a memória desse
dia se esvaíra como um sonho antigo. Logo após ele morreu e minha mãe, que
tinha lá suas razões para isso, me manteve à parte da cidade de Tiro, preso à
barra de sua saia e sempre ao alcance de sua voz. Essa oportunidade eu não
podia perder. Calcei minhas sandálias e, montando um jumentinho da casa,
desci a encosta do nosso bairro, atravessando a cidade de Tiro em direção ao
porto. Minha vida era tão regrada e comum que essa simples mudança, esse
passeio sobre o lombo de um jumento pelas ruas calçadas de pedras da velha
Tiro, me enchia o coração de alegria. Desci a pequena colina do meu bairro e,
na planície ocupada por plantações de oliveiras e uvas, segui uma trilha que se
alargava cada vez mais, transformando-se em uma estrada. O tráfego também
crescia na mesma proporção: eram carroças, caravanas, filas de carregadores,
que chegavam e saíam da região do porto. O cheiro de mar, que em nossa casa
era apenas um eflúvio delicado e refrescante que se sentia em certas horas do
dia, ficava cada vez mais forte, penetrando minhas narinas como se fosse o
odor das azeitonas que esmagávamos no lagar, ao fundo de nossa casa, quando
da época de colheita dos frutos e fabricação do azeite. O tráfego crescia cada
vez mais, e eu cheguei a pensar que talvez fosse essa a razão do alargamento
progressivo da estrada, que agora já era larga o suficiente para que pelo menos
uma dúzia de carroças carregadas andassem por ela lado a lado sem ao menos
roçarem umas nas outras.
Na última volta da larga estrada, que encimava o porto a cavaleiro,
descendo até o molhe num suave declive, eu já pude ver os navios ancorados,
tanto os da frota do rei Hiram, os tipos para viagens de grande distância, como
os navios do rei David, bojudos e curtos, com suas velas quadradas. Se antes
David e Baahiram tinham sido senhor e vassalo, o tempo e a convivência os
haviam transformado em parceiros sócios igualitários em todos os
empreendimentos possíveis, beneficiando tanto o reino dos israelitas quanto o
nosso. David, ao contrário de Saul, elevara Israel a um lugar nunca dantes
ocupado, e mais tarde seu filho Salomão, estando muito bem colocado entre o
Egito e a Anatólia, transformou-se no maior exportador de carros e de cavalos
de todos os tempos. Os carros eram comprados de seus fornecedores egípcios,
às ordens do Faraó, e os cavalos dos capadócios, reconhecidos em todo o
mundo civilizado, como os melhores, a eles eram atrelados, formando um
produto combinado de grande demanda. Salomão percebera que os leves e
ágeis carros de combate dos egípcios, aliados aos nervosos e explosivos
cavalos capadócios, formavam uma arma de guerra imbatível, e vagarosamente
estabeleceu para seu reino o monopólio dessa combinação de grande sucesso.
Até mesmo as cidades da Grécia andavam comprando carros de combate nas
mãos do rei de Israel, dada a fama que esses veículos tinham alcançado. E a
fortuna do rei Salomão, que já era grande quando ele recebeu o reino das mãos
de seu pai, aumentou mais e mais a cada dia, fazendo com que ele ficasse
conhecido como o homem mais rico do mundo, quem sabe mesmo mais rico
que o mais rico dos Faraós do Egito. Quando fui até o porto, no entanto,
ainda era o tempo do rei David, que mesmo velho e alquebrado era o mais
importante de nossa região.
O molhe, construído com pedras das montanhas de Tiro, aproveitava o
desenho natural da costa, que tinha criado uma baía profunda e ovalada, com
uma grande abertura voltada para o norte. Por questões da própria natureza,
essa baía era o abrigo mais seguro que havia para navios de qualquer porte.
Uma vez atravessada a barra desse porto natural, não importa o estado em que
o oceano estivesse, o navegador encontrava mar calmo e estável, quase que um
espelho, pois as colinas e montanhas que cercavam essa baía a protegiam de
ventos de terra e de mar. Um grande trapiche de pedra, da mesma largura da
estrada, ligava o continente à ilha de Tiro, onde estava o centro de poder da
nossa cidade. Lá ficavam o palácio do rei Hiram e os grandes armazéns de sua
frota mercante, todas essas construções a curta distância umas das outras, para
que tanto as funções políticas quanto as administrativas pudessem ser
realizadas sem dificuldade. Meu jumentinho tropicava nas pedras do caminho,
e eu nem percebia. As imagens, os cheiros e os sons do porto de Tiro tinham
toda a minha atenção neste momento. Entre gritos de carregadores, camelos e
elefantes, ruídos contínuos das rodas de carroça e das polias que elevavam
grandes cargas até quase o céu, descendo-as cuidadosamente no porão de um
navio, o ranger do madeirame de navios de todos os tamanhos, os passos
inseguros de meu jumentinho não eram nada. Fui passando no meio dessa
confusão organizada, que se movia em volta das grandes tendas usadas como
armazéns provisórios, até chegar aos edifícios de estoque onde meu tio Jubal,
o coxo, tinha sua oficina. Eu não sabia que este seria o último dia de minha

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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