50, eu_ - Zeca Camargo pdf

 


50, eu_ - Zeca Camargo  pdf 

Capítulo 1
Da memória
Por onde eu ia começar mesmo? Eu tinha feito um “plano de voo”,
mas agora, bem no início, não consigo lembrar qual o primeiro
aspecto dos meus 50 anos que queria descrever. É minha memória
– eu sei. De repente, lembro que queria começar justamente por
aqui! Isso mesmo, pela memória! Talvez não fosse essa a ideia
original, mas digamos que ela serve bem – e é melhor eu começar
logo, antes que esqueça novamente o que devo fazer.
Esse é o problema. Se nunca tive uma memória muito boa, nos
últimos anos ela se tornou quase constrangedora. Não para os
outros – não, ainda não cheguei ao estágio de deixar as pessoas
esperando para um encontro, de não saber o que quero comprar
quando entro em uma loja ou de fazer uma cara de enigma quando
o médico me pergunta por que marquei a consulta. Essa, imagino, é
a fase seguinte, que devo abraçar em breve. Mas, por enquanto, só
estou decepcionando a mim mesmo. Ou melhor: ela está me
decepcionando, minha memória. E em vários aspectos.
Nomes e rostos, por exemplo, nunca foram fáceis para mim.
Confundi as duas coisas durante boa parte da vida, mesmo antes de
achar que isso se tornaria um problema crônico. Sempre tive
contato com muita gente e, pelo menos até meu período na
faculdade, achei que administrava relativamente bem esse jogo de
azar que é associar um rosto a um nome. Isso mesmo: para mim é
um jogo de azar, e não um mero exercício cognitivo.
Comecei a perceber que isso seria um problema depois que fiz
30 anos, quando já estava envolvido com o jornalismo. Antes disso,
minha atividade profissional estava ligada à dança, que tomou conta
de boa parte dos meus 20 anos. Cheguei mesmo a dar aulas – e
esse foi o problema. Tive contato com dezenas (se não centenas)
de alunos, que fazia questão de chamar pelo nome. Assim, além
dos colegas da dança, que mudavam parcialmente a cada novo
espetáculo, fui acumulando mais nomes e rostos com minhas
turmas de alunos. E era bom nisso!
Eram necessárias duas, no máximo três, aulas para eu decorar o
nome de todos no grupo, que geralmente tinha de vinte a 25
pessoas. Não conto isso como vantagem: não era nada fácil. Alguns
grupos de nome, até hoje, são uma coisa só para mim. Por
exemplo: Ricardo, Rogério e Rodrigo. Nomes distintos, sem dúvida,
mas que na minha estratégia improvisada de identificação se
embaralham e se tornam apenas um – geralmente Rodrigo. O
mesmo acontece com Cláudia, Camila e Cecília. Ou Marcos, Márcio
e Marcelo. Fábio, Flávio e Fabrício. Juliana, Júlia e Giovana. Diogo,
Diego e Tiago. Foram inúmeros foras até eu aprender que o melhor
é simplificar tudo num vocativo carinhoso e genérico: “querida” para
as mulheres; “grande” para os homens.
A princípio isso soava vago demais – se queria estabelecer uma
relação de intimidade com os alunos e alunas, o ideal seria chamálos
pelo nome. Mas, aos poucos, fui aprendendo a dar toques
pessoais a esses chamamentos, como se fossem nomes próprios.
“QuerÍda!”. “Graaaaande!”. “Que-ri-da!”. “GrandÊ!”. Pequenas
variações, como “Minha querida” ou “Grandissíssimo”, também
funcionavam bem.
Claro, eu não tinha problema nenhum com nomes mais
singulares – ou, pelo menos, com aqueles que meu cérebro achava
mais singulares: Fernanda, Henrique, Tereza, Eduardo, Clarisse,
Marta, Inês, Francisco, Beatriz, Jade. Hummmm, Jade não. Enfim,
acho que fui claro: alguns nomes passavam pelo filtro da
capacidade de associação da minha memória, mas outros eram
simplesmente causa perdida. Mesmo assim, consegui por anos não
passar a impressão de ser displicente com as pessoas com quem
tinha contato. Mas, quando deixei a dança e comecei a trabalhar em
jornalismo, passei a encontrar várias pessoas que vinham com
aquela pergunta clássica (tão temida por quem não tem boa
memória): lembra de mim?
Eu quase nunca lembrava. Minha desculpa inicial era justamente
a quantidade de pessoas com quem eu havia tido contato até então,
como um pedido de desculpas pelo fato de não ter conseguido
guardar aquele nome – para ser honesto, na maioria das vezes não
havia guardado nem o rosto! Eu dizia algo como: “Já sei! Você fez
aula comigo... era tanta gente”. Funcionava em 80% das vezes em
que me sentia acuado pela memória. Mas não faltaram ocasiões em
que ouvi respostas como: “Aula de quê?”; “Não, jantamos juntos na
semana passada”; “Que é isso? Não lembra mais das primas?”; ou
até mesmo um “Como assim? Não gostou de ontem à noite”... E a
situação foi piorando, já que, fazendo reportagens, eu conhecia
ainda mais pessoas, e elas se embaralhavam mais e mais na minha
lembrança.
Eu até tinha muita facilidade em guardar o nome das pessoas no
momento em que as conhecia. Isso era muito bom nas aulas que
dava e também nas entrevistas que fazia. (Bem mais adiante,
quando já trabalhava no Fantástico e criei um quadro, “Altos papos”,
em que conversava com cerca de trinta jovens diferentes toda
semana, eu mesmo ficava surpreso com minha capacidade de, após
apenas algumas tomadas, saber o nome de todo mundo.) Mas
bastavam 24 horas, ou menos, para que aquele registro sumisse da
minha memória. Se encontrasse a pessoa com quem tinha
estabelecido um vínculo de confiança logo depois de termos sido
apresentados, o nome já era história.
Você já passou por uma situação dessas – o equivalente a dirigir
numa pista molhada com pneus carecas? A pessoa vem se
aproximando e – para seu horror – já chamando pelo seu nome. A
primeira tentativa de lembrar o dela é inútil, e você, em vez de
reconhecer a derrota e perguntar apenas “De onde nos conhecemos
mesmo?”, aperta a mão dele ou beija a bochecha dela com a
firmeza de quem lembra cada detalhe dos encontros anteriores. O
que se passa na sua cabeça é exatamente o contrário: um fluxo
sanguíneo desesperado irriga o hipocampo (é assim mesmo que se
chama aquela parte do cérebro responsável pela memória? – você
se pergunta, abrindo um canal paralelo de autocobrança, tentando
disfarçar o que, você sabe, será um desastre social).
Como um bom blefador, você aumenta a aposta, ou seja,
continua a conversar, na tentativa sôfrega de que no bate-papo surja
algo, alguma pista, que possa elucidar esse grande mistério da
natureza: quem é essa pessoa na sua frente que chama você pelo
nome? Mas a estratégia fracassa: as respostas do “inimigo” são
vagas e não ajudam. “Quanto tempo!”, então, é fatal! E o desespero
segue por mais algumas sentenças, até que a pessoa vá embora
com uma leve impressão de que você não tinha ideia de com quem
estava falando. Preciso acrescentar que ela está certa?
Esse, porém, é o melhor cenário. Boa é a conversa – mesmo
anônima e desencontrada – que dura pouco. Para cada um que
desiste e sai ligeiramente decepcionado, existem pelo menos três
que têm certeza de que você se lembrou deles e resolve prosseguir
numa troca que só tem um desfecho: sua humilhação completa. Não
são raras as vezes em que, em desespero, arrisco batizar aquela
pessoa. Com uma margem de acertos de menos de 10%,
reconheço que essa é uma saída infeliz, mas não tenho como evitála.
Primeiro tento um murmúrio, algo que apenas sugira um nome –
um som como “P’trissium” ou “...bian...”. Dependendo da reação do
meu interlocutor ou interlocutora, sigo em frente com mais coragem,
apenas para me arrepender: o murmúrio tinha sido interpretado
como um murmúrio mesmo, um ruído de conversa, e não um
substituto para um nome de verdade. É aí que lembro que deixei o
telefone no vibrador e alguém me chama insistentemente, a ponto
de me obrigar a pedir licença e me afastar...
No filme O diabo veste Prada, Meryl Streep, que faz o papel de
uma poderosa editora de moda, tem uma assistente que, nas festas,
fica ao seu lado soprando minibiografias das pessoas que se
aproximam para falar com ela. Tenho certeza de que alguém daqui a
pouco vai criar um aplicativo capaz de fazer exatamente isso:
reconhecer o celular de alguém que se aproxima e imediatamente
passar para o seu aparelho informações vitais, para que você possa
agir com jogo de cintura numa conversa social. Mas, enquanto essa
invenção não vinga, tudo o que eu queria era uma assistente assim.
Com a idade, as coisas só foram piorando – nas duas
extremidades da corda. Ao mesmo tempo que acumulo pessoas no
meu círculo de conhecimento, a capacidade da minha memória
despenca vertiginosamente. A ponto de eu ter saudade do tempo
em que a única coisa que esquecia era um nome.
De uns tempos para cá, dei para apagar momentos inteiros da
minha vida – passagens longas, com várias testemunhas, que, para
minha perplexidade, podem atestar que eu estava presente numa
situação da qual não tenho mais nenhum registro. Eu me dei conta
disso justamente durante um jantar, quando um amigo com quem
havia passado um réveillon no litoral paulista, comentando sobre a
péssima qualidade da minha memória, lembrou às gargalhadas um
episódio dessa temporada na praia.
Segundo ele, fui dar um mergulho e, saindo do mar, encontrei
uma atriz com quem tenho um contato superficial, mas carinhoso.
Conversei com ela rapidamente ali mesmo, longe dos amigos, e,
quando fui ao encontro deles, todos queriam saber com quem eu
estava. Sem titubear, dei o nome de outra pessoa, homônima
apenas no primeiro nome, e que, para piorar a confusão, havia
morrido recentemente num acidente... no mar.
A cara de espanto de cada um deles era inegável. “Tem certeza
de que esse é o nome da menina que você encontrou?”,
perguntavam. E eu repetia o mesmo nome de alguém que, a não
ser por um contato sobrenatural, não poderia de maneira alguma
estar falando comigo. Só quando comecei a descrever aos
incrédulos amigos os trabalhos que a atriz tinha feito recentemente
eles adivinharam o nome correto dela – e fizeram disso uma piada
que me perseguiu por todo aquele verão.
Doze anos depois, quando um dos amigos que estavam lá
comigo voltou a contar esse episódio numa mesa animada, fiquei
sem reação. Não era só o nome da atriz que eu havia esquecido,
mas toda a sequência de eventos! Se já tive certa dificuldade de me
lembrar daquele réveillon, daquela história então... Fiquei totalmente
desarmado, tentando imaginar que expressão meu rosto estava
armando: se de um completo imbecil ou de uma criança que ouvia
uma história engraçada pela primeira vez. Na hora, não falei nada.
Ri com todo mundo da minha antiga gafe. Mas, quando voltei para
casa naquela noite, fiquei me perguntando se aquilo tinha
acontecido mesmo. Não o episódio com a atriz “ressuscitada” do
mar, mas se minha fraqueza de memória havia mesmo chegado a
tal ponto. E essa foi só a primeira vez.
Outros amigos me falam de festas em que toquei como DJ, mas
não lembro nem que músicas escolhi, nem sequer de uma imagem
da pista de dança com as pessoas animadas. Jantares em que
determinada pessoa me foi apresentada, a mesma pessoa com
quem depois combinei encontrar numa viagem, foram totalmente
apagados da minha memória. Festas, casamentos, reuniões,
bebedeiras (naturalmente), conversas sérias – tudo parece estar
virando um livro que não abri, aliás, um livro que nem figura nas
minhas prateleiras. São histórias alienígenas, como se alguém
tivesse me inserido à força nelas, e o que me restasse agora seria
viver das lembranças dos outros. O que eu faria até com certa
alegria: já que não consigo resgatar muita coisa do passado, ainda
bem que tem gente fazendo isso para mim – e com competência!
Mas e se a situação ficar fora de controle a ponto de eu começar a
fazer parte de histórias totalmente inventadas?
“Zeca, lembra aquele aniversário seu na fazenda, em que você
entrou na piscina nu com o corpo pintado de azul?”. “Nossa, uma
das festas mais divertidas foi aquela em que você resolveu chegar
montado em uma zebra, porque quis fazer uma homenagem à mãe
da menina que fazia aniversário e que tem o cabelo cheio de
mechas brancas e pretas!”. “Você pensa que pagou aquele jantar de
quase R$ 300,00 por cabeça, mas fomos nós que tivemos que fazer
uma vaquinha e pagar a sua parte – agora, quando você acha que
pode acertar isso com a gente?”. “Ninguém acreditou quando você
amarrou aquela corda no tornozelo e falou: ‘Eu vou pular, eu vou
pular, não importa se são só 25 andares...’”. “A gente combinou que
ninguém ia falar o que você pintou na parede do quarto do noivo da
Débora e que tinha alguma coisa a ver com uma boa desculpa para
desfazer o casamento...” Percebe o perigo?

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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