Adolfo Caminha-Bom Crioulo pdf

 


Bom-Crioulo é um romance de Adolfo Caminha publicado em 1895, considerado por alguns como um dos primeiros romances sobre homossexualidade da história de toda a literatura ocidental.

A obra foi recebida com escândalo pela crítica literária da época e com silêncio por parte do público, devido a ousadia na abordagem de temas considerados tabu em finais do século 19, como o sexo entre pessoas de diferentes etnias e a homossexualidade em ambiente militar. Além disso, apresentava uma frontalidade e um erotismo pouco usuais para a sociedade da época, mas é conceituada como uma narrativa contemporânea de seu tempo. No total, é composta por doze capítulos e discorre um enredo homoerótico, no qual são abordados temas como a diferença de raça e a vida problemática dos marinheiros naquele período.

A narrativa acompanha o personagem Amaro, um ex-escravo que presta serviços à Marinha e que, em determinado momento, apaixona-se pelo jovem Aleixo. O romance perpassa por dois locais: no navio (também chamado de Corveta), que em muitas vezes está em alto mar, e na Rua da Misericórdia, localizada na periferia do Rio de Janeiro.


Adolfo Caminha-Bom Crioulo pdf

Capítulo 1

A velha e gloriosa corveta – que pena! – já nem sequer lembrava o
mesmo navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente
festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto,
grimpando serena o corcovo das ondas!...
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas
velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro
que entusiasmava a gente nos bons tempos de “patescaria”. Vista
ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra
fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha
carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até
a primitiva pintura do bojo.
No entanto ela aí vinha – esquife agourento – singrando águas da
pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já
como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas
lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de
asas abertas sobre o mar...
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a
bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois,
com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a
viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendiase
muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a
corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe
percebia o movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de
criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água
em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio
medonho..., e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas
obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força
de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa!
Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros
em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente,
esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças,
varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz
fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme,
como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de
encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e
ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau.
— Agüenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria
sem fim...
Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante
da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta,
e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da
família!...
Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das
conservas em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando
apreensões à marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio
d’algibeira, um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon,
torceu o bigode, passou uma vista d’olhos no aparelho, e, dirigindose
para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara
um pouco, metálica:
— Corneta!
Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e
inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um
Tratado elementar de navegação prática.
Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava
d’olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis
de um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava
a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo
sei entranhado amor às matemáticas e à vida naval. Como guardamarinha
deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente “para
não perder o hábito”. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu
camarote, ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, ao
movimento esterilizador e absorvente dos cafés e dos teatros.
— Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria
expressão de constrangimento.
Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu,
correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito
brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso
idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de
estupidez e subserviência
— Pronto! disse levando a mão ao boné com um jeito marcial.
— Toca mostra, ordenou o tenente.
Às primeiras notas da corneta, límpidas e sem eco no silêncio do
mar alto, houve logo um estranho bulício em todos os recantos da
corveta. – Agora os marinheiros que descansavam à proa, olhavamse
por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas
cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção que o toque
finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardiões: — Sobe,
sobe, – tudo para cima! – de envolta com um barulho de ferros que
vinha dos porões.
O “mestre d’armas”, cabrocha pedante, muito cheio de si e de
seus galões reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas,
num exagero metódico de instrutor de colégio, arredando uns para
colocar outros, advertindo estes porque não tinham a camisa
abotoada e aqueles porque não tinham “fita” no boné, ameaçando
estoutro de levá-lo à presença de “seu” tenente porque recusava-se
a perfilar...
Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme – boné e
dragonas –, arrastando as espadas, mirando-se d’alto a baixo,
apertados no talim de pano azul, por cima da farda.
Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais – aqueles
alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a ré, perto do
mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato
solene.
Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho,
timidamente. E agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem o
cachoeira de água no bojo da corveta caturrando...
— Agüenta!
Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de
camurça, teso na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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