Zélia Gattai - Senhora Dona do Baile PDF

 


Em "Senhora dona do baile", Zélia Gattai retrata o período de exílio da autora e seu marido, o escritor Jorge Amado, quando ele teve os direitos políticos cassados por ser membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 1948, Zélia deixou o Brasil com o filho João Jorge para encontrar-se com Jorge Amado na Europa, onde viveu durante cinco anos, participando intensamente da vida cultural européia, ao lado de personalidades como Pablo Neruda, Nicólas Guillén, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Aragón, Paul Éluard, Picasso, Ilya Eremburg, entre outros. O cotidiano do casal é repleto de aventuras pouco comparáveis às experiências dos turistas convencionais em terra estrangeira: eles conhecem personalidades da política e do cenário cultural internacional, vivenciam o entusiasmo da classe intelectual que ainda acredita piamente no Socialismo e encaram com coragem uma Europa em reconstrução após os estragos provocados pelo Nazismo. Com bom humor e uma dose de erudição, Zélia conduz o leitor por Lisboa, Paris, Praga e a antiga URSS. Apesar do encanto exercido pelas excentricidades culturais de cada lugar, o casal sofre com a saudade dos entes queridos deixados no Brasil e do próprio João Jorge, quando Zélia e Jorge precisam se separar do filho para cumprir compromissos em outros países. Embora a partida de ambos tenha sido motivada por contingências políticas, as amizades adquiridas nesses cinco anos e os diversos apelos pela paz que foram endossados pelo casal dão a impressão de que o exílio foi tão frutífero para a família Amado quanto para aqueles que os acompanharam em terra estrangeira.


Zélia Gattai - Senhora Dona do Baile PDF 

ABRIL DE 1948

Chegaríamos a Lisboa no dia seguinte pela manhã. Enquanto
amamentava João Jorge na acanhada cabine de segunda classe, eu
fazia planos para o dia que passaria em terra. Navio italiano, de linha
regular entre o Brasil e a Europa, o Argentina realizava duas escalas
a partir do Rio de Janeiro: Cabo Verde e Lisboa, antes de atingir o
porto de Gênova, seu fim de linha, meu destino. Eu embarcara no
Rio de Janeiro, havia uma semana, levando nos braços meu filho de
quatro meses.
Em Cabo Verde não pudera baixar. A Ilha de São Vicente, escala
do Argentina, não possuía cais de atracação para navios de grande
calado. O nosso ficara ao largo; os passageiros que desejassem
desembarcar deveriam aventurar-se descendo por uma escada de
corda — lembrava as dos trapezistas de circo -, antes de alcançar a
lancha que os transportaria a terra. Que vontade tive de descer! A
inconfortável escada não seria empecilho para mim, não me
assustava. Com uma criança ao colo, porém, a coisa mudava de
figura, não podia nem devia me arriscar. Paciência. Ficara
contemplando de longe a ilha, uma das dez do arquipélago de Cabo
Verde. Na paisagem árida, parda, despida de Colorido, terra e casas
se confundiam. Segundo lera no jornalzinho de bordo, havia anos
não chovia em Cabo Verde, nenhuma vegetação resistia à seca e a
população era obrigada a servir-se de água importada.
Meninos apareceram nadando ao redor do navio, alguns
completamente nus; exímios mergulhadores, verdadeiros peixinhos,
iam pescar nas profundas do oceano as moedas que os passageiros
atiravam à água, trazendo-as presas entre os dentes.
Achando que eu ficara frustrada por não ter desembarcado,
doutora Janina, minha companheira de cabine, tratou de me
consolar.
— Não fique triste, você não perdeu nada. Baixei uma vez para
nunca mais. Um calor, uma poeira que Deus me livre! Quase tive
uma insolação! — Fez um gesto de horror com as mãos.
A experiência da doutora não me dizia nada. Eu enfrentaria calor
e poeira e, mesmo arriscando uma boa insolação, teria ido a terra. De
Cabo Verde eu tinha notícias terríveis. Aprendera desde menina que
as ilhas do arquipélago haviam sido importante trampolim, utilizado
pelos portugueses, no tráfego de escravos africanos; mancha do
passado. No presente, havia ali o campo de Tarrafal — na Ilha de São
Tiago -, prisão na qual sofriam homens de valor, intelectuais
africanos e portugueses, opositores da ditadura salazarista, isolados
do mundo, sem possibilidades de defesa, sem perspectiva de
liberdade. Ao ver agora, ao longe, aquela terra sofrida, sentia enorme
vontade de andar entre seu povo, conhecer um pouco de seus
hábitos, rodar pela cidade. Sempre tive fascínio pela geografia
humana, muito mais do que pelas. paisagens.


DOUTORA JANINA

Médica italiana radicada em São Paulo, a doutora Janina dividia
comigo a cabine nessa viagem de dez dias. Mulher disposta,
sacudida, cheia de entusiasmo, animadíssima, beleza marcada por
vincos na testa, rugas emoldurando os olhos negros, doutora Janina
devia ter idade de sobra para ser minha mãe. Fizera muitas viagens
de navio, sabia das coisas de bordo, dos oficiais e dos passageiros,
punha-me a par da identidade dos companheiros de viagem, das
ocorrências diárias e até do namoro de certa jovem casada, de família
sua conhecida, a "se esfregar" pelos escuros do tombadilho com um
bonitão italiano. "O marido, poveretto, trabalhando lá em São Paulo
para sustentar os luxos e as viagens da mulher... e ela... se me
contassem eu não acreditaria..."
Naquela noite, enquanto eu amamentava e fazia planos, doutora
Janina, que saíra, havia muito, toda em traje de soirée, voltou à
cabine, queria saber se eu não desejava dar um pulinho à festa de
despedida. Muitos passageiros ficariam em Lisboa, e daí a três dias
chegaríamos a Gênova. Aquela, pois, seria a última recepção de
bordo. Penalizada por me ver ali sozinha, a doutora propunha-se a
ficar com o menino até a minha volta. Tentava entusiasmar-me:
"Andiamo! Via! Ânimo! Vá se divertir um pouco..." Monologava:
"Poverina, sempre con questa creatura in braccia... não se diverte..."
Vendo que eu não me animava, mudou de tática, começou a contar:
"... sabe aquela que eu te contei? A civettonal" Ela mesma ria do
adjetivo que arranjara para a pobre moça. "Está cantando, toda
romântica, e o bonitão acompanhando no piano; uma cena! Vale a
pena você ver!" Imitando a outra, a civettona, doutora Janina botou
a mão no peito, meneou o corpo, sapecou um bolero muito era voga.
"Nosotros, que fumos tan sinceros/ y desde que nos vimos/
amandonos estamos..." Essa doutora era uma bola! Não tinha jeito!
Tão boa, tão gentil...
— Muito obrigada, minha querida — disse-lhe com um sorriso de
agradecimento — não posso aceitar sua gentileza, prefiro dormir
cedo, estou cansada e amanhã vamos ter um dia puxado... A senhora
é um amor!
Eu não tomara parte nas inúmeras festas de bordo, nem
participara do entusiasmo dos passageiros, sempre fatigada
com"quella creatura in braccia...", de manhã à noite. Limitara-me a
comparecer à insólita cerimônia de batismo, na passagem da linha
imaginária do equador. Fomos batizados, João Jorge e eu, com um
balde de água na cabeça, clara de ovo batida em neve e chocolatada
pelas fuças. Ainda bem que, em meio àquela loucurada toda, sobrara
um pouco de lucidez: respeitaram a criança, não nos atiraram à
piscina, de roupa e tudo, assim como fizeram aos outros neófitos.
Como recordação do acontecimento, nos brindaram com um
diploma e nos conferiram um nome de peixe, nome a ser adotado,
daí por diante, no reinado de Netuno. Para receber o diploma que
seria entregue à noite, na festa do equador, a maior e a mais animada
da viagem, com Netuno, seus Ministros e sereias — todos a caráter -,
desfiz minhas trancinhas, troquei as calças compridas por um
elegante vestido. Não me demorei, recebi o batistério e voltei para a
cabine em seguida. Minha aparição, assim de repente, no salão do
navio, causara surpresa, não fui reconhecida por ninguém. Haviam
pilheriado: "Teria a desconhecida embarcado naquele dia?", contoume
mais tarde a doutora rindo.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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