Zelia Gattai - Chao De Meninos PDF

 


Quinto livro publicado pela autora, traz as memórias do casal Amado após a volta do exílio, passado, em grande parte, na antiga Tchecoslováquia. A memorialista cobre o período entre 1952, quando se estabeleceram no Rio de Janeiro, até a mudança para a Bahia em 1963. O livro ganhou o prêmio Alejandro José Cavassa, concedido pela União Brasileira de Escritores, em 1994.


Zelia Gattai - Chao De Meninos PDF 

A MEMÓRIA DA VIDA

Eduardo Portella
O Chão de Meninos, novo livro de Zélia Gattai, contém e irradia
uma vitalidade contagiante, como se Zélia se escrevesse o tempo
todo, do jeito que ela é, sem jamais recorrer ao truque ou à
encenação. O que se afirma, ao longo destas páginas verdadeiras, é
antes o canto de amor à vida - à vida áspera, desafiante, cercada de
obstáculos por todos os lados mas, de qualquer modo, vida para ser
vivida: de frente, cara a cara, nenhuma fuga, nenhuma dramatização.
A vida como vontade, sem medo e sem resignação. Sem permitir que
o desânimo contamine episódios freqüentemente desanimadores, e
sem deixar que o ressentimento substitua a generosidade. O livro de
Zélia é como ela - um livro de bem com a vida e, por isso mesmo,
destinado a nos animar com a séria alegria do viver.
O Chão de Meninos reconstitui o percurso humano, social,
político, de Zélia Gattai, e o seu personagem principal é Jorge
Amado, esse exemplar criador de personagens. Mas na cena espaçosa
dos Gattai Amado os amigos são sempre bem recebidos, alvos de
atenções especiais, e nunca extensões de aventuras personalistas ou
motivos para rememorações fraudulentas.
Os gêneros pessoais se desacreditaram no Brasil. Menos por uso
do que por abuso. Os diários, as memórias, os depoimentos
perderam boa parte da sua antiga credibilidade. Os usuários, ou os
abusuários de hoje, tornaram-se mais conhecidos como fabricantes
de máscaras, ou de bustos, ou de estátuas, com que procuram
trapacear a sempre duvidosa imortalidade. A literatura pessoal, por
excesso de maquiagem, e por recorrência frequente a todas as formas
de prótese, passou a ser uma edificação enganosa a serviço da
egolatria. Enredado na própria peripécia individual, a fraqueza do
proselitismo solitário supõe substituir o vigor do olhar solidário.
O texto de Zélia Gattai está vacinado contra esse vírus do
exibicionismo. Um saudável contraponto de cenário imediato e
horizonte histórico, de sonho político e realidade nacional, orienta e
conduz o Chão de Meninos. A cotidianidade, quando vivida
enraizadamente, é o minuto e a permanência; mais do que a usura, é
a partilha, talvez a doação. Somente os livros votados a essa proeza
silenciosa são capazes de nos acompanhar para sempre. É o que
acontece com estas lembranças vincadas sobre a memória da vida

ABRIL DE 1963

Acordei num pulo, sobressaltada com o toque do telefone. Por
que tanto susto se estava ali à espera da chamada? Recostada na
poltrona enquanto aguardava, adormeci. Que horas podiam ser?
Quanto tempo dormira? Não devia ter sido muito, ainda não dera
meia-noite.
Do outro lado do fio João Jorge me falava: "Mãe, pode vir..."
Ainda bem que eu não devia ir longe para apanhá-lo, ainda bem.
Estava morta de cansaço, trabalhara o dia todo. O carro ficara em
frente ao edifício, me pouparia de manobrá-lo na garagem sempre
repleta àquela hora. O apartamento do colega, onde se dera o
"arrasta", ficava logo ali no Leme, a dois passos do nosso; residíamos
no posto 2, em Copacabana.
Tratei de recomendar: "Aguarde dez minutos antes de descer,
meu filho, não fique esperando na rua..."

PORTO DO RIO DE JANEIRO - JUNHO DE
1952

O dia apenas amanhecera. Parado ao largo, o Giulio Cesare
aguardava que as autoridades chegassem para a visita rotineira.
Enquanto não abriam o restaurante para o café da manhã, Jorge e
eu, no tombadilho, contemplávamos emocionados a beleza da Baía
de Guanabara. Regressávamos ao nosso país após quase cinco anos
de ausência durante os quais rodamos mundo, fizemos amigos,
conhecemos povos e costumes, paisagens as mais surpreendentes,
vivemos o bom e o mau, alegrias e tristezas. Deixáramos o Brasil
levando um filho de poucos meses e voltávamos com dois, nossa filha
Paloma nascera em Praga. Terminara o governo Dutra, durante o
qual partíramos para o exílio, Getúlio Vargas voltara ao poder, desta
vez eleito pelo voto popular, tudo indicava já haver espaço no Brasil
para Jorge e sua família.
A viagem fora tranquila até o dia em que nosso filho João Jorge
nos pregou o maior susto e a toda a população do navio. Fizéramos
mais de metade da travessia quando, uma tarde, de repente, o
menino sumiu. Ficara sob a guarda do pai enquanto eu, no camarote,
me ocupava de Paloma, que amanhecera febril. Convidado para uma
rodada de pôquer, Jorge jogava, despreocupado, e ao procurar pelo
filho, que deixara sentadinho tomando lanche na mesa ao lado, já
não o viu. Correu para o camarote, no camarote ele não estava, não
estava em parte alguma, desaparecera. O alarme foi dado, sirenes
tocaram, alto-falantes berraram, tripulação e passageiros de todas as
classes juntaram-se a nós na busca da criança. As horas se passavam
e nada de João. Jorge e eu na maior angústia não queríamos admitir
a hipótese de que nosso filho tivesse caído no mar. Até na casa de
máquinas ele fora procurado, e as esperanças de encontrá-lo já se
esgotavam, entrávamos em desespero quando, por acaso, ele foi
localizado no cinema, dormindo.
João assistira ao concerto da hora do chá, coisa que adorava, em
seguida acompanhara os músicos ao cinema da primeira classe - nós
viajávamos na segunda -, sentara-se na primeira fila e lá adormecera,
encolhidinho, acomodado na larga poltrona. O filme terminara, todo
mundo fora embora, fecharam as portas e lá ficou ele dormindo até
ser encontrado e despertado. Desde esse dia, passamos a ser
conhecidos como "o pai do menino", "la madre del nino" e " la
sorellina del bambino".

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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