Catarinices - Zander Catta Preta pdf

 



 É um livro de crônicas, cartas e memórias da relação entre pai e filha, separados pelo tempo, afeto e culturas diferentes, mas na mesma língua e sentimento. Escrito no curso de quinze anos, onde o autor observou a filha crescer e mudar de um pequeno joelho enrugado ao nascer até tornar-se uma princesa linda, pronta para o mundo. A entrada ao mundo adulto foi difícil para ambos e eles - apesar da distância de quase 500km entre seus lares - aprenderam a ficar mais e mais conectados a cada dia.' As histórias começam com um pai mesmerizado com a paternidade e - passo a passo - mudam para lições que não são ensinadas na escola: vida, morte, amor, perda, saudades. Enfim, uma coleção de emoções e memórias, agora para todos.

Catarinices - Zander Catta Preta pdf 

…e assim se passaram sete
anos
“Zander, sobe que tem recado para você!”
Subi as escadas correndo, do subsolo, onde tomava um café
expresso no restaurante japonês, até a sobreloja, onde trabalhava
no Bureau. Era hora de almoço. Um evento por si só bem raro por
conta da natureza caótica e feroz do meu antigo emprego.
“Tua mulher ligou, disse que está com quatro centímetros de
dilatação e a médica já a encaminhou para o hospital.”
“Ela está no consultório? já pegou um táxi? o que mais ela disse?”
“Ainda está no consultório, mas disse para você ficar tranqüilo, ela
está bem e indo para a maternidade.”
Desci pro subsolo, avisei ao chefe que chegara “A Hora”. Parti
correndo para a Avenida Rio Branco e peguei primeiro táxi que
passava. Besteira minha. Melhor ter pegado o metrô. Eu desceria a
quatro quadras do consultório e a doze do hospital.
Toca o celular (emprestado, é claro! celular era coisa cara. aliás,!
ainda é!).
“Zander. Cheguei ao hospital, vou para o quarto…”
Interrompo-a.
“Me espere aí! Não ouse subir sem mim.”
“Não, mané! Passa em casa e pegue as minhas coisas. Trouxe
algumas roupas já esperando, mas deixei as minhas mudas de
roupa.”
“Ok. Pera! Ok não! Vou para aí. O negócio deve demorar um
bocado, então peço à minha mãe para pegar as coisas. Além disso,
é ela quem vai ver o parto mesmo. Você sabe que eu desmaio
nessas horas…”
“É. Eu sei. Então vem prá cá que a Eliana está ‘dando entrada’
aqui.”
“Ok, ok e ok.”
O carro se move com a letargia típica de uma quarta-feira, meio-dia,
no centro do Rio de Janeiro. Parece que nunca vai sair da... Opa!
Ganhamos o Aterro do Flamengo e partimos para Botafogo. Puta
que pariu! Botafogo engarrafa sempre. Que merda! Não vai dar
tempo! que bosta… opa! Chegamos na Mena Barreto! Agora é só
um pulo.
Pago. Saio. Desço. Encontro.
“Oi. (…) VOCÊ TÁ LEGAL?”
“Calma, Zander. Tô bem sim.”
“E as contrações?”
“Eu achava que eram gases. Tá bem fraquinho mesmo.”
Daí, foi internação. Banho. Limpeza interna. Minha mãe chega.
Combinamos todos no quarto que a Mãe iria ver o parto, que eu não
iria. Que estava certo e tal. Chega a enfermeira:
“Está pronta, mãe (a que iria parir, não a que iria acompanhar)?”
“Tô sim. Vamos.”
“Está pronto, pai? Você tem de vestir a roupa.”
Pois é. Assim como as mulheres têm um firmware instalado que as
fazem saber *tudo* o que se relaciona a bebês, no momento que
eles nascem, algo em mim brotou. Algo inédito, coisa que nunca
havia sentido antes. Acho que foi coragem. Ou burrice, dá na
mesma.
“Tô sim. Vamos.”
Mãe e a Mãe se olham. Não senti pingo de confiança vindo desses
olhares. Com a coragem (ou privação temporária dos sentidos) que
recém recebera, parti para A Roupa Verde e A Máscara.
Daí, espera. Mede dilatação. Espera mais um pouco. Mede de novo.
Um “é, acho que já dá” seguido de um “dá a injeção antes”. Injeção?
É, injeção. Ok ok ok ok. Não vou desmaiar.
Não era injeção. Era uma agulhinha de nada, coisinha à toa.
“É só isso?”
“Não. Essa é só para preparar para a peridural.”
“Ah! bom.”
Quando o anestesista saca o trabuco. Péra! Você não leu direito.
Era um TRABUCO! Se fosse uma pica, seria o Long Dong Silver.
Quando o anestesista saca o trabuco, eu começo a ver o mundo
girar. O pediatra, que sabiamente se posicionara a meu lado, me dá
um “abraço” de apoio. E eu NÃO desabo! U-hú! Deixa eu sair daqui
correndo!
“Sabe que a maioria dos pais sempre desmaia quando a mulher
toma a peridural?”
“Verdade?”
“Não. Mas quis apenas te consolar um pouco.”
“Mesmo que um pai desmaie, não dá muita dor de cabeça aos
médicos, né?”
“Nem. Só teve uma vez que um cara caiu na mesa de instrumentos
e se cortou todo. Mas foi só uma vez.”
Nota mental: ficar LONGE da mesa de instrumentos. Como assim
instrumentos. Burro! vão cortar a Mãe toda e depois costurar de
volta. Eca!
Bom. Lu não pode mais ficar de pé. Mas não tem dilatação
suficiente. A obstetra me expulsa do quarto de espera e fecha a
porta.
“Acho que estão amarrando um pedaço de ferro no pé da cama e
mijando na porta enquanto acendem umas velas no corpo.”
“Hein?”
“Nada, deixa. Tô uma pilha.”
“Você fuma?”
“Não.”
“Pena.”
Todos os quatro médicos auxiliares fumavam. E estavam vendo
novela. E um deles dormia. Filhos da puta. Sem consideração. Sem
empatia. Ainda me davam tapinhas nas costas. Parecia que eu era
um estagiário ou uma forma ainda mais baixa de vida.
Pronto. Tava na hora. Mesa de operações, ou de parto, ou de
eutanásia. Não sei. Tudo igual nessa hora. A mãe começa a fazer
força. Muita força. E berra. Mais que o normal. Menos que a vez que
eu deixei-a esperando umas seis horas em casa enquanto fui tomar
um pileque com o pessoal do trabalho. Menos ainda que quando eu
gastei uns 500 dólares em figurinhas de “Magic, the Gathering”,
coleção “The Dark”, esgotada, uma caixa fechada. Mas ainda
berrava muito. O médico faz um “rolo de massa” com o braço
esquerdo e pressiona dos peitos para as pernas, como se
espremesse a criança para fora. A Lu berra ainda mais e a cabeça
começa a aparecer. Já era Catarina.
Dez minutos (se tudo isso) depois, nasce a baixinha inteirinha.
Pequena, imunda. Nojenta mesmo. Mas linda. Nem enrugada
estava, mas ainda parecia um joelho. O joelho mais amado da face
da Terra. Me a colocam no colo. Ela nem chora (já haviam limpado-a
com um aspirador de melecas placentais). Opa. O que acontece
atrás de mim? Outro parto? Ah! É a placenta. Puta que pariu! É
outro parto… Bom.. Ao menos o pessoal pode puxar com menos
delicadeza.
“Zander deixa eu ver… Você contou os dedos? ela tem dez dedos?”
“Claro pô! Você acha que eu sou o Homer Simpson? (hoje, mais
careca, gordo, burro e atolado, eu penso se isso não foi uma
profecia)
Tá com dez dedos sim! Olha só.. é linda… e nem é um joelho.”
Levamos a baixinha para a estufa, ou caixão da Branca de Neve,
como eu prefiro contar a ela. Eu e o pediatra que fez o teste do
pezinho.
“Você tem filhos?”
“Quatro.”
“E você viu o parto de todos eles?”
“Lógico, né? Economizei uma grana… He he he”
“Mas não enjoou no quarto?”
“Não. Chorei em todos eles.”
Da estufa, as avós do outro lado do vidro davam adeus.
Fomos pro quarto. Lu dormiu. Eu acho que chorei um pouco. Mas
guardei a lembrança desse dia, bem calada no peito. Abro só um
pouquinho, quando chega essa data. Ou quando acho que nunca fiz
nada direito.
Catarina, não sei se você um dia lerá isso, mas agora faz sete anos
que eu me senti uma pessoa melhor, maior e mais humana. Você
agora tem os dentes moles, caindo aos poucos, e outros tomarão o
lugar deles (espero!). Nesse quarto de Saturno, você saiu da
infância-bebê e vai começar a, cada vez mais rápido, virar gente
grande. Vai ser uma pré-adolescente, uma adolescente (que
invenções bestas da nossa sociedade!), uma jovem adulta e uma
mulher, mas não deixará nunca de ser o bebê que eu coloquei no
colo, nos primeiros momentos de sua vida.
E eu te amo.
Beijos, do pai (que não desmaiou!!!)

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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