Z. Rodrix - Esquin de Floyrac: O Fim do Templo PDF

 

A Trilogia do Templo chega a seu final com um dos momentos mais terríveis da história da Humanidade: a destruição da Ordem do Templo pelo Reinado de França e pela Igreja de Roma. O violento conflito só se torna possível por haver um traidor na Ordem, e é desse homem a narrativa deste terceiro volume. Esquin de Floyrac: o fim do Templo. Aqui ele nos conta como se tornou sapateiro, pedreiro, Cavaleiro do Templo, espião, mendigo e finalmente traidor de seus irmãos, revelando-nos os verdadeiros motivos por trás de seus atos.


Z. Rodrix - Esquin de Floyrac: O Fim do Templo PDF

Capítulo 1

1304

Acordei por mim mesmo alguns instantes antes de soarem as Matinas
no campanário de Montfaucon: depois de tantos anos de disciplina férrea no
aquém e além-mar, obedecendo estritamente à Regra da Ordem, não me
recordava da última vez em que tivesse despertado depois dos sinos. Tomando
meu Livro dos Dias, recordei-me ser a data de meu nascimento, assim como o
de meu Grão-Mestre e irmão Jacques de Molay, de quem me fizera bom amigo
durante tantos anos de vida em comum, considerando-nos ambos quase
irmãos de sangue, por termos nascido no mesmo dia, quem sabe na mesma
hora. Ouvi os ruídos que marcavam o despertar de meus irmãos comandados:
eu já era Prior de Montfaucon desde alguns anos, e mesmo não havendo
necessidade de nos juntarmos para as primeiras orações do dia, cabendo a cada
um fazê-las no silêncio e privacidade de sua própria cela, não havia entre os
irmãos quem ousasse enganar-se a si mesmo, aproveitando as três horas que
separavam as Matinas do Laude, às seis horas da manhã, para dormir mais um
pouco. Todos se erguiam, o Priorado acordava in totum, e mais um dia de
trabalho e devoções se iniciava, com o céu ainda escuro e o ar frio da
madrugada assobiando por entre as frestas das janelas. O Laude nos
encontraria a todos com mais da metade das obrigações diárias iniciadas, e a
primeira refeição seria tomada em silêncio total por parte de todos, menos do
Irmão Capelão, que, sem dúvida, nos brindaria com a história do santo do dia,
São Thiago, o irmão de Jesus, do alto de seu púlpito.
Lavei o rosto e as axilas com água fria, bochechando com as folhas de
hortelã maceradas que descansavam em minha cabeceira desde a noite
anterior, para limpar a boca e os dentes: eram hábitos de muitos anos, que eu
assimilara em minha passagem pelo Oriente, muito antes de termos mais uma
vez perdido os Lugares Santos. Nosso retorno ao Languedoc, onde a maioria
de nós havia nascido, não me fizera perder os costumes alimentares e de
higiene que aprendera no Outremer com os devotos de Yahweh e os fiéis de
Allah: eu insistia em viver dessa maneira mais natural e limpa, fazendo mesmo
questão de banhar-me o mais possível. Sei que muitos de meus irmãos
estranhavam tais hábitos, e até me apostrofavam como não-cristão por causa
deles. Minha saúde, no entanto, sempre foi melhor que a deles, e neste dia, em
que completava sessenta anos de idade, ainda tinha corpo rijo e mente clara,
não sentindo nem um pouco o passar dos anos, mesmo sabendo que eles me
haviam marcado tanto a face quanto os cabelos e a barba, a cada dia, mais
completamente branca.
Havia outro hábito que eu desenvolvera durante todo esse tempo, e que
me era mais caro que qualquer outra coisa: minha maneira de orar e prestar
homenagem ao Deus que me criara não se dava com três, Pais Nossos, nesse
primeiro e reservado horário do dia, como era praxe nos conventos da Ordem.
Se quando estava junto a meus irmãos, eu proferia ungidamente as fórmulas
impostas, no mais castiço Latim, essa língua franca que nem todos
conhecíamos suficientemente, na solidão de minha cela eu preferia outro
modo de ouvir o que Deus tinha a dizer-me. Apanhei a caixa de madeira
trabalhada que viera comigo do Krak dos Cavaleiros, única lembrança dos
terríveis momentos que lá vivera, — apanhando dentro dela o saco de veludo
vermelho já um tanto gasto, no qual descansavam as 22 lâminas de osso que eu
mandara decorar, copiando as imagens dos frágeis retângulos de cartão com
que Nazimus me havia presenteado quando de nossa despedida. Tantos anos
de uso também haviam descorado as imagens que eu mesmo já conhecia de
cor, esse livro-mudo que me indicava não um futuro determinado e imutável,
mas sim as possibilidades infinitas dos momentos seguintes, alertando-me para
eles da melhor maneira possível. Meu Tarot, quando eu estava fora de um de
nossos Templos, nunca ficava a mais de duas braças de mim, e, sempre que em
traje de batalha, trazia-o junto ao peito, entre a pesada cota de malha e a
camisa de pano grosso onde aquela se apoiava.
As imagens tão familiares passaram por meus olhos, enquanto eu as
embaralhava; não as via como estavam depois de tantos anos de uso, mas sim
com os preciosos detalhes com que as vira no primeiro dia, e as letras
hebraicas em quase todas elas eram marcos de um território tão familiar
quanto inesperado. Virei-as de costas, observando os arabescos diligentemente
traçados em seu verso, apanhando a primeira carta. Fazia isso todas as manhãs,
e a carta virada indicava claramente o que o primeiro dia do resto de minha
vida poderia vir a ser, só não revelando nada nos raros momentos em que,
desatento, não a soubera interpretar. Coloquei minha mão direita sobre ela e,
respirando fundo, roguei ao Deus que me criou que me desse a capacidade de,
mais uma vez, poder ler nesta lâmina aquilo que me estaria reservado. Virei-a:
era a carta da Morte.
Não pude conter um arrepio, sem entender por quê: sabia com certeza
que a carta da Morte, antes de ser um presságio terminal como tantos
acreditavam, indicava apenas uma mudança, radical e inesperada, o fim de uma
velha vida e o desabrochar de uma outra, nova e diversa. Não havia em mim
nenhum temor da morte física, e por isso auscultei meus sentimentos e minha
disponibilidade para a mudança que tal carta me anunciava. Havia algum
tempo eu estava em paz comigo mesmo, descansadamente Prior de
Montfaucon, como se isso fosse um prêmio por meus atos passados, contando
com o respeito de meus irmãos e a certeza de minha estabilidade, pronto a ser
chamado para outras tarefas da Ordem, até mesmo o Grão-Mestrado, se essa
fosse a vontade de meus iguais. Tudo era possível, e a carta sem nome em
minhas mãos, a descarnada figura ceifando cabeças coroadas e tonsuradas, pés
e mãos que floresciam em terreno de negra lama, onde um de seus pés
ossudos se afundava, um sorriso arreganhado em sua boca sem lábios e a
poderosa foice movendo-se incansavelmente na colheita do velho e do novo,
indicava uma reviravolta inexorável. Essa reviravolta era minha
responsabilidade, e eu deveria encará-la com a mesma tranqüilidade com que
aprendera a encarar todas as reviravoltas de minha vida. O que tantos
consideram como sendo apenas um jogo é muito mais do que isso, sendo
também muito mais do que um simples oráculo, desses que a ignorância leva a
encarar como maldição irrecorrível, com o poder de projetar sobre suas
vítimas uma sombra malfazeja da qual nunca mais conseguem livrar-se. Neste
caso, não havia em mim nenhuma sensação, fosse ela positiva ou aziaga. Só me
restava aguardar o desenrolar dos acontecimentos, pois muito breve eles me
dariam a direção a seguir, esperando de mim apenas que a seguisse ou não,
segundo meus próprios desejos, entendimento e capacidade.
Guardei as lâminas em seu invólucro, ordenadamente, recolocando o
saco de pano dentro da caixa onde sempre dormiam, junto com outras
recordações de minha vida até esse dia, e apanhei sobre o banco o manto
branco feito de fina lã marroquina, um dos três que possuía, todos com a cruz
de nossa Ordem presa ao lado esquerdo, logo abaixo do abotoamento.
Estando em casa e em tempos de paz, não vesti sobre a camisa de baixo a cota
de malha feita de fino aço que recebera quando de minha aceitação definitiva
no Templo, mas apenas a casula externa, com a mesma cruz em tamanho
maior colocada sobre o peito, e na cabeça o turbante enrolado que aprendera a
usar para sustentar o pesado elmo sem que ele me magoasse o cocuruto. Na
parte de trás, esse turbante caía sobre a minha nuca, cobrindo meus cabelos,
tão curtos quanto longa era minha barba. Nos pés, coloquei as velhas e gastas
botas de marroquim vermelho, cingindo à cintura a espada de uso diário, mais
um símbolo que propriamente uma arma, atando suas correias com frouxidão
para que não me atravancasse o andar..
Quando abri a porta de minha cela, após cobrir a cabeça com o capuz
do manto, vi do lado de fora meu escudeiro, o jovem Flavien, filho de
pequenos nobres da região de Montfaucon, forçado pelos pais a inscrever-se
na Ordem, e cujo desgosto eu me forçava por abater, fazendo-o trabalhar a
meu lado e tratando-o com a mesmíssima consideração com que eu mesmo
sonhara ser tratado quando tinha sua idade. A dureza de costumes dos Pobres
Cavaleiros do Templo se refletia em nosso trato diário, sendo comum a todos
o silêncio carrancudo durante a maior parte do tempo. Eu também era mais
silencioso que gárrulo, mas por motivos diversos, pois precisava manter em
meio a tudo a serenidade que o cargo me exigia, e que em mim nesse tempo
era feita somente de paz e alegria. Muitos de nós, desde nossa fundação,
havíamos sido postos entre a opção da espada ou da cruz, e de certa maneira a
Ordem do Templo, unindo as duas vertentes, servia como refúgio dos que não
conseguiam decidir-se entre uma e outra, ou dos que, não desejando nenhuma
das duas, eram levados por seus pais a essa opção dúplice, quase sempre como
forma de castigo por algum tipo de desobediência. Não tinha sido esse o meu
caso, mas, por motivos vários, eu podia entender o que se passava no íntimo
desse jovem, naturalmente tão vivaz quanto eu mesmo o fora na sua idade.
Flavien colocou o joelho esquerdo em terra e, tomando-me a mão,
beijou-a, saudando-me:
— Pax Vobiscum, meu mestre.
Eu o ergui, sem hesitar, e, segurando-o pelos ombros, beijei-lhe a face
esquerda, como era hábito entre os irmãos da Ordem. Fechei a porta de minha
cela e segui pelo corredor ainda escuro, observando o tremular das chamas nas
lamparinas de vidro colorido, recordando-me de tantas outras como essas em
tantos outros lugares pelos quais havia passado. O azeite doce que as
alimentava tinha delicioso cheiro-verde, e eu desci o longo corredor das celas
em direção à escadaria do Priorado. Quando lá cheguei, apoiei-me na
balaustrada de pedra, olhando o grande átrio coberto formado pelas colunas
duplas que sustentavam o teto abaulado da entrada, percebendo o movimento
de vários irmãos em busca de seus afazeres nessa hora do dia. O fato de ser
Prior desta pequena comendadoria de Templários não me eximia de serviços:
pelo contrário, era eu quem indicava a todos os outros, aquilo que deveriam
fazer. Recordava-me sempre de Nazimus, ensinando-me que “quem não sabe
fazer, não sabe mandar”, por isso de ninguém exigia o que eu mesmo não
pudesse executar ou pelo menos indicar como deveria ser feito.
Era pelo exemplo que os governava, e atravessei o átrio indo em direção
à sala dos escribas, onde a contabilidade diária do Priorado me seria
apresentada.
Os negócios da Ordem iam sempre bem, porque cada uma de suas
células fazia com precisão o que devia ser feito. Não havia descontrole nem
desconhecimento de nossas posses e investimentos, e as riquezas que a Ordem
possuía estavam perfeitamente dispostas e com usos perfeitamente
determinados, não havendo nenhuma emergência que nos apanhasse de
surpresa. Outras ordens, outros conventos, outros reis e negociantes tinham
passado a depender de nossa economia e de nossa fortuna nos dois séculos
que já tínhamos de vida: mas, nossa forma de ampliar e amealhar essa fortuna
incalculável era sempre regida pelo mais consentâneo bom senso, olhando a
todos segundo suas necessidades e de todos recolhendo exatamente de acordo
com suas possibilidades, não sem antes cuidar para que os que nos cercavam
pudessem viver dignamente. Nossas terras ao redor do Priorado de
Montfaucon eram trabalhadas incessantemente, rendendo em fartura os
nossos esforços conjuntos: os camponeses que as aravam e nelas colhiam
tinham delas uma substancial parte, além da garantia de melhor preço e da
segurança de que éramos responsáveis por sua sobrevivência e bem-estar.
No território que não pertencia à Ordem, tudo ia à matroca, com
poderosos senhores de terras explorando ao máximo os seus vassalos,
esgotando-lhes as forças até o último hausto, exigindo-lhes o que não podiam
dar, sem pensar no futuro que seria negro quando todos morressem ou quem
sabe se rebelassem contra seu poder discricionário. Até mesmo a Igreja de
Roma, proprietária de imensas terras, agia da mesma maneira cruelmente
profana, esquecendo-se das palavras de seu próprio deus: o que lhes
interessava verdadeiramente eram os frutos gordurosos do poder secular,
temporal, as riquezas e as benesses que desperdiçavam inconseqüentemente,
tratando-as como se nunca fossem ter fim. Certamente, por conveniência,
haviam esquecido que as riquezas são apenas a bagagem das virtudes, e quanto
maiores, mais as atrapalham: em Latim, isso soa melhor, pois impedimentus
traz, sem dúvida, o verdadeiro valor desse conceito, indicando que a bagagem
perfeita é aquela que cada um pode carregar sem que ela o impeça de se
mover. Assim como a bagagem atrasa um exército, a riqueza atrasa a virtude:
sendo essencial, não pode ser diminuída nem deixada para trás, e ainda assim
os cuidados que exige costumam perturbar ou impedir a vitória. Eu aprendera
muito cedo em minha vida que o único verdadeiro uso da grande riqueza é a
sua distribuição, sendo o resto apenas ilusão.
Nós, pobres cavaleiros do Templo de Jerusalém, sabíamos disso na
carne, tendo sido soldados em cujas costas havia cada vez maior bagagem de
riquezas, mas agíamos de acordo com as verdadeiras palavras que Jesus deixara
a seus irmãos da Igreja de Jerusalém, fazendo de nossa riqueza a riqueza de
todos os que dela necessitavam. No salão da contabilidade, os sargentos e
escudeiros, em seus mantos marrons e negros, traçavam diligentemente em
grandes livros de vellum os cálculos de nossas despesas e ganhos, que,
contrapostos uns aos outros, indicavam não apenas o quanto havíamos ganho
e gastado, mas principalmente o resultado de nossos esforços nessa direção.
Tudo perfeitamente distribuído entre quem necessitava ou merecia, o que nos
restava era sempre muito mais do que seria possível, certamente como
recompensa por nossa maneira correta de pensar e agir.
Sentei-me à grande mesa de carvalho brunido por décadas de uso, e os
escudeiros colocaram à minha frente, por ordem, os documentos que eu
deveria assinar e marcar com meu anel de sinete, dando-lhes fé de verdade,
antes que tomassem a direção em que deveriam ir. As cópias de nossa
contabilidade seguiram não apenas para o capítulo de nossa região, mas
também para o Templo em Paris, onde os arquivos da Ordem reuniam toda a
nossa história, junto a dados mais que precisos sobre nossa fortuna e nossas
propriedades. Esse era o mais completo arquivo sobre a vida de uma Ordem,
disponível para consulta de quem, no futuro, pretendesse saber mais sobre
nós, sem dar atenção à maledicência que nos cercava, em tudo semelhante ao
mistério de que nós mesmos nos cobríamos.
Flavien fez passar pela minha frente uma série de documentos, faturas,
cartas de crédito, todas as quais, depois de dar-lhes uma vista d’olhos, assinei e
firmei com o anel de Prior, sobre o lacre vermelho que um capelão fazia
pingar sobre o documento, logo ao lado de minha assinatura. Terminada esta
tarefa, ergui-me e dirigi-me para o refeitório, aguardando à porta que os sinos
tocassem o Laude e pudéssemos entrar para tomar a primeira refeição do dia.
Sendo Domingo, dia de descanso do Senhor, tínhamos direito a uma
porção de carne, e eu determinara que comêssemos a das aves, a dos carneiros
e até a dos bois, mas nunca a dos porcos, que proibira dentro do Priorado:
vários dentre meus irmãos detestavam essa decisão, mas ela era motivo de
grande vigor, principalmente no verão, quando os assados feitos de porco
causavam verdadeiras epidemias de diarréia entre a população campesina. Eu,
acostumado com a dieta higiênica do Oriente, insistira nisso, e tinha a certeza
de estar agindo bem. Em meu Priorado, as doenças digestivas eram raríssimas.
Em todos os conventos que não fossem de nossa Ordem, a leitura do
vigésimo terceiro dia de Outubro certamente seria a da vida de São Rafael
Arcanjo, mas entre nós, Templários, era de praxe nesse dia a leitura da vida e
obra de Thiago, o irmão de Jesus, por ser ele o mais forte laço existente entre
o Nazoreano e nossas crenças. Havia quem estranhasse isso, mas, sendo
nossos capelães responsabilidade direta da Ordem, não devendo nenhuma
obediência ao Papado, nem sendo membros de qualquer outra Ordem
monástica menos livre, estávamos à vontade para perseguir nossas crenças de
nosso próprio modo, como elas nos haviam sido ensinadas pela vontade de
nossos Grão-Mestres desde quase dois séculos atrás.
Eu já conhecia de cor a história de Thiago, por tê-la ouvido neste
mesmo dia durante anos a fio, desde que entrara para a Ordem, primeiro como
operário do corpo de construtores, depois como escudeiro e finalmente como
Cavaleiro de Cristo, e por isso não lhe dei muita atenção: separei a décima
parte dos alimentos para ser distribuída aos pobres, comi a carne e os vegetais
que me serviram em quantidade apenas suficiente para meu sustento imediato,
e bebi a água fresca com que me acostumara e que era a única bebida que eu
permitia entre nós, enquanto pensava no que poderia significar a carta da
Morte que esse dia me reservava. Uma mudança radical, por certo, e eu não
me recordava de outro dia em que essa carta tivesse se revelado a mim de
maneira tão intensa: minha mente não conseguia pensar em nenhuma outra
coisa, e mesmo depois que nos erguemos da mesa em silêncio; deixando-a
livre para os sargentos e escudeiros, a imagem da carta permanecia dentro de
mim, verrumando meu cérebro com sua ainda insondável revelação.
Do lado de fora do Priorado de Montfaucon, o sol já brilhava, e o céu
de meio do outono já mostrava as nuvens acinzentadas de que se cobriria
durante todo o inverno. Era época de reformas, para que o tempo de frio não
nos apanhasse despreparados: toda a colheita feita e negociada, celeiros
abarrotados, era preciso cuidar do futuro, coisa que no Oriente nunca
fizéramos. A luxuriante natureza do Mediterrâneo oriental impunha benesses
durante todo o ano, sem que precisássemos nos preocupar com o que
comeríamos quando viesse o inverno, que, aliás, pouca diferença fazia das
outras estações. De volta à nossa terra natal, era preciso agir como agiam os
sábios camponeses, sócios da natureza, reservando alimentos para quando eles
não fossem fáceis.
Flavien, tendo se alimentado com rapidez, para que eu não ficasse só,
aproximou-se de mim, dizendo:
— Mestre, as fundações da nova ala de dormitórios requerem vossa
atenção.
Pus-lhe a mão sobre o ombro, como se nele me apoiasse, e seguimos
com passo rápido para o lado oeste do Priorado, um edifício acanhado em
comparação com outros conventos da Ordem, e até mínimo se o
colocássemos ao lado do Grande Templo de Paris, mas ainda assim imponente
sobre a pequena colina coberta de grama já ressecada. Do lado de trás, onde o
sol se punha, tivéramos que erguer um novo dormitório para os novos
cavaleiros que o Grão-Mestre prometera enviar-me: em Montfaucon, eles
aprenderiam não apenas as artes do combate, que a qualquer momento
poderiam voltar a ser necessárias, mas também a prática do trabalho na pedra,
dividindo sua atenção entre o soerguimento de prédios e fortalezas, e os
exercícios de suas próprias almas, pedras brutas que mereciam polir-se.
Quando vi o canteiro de obras, minha alma deu um salto para o passado,
e eu me revi, jovem pedreiro do Outremer, desbastando os blocos de pedra
para transformá-los em pedras cúbicas de perfeição quase que absoluta, tão
bem aparelhadas que podiam ser apoiadas umas nas outras sem necessidade de
qualquer argamassa, ali permanecendo para sempre, como se amalgamadas
umas às outras. O barulho de maços e cinzéis mordendo o granito cinzento
era música para os meus ouvidos, por isso apressei o passo, fazendo Flavien
acelerar o seu para poder ficar à minha frente, seu ombro servindo de inútil
apoio à minha mão. Eu ainda tinha a mesma higidez de minha terceira década
de vida, mas permitia que meu escudeiro se sentisse mais útil, sempre que me
recordava disso, o que não ocorria sempre.
A visão de pedreiros e cavaleiros trabalhando juntos era uma decisão
minha, baseada em minha própria vida: nunca fora mais dono de mim mesmo
que quando na lida da pedra, preparando os cubos necessários à construção de
tantas de nossas fortalezas, e esperava que aprendessem uns com os outros
aquilo que os unia, mais do que aquilo que os separava. A maior parte desse
trabalho, eu fizera ao lado de meus amigos mais queridos, o faylasuf
muçulmano Ayub e o hebreu Eliphas, em Acre, nos anos de nosso reencontro.
Éramos uma trindade perfeita, porque cada um tinha em si aquilo que nos
outros dois faltava, e perseguíamos o conhecimento disponível e oculto com a
mesma sofreguidão, cada um por seus próprios motivos.
Avancei para um bloco de pedra que jazia abandonado e rachado em um
de seus possíveis vértices: havia sido descartado por esse motivo, mas eu não
via razão para o desperdício. Tomando de um cinzel e um maço que estavam
ao lado de um aprendiz, mordi a pedra, levemente a princípio, marcando em
sua superfície rugosa uma linha mais clara, sobre a qual iniciei os golpes fortes
e seguros que eram minha forma de trabalhar a pedra. Não havia hesitação
possível: era preciso confiar na visão da pedra perfeita que dali sairia e que eu
só enxergava dentro de mim mesmo, como se o que sobrasse no bloco apenas
ocultasse a perfeição que ali já havia. Eu aprendera a confiar nos meus
próprios atos, e também a esperar quando o destino não dependia de mim:
diversas vezes, tudo o que a vida me exigira fora a imobilidade mais absoluta, a
inação mais completa, a quase invisibilidade. Dessas vezes, eu é que me
transformara em pedra, aguardando os golpes do cinzel do Grande Arquiteto,
que sempre vinham, mais cedo ou mais tarde, decididos, confiantes,
definitivos.


Download 

Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

Postar um comentário (0)
Postagem Anterior Próxima Postagem