Zibia Gasparetto-Lacos Eternos pdf

 



Zibia Gasparetto-Lacos Eternos pdf 

CAPÍTULO I
A FAMÍLIA SOFREDORA
Na fazenda do Lageado, em Minas Gerais, o dia começava cedo.
Havia muito serviço por fazer e os colonos precisavam madrugar para
estar no terreiro quando o velho sino tocasse na varanda convocando-os ao
trabalho.
O Coronel Gervásio Fartes não era homem para brincadeiras. Exigia
dos colonos rigoroso cumprimento das suas tarefas e era o terror dos homens
quando montado em sua baia aparecia na lavoura ou no pasto. Não tolerava
atrasos. Levantava-se muito cedo e quando o capataz bimbalhasse o sino já os
homens precisavam estar no terreiro para que o serviço fosse distribuído.
José Mota trabalhava na fazenda desde a adolescência. Filho de colonos,
não se conformando com a miséria da casa paterna, aos doze anos resolvera
tentar a sorte. Para a Lageado e nunca pudera sair. Sempre ganhara muito
pouco, e além do mais não pudera aprender a ler, o que o tornava bastante
desconfiada.
Apesar de nunca ter podido melhorar de vida, não se habituara às
condições humildes de seu trabalho. Odiava o Coronel Gervásio. Invejava-o,
mas temia-o. Para ele, era Deus no céu e o Coronel, coma o diabo, na Terra.
Revoltava-se com freqüência contra sua situação, mas por mais que se
esforçasse não conseguia sair dela. Conhecera Maria na própria fazenda. Desde
a juventude iniciaram namoro. Ela, de início, sonhava ir morar na vila. Aos
quinze anos, por pouco não fugiu com um mascate ruma a outras cidades. Mas
a ambição do Zé a tentava. Seu inconformismo casava-se bem com sua
ambição. Juntos, iriam para a cidade e Ganhariam dinheiro. Usariam boas
roupas e muitos enfeites, como a sinhá dona Eugênia, esposa do Coronel,
moça letrada, do rosto pintado, que guiava automóvel e fumava como um
homem.
Casaram-se. Ela aos dezesseis anos, ele aos dezoito.
A palhoça de pau-a-pique foi levantada pouca antes com consentimento
do Coronel e auxílio de alguns companheiros aos domingos depois do
trabalho. A cama fora presente de D. Eugênia. Estava velha, quebrada, mas o
Zé consertou.
Seu coração encheu-se de ódio diante da cama de pé quebrado.
Não era homem que se conformasse com as migalhas dos outros.
Disfarçando os seus sentimentos, procurou arranjar-se da melhor
maneira. O colchão foi feito por Maria que durante dois meses secou e
selecionou palha de milho para esse fim. O forro era desbotado e remendado.
A festa consistiu apenas de café com bolo de fubá, que os pais de Maria
ofereceram aos amigos, e duas garrafas de pinga que o Zé ganhara do patrão.
Começou para eles uma vida dura. Mas, ambos trabalhavam na roça e
assim, à custa de algumas privações e muita luta, conseguiram comprar alguns
utensílios, alguma roupa. O tempo foi passando. Os filhos começaram a
chegar. A primeira, nasceu forte e bonita. Deram-lhe o nome de Nina. Seu
nascimento provocou alguns distúrbios na saúde de Maria, prejudicada pela
absoluta falta de cuidados médicos. Por isso, só depois de seis anos pôde ter
outros filhos. Aí, não pararam mais, vieram um após outro. A cada filho o Zé
dizia à mulher: — Maria! Por causa dele não podemos ir pra cidade, por
enquanto. O dinheiro não dá. Quando ele estiver crescidinho, nós vamos.
Mas, não podiam ir. Se não tinham ido quando eram só os dois, como
poderiam fazê-lo agora com tantos filhos? Apesar disso o Zé era pai
extremoso. Sua revolta aumentava a cada filho, por não poder dar-lhes o que
gostaria. O que sempre quisera ter e lhe fora negado. Aos poucos começou
nascer-lhe no peito um ódio intenso da pessoa do Coronel Gervásio. Cada vez
que ele dava uma ordem incisiva, enérgica, que não admitia resposta, José
vibrava de rancor.
Invejava a casa solarenga da fazenda com suas cortinas vermelhas e suas
cadeiras estofadas. Os arreios luzidios do filho do patrão, suas botas brilhantes
de couro e seu riso ruidoso de criança de trato e feliz.
Obedecia de olhos baixos para que o Coronel não lhe visse o brilho de
revolta. Assim era seu dia de trabalho.
À tardinha, de volta à casa pobre, irritava-se com os calos das mãos
grossas, que ardiam tanto quanto seu pensamento.
Calado, desanimado, sentava-se à mesa tosca para a refeição que lhe
parecia sem gosto. Feijão, mandioca, fubá ou farinha. Às vezes arroz, com
alguma hortaliça colhida no quintal. Ficava imaginando sentar-se à mesa limpa
e bem posta de D. Eugênia, com copos limpos, comida cheirosa e variada.
Maria, com suas lamentações, causava lhe mais revolta. Para ela que
imaginara vida melhor na cidade, a trágica realidade a tornara infeliz. O
marido, a cada dia, tornava-se mais taciturno. Por mais que se esforçasse para
multiplicar seus recursos a fim de atender bem aos seus, jamais eram
reconhecidos seus intensivos esforços.
A princípio, procurava ser otimista, estimular o marido. Aos poucos as
dificuldades foram matando suas ilusões e enchendo seu coração de infinita
amargura.
Depois de alguns anos de casamento, nem se assemelhava mais à jovem
bonita que sempre foi.
Nina cresceu nesse ambiente. Entre as queixas da mãe e a revolta do
pai. Entretanto, em seu rostinho magro e moreno havia sempre um sorriso.
Seus olhos brilhantes e negros pareciam duas estrelas a irradiar alegria e amor.
Desde a mais tenra idade demonstrara grande compreensão e ternura
para com tudo e todos. Procurava com seu corpinho franzino ajudar a mãe no
que podia. Levantava-se cedo e aos sete anos já se encarregava de acender o
fogo, buscar água e tratar das poucas aves que possuíam. Nunca se queixava.
Se lhe davam um trapo velho, sorria feliz com gratidão.
Aturava as queixas da mãe e sempre procurava ministrar-lhe palavras de
compreensão e otimismo. Quando o pai chegava do trabalho, com a carranca
habitual estampada na face e palavras ríspidas nos lábios, ela o enlaçava com os
bracinhos magros e beijava-lhe a face queimada de sol e de luta. Embora ele
não fosse pródigo em afagos, ia aos poucos serenando e as noites podiam ser
um pouco menos amargas.
Mas eles não davam por isso. Tanta suavidade e bondade havia em Nina
que eles, embrutecidos pelas paixões, não podiam compreender.
À medida que nasciam seus irmãozinhos, dedicava-se a eles com
desvelos maternais. Nina tinha doze anos mas já substituía a mãe que ia a roça
cedo, cuidado dos irmãos, cozinhando. Quando a mãe regressava, ia lavar
roupa no riacho. Seu corpinho enfraquecido, curvado sob o peso da trouxa
molhada ou da lata, não descansava. Voltava para casa com o vestidinho
encharcado e as mãos escalpadas pelo sabão, que era feito em casa e de má
qualidade.
Mas as coisas para o coronel não estavam muito boas: a baixa do gado, a
doença dizimando os animais. Apertou ainda mais os colonos, fazendo com
que pagassem mais pelos gêneros que consumiam, a tal ponto que estavam
sempre lhe devendo.
Eram escravos que trabalhavam subalimentados e revoltados.
Um dia Nina, quando procurava lenha perto da casa, ouviu vozes. Sua
mãe ria alto, demonstrando alegria. Como isso era raro, Nina sorriu também e
aproximou-se, mas deteve-se um pouco assustada.
Uma voz estranha dizia com suavidade:
— Escuta o que eu falo. Nunca esqueci você, Maria! Isso não é vida!
Viver com esse homem que não reconhece seu valor! Vamos embora. Juntos
seremos felizes! Olha, eu tenho uma casa na cidade.
Fez uma pausa e, notando o olhar brilhante de Maria, continuou,
envolvente:
— Não é muito rica, mas é de tijolo. Tem soalho de tábua e varanda na
entrada. Tem poço com bomba, não precisa ir no rio buscar água. E depois,
tem a mim, que há muito penso em você, que não posso vier sem você. Desde
aqueles tempos.
— Não posso, Manuel. Se fosse só o Zé... Mas não deixo meus filhos.
Não posso.
Manuel não se deu por achado:
— Olha, Maria! Veja isso!
Tirou da mala que pousava no chão um vestido ramado, em cores
alegres, e um par de brincos de pérolas que cintilaram ao reflexo do sol.
Maria não se conteve. Tocou o tecido macio com suas mãos grossas e
ficou envergonhada porque estavam um pouco encardidas do trabalho na
terra.
— É seu, Maria. Pode ficar.
Ela sorriu encantada:
— Meu?!
Apanhou o vestido com entusiasmo e colocou-o frente ao seu corpo
magro.—
É só encurtar um pouco que fica bom.
Num arroubo amoroso, Manuel tentou abraçá-la. Ela resistiu:
— Não. Não faça isso.
A voz dele era suplicante:
— Maria! Você nasceu para usar seda e não chita. Você ainda é linda, e
comigo será feliz! Toda sua beleza vai reviver com o trato que terá.
Nina assistia pálida, o coraçãozinho amoroso batendo descompassado.
Não podendo suportar mais a cena, simulou que chegava correndo e
aproximou-se:
— Mamãe! A senhora está aqui. Que bom que a senhora está aqui!
Maria, assustada, devolveu ao mascate o vestido e encabulada
respondeu:
— Já ia para casa, Nina. — E voltando-se para o Manuel com um tom
indiferente:
— Vá, Manuel. Não quero comprar nada. Não tenho dinheiro agora.
Ele, sorridente, tentou colocar-lhe o vestido nas mãos:
— Não faz mal. Seu marido é homem de bem. Paga depois.
Ela ficou séria.
— Não, Manuel. Não posso mesmo. Se pudesse, comprava roupa pros
filhos. Para mim não. Não preciso. Vamos, Nina. Passe bem, seu Manuel!
Abraçada à filha, Maria afastou-se entre o sorriso maneiroso de Manuel
e o receio disfarçado que machucava o coração de Nina.
Nos dias que se seguiram, Maria foi se modificando pouco a pouco.
Descuidava-se das obrigações. Verberava seu esposo de queixas mais violentas.
Acusava-o de miserável, exigia novo padrão de vida.
Irritado, José quase agredia a mulher recalcitrante. E Nina sentia crescer
dentro de si o receio. Surpreendia a mãe em atitude sonhadora, alheia a tudo
que a cercava. Vira-a atirar ao chão em crise histérica os vestidos humildes que
possuía.
Correra para ela, abraçando-a com carinho, dizendo-lhe com voz
emocionada:
— Mãe! A senhora é a mais linda, a melhor e mais bondosa mãe do
mundo. Tenho sorte de ser sua filha!
Maria olhou surpreendida para o rostinho moreno da filha. Tanta
adoração leu em seu olhar que enterneceu-se:
— Filha querida! — respondeu, abraçando-a, tomada de súbita ternura.
— Como você é boa! Tenho pena por vê-la nessa luta e nessa miséria! Que
vida, meu Deus! Que vida!
Nina beijou-lhe as faces contente.
— Mas eu sou feliz. Muito feliz! Nada mais quero senão viver aqui,
como estamos. Eu, a senhora, o pai e os irmãozinhos. Nada mais quero. Os
vestidos novos ficam velhos e feios com o tempo. As comidas gostosas logo se
transformam e acabam. O que vale, mãe, é nossa vida, nosso amor, nossa casa.
Maria compreendeu. Beiju o rostinho magro da menina e procurou
modificar-se dali para a frente.
Assim era Nina. Tão pura, tão amorosa, tão simples, que tinha o dom de
transformar o clima instável e difícil onde vivia.
Mas a vida era dura. No esforço desempenhado, no afã de aliviar os
seus, Nina foi aos poucos enfraquecendo. Alimentava-se mal. Depauperava-se.
Os pais preocupavam-se com sua aparência, mas não dispunham de
recursos para tratamento.
Dona Eugênia advertia Maria da fraqueza de Nina. Acautelava-se
impedindo que seu filho se aproximasse da menina, receosa de contágio. Nem
por isso importou-se em ministrar-lhe tratamento adequado.
Dessa forma, seu estado foi se agravando, até que ficou presa ao leito
pela fraqueza extrema, pela febrezinha incomodativa, pelos acessos de tosse e
suor.
Roque era o irmão mais velho de Nina. Tinha apenas sete anos, mas,
orientado por ela, cuidava dos três menores enquanto os pais saiam para o
trabalho.
Entardecia. Nina mandou Roque abria a janela d seu pequeno quarto,
construído às pressas para separá-la dos demais.
Dona Eugênia ajudara a sua construção. Nina sentia que o ar se lhe
faltava. Roque abriu-a e ela pôde ver uma nesga de céu que já se alaranjava na
despedida do sol. Sentiu-se elevada na sua contemplação.
Apesar da calma da noite que se avizinhava, sentia o coração oprimido
por um sentimento de tristeza e dor. Não temia a morte. Intimamente a
esperava como uma libertação. Parecia-lhe mesmo já ter morrido muitas vezes,
em corpos diferentes.
Mas e os seus? Quem os olharia na Terra? Quem poderia ajudá-los nos
momentos difíceis?
Dormiu. Sonhou com um campo florido, perfumado, uma liberdade de
movimentos, uma leveza indescritível. Pássaros cantavam alegremente e o céu
refletia um azul puríssimo de imensa claridade. Crianças alegres brincavam em
suas alamedas e Nina sentia-se forte, sem dor e sem sofrimento. Mas eis que
de súbito, olhando o céu com enlevo, viu desenhar-se nele uma cruz luminosa
enquanto uma voz muito doce de mulher sussurrava-lhe aos ouvidos:
— Nina. Tua tarefa está finda. Hoje mesmo te libertarás. Que Deus te
abençoe.
A menina sentiu um choque. Pensou nos seus entes queridos e sentiu
despertar dentro de sim uma mágoa que se foi transformando em desespero e
dor.
Sentiu-se novamente doente e gritou com todas as forças.
— Não! Não me levem ainda! Não! Quer ficar com eles!
No mesmo instante, tudo desapareceu do seu olhar dolorido e ela
acordou aflita, com uma dor muito forte comprimindo-lhe o peito. Mal podia
respirar. Sentiu que a crise se aproximava. Levantou-se cambaleando, foi até a
janela. A aragem fresca da madrugada bafejou-lhe a fronte ardente.
Apoiando-se no peitoril, olhou as estrelas do céu em súplica muda. Uma
dor aguda no estômago e nas costas tirou-lhe a capacidade de respirar. Sentiu
que seu olhar se turvava enquanto a primeira golfada de sangue lhe empapava
a camisa.

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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