Zuza Homem De Mello-AEraDos Festivais pdf

 


O jornalista e crítico Zuza Homem de Mello conta a história e os bastidores dos principais festivais de música brasileira entre 1960 e 1972 — eventos que revelaram os maiores nomes da MPB, como Elis Regina, Nara Leão, Caetano, Gil e Chico Buarque, entre muitos outros. Testemunha ocular dos fatos, o autor aborda também os embates entre política e estética, acirrados a partir do golpe militar de 1964.

Zuza Homem De Mello-AEraDos Festivais pdf 

Capítulo 1 - "CANÇÃO DO PESCADOR"
(I FESTIVAL DA TV RECORD, 1960)
No Brasil, como em alguns países, festival é um evento com duas
concepções diferentes. A primeira é uma forma de reunir exibições
artísticas durante um certo período, tendo como denominador
comum um género musical, como o samba, ou uma determinada
área artística predominante, como o teatro. Nesse modelo de festival
não existe competitividade, sendo assim mais uma feira de amostras
de um setor da arte. Seu objetivo é oferecer, em curto espaço de
tempo, a oportunidade de acesso a novas tendências, a novas obras,
ao que está em voga, ou ainda, num sentido diametralmente oposto,
revisitar a obra de artistas amplamente consagrados. Entre os mais
concorridos e aclamados do mundo estão o monumental Festival de
Edimburgo e o de Bayreuth, ou ainda os Festivais de Jazz que
proliferaram pelo mundo numa abundância jamais imaginada nos
seus primórdios, em meados dos anos 50. No Brasil, pode-se
considerar como um pioneiro desse modelo o I Festival da Velha
Guarda, que o cantor e radialista Almirante promoveu pela Rádio
Record em 1954, trazendo a São Paulo Pixinguinha, João da Baiana,
Donga e outros músicos notáveis de décadas anteriores para
exibições no Teatro Colombo, do bairro do Brás, e no Parque do
Ibirapuera. Agradaram tanto, que no ano seguinte seria promovida
uma segunda edição, devidamente ampliada, e com o apoio, desta
vez, da TV Record. O Festival de Teatro de Curitiba e o Free Jazz
Festival, que têm se realizado periodicamente no Brasil, também
pertencem a este tipo.
O outro modelo de festival, cujo objetivo também é ir em busca
de novas manifestações, é marcado pela competitividade. Essa é a
grande diferença. Os festivais de cinema de Cannes e Veneza, que
não deixam de ser festivais, são eventos de competição. Por mais que
disfarcem, os concorrentes buscam a vitória. Ora, como em música
popular novas manifestações geralmente implicam em obras
inéditas, quando se fala em festival de música popular no Brasil, a
ideia é mesmo de uma competição de canções, a exemplo do que
também existe em Vina dei Mar, no Chile, e em San Remo, na Itália.
Não é pois uma competição entre grupos entre bandas ou
intérpretes. Os concorrentes são de fato os autores das obras, os
compositores e letristas.
Esse conceito de festival de música popular ou de festival de
canção, que se estabeleceu nos anos 60, já existia no Brasil, embora
com outro título: eram os concursos de músicas carnavalescas
promovidos com sucesso no Rio de Janeiro na década de 30, embora
em 1919 já tivesse se realizado, sem muita repercussão, um concurso
organizado por Eduardo França.
Anos mais tarde, o crescente aumento anual de novas
composições destinadas a animar o carnaval instigou a decantada
Casa Edison do Rio de Janeiro, que gravava os discos Odeon, a
promover um certame. Assim é que em 18 de janeiro de 1930
realizou-se no Teatro Lírico a primeira edição desse Concurso,
premiando com 5 contos de réis a marcha de Ary Barroso "Dá Nela",
cantada por Francisco Alves. "Vem Cá Neném", de Bento
Mussurunga e Carolina Cardoso de Menezes, e "Melindrosa
Futurista", de Clovis Roque da Cruz, foram a segunda e terceira
colocadas, respectivamente. Surpreendentemente, na mesma época,
a revista O Cruzeiro também realizou um concurso para escolha das
melhores composições para o carnaval de 1930. O veredicto do júri,
que incluía figuras ligadas à música e literatura como Lorenzo
Fernandes e Olegário Mariano, indicou como ganhador dos 2 contos
de réis o samba de Lamartine Babo "Bota o Feijão no Fogo", gravado
depois por Januário de Oliveira num disco da marca Columbia. Em
segundo, "Eu Sou do Amor", composta por Ary Barroso mas inscrita
em nome de sua noiva, Ivone Arantes, e em terceiro "Macumba da
Mangueira", também de Ary em parceria com Almirante. Percebe-se
assim que ambos os concursos estavam vinculados a duas gravadoras
rivais, a Odeon e a Columbia de então, que seria sucedida pela
Continental em 1943.
De 1931 em diante, os concursos foram realizados por vários anos
seguidos, como parte das festividades oficiais do carnaval do Rio e,
por essa razão, promovidos pelo Departamento de Turismo da
Prefeitura do Distrito Federal. O carnaval foi oficializado em 1932 e a
partir de então é que nascem as subvenções e premiações, gerando
controvérsias muito parecidas com as que existem até hoje nos
desfiles de escolas de samba.
Os critérios para a eleição dos vencedores de tais concursos
variavam bastante, mas de uma maneira geral o público sempre
esteve presente. Uma das formas de escolha era a da música mais
aplaudida durante a apresentação. Ou a mais cantada. A outra era o
juízo de um júri nem sempre muito abalizado. Havia também o
sistema de votação, o chamado voto popular, mas também esse teve
seus percalços, as injustiças que o tempo se encarregou de passar a
limpo. "O Teu Cabelo Não Nega", que foi a vencedora no Teatro João
Caetano em 1932, consagrou-se para sempre, mas, por outro lado,
"Cidade Maravilhosa" não ganhou em 1935. Foi a segunda colocada.
E por acaso alguém se lembra da marcha de Nássara e Frazão,
"Coração Ingrato", a vitoriosa? André Filho, autor da marcha que se
tornaria o hino da cidade do Rio de Janeiro, rompeu relações com
Ary Barroso, um dos jurados. Rompeu e quase se atracaram, não
fosse a intervenção de outros compositores. Talvez tenha sido este o
primeiro caso de uma série que se repetiria ao longo dos concursos e
festivais: a dos erros de decisão dos jurados. Ou, dependendo da
exaltação e da interpretação dos cronistas, o primeiro caso de uma
"marmelada" na música popular.
Se pairam dúvidas quanto a 1935, é certo que a marmelada
ocorreu em 1938. Nesse ano houve anulação do resultado,
inventando-se uma artimanha para desclassificar "Touradas em
Madrid", a desculpa da ausência no júri do presidente da comissão
nomeada no edital, Átila Soares. O motivo verdadeiro também era
ridículo: segundo os compositores reclamantes perdedores, a música
não era uma marcha, era um passo-doble, considerado ritmo
alienígena. O concurso se transformou num verdadeiro tumulto,
houve nova classificação e "Pastorinhas", que havia ficado em
segundo, passou para primeiro. Alguns dos demais concorrentes
anteriormente contemplados tiveram suas posições alteradas, outros
foram simplesmente descartados, e portanto prejudicados, sem ter
nada a ver com o peixe. O incrível dessa história é que em quaisquer
dos resultados estava presente o nome de um dos maiores
compositores carnavalescos da história, João de Barro, o Braguinha.
Ele era o parceiro de Alberto Ribeiro em "Touradas em Madrid" e de
Noel Rosa em "Pastorinhas", que, ao vencer, abriu caminho para o
género marcha-rancho. Enquanto "Pastorinhas" ganhou na categoria
de marchas, na de sambas, o vencedor de 1938 acabou sendo "Juro",
de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. Assis Valente, o autor de
"Camisa Listada", samba vencedor no julgamento anulado, foi
vergonhosamente chutado para terceiro, a posição anterior de
"Juro". Vale recordar que Milton de Oliveira é considerado o criador
da caitituagem na música brasileira. Muitos anos mais tarde o ato de
caitituar seria acrescido de um "jabaculê", ou "jabá", designando a
propina que os discotecários recebiam para interferir na
programação, favorecendo compositores, cantores ou gravadoras.
Estas acabaram assumindo de vez a responsabilidade, transferindo
as vantagens diretamente aos proprietários ou diretores das
emissoras, passando por cima dos discotecários e programadores.
Foi quando esse procedimento, que tanto mal tem causado à cultura
brasileira, passou a ser oficializado sob o nome de "verba de
promoção".

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Ahmed Zayed

Hello all My name is Ahmed Zayed I am Egyptian.I am very interested about languages, animals,Drawing,Comics and history also I like to write a short stories about our lives I am writing because I would like to share what I am thinking about with people who even far from me and for me this the way that people can communicate so finally I could bring my books over here I wish that every one will read will like and I will support u with many more books I am waiting for your feed back

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